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domingo, 4 de março de 2012

SUSANNA BUSATO: POEMA


(Franz Kline)


Postes

Na resistência da tarde
espreito esquinas:
solitários, os postes se
entreolham se
desejam nas
vielas e
virilhas


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

VERTIGEM E SIGNIFICAÇÃO: UM ENSAIO DO FILÓSOFO EDILSON PANTOJA

(Franz Kline)


Consideração (esboço) sobre a relação entre filosofia e literatura


Eu vejo filosofia e literatura como vejo cada um dos demais fazeres humanos: eu as vejo como tentativas de significação. Como tudo que é humano, elas brotam de uma vontade de sentido. É que, me parece, cada ato humano, desde os mais simples da vida ordinária até os mais refinados e complexos, têm como função imediata o seguinte: revestir de sentido aquilo que por si mesmo não tem: a existência.

Como bem o constataram sábios da envergadura de um Charles Sanders Peirce, a cultura, de modo geral, é um grande e complexo sistema de signos. Nela tudo significa. Qualquer elemento pode conduzir a uma pista do que se passa no grande comércio das relações humanas. Mas não é por esse caminho de pensar atos culturais como elementos de comunicação, nesta perspectiva, o que me leva a esta incursão peculiar pela, digamos, semiótica. Para mim, a cultura, a civilização, os feitos humanos, corriqueiros ou grandiosos, são, antes de tudo, sintoma. Sintoma de uma ausência: a ausência de sentido para a existência. São, ao mesmo tempo, tentativas de preenchimento desta ausência. Daí eu ter dito acima: tentativas de significação.

Esta Ausência, este Nada, espreitava o homem, mal ele deu o primeiro passo para fora da Natureza. E o próprio homem não será outra coisa senão uma consequência desse encontro e desse convívio. Pois, como dito, a cultura, a história, enquanto sintoma, é também o horizonte no qual o próprio homem se faz e, fazendo-se, constrói formas de proteção contra aquela Ameaça Silenciosa. Primeiro vieram as lanças e ferramentas de pedra, as primitivas comunidades protetoras, a linguagem, que dá ao homem a ilusão de não ser só... Depois vieram mais instrumentos técnicos, também os deuses, os mundos além, as metafísicas, as artes, a filosofia, a ciência, enfim, a Civilização. Não obstante, a Ausência continua aí. A história da civilização é a história desse convívio e dessa luta. As especulações atuais acerca da clonagem humana ou mesmo da chamada inteligência artificial, em que já se cogita a substituição do orgânico pelo sintético, ilustram bem o que quero dizer.

Mas a filosofia e a literatura, como a arte em geral, não são tentativas de significação no mesmo nível dos atos ordinários, da técnica ou da ciência. Elas não são um mero fazer. Ao contrário! Enquanto se utilizam da linguagem para representar o próprio homem em seu trânsito significativo, elas se constituem meios privilegiados de significação. Meios nos quais o homem pode se ver, sondar seu destino e enfim aceitá-lo.

Diferentemente de todos os demais modos de significação, filosofia e literatura não são necessariamente rotas de fuga, mas meios possíveis de condução do homem ao seu ser-próprio, ao seu destino.

Destino, conforme aqui concebido, é o ser-próprio do homem. É o Não, é aquela Ausência que desde o início o espreita e o obriga a significar. É bem verdade que o homem pode nunca reconhecê-lo. Pode também, reconhecendo-o, recusá-lo e empreender rotas de fuga em busca de garantias, como, aliás, tem feito a maioria das vezes, seja na história da espécie, seja na história do indivíduo.

Em qualquer dos casos, porém, seja aceitando o destino, seja recusando-o, o certo é que daquele Não continuará a brotar a cultura e a história. O que mudaria, certamente, no caso da aceitação, seria a saúde do homem, a relação dele com a vida. Mas este talvez seja um passo impossível. É que ao ser-próprio não se chega antes de uma séria decisão, de grandes recusas, e de uma revolução pessoal.

No caso da literatura, o trânsito para o destino ou para longe dele é mostrado por meio de imagens, onde se representam, com personagens e situações, os homens na busca por significados, estes aqui pensados como garantias contra aquela Ameaça. No caso da filosofia, a questão do destino é posta em evidência mediante um trabalho conceitual, abstrativo, em que se busca compreender os próprios fundamentos da busca, isto é, da essência do significar, bem como apontar caminhos, propostas de sentido. Em ambos os casos, seja com o exemplo, seja com o conceito, está em jogo a perspectiva essencial dessa luta e dessa busca.

Mas essas distinções não opõem necessariamente as duas formas de representação, como, aliás, nos mostram a história de ambas.

