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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

AFFONSO ROMANO SANT'ANNA: POEMA

(Luiza Maciel Nogueira)



Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POEMA

(Luiza Maciel Nogueria)




CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias em meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

JULIO RODRIGUES CORREIA: POEMA

(Luiza Maciel Nogueira)




POSSIVEL POEMA EM FIM DE TARDE

O alpendre me conduz ao silêncio.
Na tarde em véspera de ocaso
um pássaro tenor sublima
a ópera do sol.
Nos jardins flores (em seus
discursos de pétalas)
mostram a rota da primavera
enquanto os ventos varrem
o pó das ruas e coagulam
os rastros da memória.

sábado, 6 de novembro de 2010

ORIDES FONTELA: POEMA

(Luiza Maciel Nogueira)



POUSO

Ó pássaro, em minha mão
encontram-se
tua liberdade intacta
minha aguda consciência.

Ó pássaro, em minha mão
teu canto
de vitalidade pura
encontra a minha humanidade.

Ó pássaro, em minha mão
pousado
será possível cantarmos
em uníssono

se és o raro pouso
do sentimento vivo
e eu, pranto vertido
na palavra?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

FRANCISCO PERNA FILHO: POEMA

(Luiza Maciel Nogueira)



TRÂNSITO

Noite,
os carros disputam a volta,
os homens refletem o trânsito:
caos, crítica, crime.
Náufrago,
choro, o tempo atropela o desejo,
alma depositada.
Não há reação...
nos esguichos de vida
o corpo guarda o guarda.
Não há apito,
não há guincho.
De que adianta a direção?
no espaço de todos
a ausência de muitos.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

POEMA PARA CRIANÇAS

(Luiza Maciel Nogueira)



NÃO

O Murilo sempre dizia não.

Não para o pente
Não para o Sente!
Não para o pudim
Não! Não sem fim...

O Murilo sempre dizia não.

Até que um dia
o Murilo descobriu
que não podia
o que não devia
e assim o Murilo
aprendeu o sim.

sábado, 9 de outubro de 2010

POEMA PARA CRIANÇAS


(Luiza Maciel Nogueira)



O MAR E SUAS ONDAS

O mar e suas ondas
conchas e mais conchas
arrastam para as areias.

O mar e suas ondas
envolto em sereias.

O mar e suas ondas
barcos e pescadores
embalam sob o céu de gaivotas

O mar e suas ondas
em ilhas ignotas.

POEMA PARA CRIANÇAS

(Luiza Maciel Nogueira)
O PARDAL

Sobre os prédios e fios elétricos,
árvores, casas e parques,
o pardal faz da cidade
seu habitat.

Passarinho cinza
sob o céu nublado
seu canto alegra os namorados.

Em praças e avenidas,
ruas cheias ou vazias,
tudo é morada
para sua ninhada.

Pardal.

Passarinho cinza
sob o céu urbano
seu acalanto nos faz mais humanos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

EPIGRAMA

(Luiza Maciel Nogueira)

EPIGRAMA

Marta, para todas as horas possíveis o amor.
Assim o ciclo remissivo das estações
traz à primavera a esperança em flor.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

NYDIA BONETTI: POEMAS

(Luiza Maciel Nogueira)

dos sentires do tempo - II

no âmago
das dores do homem

há sinais do incêndio
que consome as horas

as dores
são filhas do fogo

o fogo
é irmão do instante

no imenso banquete
no altar do tempo

todos juntos ardem
e se devoram


desabrigo

o não lugar:

onde habita a não vida
e o não sonhar

- morada de tantos.


(XIX)

cinzento este outono
e seco

saúdo o sol

que se esconde atrás
de cada nuvem

e sigo

na trilha que se abre
a cada passo

do dia

- corte que não se fecha
senda

vereda, atalho, cicatriz


(I)

pai
o que sentia

ao percorrer caminhos
que hoje são meus

insondáveis
todos os caminhos


(II)

não ouso pedir
o maná dos céus

peço os frutos da terra

na lida
dos humanos quereres

cansaço e suor

grão
que se possa colher

pão
ainda que ázimo

mão
que se possa tocar

saciadas fomes


(III)

perdoa pai
te julguei tão fraco

hoje carrego meus fracassos
tão maiores que os teus

domingo, 8 de agosto de 2010

JORGE ELIAS NETO: POEMA

(Luiza Maciel Nogueira)

NO ENTORNO

“O homem é um ser para a morte”
Martin Heidegger

No entorno havia pensamentos.

