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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

LEILA KRÜGER: POEMA


(Ismael Nery)
 
 

Distância
Que distância é essa entre meu espelho e os olhos alheios?
Entre a bondade imaginária e a gelidez evidente...
que distância é essa entre meus olhos profundos
e os olhos rasos do mundo?
Que distância é essa entre eu e o resto?
Entre eu e o tudo? Entre eu e o vento...
 
e a proximidade do nada
que de repente abraça como se abraça um estranho na estrada. Somos estranhos no breu
                                 – todos e eu!
 
Que distância é essa que me ama?
E meu nome chama na tarde linda; e nunca termina...
 
 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

OSCAR GAMA FILHO: POEMA


(Ismael Nery)



Carta ao Passado

Haverá flores ou não,
Assim como — fatigados ou não — os objetos passam;
Neutro passa o rio silenciosamente
e compõe um outro universo
triste e feliz:

Amiga, sente comigo e conversemos de mar a mar
sobre o mar à nossa frente,

Sente comigo, as mãos abraçando o ar,
Pois que abraçar as mãos é trocar aspirações
por nada.

Sente comigo e conversemos
— ou não —
Permanecendo como estátuas
até que venha chuva,
E a Terra, vendo que somos água
— ou adubo —
Sugue também os intermináveis corpos
e esconda de nós
os corações dentro de si.

Então estará completa
a natureza que nos completa,
E ambos inermes e unos
sob o solo nos confundiremos em longo abraço
corpo a corpo, como devem ser estes abraços ideais.

E que não haja preocupações em amar:
Abandonados de intenções,
Quando morto serei a noite
que nos esconderá
sob cobertor de terra,
Serei o sol
que virá acordar
da vida
os nossos corpos resumidos.

domingo, 8 de julho de 2012

ADALGISA NERY: POEMA


(Ismael Nery)


Mistério


Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por
[ mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu
[ nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.


ADALGISA NERY: POEMA


(Ismael Nery)



Repouso


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
amada.

domingo, 4 de março de 2012

SUSANNA BUSATO: POEMA


(Ismael Nery)

Exercício 1

Exercício das facas:
com as faces voltadas
para dentro da carne
doar-se
até que a dor conduza o ato,
até que o fato se consuma,
até que a aguda flor se foda
em talo e folha e ruínas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

LAU SIQUEIRA: POEMA


(Ismael Nery)

mulher

a silhueta em tom
um tanto cinza vai tomando
cor e aproximando o riso
dos passos na calçada
sólida e íngreme

colheu do tempo um certo
abandono depois de fundar
a diversidade e o canto dos
passaredos

na vida e no tempo
estio e miragem
encanto e imagem

coxas abertas
para que os dias e as noites
não se resumam nos poemas
escritos a giz ou carvão

num espelho d’águia
que no silêncio
do canto

escolheu voar

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM POEMA DE LUIS GARCÍA MONTERO TRADUZIDO PELO POETA JORGE ELIAS NETO

(Ismael Nery)


Irene


¿ Conoces ya la tinta meditativa

de la primera luz?

Mira el esfuerzo

que en la copa más alta del bosque más oscuro

raya un momento, avisa y mientras cae

forma la claridad.

Así comienza el dia.

Así también, contigo,

cobran todas las cosas

um impreciso afán por empezar de nuevo,

por ser tu compañia

quando el tiempo aparezca.



Y no es el mecanismo

oxidado de um tren lo que se mueve,

ni las maderas de la barca

están secas aún. No en todas las historias

el tiempo necesita la nostalgia.



Pero tiene la luz recuerdos que son nuestros.

Van a bajar los dioses de sus libros,

Alguien descubrirá que el mundo es navegable,

habrá dias y noches, y em la luna

de lo ya sucedido

respirará la fábula blanca del calendario.



¿ Qué haremos de nosotros

ahora que los espejos todavia

no tienen una sombra que llevarse a sus láminas

a contar hasta diez?

¿ Qué podemos hacer con lo que nos han dado?



