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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SOARES DE PASSOS: POEMA

(Magritte)




DESEJO

Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?

A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.

E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

EPIGRAMA

(Magritte)



EPIGRAMA (3)

Semeiam as vagas a inconstância e o porvir.
Pranteiam as flores o efêmero jardim.
Porém, com vagos e remotos sonhos,
celebram, os insanos, a glória de serem humanos!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CRUZ E SOUSA: POEMA

(Magritte)




SENTIMENTOS CARNAIS

Sentimentos carnais, esses que agitam
Todo o teu ser e o tornam convulsivo...
Sentimentos indômitos que gritam
Na febre intensa de um desejo altivo.

Ânsias mortais, angústias que palpitam,
Vãs dilacerações de um sonho esquivo,
Perdido, errante, pelos céus, que fitam
Do alto, nas almas, o tormento vivo.

Vãs dilacerações de um Sonho estranho,
Errante, como ovelhas de um rebanho,
Na noite de hóstias de astros constelada...

Errante, errante, ao turbilhão dos ventos,
Sentimentos carnais, vãos sentimentos
De chama pelos tempos apagada...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

EPIGRAMA II


(Magritte)



EPIGRAMA (2)

Marta, preciso é o tempo a recobrar sua lição.
Assim a complacência dos gestos e sua missiva.
Circunscrito no horizonte da palavra
o amor é mais que uma definição.

sábado, 27 de março de 2010

CRUZ E SOUSA: POEMA

(Magritte)


ÂNGELUS

Um sol em sangue alastra, mancha prodigiosamente o luxuoso e largo damasco do Firmamento.

Opulentos, riquíssimos esplendores de púrpuras luminosas dão uma glória sideral à tarde.

E, pela sugestão cultual, quase religiosa da hora, os deslumbrantes efeitos escarlates do grande astro que desce, d’envolta com douramentos faustosos, fazem lembrar a magnificência romana, a ritual majestade dos Papas, um festivo desfilar católico de bispos e cardeais, através dos resplandecentes vitrais do Vaticano, com os báculos e as mitras altas, sob os pálios aurilavrados.

Embalsamam a tarde aromas frescos, sãos, purificadores, como emanados da saúde, das virgindades eternas.

Um ar olímpico, talvez o sopro vital de mares verdes e gregos, eterifica harmoniosamente a curva das montanhas, ao longe, contorna-as, recorta-as, dá-lhes a nitidez, o esmalte do aço.

Como que a Natureza, nesse esmaecer do dia, tem mocidades imortais e como que as forças, as origens fecundas da terra, desabrocham em rosas.

O rubente esplendor solar gradativamente smorza num cor-de-rosa leve, de veludosa suavidade.

Serenamente, lentamente, uma pulverização neblinosa desce das amplidões infinitas...

Névoas crepusculares envolvem afinal a imensidade, no recolhimento, na paz dos ascetérios.

Os campos, as terras da lavoura, a vegetação dos vales e das colinas adormecem além, repousam num fluido noctambulismo...

Por estradas agrestes pacificadas na bruma, uma voz de mulher, dispersa no silêncio, clara e sonora, canta amorosamente para as estrelas que afloram rútilas e mudas.

Canta para as estrelas! e parece que a sua voz, errante na vastidão infinita, vai inundada do mesmo perfume original que a alma viçosa e branda dos vegetais exala da Noite...

Missal. Ed. Martins Fontes

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MÁXIMAS OU AFORISMOS

(Magritte)



Nossas misérias tornam-se sempre pequenas quando delas retiramos o acréscimo de nosso egoísmo.

Na morte tudo nos remete à vida.

Morte: insulto predatório ao encalço dos homens.

Poucos são capazes de admitir a pequenez que os caracteriza. Muitos são aqueles que acreditam na ilusão de sua grandeza.

As virtudes não excluem os vícios, elas podem tanto rechaçá-los como realçá-los.

A verdade nos aflige quando a mentira reivindica o direito de ser justa.

Não raro, a falta de amor próprio tem como conseqüência a lisonja.

No amor elevamos e rebaixamos o que desejamos.

Para aqueles que foram felizes há um momento em que a morte se faz necessária.

Não saberemos do amor a sua verdade. Somente a sua condição: amar.

As contradições da vida não justificam os equívocos de quem vive.

O que louvamos nos outros são as prerrogativas de nossas mentiras.

Pelo desprezo também perdoamos.

A verdadeira amizade é aquela que não negligencia os limites da sinceridade.

Com o consentimento dos outros aceitamos nossas mentiras sem ferirmos nossa moralidade.

Porque amamos acreditamos ser amados.

Como cadáveres não sepultados a clamarem por enterro de alguma forma nossos erros nos acompanham.

Podemos ser impiedosos quando pautamos nossos desejos na indiferença de suas conseqüências.

Um sonho torna-se realidade tão logo passamos a acreditar na possibilidade de sua realização. O mesmo ocorre com o pesadelo.

De alguma forma somos punidos por nossos antepassados.

A deturpação da ordem natural é sempre uma irreverência para aqueles que fazem da mentira um modelo de vida.

A incapacidade de se decidir pela verdade não é senão a falência do ser humano em face do mal.

Se pudéssemos mudar o passado certamente nos tornaríamos escravos de todos os equívocos.
Obs: aforismos de minha autoria protegidos por direitos autorais.

domingo, 11 de outubro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

domingo, 23 de agosto de 2009