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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA: POEMA




Lira III




Tu não verás, Marília, cem cativos

tirarem o cascalho e a rica terra,

ou dos cercos dos rios caudalosos,

ou da minada serra.



Não verás separar ao hábil negro

do pesado esmeril a grossa areia,

e já brilharem os granetes de oiro

no fundo da bateia.



Não verás derrubar os virgens matos,

queimar as capoeiras inda novas,

servir de adubo à terra a fértil cinza,

lançar os grãos nas covas.



Não verás enrolar negros pacotes

das secas folhas do cheiroso fumo;

nem espremer entre as dentadas rodas

da doce cana o sumo.



Verás em cima da espaçosa mesa

altos volumes de enredados feitos;

ver-me-ás folhear os grandes livros,

e decidir os pleitos.



Enquanto revolver os meus consultos,

tu me farás gostosa companhia,

lendo os fastos da sábia, mestra História,

e os cantos da poesia.



Lerás em alta voz, a imagem bela;

eu, vendo que lhe dás o justo apreço,

gostoso tornarei a ler de novo

o cansado processo.



Se encontrares louvada uma beleza,

Marília, não lhe invejes a ventura,

que tens quem leve à mais remota idade

a tua formosura.