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domingo, 23 de janeiro de 2011

FAGUNDES VARELA: POEMA



O ARREPENDIMENTO


Tens, razão, já, soberana,
Viste-me curvo a teus pés!
Alma que do mal se ufana,
Tarde conheço quem és!
Mas a imagem que eu buscava,
Por quem meu ser suspirava,
Nem pressentisse sequer,
Quando uma fada invocando
Me vergava soluçando,
Prestava culto à mulher.

Tens razão, por grata estrela
Tomei teu brilho falaz,
Sinistra luz da procela,
Círio das horas fatais!
Segui-te através de enganos,
Cheio de sonhos insanos,
Cheio de amor e de afã!
Sombra de arcanjo caído!
Busto inda quente, incendido
Pelos beijos de Satã!

Na fronte cor de açucena
Tinhas brilho sedutor,
Mas eras qual essa flor,
Cujo perfume envenena!
Tinhas nos olhos brilhantes
Os reflexos cambiantes
De uma aurora de verão,
Mas como a charneca escura
Só podridão, lama impura,
Guardavas no coração!

Na negra esteira dos vícios
Que os decaídos formaram,
Teus funestos artifícios
Iludido me arrojaram!
Amei-te, amar foi perder-me!
Foi beijar da terra o verme
Crendo-o Deus da vastidão...
Em vez do sol que buscava,
Louco afoguei-me na lava
De medonho, atroz vulcão!

Da vida estraguei por ti
Das quadras a mais risonha;
Mas hoje sinto peçonha
Que nos teus lábios bebi!
Em meio de minha idade
Tenho n’alma a soledade,
Na fronte o gelo eternal;
Sinto a morte nas artérias,
E ao medir minhas misérias
Me orgulho de ser mortal!

sábado, 11 de dezembro de 2010

FAGUNDES VARELA: POEMA

(Fra. Angélico)




INVOCAÇÃO

Eu te vejo sentada entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.
América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Pura em tua nudez, sempre singela,
Da Gália mentirosa o luxo deixas,
És da Escritura a tímida gazela!
Teus vestuários são tuas madeixas!
Do mundo conhecido és a donzela!
Sempre perdoas e jamais te queixas!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Hei de em minhas canções sempre invocar-te,
Pois creio que me atendes, que tens almas!
De teu cocar farei um estandarte
A cuja sombra tenha asilo e calma!
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Nada na terra meu talento espalma!...
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Simbolizas os filhos do futuro,
Os homens da esperança e da verdade,
Não tens de antigos o pensar escuro,
És só luz, pensamento e liberdade!
Não te manchou o rosto o bafo impuro
Das seitas infernais da média-idade!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Quero-te sempre assim entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.

América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!


I

Jesus! Filho de Deus! Quero adorar-te
No céu, na terra, no universo inteiro!
Vejo teu nome escrito em toda a parte
Onde vai meu olhar de forasteiro!
Milagres de saber, prodígios de arte,
Senhor e servo, artista e pegureiro,
Todos repetem neste mundo vário,
O poema sublime do Calvário!


II

Os astros de mais luz, orbes imensos,
Hipérboles lançadas sobre os ares,
Brilhantes a rolar em mares densos,
Escarpados de angélicos colares;
Gênios supernos, querubins infensos,
Tudo, tudo, Senhor, em teus altares
São míseras ofertas que a desgraça
Logo transforma em pó, cinza e fumaça!


III

A faixa branco-azul dos hemisférios,
Onde palpitam borboletas de ouro,
Estrada excelsa dos salões sidéreos,
Mostra a meus olhos imortal tesouro!
Ali vagueiam meus irmãos etéreos!
Ali repousa meu sonhar vindouro!
Ali da glória resplandece a origem!
Ali domina a sempiterna Virgem!


IV

O’ Cristo! Se de um sangue sacrossanto
Banhaste a gleba vil onde pisaste,
Se jogaram soldados em teu manto
Quando da cruz as dores suportaste,
Tudo mudou-se! Do divino pranto
Constelações sem número formaste!
Da túnica manchada por imundos
Fizeste o pavilhão que abriga os mundos.


V

Nos belos tempos da saudosa infância
Quadra de louros sonhos, de esperanças
Ouvia-te das balsas na fragrância:
- “Vinde, vinde até mim, pobres crianças!”
Tu me deste a miséria e a abundância,
Quando chorei, me consolaste, ó Deus!
Ao clarão imortal dos olhos teus!


VI

Rujam embora as vagas do oceano
Mandando aos alcantis navio incerto,
Corra o gládio de bárbaro tirano
Transformando as cidades num deserto!
Passe da peste e morte o sopro insano,
Medonho, horrendo em boqueirão aberto!
Flagele a humanidade a sede, a fome...
O’ Cristo! Creio em ti, creio em teu nome!


VII

Jesus! Hoje porém se os livros abro
E o fruto colho da fatal ciência,
Tudo vejo em terrível descalabro!
Nem crenças, nem razão, nem consciência
De velha planta tronco feio e glabro
Volve este pobre mundo em decadência!
Só tu podes verter aos homens luz,
Árvore santa onde sofreu Jesus!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

FAGUNDES VARELA: POEMA

(Fra. Angélico)



AVE! MARIA!

A noite desce - lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: - Ave! Maria!

Na torre estreita de pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vesper desponta,
Cantam os anjos: - Ave! Maria!

No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: - Ave! Maria!

E, longe, longe, na velha estrada,
Pára e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla,
E fala aos ermos: - Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: - Ave! Maria!

Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca,
Curva-se e clama: - Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: - Ave! Maria!

Ave! Maria! - No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! - Ave! Maria!

terça-feira, 27 de julho de 2010

FAGUNDES VARELA: POEMA


(Caspar David Friedrich)



NÉVOAS


Nas horas tardias que a noite desmaia

Que rolam na praia mil vagas azuis,

E a lua cercada de pálida chama

Nos mares derrama seu pranto de luz,


Eu vi entre os flocos de névoas imensas,

Que em grutas extensas se elevam no ar,

Um corpo de fada — sereno, dormindo,

Tranqüila sorrindo num brando sonhar.


Na forma de neve — puríssima e nua —

Um raio da lua de manso batia,

E assim reclinada no túrbido leito

Seu pálido peito de amores tremia.


Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,

Das verdes, cheirosas roseiras do céu,

Acaso rolaste tão bela dormindo,

E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?


O orvalho das noites congela-te a fronte,

As orlas do monte se escondem nas brumas,

E queda repousas num mar de neblina,

Qual pérola fina no leito de espumas!


Nas nuas espáduas, dos astros dormentes

— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?

E as asas, de prata do gênio das noites

Em tíbios açoites a trança agitar?


Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo

De um férvido beijo gozares em vão!...

Os astros sem alma se cansam de olhar-te,

Nem podem amar-te, nem dizem paixão!


E as auras passavam — e as névoas tremiam

— E os gênios corriam — no espaço a cantar,

Mas ela dormia tão pura e divina

Qual pálida ondina nas águas do mar!


Imagem formosa das nuvens da Ilíria,

— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,

Não ouves ao menos do bardo os clamores,

Envolto em vapores — mais fria que a morte!


Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,

Teu seio molhado de orvalho brilhante,

Eu quero aquecê-los no peito incendido,

— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...


Assim eu clamava tristonho e pendido,

Ouvindo o gemido da onda na praia,

Na hora em que fogem as névoas sombrias

– Nas horas tardias que a noite desmaia.


E as brisas da aurora ligeiras corriam.

No leito batiam da fada divina...

Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,

E a pálida imagem desfez-se em — neblina!