Em todo caso, o destino do homem, o ser-próprio, tem a ver com a existência. Mas a mera existência, como suposto, não implica necessariamente a aceitação do destino.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ALEXANDRE GUARNIERI: POEMAS

(Franz Kline)



(cativo)

como servo, serve; como vive,

sorve; mero serviçal sem

absolvição, e sempre insone

à sombra do dono, que há de

alimentá-lo, qual um cão

desossado ou, qualquer, um

detalhe desagradável, ei-lo

anônimo esse móbile de nervos,

de ossos, que o é por si ou o

que talvez pudesse ser, se não

fosse só, a sós, esse ossário

frágil, mais outro escravo,

sem limo, sem sumo, sem caldo,

só o triste bagaço ressecado,

um astro escasso, mas tão magro

e gasto, quanto inadaptado

ao trabalho, diário e árduo,

à rotina mortal do horário.



(repartição)

os rituais estoicos do escritório, entre móveis

sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os

funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa

tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que

o patrão reclama, avulsas, ouvindo a secretária

soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto

convulsionam os números (necessário é discá-los

todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao

invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,

se matando aos poucos estes homens que

trabalham: um por um, inúteis,

caminham na calma

ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos

próprios rostos, projetados no mictório, findam

em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as

máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,

sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou

delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos

sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.



(rendição)

nossos hábitos formulaicos,

acordar, dormir – o horário de

ir para o trabalho – de abrir o

armário; vestir-se – a vida

vista de frente, preâmbulo, sem

ângulos, sem ânimo, apenas o

sarcasmo diário, sem alarde, sem

contraste – café com açúcar; as

ruas assustam – a retina rendida

à rotina, só o cinismo insistindo ainda

o dia-a-dia – o

sono no ônibus lotado – só em

certa parcela da vida há vida —

terrível dízimo – uma ilha

vitimada nessa ciranda servil.

domingo, 13 de novembro de 2011

LUIS SERGUILHA-POEMA

(Franz Kline)







TEXTO 3



Pássaro de transições fluviais


timidamente a pique na curiosidade bêbeda dos triângulos


Pássaro vermelho das éclogas procurando os estalidos dos fórceps da claridade


sobre os cingidouros extravagantes dos noticiários que empavoam as patrulhas do relâmpago
nos ascensores vigilantes dos polvos implacáveis


As asas esplendorosas protegem as confidências disponíveis nos cais enrouquecidos
onde os ângulos centenários dos chocalhos batucam as esquadrilhas sôfregas dos polichinelos pendulares


Os alfarrabistas impacientes engomam as esporas bronzeadoras dos desvãos silenciosos


aqui os pássaros sublinham os insaciáveis frenesins dos venenos para empoarem os semáforos imperceptíveis das sórdidas armações


como as áspides dos algozes a reclamarem o exílio patriarcal das meretrizes dançarinas


As barbatanas libertinas dos cofres geológicos planam


sobre as escadarias cristalizadas dos astrólogos excepcionalmente arregaçados


no parapeito odorífero dos bordéis


onde a argamassa experiente dos mastros são os reflexos compulsivos dos pulmões


Os pássaros alienígenas mergulham nas incubações das gadanhas rebocadoras para tremularem obstinadamente


entre os círculos repercutidos das balanças pélvicas das divas


Os solitários voos lançam-se nos vacilantes tronos das savanas
onde as preguiçosas combustões encrespam os gracejos furtivos das pálpebras


As densidades hirsutas dos voos depuraram-se nos archotes noctívagos das saias lúbricas
como a antracite dos espiráculos a proteger as curvaturas ambulantes da pérola epidérmica


Os pólens niquelados dos voos crepitam nos histéricos miasmas provavelmente


para transformarem os trilhos do fogo num musgo de gargantas nómadas
povoadas de rebentos imprevisíveis


As planícies incessantes dos voos reactivam as almofadas do desejo no luminescente soluço das víboras


Os voos desvelados em consonância com as respirações vertiginosas das prostitutas interferem similarmente


no impetuoso silêncio dos flashs pesquisadores das primeiras habitações nocturnas


quinta-feira, 23 de junho de 2011

MURILO MENDES: POEMA




(Franz Kline)





ALGO



A Maria da Saudade


O que raras vezes a forma
Revela.
O que, sem evidência, vive.
O que a violeta sonha.
O que o cristal contém
Na sua primeira infância.

MURILO MENDES: POEMA

(Franz Kline)




PASSÁROS NOTURNOS


Pássaros noturnos:
Ao longe balançam o canto obscuro
Pois nas grutas profundas se encolheram
E nos maciços de árvores.
Pela noite seu canto oblíquo
Na soledade do silêncio
Configura-os a bichos desconhecidos,
São provisoriamente outros bichos
Nascidos sem lei nem forma
Do intocado abismo e da folhagem.
Pássaros fantasmas,
Pássaros noturnos
Anunciadores de uma vida livre
Cujo segredo ao nosso ouvido escapa,
Uma vida de ignota relação.