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domingo, 4 de março de 2012

SUSANNA BUSATO: POEMA


(Gabriel Ferreira)


Exercício 2

Com os pingos nos is
com os últimos óooossss, assim,
acentuados
pra estancar de vez o fato
e dissipar
todas as vírgulas.
Detesto as vírgulas
que se desejam anzóis na garganta;
prefiro as reticências
brotando
um beijo...
na boca...na boca...
ainda na...minha boca.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ENTREVISTA COM O PINTOR (ILUSTRADOR) GABRIEL FERREIRA




1 – Quando ocorreu seu contato inicial com a pintura?



Comecei a desenhar aos 3 anos de idade, contudo, só aos 8 que o desenho se fez uma predileção pessoal e uma tendência artística. O contato com a pintura começou com o lápis e as tintas secas, pois o desenho sempre foi e é a minha maior paixão. A pintura, como se vê hoje em meu trabalho se deu quando eu fui “batizado” artista com as primeiras exposições. Então, como algo bem natural e de forma “autodidata” iniciei o contato com a têmpera e o acrílico por serem tintas de secagem rápida, uma vez que, eu estava habituado a ter resultados rápidos e trabalhos prontos para serem expostos.


2 – Quais são suas influências no campo das artes plásticas?


Na pintura sempre tive paixão por grandes clássicos da pintura mundial e posso aqui destacar alguns que, de fato, me despertaram e até hoje me despertam o entusiasmo, como Cândido Portinari, Carybé, Rodin, Carlo Barbosa, Salvador Dali e Di Cavalcanti. Mas, não posso deixar de citar artistas que estão próximos a mim e exercem influência até hoje, como Pirulito e Suzart, ambos do Recôncavo da Bahia.



3 – Suas telas mesclam elementos religiosos de origem afro, além de uma dimensão metafísica no que se refere ao amor em sua dimensão corporal. Comente essa perspectiva de sua pintura.



Tenho muito afeto e encanto pelas religiões de matriz africana, para além de ser um viés familiar, cultuo os efeitos sincréticos que o povo brasileiro produziu para poder sustentar as suas crenças. Quando se fala em artes plásticas e, principalmente do meu trabalho, evoco o corpo para expressar tais manifestações, pois, quando misturo capoeira, samba de roda, candomblé e até mesmo erotismo, sinto nesse bojo cultural e multifacetado, muita dança, poesia, música e espiritualidade; uma espiritualidade que está intimamente ligada à paixão que se tem pelos cultos às entidades, aos pares e à coletividade que os faz agregar.



4 – Sua pintura tem se relacionado tematicamente com a poesia. A relação pintura poesia seria dicotômica, ou há uma dimensão comum a ambas as artes?



As linguagens artísticas parecem ter nascido do mesmo ventre, pois, é forma que o ser humano se dispõe a se expressar quando não o faz por forma e imposição do “modo de produção capitalista”; assim quando se fala de poesia e pintura a dicotomia só se abriga no que é bom e ruim - postos frente a frente. O meu trabalho está alçado à poesia por conta do grande universo imagético que a literatura proporciona. Quando a leitura se faz percolada por encantamento, se materializa um mundo cheio de imagens; assim, me aproprio dessas imagens para produzir, pois, não há inspiração para artes plásticas que não seja acionada após uma boa leitura. Por isso tenho poesia, contos, cordel e até mesmo a oralidade como lastro para a minha pintura. Sou um ilustrador!



5 – Como você vê a dimensão figurativa e abstrata na pintura?


Não sou um bom entendedor dessas questões figurativas e/ou abstratas, sou mais um produtor de arte e, no meu labor pictórico nordestino, entendo que a representatividade artística tem de haver, antes de tudo, identidade. Uma figuração mal feita é tão feia como uma abstração mal feita, independente de quem a realizou. Estou fixado na arte que comunica alguma coisa, na arte que fala por si só sem precisar de muitas notas de roda-pé e explicações detalhadas. As questões que se relacionam à arte contemporânea ainda não me foram absorvidas, uma vez que, dentro das discussões de conceito artístico a introspecção do artista o distancia das “causas”. Artisticamente sou par da militância, pois, o artista também provoca transformações sociais e não precisa levitar ou querer ser considerado um extraterrestre para ser reconhecido. Pés no chão e militância política fazem um bom artista, também. Dessa forma a dimensão que encaro a cerca da figuração e da abstração é de que a arte tem que ser de responsabilidade e não um campo para aventureiros.


