Na resistência da tarde
domingo, 4 de março de 2012
SUSANNA BUSATO: POEMA
Na resistência da tarde
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
VERTIGEM E SIGNIFICAÇÃO: UM ENSAIO DO FILÓSOFO EDILSON PANTOJA
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
ALEXANDRE GUARNIERI: POEMAS
sorve; mero serviçal sem
absolvição, e sempre insone
à sombra do dono, que há de
alimentá-lo, qual um cão
desossado ou, qualquer, um
detalhe desagradável, ei-lo
anônimo esse móbile de nervos,
de ossos, que o é por si ou o
que talvez pudesse ser, se não
fosse só, a sós, esse ossário
frágil, mais outro escravo,
sem limo, sem sumo, sem caldo,
só o triste bagaço ressecado,
um astro escasso, mas tão magro
e gasto, quanto inadaptado
ao trabalho, diário e árduo,
à rotina mortal do horário.
(repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o patrão reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis,
caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados no mictório, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
(rendição)
nossos hábitos formulaicos,
acordar, dormir – o horário de
ir para o trabalho – de abrir o
armário; vestir-se – a vida
vista de frente, preâmbulo, sem
ângulos, sem ânimo, apenas o
sarcasmo diário, sem alarde, sem
contraste – café com açúcar; as
ruas assustam – a retina rendida
à rotina, só o cinismo insistindo ainda
o dia-a-dia – o
sono no ônibus lotado – só em
certa parcela da vida há vida —
terrível dízimo – uma ilha
vitimada nessa ciranda servil.
domingo, 13 de novembro de 2011
LUIS SERGUILHA-POEMA
TEXTO 3
Pássaro de transições fluviais
timidamente a pique na curiosidade bêbeda dos triângulos
Pássaro vermelho das éclogas procurando os estalidos dos fórceps da claridade
sobre os cingidouros extravagantes dos noticiários que empavoam as patrulhas do relâmpago
nos ascensores vigilantes dos polvos implacáveis
As asas esplendorosas protegem as confidências disponíveis nos cais enrouquecidos
onde os ângulos centenários dos chocalhos batucam as esquadrilhas sôfregas dos polichinelos pendulares
Os alfarrabistas impacientes engomam as esporas bronzeadoras dos desvãos silenciosos
aqui os pássaros sublinham os insaciáveis frenesins dos venenos para empoarem os semáforos imperceptíveis das sórdidas armações
como as áspides dos algozes a reclamarem o exílio patriarcal das meretrizes dançarinas
As barbatanas libertinas dos cofres geológicos planam
sobre as escadarias cristalizadas dos astrólogos excepcionalmente arregaçados
no parapeito odorífero dos bordéis
onde a argamassa experiente dos mastros são os reflexos compulsivos dos pulmões
Os pássaros alienígenas mergulham nas incubações das gadanhas rebocadoras para tremularem obstinadamente
entre os círculos repercutidos das balanças pélvicas das divas
Os solitários voos lançam-se nos vacilantes tronos das savanas
onde as preguiçosas combustões encrespam os gracejos furtivos das pálpebras
As densidades hirsutas dos voos depuraram-se nos archotes noctívagos das saias lúbricas
como a antracite dos espiráculos a proteger as curvaturas ambulantes da pérola epidérmica
Os pólens niquelados dos voos crepitam nos histéricos miasmas provavelmente
para transformarem os trilhos do fogo num musgo de gargantas nómadas
povoadas de rebentos imprevisíveis
As planícies incessantes dos voos reactivam as almofadas do desejo no luminescente soluço das víboras
Os voos desvelados em consonância com as respirações vertiginosas das prostitutas interferem similarmente
no impetuoso silêncio dos flashs pesquisadores das primeiras habitações nocturnas
quinta-feira, 23 de junho de 2011
MURILO MENDES: POEMA
ALGO
A Maria da Saudade
Revela.
O que, sem evidência, vive.
O que a violeta sonha.
O que o cristal contém
Na sua primeira infância.
MURILO MENDES: POEMA
(Franz Kline)PASSÁROS NOTURNOS
Pássaros noturnos:
Ao longe balançam o canto obscuro
Pois nas grutas profundas se encolheram
E nos maciços de árvores.
Pela noite seu canto oblíquo
Na soledade do silêncio
Configura-os a bichos desconhecidos,
São provisoriamente outros bichos
Nascidos sem lei nem forma
Do intocado abismo e da folhagem.
Pássaros fantasmas,
Pássaros noturnos
Anunciadores de uma vida livre
Cujo segredo ao nosso ouvido escapa,
Uma vida de ignota relação.




