segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

DOIS SONETOS DE RAIMUNDO CORREIA

(Enrico Bianco)

SAUDADE

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

Em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...


FASCINAÇÃO

Todo o teu ser contemplo agora; e é quando,
Só para o contemplar até prescindo
Do meu; e enquanto o meu se vai sumindo,
Vai o teu aos meus olhos avultando...

Assim quem vai o píncaro galgando
De uma alta serra, do horizonte infindo,
Nota que, à proporção que vai subindo,
Se vai em torno o círculo ampliando...

E, ínfimo em face da amplidão tão grande,
Fosco, a pupila com pavor expande...
Abaixo mares vê, selvas, cidades,

Montanhas... E até onde o olhar atinge,
À imensidade esplêndida que o cinge,
Vê ligarem-se mais imensidades...

domingo, 10 de janeiro de 2010

UM POEMA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

SOLSTÍCIO

O rio está cheio
O tempo está maduro
Esqueça os pensamentos assassinos

Sem folhas nas árvores
Um sol pálido escurece
a terra congelada

Quietude reina
Sem pássaros, sem vento
O dia mais curto do ano

é favorável
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SOLSTICE

The river is full
The time is ripe
Give murderous thoughts rest

No leaves on the trees
A mild sun darkens
the frosty earth

Quietness reigns
No birds, no wind
The shortest day of the year

is favorable

Tradução: Virna Teixeira

CORNÉLIO PENNA: A MENINA MORTA

(Munch)
As árvores estavam tão pesadas de folhagens e de parasitas que se curvavam sobre a estrada, debruçando-se de tal forma que havia ali espesso caramanchão, interminável túnel verde opulentado de flores coloridas, e em todo ele reinava a meia-luz roxa entremeada de amarelo do sol coado pelos galhos, emaranhados em gestos de braços amigos. A terra, nesse lugar, onde fora aberta a extensa alameda da entrada do Grotão, era arenosa e quase rosada e sugava toda a umidade ali acumulada. Depois das grandes chuvas, em vez dos lameiros escuros e de sinistra aparência dos outros caminhos, apresentava-se fresca e limpa, como se o temporal apenas a tivesse lavado. Se não fossem as grandes gotas d’água, despendidas de súbito das folhas em golpes de chuvisco, que as multiplicavam, muitas vezes quando o céu estava já límpido e muito alto, ninguém diria terem passado por ali as verdadeiras trombas habituais no vale do rio Paraíba. Os claros-escuros da abóbada assim formada, em claustro sem fim, apoiado nas colunas das árvores em dórico severo, davam qualquer coisa de irreal a tudo, naquela manhã muito clara, e o mundo esfumava-se em tons de arte e de artifício, que só mesmo a natureza sabe dar, quando imita a si mesma, para disfarçar a sua verdade demasiado rica e forte.
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- Está tudo pronto, meu Senhor – disse o rapaz, e abaixou a cabeça, para que não fosse vista a sua boca trêmula, os lábios grossos reluzentes, tornados ainda mais escuros pela pressão dos dentes alvíssimos. – Foi tudo feito conforme o meu Senhor mandou, e minha Sinhá está à espera, no quarto dela.

O fazendeiro apeou com sua poderosa agilidade de animal sadio, e seu corpo tornava belas as suas roupas pesadas e impróprias para o campo. Subiu os breves degraus do alpendre que dava entrada para a casa, do lado do terreiro, e ninguém pode perceber o leve recuo que teve, ao dar com os quatros candelabros acesos, guarnecidos de velas enormes em seus braços trabalhados. Eram de cinco luzes cada um, mas a Senhora os escolhera para serem postos em cada canto da mesa coberta de veludo vermelho, e apesar das freiras orantes esculpidas em cada uma das faces de suas bases, davam ar de festa suntuosa à sala, de grande banquete, à espera talvez das pessoas imperiais...

Mas não era refeição pomposa que esperavam, e sim o caixão que só chegava agora, tendo dentro o corpo da menina morta, coberta pelo vestido de brocado branco, de grandes ramagens de prata onde brilhavam os tons azulados e cinzentos, coroado de pequeninas rosas de toucar, feitas de penas levemente rosadas e postas sobre seus cabelos curtos, cortados rente da cabeça. As mãos tinham sido cruzadas sobre o colo, bem baixas, quase junto da cintura, mas os dedos eram tão polpudos ainda, apesar da cor lívida que os cobrira, tornando-os quase transparentes, que se tinham separado, e formavam um gesto de espanto, desmentido pela expressão extremamente pura e ausente do rosto. A verdadeira Sinhá-pequena, via-se, não estava ali, partira para muito longe, e viajava em altas nuvens, muito distante, e apenas seu vulto jazia sobre a mesa, esquecido...

O Senhor entrou e parou diante dela, sem conseguir derramar uma só lágrima. As pessoas ajoelhadas em torno murmuravam preces e não o olharam, nem fizeram qualquer movimento indicativo de terem notado sua chegada.

Nas pontas dos pés, com o chapéu seguro junto ao peito, repetiu maquinalmente o mesmo sinal de respeito de seus escravos diante das imagens do Oratório, que passavam à frente dele medrosos, fazendo-se pequenos, para que Deus não visse toda extensão de sua miséria, tão grande que a julgavam indigna de seus divinos olhos...
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Prima Virgínia, como todos a chamavam, ajoelhou-se bem junto da mesa, e isolou-se em suas orações, depois de ter ouvido o seco e áspero “agradecida”, quando fora até o quarto da Senhora e avisara com voz muito tremida estar tudo pronto.