6 – A pintura ainda estaria sobre a influência determinante da arte abstrata? Por que tantos pintores optam por essa vanguarda renegando de certa forma a figuração como uma dimensão quase que secundária nas artes plásticas?


Como havia mencionado na resposta anterior, esses assuntos me fogem um pouco ao entendimento, pois, não parto para essa “bola divida” com outros artistas, sejam eles vanguardistas e tradicionais (como eu!) e, também não estou no hall destas discussões, infelizmente... estou sem tempo (risos). Mas, o que posso inferir é relatando que faço o meu trabalho – seja semi-abstrato ou figurativo – ligado ao texto; então, para onde o texto me levar eu vou, sigo a trilha das letras e dos arranjos literários que elas desenham, dessa forma fico feliz com o meu trabalho e agradando – ou pelo menos tentando – às pessoas que se dispõem e me entender (risos).



GALERIA GABRIEL FERREIRA







sábado, 21 de janeiro de 2012

JEAN N. B. MOURA: POEMAS

(Gabriel Ferreira)



Saldo incógnito

Basta-nos o decréscimo de dias

de um saldo incógnito

para que passar metade

de uma vida

pensando noutra vida

alimentando-se como um glutão na confeitaria

da palavra


conclamo botar o sobrenatural nas forças dos braços

ir avante

ciente de que não estamos distante

da magnitude da flor e do cacto


Corpo vivido


O corpo vive na epiderme construída com a aridez das horas

Já passaram muitas horas

estou quase vinte anos mais idoso

do que o infante que mordia tímido as palavras

para não tirar o esmalte materno dos dentes


Nada permanece em mim

que pode ser revisto e retomado

a pele das horas está anciã

as antigas meninas do jardim da infância

doravante gargalham erupção que vem debaixo

e faz espumar os seus belos e carnudos lábios.


Nada absolutamente nada

retorna inteiro ao corpo

a sobra das horas vividas

é espólio

guardada para ser saqueada

a qualquer instante na memória

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ILDÁSIO TAVARES: POEMA

(Gabriel Ferreira)




Balada da Babilônia



Eu não quero esta mulher

que me fascina na tela,

cheia de luzes e cores,

encaixotada no vídeo

como ração refulgente

pra se comer com os olhos

que faz de mim mariposa

querendo que eu queime as asas

na luz da televisão.



Eu não quero essa mulher

que se entrega nua em pêlo

nas páginas das revistas

na distância do papel

e quer o meu onanismo;

e quer dinheiro por nada

com seu corpo de escultura

de mármore feito carne,

seu sexo milionário.



Eu quero aquela menina

lá no alto do sobrado

com as pernas grossas ocultas

pela grade da sacada

que me sorri quando eu passo,

sorrindo as vagas promessas

dos sorrisos das mulheres,

todo encanto que entreteço

na minha imaginação.



Eu quero aquela menina

que trabalha no escritório

e que, quando cruza as pernas,

todo mundo fica louco –

com o decote generoso,

mostrando as marcas das alças

do biquíni no seu colo,

apontando para os seios

palpitantes, quase à mostra.



Eu quero aquela menina,

caixa do supermercado

que troca olhares furtivos

enquanto registra as compras,

com sua farda que cuida,

lava e passa todo dia

para estar no seu trabalho

com a elegância do pobre.



Eu quero aquela

menina

que é balconista no shopping

e que apesar das varizes

fica em pé o dia

todo,

atendendo com um sorriso

os clientes oportunos:

que sai só, tarde da noite,

sem perder a sua pose

no sacolejo do ônibus.



Eu quero aquela menina

colega de faculdade

que me dá cola no exame

e nem sequer é bonita

(mas empresta o apontamento),

com quem estudo pra prova,

colando coxa com coxa

imaginando loucuras,

sem coragem para falar.



Não. Não quero essa mulher

que está em oferta na praça.

Eu quero mulher de graça.

Eu quero poder sonhar.

Tanta beleza me oprime,

tanta sensualidade

tanta perícia na cama.

Sou amador. Quero amor.

E não profissionalismo.



Os meus olhos são meus olhos.

Minha cama é minha cama.

Não sou rei pra ter rainha –

a mulher que fosse minha

nem minha tinha de ser.

Tinha que ser dela mesma

e ser o seu sentimento;

e ter em seu pensamento

querer ser minha mulher.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

EPIGRAMA

(Gabriel Ferreira)






EPIGRAMA (8)



Sob sol ou chuva,


vive seu caminho


todo aquele que se sabe sozinho.