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sábado, 7 de julho de 2012

MIGUEL MARVILLA: POEMA



(Enrico Bianco)



Teus olhos, combinado com a camisa

Para Edivania

Teus olhos, combinando com a camisa,
são réstias, na verdade, de um intento
em tons de luz – molduras de um enigma
que te resume e, assim, te muitifica.

Ao longo da tua pele arrepiada,
a chuva que te cerca é a mais ativa
das formas de defesa que, encantada,
correste a procurar contra a investida

dos anjos, que aos homens (e é notória
a tua parceria com a libido)
não podes te furtar, por proibido.

É então que, encurralada nas esquinas
da tarde irreparável da memória,
nós te alcançamos – mas ficas longe ainda.



MIGUEL MARVILLA: POEMA


(Enrico Bianco)


DO PONTO MAIS DISTANTE NA FLORESTA

Para Cláudia Bravim

Do ponto mais distante na floresta
de asas e desejos que freqüentas
à hora em que te despes, meio a esmo,
aproveitando as brumas de um soneto;

dos rastos nos escombros de poemas
erigidos às portas do teu nome
à substância sombra, que te acolhe
num tempo sem saída e te represa,
o meu amor está nos arredores,
nas coisas que te servem de moldura –
e a elas me condeno: amar, insone,

às margens do teu corpo, que transmuda
o tudo quanto vejo em tua imagem,
daqui até o futuro é o que me cabe.


MIGUEL MARVILLA: POEMA


(Enrico Bianco)


E agora em desconcerto me pergunto

E agora em desconcerto me pergunto
onde estou. Vou ver quem sou, volto mais mudo.
Ao silêncio, então, me exponho e, novamente,
sucumbido à solidão, calmo, entredentes,

vejo a luz que interrompia as persianas,
ouço a música dos corpos que eu tocava,
lembro os gestos de uma busca alucinada
do prazer que se antevia neles. Tantas,

tantas vezes, porém, encontrei Lias
disfarçadas entre as formas de Adrianas,
cada qual plantada em sua própria ilha,

que, por último, eu assim me esqueci
de encontrar-me e, a cada instante que passava,
fiquei nelas – eu assim que me perdi.

MIGUEL MARVILLA: POEMA


(Enrico Bianco)


A PALAVRA POESIA, POR EXEMPLO

A palavra poesia, por exemplo,
roubada à sua forma dicionária,
não pode vigorar mais que um momento
se não se refletir no olhar de Mária.

E Mária, que se esquece, por completo
descuido ou prazer (quem tem certeza?)
de levar-se ao deixar as redondezas,
aos poucos, dando motes ao desejo,

recobre a superfície do planeta.
Por muito repetir-se em aquarelas,
vitrais, pessoas, gestos, sons e ruas,

sua forma sendo tantas, coisa alguma
a retém. Ela não cabe de uma vez
na memória – e ainda há mais Mária out of space.