Nada que se diga terá serventia
quando grudado no casco dos cavalos de ferro.

Espertas são as samambaias
que sobrevivem na eflorescência das pedras
(aproveitam a verticalidade dos muros
onde não pisam os homens).

Ocupemo-nos da fuligem...

Enquanto tivermos pulmões para
soprar as pétalas
exerceremos o ofício temerário de
celebrar a vida.

No entorno existe uma
carência desesperada de gestos.

Do livro Rascunhos do absurdo

domingo, 18 de julho de 2010

LUIS SERGUILHA

(Luiza Maciel Nogueira)
TEXTO 1


silêncio duradouro nos olhares arqueados. Um órfão na terra inventa as alavancas do deserto, a arqueologia da esfinge, o (re)nascimento do não-sentido e um homem de reminiscências solares abandona o espaço dos tumultos e entra na floresta isotrópica. em todas as direcções o homem é idêntico a ele mesmo. em todas as direcções o grito de Deus é o grito de toda a ausência.
os aposentos sábios das fábulas, a dispersão das calamidades, a descoberta da instrução do livro-do-VAZIO, das mordeduras raras, da voz-iniciática, das lenhas cosmogónicas onde o cloro dos mosquitos-cranianos e as teclas dos anarquistas-das-linhas-de-comboio como um compêndio de construções corporais envenenam as elásticas expectativas do triângulo das eiras.

vegetal-tijolo-golpes-de-irradiações(correntes eléctricas dos crustáceos). Túnicas-de-transparências de Michaux nas aguarelas de HÔGAN DAIDÔ.

Patas sulfúricas entoam nas batedoras de espontaneidades-espectrais. As respirações alquímicas reconciliam os abrigos geológicos das línguas. Viseiras zenistas sobre os alvos-gritos dos arabescos. Os bichos vertebrados coroam os pousios dos escavadores de labirintos. Cobras tambores instalam polaróides nas salamandras nocturnas. Mal-de-Hansen nas matracas ovóides dos contrafortes.

o trovão-neolítico a encilhar os cavalos de medronheiros em medronheiros e de ulmáceas em ulmáceas ______________, o milhafre-real passa entre o malmequer-do-campo e os maxilares dos cavaleiros-em-convulsão. contracções dos hinos das larvas planctônicas e uma família ora em casa reunida nas blandícias do evangelho. A linfa dos deuses desce ao útero-do-jardim. Infabulação ourobórica. A energia das origens do “ do golpe do anti-ceifo” sobre as criaturas-híbridas. O cântico da crisálida ergue a flor-do-invisível. Perseguições dos frémitos-demiúrgicos. O sagrado e o profano na respiração epifânica e na nómada ASCESE do mundo. RUPTURAS lancinantes emancipam-se.

aprumam-se os escafandros acústicos e os simulacros. Um arado de teias RUPESTRES.

as coxas-da-constelação-subterrânea, onde o ritmo das mãos-entre-colmeias-vermelhas marca a distinção dos cios na terra, são (quase desmoronadas) pelo sol-escaravelho que empurra inabalavelmente os ecos unificados impedindo as baforadas das sílabas-mercadorias e das emboscadas erectas.

_______ minúsculas embarcações na inquieta estância da terminante anémona-de-legendas-silenciosas como se os feixes desalojados da hipnose exaltassem as margens translúcidas dos firmamentos para partilharem uma amarra anárquica de águas...(pinturas selvagens. O HOMEM da dança-ritual)

entre as eclipses tépidas dos últimos invasores das arquitecturas _________ um vítreo-sulco; _________ na coincidência abreviada das supremas bocas, onde esvoaçam as respirações dos ímanes do pólen e a rigidez das sombras, patas-estacas; ___ latrina extemporânea a atear o entorpecimento dos fertilizantes rendidos à dissertação mutante dos vestidos da eclosão solitária, ________ as temperaturas das profundidades alimentam um mesmo corpo, ________ os bunkers de catéteres monitorizam as tendas-escoltas e as cesarianas dos COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS, _________ as fotografias aéreas traduzem os mapas multi-orgânicos, _________________ SOMBRAS: lanternas. Viajantes da intemporalidade. _______________ cópias da METAZOA, ____ impulsos dos flancos indivisíveis, _____________ a culminação do abandono da escoriação das FOSSAS ABISSAIS, o enigma da sedimentação, _________ as palmas incandescentes do silêncio _________, os ciclos dos germes coroam as abreviaturas dos mastigadores-de-prismas e os transportes dos frutos incorporam-se nas persianas/escamaduras-seculares.