- O nosso anjinho já está vestido e preparado na sala do Oratório – dissera ela, apoiada à porta, do lado de fora, do quarto dos Senhores, e entrecortada as frases com soluços que deviam ser ouvidos lá dentro. Ficara tão entretida com o papel que representava, naquelas dramáticas circunstâncias, que se esquecera por momentos de sua dor verdadeira, e chorou lágrimas artísticas, sem a menor correspondência com o que se passava em seu coração e em seu espírito. A voz da fazendeira, ao agradecer-lhe, fora tão cortante, que desfizera qualquer veleidade de continuar a cena dilacerante, cujo seguimento seria a aparição da mãe desgrenhada, arfante de dor, descuidada de qualquer artifício. A palavra seca ouvida e a convicção de que a porta não seria aberta, para receber a sua visita, fizeram-na cair em si e olhar para sua própria imagem com mordente autocrítica. Teve ímpeto de esbofetear o próprio rosto, pois traira de forma irrisória a memória da criança que fora a sua alegria sem mistura, o seu carinho sem segundas intenções. Tinha sido o seu amor mais puro, aquele que dedicara à menina, e por ele sentia-se redimida de todas as intenções amargas e muitas vezes sangrentas que a tinham agitado em sua vida, de todos os crimes que cometera no recôndito de sua alma, atrás de seus olhos e de sua boca sorridentes. Como ousava agora fingir o que sentia cruelmente, com profunda realidade? Essa era a pior das humilhações, e não poderia suportá-la diante de seu tribunal íntimo, onde poucas vezes pudera perdoar seu gênio inquieto, seu coração confuso exaltado.

A menina morta. Ed. José Olympio

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O NU II

(Renoir)
Se o nu é menos um “tema” da arte do que um de seus territórios essenciais, é que o erotismo encontra na obra de arte sua necessária e legítima presença (até na arte mais modesta, tal como as esposas nuas pintadas no interior dos baús de casamento, na Idade Média). O nu suscita uma emoção específica; é com o nosso próprio corpo de carne que o percebemos, e as sensações que agitam nosso ser multiplicam, sublimando-a, a emoção erótica que o nu nos proporciona. Por sua formação, a glorificação dessa matéria viva com a qual o espectador também é modelado reconcilia-o com seu próprio corpo; contemplar um nu apazigua o desejo e confere ao olhar uma serenidade que a presença imediata de uma nudez proíbe; através da miragem da imortalidade de um corpo penetrado de espiritualidade, o nu parece revelar a ordem e a harmonia do mundo.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus

O NU

(Renoir)
Se a nudez é uma experiência naturalista, o nu é um conceito de arte. O rosto de um corpo despido deixa de ser o pólo de atração da vida expressiva, ele já não exprime tudo: perplexo, nosso olhar não sabe onde pousar. Além disso, ameaçada por suas próprias desordens e profundamente perturbadora, pois anuncia a embriaguez ou a violência dos prazeres possíveis que o cerimonial da roupa e dos adornos já não atenua, a nudez é reformulada pelo olhar da arte para se tornar o Nu. Adorno que aderiria à totalidade de um corpo, apresentação melódica da nudez remodelada, o nu artístico é enfim o corpo seguro de si mesmo e por isso oferecido sem reservas ao divino prazer da contemplação.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus


O homem mais capaz de destruir o lugar que ama é exatamente aquele que o ama por uma razão.

A questão não é que este mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não o ser; a questão é que, quando se ama alguma coisa, a sua alegria é a razão para amá-la, e a sua tristeza é a razão para amá-la ainda mais.

G. K. Chesterton, Ortodoxia. Ed. Mundo Cristão

UM POEMA DE REGINA LYRA

(Edward Hopper)
INSTANTE PARADO

A vida torna-se um instante parado,
É preciso vê-la adiante.

Embarcou em palavras mortas,
Destacou os sem-importância.
Não notou o amor vivenciado,
Viu apenas o amor egoísta.
Nem tudo era maravilha,
Preso a uma ilha.

Ser solícito o amado,
É o desejo amparado
Pelo sentimento.
O mais era exagero,
Não precisaria jamais.

Poema do livro Entre-Nós. Ed. UFPB

A ARTE E A PERCEPÇÃO

(MONET)
Mais que um acontecimento, a experiência perceptiva de uma obra é a de um advento: advento de um mundo que começa a se organizar sob meus olhos e adquirir consistência.

Desenvolvendo seu tempo próprio e seu próprio espaço para neles fazer circular um sentido, a obra de arte produz a impressão de uma necessidade interna que também define a beleza. O verdadeiro lugar da arte instaura-se nessa separação entre o mundo em que a arte é produzida e o mundo produzido pela arte.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus

UM POEMA DE IACYR ANDERSON FREITAS


PASSAGEM

apenas isto: uma luz
que nos deixasse,

um sopro, algo
leve, imperceptível

até e, após,
um silêncio, um silêncio

tão profundo
que, dentro, ouvíssemos

um tambor, a própria
terra (agora posta

em corpo, agora
percutindo nos ossos,

em nosso corpo)
isto apenas

e o esquecimento
dos dias, a treva

consumida em treva
e assombro e cal,

nenhuma carta,
nenhum aceno,

somente o manto
escuro desses seixos

e o sigilo sob a terra
que fugia

Poema do livro Quaradouro. Ed. Nankin

UM POEMA DE CLAUDIO DANIEL


SILÊNCIO

para Duda Machado

A pedra;
o que não diz
em sua epiderme,
sua opaca tessitura
de areia e indiviso
tempo; a pedra –
(digo) (a não voz)
o silêncio em tuas
pupilas de pálida
lua, como chama
que se adensa
(mudez de sombra,
solilóquio de água
imóvel, em cisterna
ressecada); e então,
as palavras.

Do livro Figuras metálicas. Ed. Perspectiva