Como una insinuación, como la piedra

interroga al estanque,

cae la luz en el sueño de la casa.

y la distancia,

esa divinidad que medita en el agua

de los puertos,

vuelve al pasado, busca entre sus mitos

un Angel sin heridas,

una nueva metáfora,

algo que no es tu nombre,

pero que yo pronuncio desde el fondo

abierto de tus ojos.



Irene

Conheces a tinta meditativa

da primeira luz?

Vê o esforço

com que uma breve linha,

na copa mais alta do bosque mais escuro,

nos alerta à medida que cai

uma claridade.

Assim começa o dia.

Assim também, contigo,

cobram todas as coisas

um vago desejo de começar de novo,

para ser tua companhia

quando o tempo aparecer.



Não é o mecanismo

de um trem enferrujado que se move,

nem as madeiras da barca,

ainda secas. Não são em todas as histórias

que o tempo prescinde da nostalgia.



Mas a luz tem recordações que são nossas.

Baixarão os deuses de seus livros,

Alguém descobrirá que o mundo é navegável,

haverá dias e noites, e na lua

do passado

respirará a fábula branca do calendário.



O que faremos

agora que os espelhos

não tem uma sombra que levar a suas folhas

a contar até dez?

O que podemos fazer com o que herdamos?



Como uma insinuação, como a pedra

interroga a lagoa,

cai a luz sobre o sonho da casa,

e a distância,

essa divindade que medita na água

dos portos,

retorna ao passado, para buscar entre seus mitos

um Anjo sem feridas,

uma nova metáfora,

algo que não é teu nome,

mas que eu pronuncio bem do fundo

aberto de teus olhos.



Montero L. G. Antologia poética; – Madrid: Castália Editorial, primeira impressão, 2002.





sábado, 12 de novembro de 2011

MURILO MENDES: POEMAS DE A POESIA EM PÂNICO

(Ismael Nery)





A DANAÇÃO

Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.

Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.

A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.


O IMPENINENTE

Quem me consolará no mundo vão?
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem solida, rosa virginal, água branca
E tu, antiga sinfonia aérea,
Pertenceis ao anjo, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.
A presença real do demônio
É meu pão de vida cotidiano:
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.

Hóstias puras,
Inutilmente vos ergueis sobre mim.


A DESTRUIÇÃO

Morrerei abominando o mal que cometi
E sem ânimo para fazer o bem.
Amo tanto o culpado como o inocente.
Ó Madalena, tu que dominaste a força da carne,
Estás mais perto de nós do que a Virgem Maria,
Isenta, desde a eternidade, da culpa original.
Meus irmãos, somos mais unidos pelo pecado do que pela Graça:
Pertencemos à numerosa comunidade do desespero
Que existirá até a consumação do mundo.


OS TRÊS CÍRCULOS

Não encontro minha paz na Igreja.
Tu, monge, não podes me dizer o que o Cristo me dirá:
Recolheste d’Ele a menor parte.
E o Seu corpo e o Seu sangue
Não fazem circular a vida no meu corpo e no meu sangue.
Tu, mulher, criatura limitada como eu,
Recebes a melhor parte do meu culto.
Eu te amo pela tua elegância, pela tua mentira, pela tua vida teatral.
E nem ao menos posso repousar a cabeça na pedra do teu corpo.
Só tu, demônio, nunca me faltas nem um instante.



sábado, 5 de novembro de 2011

MURILO MENDES: POEMAS DE OS QUATRO ELEMENTOS

(Ismael Nery)






ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer
E pelas ondas do ar
A vida e a morte são ligadas pelas flores
E pelos túneis futuros
Deus e o demônio são ligados pelo homem.


SOLICITUDE

É preciso orientar as notas musicais
E cuidar do asilo das flores.
A criatura menos órfã do universo é a estrela
E a mais indiscreta, o homem.

O poeta guia a música.
A morte atrai o tempo,
O demônio atrai a guerra.

Tenho pena dos que vão nascer.


