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sábado, 26 de janeiro de 2013

MARIANA IANELLI: POEMA


 (Oswaldo Goeldi)
 
 

TIGRES BRANCOS
 
 
Podemos ser pródigos
(Verdadeiramente pródigos)
E não voltar às mesmas velhas histórias,
Não recontá-las tantas vezes
A que se tornem
As fábulas do medo,
Do desejo e da revolta
Em que se gastam mais uma vez
O nosso tempo e a nossa sorte
 
Podemos ser aqueles
Que nunca mais retornam,
Os que merecem desta vez
O tempo presente 
A página imaculada 
Esse halo de majestade
Dos tigres à beira da extinção,
Sem rasto de vidas pregressas
E sem um fio de esperança.
 
 
(Do livro “O amor e depois”, Ed. Iluminuras, 2012)
 

MARIANA IANELLI: POEMA

 
(Oswaldo Goeldi)
 
 
DÁDIVA
 
 
Vem de uma extinta batalha
O calor dessa ternura
Que é uma espécie de cansaço.
 
Quando a palavra não ousa,
Conversam os nossos olhos
Sobre descampados, carcaças tristes,
Um cenário de fumaça
De uma devastação que nos deu
O ritmo e as razões de um salmo.
 
O que nos dizemos
Os amantes se dizem, os irmãos,
Os cúmplices numa atrocidade.
 
Dizem os olhos
A noite que viram do outro lado
E o translúcido,
Finíssimo domo de orvalho
Que começamos a ver (e nos envolve)
No começo de uma lágrima.
 
 
(Do livro “O amor e depois”, Ed. Iluminuras, 2012)
 

MARIANA IANELLI: POEMA


(Oswaldo Goeldi)
 
 

 
VÉSPERA
 
 
sinais
Que os teus olhos não veem,
Mas neles se espelha um rio
Desde a outra margem.
 
Uma náusea das manhãs
De outras manhãs
Começa a distanciar-se
E o que te parecia imenso
Se acantona
Num espaço mal sonhado
Da memória.
 
Voragem,
O teu nome se descobre
Feito de estranhas vogais
- Um nome
Que jamais conteve
Toda a tua história -
E o que era eterno se ausenta,
Em tudo à espera
De uma nova eternidade.
 
Esse tremor
Que o teu bom senso não evita
(Não pode evitar a tempo)
Quando roça o teu braço,
Asa de corvo, um certo hábito
Absolutamente livre,
Morto de significado.
 
 
(Do livro “Treva alvorada”, Ed. Iluminuras, 2010)

MARIANA IANELLI: POEMA

 
(Oswaldo Goeldi)
 
 
PACTO
 
 
De madrugada se misturam
Como os cães da montanha quando uivam.
Escondidas covardias se misturam.
 
Noite após noite eles vêm,
Esse foi o prometido,
Dividir o pão do dia, a cara magra,
Olhos que não acreditam.
 
Como cães,
Lambem o talho mal curado
Das velhas antipatias,
Um leva o outro
No passo aleijado por um tiro.
 
Esplêndidos, eles vêm,
Dementes de frio,
Não pesando a vontade
Nem contando os motivos.
E ali, misturados na noite,
No fosso da noite, dão de existir.
 
 
(Do livro “Treva alvorada”, Ed. Iluminuras, 2010)