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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

LEITURAS




O livro de poemas A Queda da Bastilha, da poeta e romancista Leila Krüger, expressa em versos uma poesia pautada pelo sentimento. Versos líricos que proporcionam uma leitura fluente e leve que conduz o leitor.  O Eu lírico não se oculta em contenções vazias e experimentalismos lingüísticos estéreis característicos de muita “poesia” que se quer vanguardista mesmo diante do esgotamento das vanguardas como fato histórico. Sua poesia não nega o senso estético em prol do obsoleto. Se há certo exagero confessional em alguns poemas, o leitor é compensado com indagações poéticas e versos que lembram poetas expressivos como Mario Quintana e Cecília Meireles, o que faz de A Queda da Bastilha um belo e significativo livro de estréia.

 

Hilton Valeriano

 

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

LEILA KRÜGER: POEMA

 
(Tàpies)
 
 
Desenho


Quem és tu?
Que me desenhas no espelho um corpo nu...

e a roupa de existir dorme em outro armário
o sono justo dos cansados de mim.

Afinal, quem és tu? Que desbotas no espelho...


LEILA KRÜGER: POEMA


(Ismael Nery)
 
 

Distância
Que distância é essa entre meu espelho e os olhos alheios?
Entre a bondade imaginária e a gelidez evidente...
que distância é essa entre meus olhos profundos
e os olhos rasos do mundo?
Que distância é essa entre eu e o resto?
Entre eu e o tudo? Entre eu e o vento...
 
e a proximidade do nada
que de repente abraça como se abraça um estranho na estrada. Somos estranhos no breu
                                 – todos e eu!
 
Que distância é essa que me ama?
E meu nome chama na tarde linda; e nunca termina...
 
 

LEILA KRÜGER: POEMA

 
(Evelyn de Morgan)
 
 
 
Becos
 
Deus!
 
Quantas ruas escuras e becos eu tive que vagar
                                                 em busca
de um amor que não podia ter...
                                                 em busca
de um afago que não estaria nunca em um orgasmo
               em um beijo dócil por acaso.
 
Quantos olhares roubados...
 
Quantas mãos despedaçadas em adeuses inevitáveis quantos rostos amáveis que foram
                                fumaça na madrugada.
Quanta lágrima com pedaços crus de alma...
 
Quantos drinques amargos, quantos cansaços
                                quantas promessas
que já surgiram quebradas
                   por trás de sorrisos encantadores.
 
Quantas dores...
quantas dores de parto em dias de paredes
                                        que gritavam no quarto.
 
Gritavam teu nome...! Que eu não conhecia...
 
Quantos desvarios
quantos rios eu atravessei, sem saber nadar
para de repente tocar a luz da tua essência
                                                   que me recriou.
 
E eu nada sei além de ti...


sábado, 11 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM A ROMANCISTA LEILA KRÜGER






1 – Quando se ocorreu seu contato inicial com a literatura e quais são suas influências literárias?



Sempre gostei de ler e escrever. E sempre escrevi, mas não pensava em ser escritora. Acho que a gente nasce escritor, com essa necessidade de traduzir o mundo em palavras. Antigamente escrevia em blogs e cartas, e coisas que hoje sei que eram poemas. A história de Reencontro eu pretendia escrever havia vários anos. Sobre minhas influências literárias, em primeiro lugar, como se vê em Reencontro, me inspira Clarice Lispector. Muitas de minhas inspirações estão em Reencontro: Mario Quintana, Cecília Meireles, Erico Veríssimo... Gosto de Oscar Wilde, um revolucionário, de Hermann Hesse, de Umberto Eco... Há romancistas e poetas que me inspiram, já que escrevo poemas e romances, além de contos. Mas confesso que gostaria de ter lido mais clássicos e pretendo.



2 – A narrativa de Reencontro trata de questões presentes no cotidiano de muitas pessoas ao longo de sua vida como crises familiares, a descoberta do amor, traição, a busca da felicidade e as desilusões que podem acometer todo ser humano. Estaria o romance Reencontro a dizer: o sentido da vida, sua justificação existencial estaria nas entrelinhas do cotidiano?



É um livro existencialista, como acho que tudo o que escrevo em certa porção. Um livro que, através do cotidiano, busca o que está mais profundo, o que está além do visível ou do previsível. Que aborda grandes questões da vida, como as que citaste, para narrar a história de um reencontro em vários sentidos. Reencontro é um livro que o tempo inteiro busca o sentido da vida e das coisas, narrando a história de uma personagem questionadora. E para essa busca a poesia, através de citações no livro, contribui. A poesia tenta compreender a vida, como a música. Eu procurei não afastar o existencialismo do cotidiano, do que todos nós vivemos.



3 – Seu romance recupera de certa forma uma narrativa convencional ou mesmo tradicional no plano da escrita, sem experimentalismos linguísticos ou temáticas intimistas. Comente esse aspecto de sua obra.



Sei que o que escrevo é de forma natural, de dentro para fora. Procuro não me ater muito a rótulos, mas posso dizer que minha narrativa está misturada à prosa poética e a fatos do cotidiano. Realmente procurei em Reencontro fugir da temática excessivamente intimista, fazendo uma obra repleta de fatos e de relacionamentos, sem, no entanto, excluir o sentimentalismo e a subjetividade. Acho que não consigo alçar a descrição de minha escrita, a não ser que é inocentemente pura.



4 – A escrita jovial, a constante referência a cultura pop e a personagem central do romance Reencontro, repleta de conflitos expressos em sentimentos contraditórios, marcam uma ficção que pode de certa forma estar ao alcance do público mais jovem. Essa dimensão de seu romance foi proposital?