PIRÂMIDE

Sozinho no monumento dos séculos
Consulto meu cérebro
Eu sou tudo que foi, que é e que será.
Da minha cabeça a vida sai armada
Todas as coisas pensam em mim por mim contra mim
Meu olhos convergem para todas as coisas
Que de todos os lados convergem para mim.
Personagem de enigma
Assisto às idades desfilarem
Bebo a vida e a morte ao mesmo tempo
Personagem de enigma
Sou eu quem segura a água a terra o fogo e o ar
Julgando tudo e todos eu me julgarei.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

MURILO MENDES: POEMAS DE TEMPO E ETERNIDADE

(Ismael Nery)






A GRAÇA

Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estátuas de ídolos
caindo, manequins descoloridos, figuras vermelhas se desencarnando
dos livros que encerram as ações dos humanos.
E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, mas a minha
alma se debate porque o tempo rola, rola.
Até que tu, impaciente, rebentas a grade do sacrário; e me estendes
os braços: e posso atravessar contigo o mundo em pânico.
E o arco-de-Deus se levanta sobre mim, criação transformada.


O JUSTIFICADOR

Teu espírito se dilata para abraçar a criação.
Chegam famílias das pirâmides para te verem,
Outras chegam dos confins dos mares.
A noite te anuncia pelos seus astrônomos e suas estrelas,
O dia te proclama pelos seus sinos e pelos seus jornais.
Gerações inumeráveis crescem à sombra da tua Igreja.
Atravessas campo e deserto, sobes em arranha-céus,
Voas no aeroplano, desces no submarino,
Abalas a alma do cego, do criminoso e da perdida.
Presides ao casamento, ao nascimento, à morte e à ressurreição.
Os homens te dividem em mil imagens falsas:
Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,
Dás a todos o único, o insubstituível consolo.
Tuas parábolas publicadas em edições de engraxate
Comovem ao mesmo tempo o ignorante e o poeta.
Os maus sacerdotes em vão procuram te ocultar:
Tu os convertes na última hora, como ao bom ladrão.
Espalhas pela terra teu corpo e tua alma em pedaços,
E cada alma, mesmo ruim, é uma relíquia tua.
Diariamente o mundo te persegue e te mata,
Diariamente ressuscitas a atrais o mundo a ti.


ETERNIDADE DO HOMEM

Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua Parusia.

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.

Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.

MURILO MENDES: POEMAS DE O VISIONÁRIO

(Ismael Nery)






MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE

Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás engrenada nas formas
Que se engrenam em outras desde a corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras em ti teus ascendentes até o primeiro par,
Encerras teu filho, tua neta e a neta de tua neta.
Mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.


APRESENTAÇÃO DO RECÉM-NASCIDO

A pedra abre os olhos mansos de novilha
Quando a criança nasce no mundo da foice e do martelo.
Deus não sorri nas dobras azuis do quarto
Porque o vento que vem das usinas
Impede que a eternidade passe.
Criança, que vens fazer no mundo soluçante,
Se a luz não é mais luz, a alma não é mais alma,
Se a cor branca sumiu nos hinos de protesto?
Some, criança, desfaze-te em mar, em tango, em ventania;
Faze a pedra calar; as pedras que te trazem
São palmas de aço, o homem chorou para fazê-las;
Um corpo elétrico te espera numa curva do mundo
Para te derrubar quando tiveres dezoito anos,
Como já derrubou teu pai e tua mãe
Que são a fotografia inanimada do que foram.


FIM E PRINCÍPIO

Espírito pavoroso do século,
Não te dedicaria pianos
Nem harmonias de sirenes
Se os demônios não quisessem.
Entretanto chora o mar,
Choram noivas, peixes, mães,
Desde o princípio do mundo;
Apitos de máquinas levarão
Desde o pólo ao equador
Até o final dos tempos
Lamentações de novilhas,
De cegos, órfãos e plantas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: POEMA

(Ismael Nery)





SENTIDO


Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar — sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.

AFORISMO



(Ismael Nery)



231

O homem não será vítima de suas ilusões se não for vítima do amor.

sábado, 24 de setembro de 2011

SÔNIA BRANDÃO: POEMAS

(Ismael Nery)





LABIRINTO

A noite é um labirinto de pedras.
As palavras se quebram em minha boca.
Um grito, dentro do peito.