Não foi proposital, o livro simplesmente nasceu. Mas, como trata de uma personagem jovem, cercada de personagens jovens, tende a atrair temáticas e referências joviais. Um romance jovial pode ser atemporal ou independer de idade para ser apreciado, como “O Apanhador no Campo de Centeio”, mas as temáticas tendem a ser semelhantes. Personagens conflitantes, como geralmente são os jovens, e cultura jovem. Mas Reencontro, penso eu, é um livro para todas as idades, para pais e filhos. É claro que, por causa das referências e das temáticas, o público jovem tende a gostar mais ou se identificar mais com o livro. A verdade é que não pensei em escrevê-lo só para jovens, ou até especialmente para eles. Procurei escrever a história de uma garota que busca se reencontrar e reencontrar o amor no qual um dia, quando tinha a necessária inocência de uma criança, acreditou.



5 – Como ocorreu a composição do romance Reencontro e qual a relação estrutural das epígrafes em cada capítulo?



Foi aos poucos que o livro foi sendo moldado. Revisei várias vezes, acrescentando coisas. Levei um ano e meio para escrever Reencontro. Havia uma primeira versão há anos atrás que perdi, mas mais incompleta. Posso dizer que a composição do livro foi muito íntima. As epígrafes procuram retratar os sentimentos da personagem em cada capítulo e suas vivências. São partes de poemas, livros ou letras de músicas que a personagem aprecia. Assim, misturei escritores e músicas clássicos ao cotidiano pop de uma garota atual.



6 – Até que ponto a ficção é biografia, e até que ponto a realidade é ficção em Reencontro?



Boa pergunta! De certa forma, nem eu posso dimensionar isso. Federico Fellini disse que “Toda arte é autobiográfica, a pérola é a autobiografia da ostra.” Acredito que o livro tem mais de mim do que eu possa supor. Não é uma autobiografia, Ana Luiza foi uma personagem criada, porém é inegável para mim que ela tem muito da minha essência, ainda mais por ter sido a primeira personagem de romance. Procurei tratar de temas comuns hoje em dia como drogas, alcoolismo, conflitos na família, área profissional, a busca do amor romântico em nosso mundo corrido que deixou um pouco o existencialismo de lado, e abordei também amizade, que é um tema muito bonito porque é uma forma pura de amor quando é verdadeira. Muitas pessoas me dizem: “A Ana Luiza tinha tudo para ser feliz”, mas o que procurei mostrar no livro foi que a felicidade não está no ter, mas no ser. O único “ter” que importa é “ter amor”. Podemos ter tudo, financeira e fisicamente, mas quando falta amor e há um passado de dor e um presente de solidão, não existe felicidade. A felicidade está em perdoar, em se perdoar e em acreditar nos próprios sonhos e no amor. É isso que Reencontro busca mostrar: que, apesar de todos os problemas, tudo vale a pena quando a gente ama, é amado e acredita. E que todo dia é dia de reencontrar, e finalmente poder amar.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

POETA LEILA KRÜGER






LEILA KRÜGER nasceu em Ijuí, a noroeste do Rio Grande do Sul. Atualmente reside em Porto Alegre. É poeta, contista e romancista. Tem poemas e contos publicados em jornais e revistas. Lançará “Reencontro”, seu primeiro romance, em novembro – 2011, pela Ed. Novo Século – SP. Tem, em fase de conclusão, um livro de poemas. Cursou Desenho Industrial – Habilitação em Programação Visual na Universidade Federal de Santa Maria – RS e, em 2011, tornou-se mestre em Comunicação Social, pela PUC – RS. Classificou-se em quarto lugar no XXXIII Concurso Internacional Literário, nas categorias Poesia e Conto, que serão publicados na coletânea “Amanhã, Outro Dia”, pelas Edições AG, em 2011. E-mail: leilagiselekruger@gmail.com; Twitter: @Leilagikruger.

LEILA KRÜGER: POEMA

(Lucio Fontana)




RETORNO DE MIM


Aprendi a me deixar podar pela vida.

Deixar que me arranquem os galhos, tal braços, sem dó,
ou com dó, tanto faz...
mas que me arranquem inevitavelmente
e façam de mim o que eu nem sei.

E se eu não souber tudo bem, porque aprendi também a voltar...
mais alta e mais graúda,
do tamanho de um coqueiro na praia deserta.

Também aprendi a me balançar na praia e até a tocar as ondas.
Tudo me deixa forte. Tudo um dia me deixará forte.

E nada me deixará, nunca mais, seca... agora eu posso amar.


LEILA KRÜGER: POEMA

(Lucio Fontana)







A QUEDA DA BASTILHA


Enfim perdi a batalha surda contra a própria mudez.
Enfim a inoperância de meus punhos
para esmurrar estes labirintos de ferro,
para desnudar o universo.

Enfim, voltei... enfim não sei mais!

Enfim me recolho com meus únicos próprios braços,
esperando, no entanto, que haja ainda alguma bondade
nestes pequenos fardos.

Enfim acato a tristeza como uma rosa frágil que é minha...

Enfim não espero nada,
mas acredito em tudo aquilo que não é passível de ser verdade.
Como sei agora,
posso embalar a verdade em meu colo
até que ela acorde, e me olhe.
Caso ela não fuja eu um dia a verei crescer...

Como os carvalhos antigos que arrebentavam o céu,
assim cresce a verdade em meu pequeno bosque.
Copas silenciosas, em nuvens vagarosas, em tardes apenas grenás.

Enfim, perdi...
mas chorei como quem vence. Então venci!