Recolho-me no umbigo da dor
mastigando o pão da morte.



SONHO

Sonharemos no sono da morte?


ENIGMA

Difícil é aprender o silêncio da pedra.


CASA VELHA


Quantas coisas viram tuas janelas
e os olhos que nelas se debruçavam.
Olhos que viam o dia nascendo e a névoa
como uma coberta sobre a serra,
viam as flores dançando lá fora,
viam a noite, a lua convidando a amar.

Esses olhos e tuas janelas
se fecharam para sempre.

Hoje, apenas os fantasmas te habitam.


APRENDIZADO


Não te espante o meu silêncio:
estou aprendendo a morrer.


PRECE

Devolva-me, Senhor, as palavras.
Talvez eu as compreenda e me salve.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

UM POEMA DE INAÊ SODRÉ

(Ismael Nery)


RITO DE PEDRAS

Sodalita soube que Citrino,
o seu prometido, estava por chegar.
Ela foi ao seu baú vermelho, contornado de fita dourada,
e tirou seu melhor Sari.

Em ritmo de rito,
se toda depila para que lisa, na tela em óleo canforado,
ele,
com o seu pincel,
pinte seu corpo de henna.
 
No rito do mito do espelho,
ela,
de olhos contornados de preto,
se olha e desprende os negros cabelos...
 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

GUSTAVO CORÇÃO: LIÇÕES DE ABISMO II

(Ismael Nery)


O mundo é um anárquico depósito, uma loja monumental onde a gente compra estrelas e flores para a festa silenciosa e recatada no recesso da alma. Não é assim que fazem os escultores, quando arrancam o barro do chão e o trazem para o encontro do amor? Não é assim, por exclusão, por ablação, que o poeta destaca o que quer do anônimo e bulhento reservatório comum? O importante, na poesia e na vida, é a escolha; e por conseguinte a recusa. A poesia é uma greve, um protesto, como o que fazem os límpidos cristais, com suas intolerantes arestas, no seio opressivo da montanha. Ninguém rejeita tanto como o poeta, e como o apaixonado.
___________________

Curioso é esse contraste: a morte é o que há de mais certo, a ponto de servir no modelo clássico de silogismo; e é por outro lado a ideia que mais nos custa admitir, e tanto mais custa quanto mais perto nos toca. É uma certeza que anda ao contrário das outras.

___________________

Há pessoas que falam quase sempre de um modo caloroso, com indignação fácil e cólera pronta. A qualquer injustiça cerram os punhos e desatam a generosa paixão dos sanguíneos. Gosto de vê-los; mas em geral fico alheio ao tom maior de suas indignações. A mim o que mais fere, o que mais dói sãos os equívocos que vejo no mundo. Essa é minha triste dominante: uma exasperação do senso do ridículo. E só quem já viveu essa experiência é capaz de avaliar a dor aguda, penetrante, glacial, que permanentemente me faz companhia. Falam de um inferno de fogo; eu penso, às vezes, num inferno de gelo.

Lições de Abismo. Ed. Agir

domingo, 31 de janeiro de 2010

DOIS POEMAS DE JULIO RODRIGUES CORREIA

(Ismael Nery)




A profundeza abissal da palavra

declamada

ecoa nítida na linguagem abstrata

das mãos

(gestos prontos),

e o atrito dos dias

confunde as cicatrizes

do tempo,

derramado sobre a mesa

o poema ignora nas pálpebras

o pesadelo do sonho.



A noite
de ruídos

e latidos

soçobrou

ao peso

e domínio

da chuva

torrencial.

E na plangência

do velório

havia no olhar

do morto

uma manifesta

reprovação

contra a vida.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

UM POEMA DE DORA FERREIRA DA SILVA

(Ismael Nery)

AGORA, AS COISAS SIMPLES

Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.

(1994)

Do livro Poesia reunida. Ed. Topbooks