das erupções imprevisíveis saem sílabas estriadas a fortificarem as concavidades das equações: ______ inaudível/ imperscrutável/obscuro centro dos riscos geológicos: ________ aceno admirável a ligar o princípio dos despenhadeiros à fresta piroclástica (às protuberâncias resinosas do remador-de-circunspecções) ______________ : os contornos das moradias exercitam as interpelações dos crepúsculos salteadores que retorcem as raridades e as extremidades das bocas-dos-antúrios desabam pacientemente entre as cúpulas minúsculas do sangue-orgástico e tudo vibra na inesperada dimensão-das-vagas.

(acumulações de ácidos na cortadura vertical) como uma fonte de árvores eclodindo nos espasmos das descendências dos vampiros ____ INCLINAÇÃO dos cântaros-de-incenso sobre o atalho despojado pelo turú _________ (ímpetos dos horários-dos-socalcos-em-putrefacção) ______um mural.um abismo ______.

na percepção da energia cinética dos ecos (claridade a radiografar a dramaturgia dos diamantes dos rizomas: limalha narcótica):

_____ boca extasiada de latidos-da-interdição na ascendência distinta dum pássaro:

ao alcance da ampulheta genética das amoras o PH-dos-testemunhos:

o piso permanente da orfandade sistólica para se reencontrar carregado de luz:

noutra boca inclassificável (colérica coligação de abrigos) onde a escarlate caligrafia da desnudez desaproxima a urgência da água em direcção à imutável papoila:

incomunicável fulcro a estancar o plânton da casa (Deus é a ausência do livro).

O homem retorna da floresta isotrópica no vapor da legenda da hortelã-aranha. (massagem de míldios injectada nos gemidos das genuflexões do húmus)____ ou apenas uma miragem de cofres-mãe-d’agua e de constelações?
a borboleta de Chuang-tzu fendida pela tecedura das crias do dilúvio e a circuncisão da nódoa dos rebentos fortalece a auscultação do sol na fugidia referência do naufrago geológico (HORTENSIUS DE CICERO). confidência a recolher a brancura neoplatónica da companheira METROPOLITANA. ==== cardumes de sopros. lábios enclavinhados. labirintos na haste embalsamada do grito. uma raiz transparente.

debruça-se pequeno monstro: eis o pousio do fogo. coléricos mensageiros na cobiça das tinturarias. Ouça as sirenes nas acomodações das rochas. Ouça o silêncio duradouro nos olhares arqueados, a úlcera dos SANGRAMENTOS, o nascer enluarado nas posições extintas das natas-das-fímbrias,
os rádios-dos-motoristas entre os cinzéis dos temporais, ___________as épocas metalizadas dos morcegos, as barbatanas dos aguaceiros, os enquadramentos (dos bichos das furnas), a inauguração meticulosa da acinesia, o desassossego das fábulas, os candelabros de Riumbaud, o dilúvio entre as entranhas hipnóticas da noite-das-arcadas ________.

loucamente os dialectos dos projectores arrastam-se até aos acenos unânimes dos pássaros-curvilíneos: devolução dos subterfúgios das lâmpadas aos adágios das ardósias-Ápis: ______ os organismos desinvestidos de sonolência confundem os rasgões da linguagem-desastre ao desfolharem as rugosidades dos maxilares-geológicos entre o apocalipse hereditário dos talhadores de Petra.

Memória de rotas antiquissimas. os dentes da transparência fraccionam as galerias das encostas vibratórias para apurarem a presença dos instrumentos das planícies-em-crescimento: ________ olho-de-boi, o selo das comunidades dos voos articulados cuidadosamente ao torso aos homoplatas: acrópole do trovão (o ar aberto a instilar salsugem nos contrafortes) _________ des-membramento dos patamares, o ar assimilando a caruma de chumbo-insecticida e os filamentos das distracções dos estaleiros como uma mesa de linhagens. O sol. a imensidade dos regatos inábeis. a guarnição-de-enxofre reconstruída pelos projectores da ebriedade-da-docuficção onde o utensílio brevíssimo da ondulação das árvores admite o dilatado sobre as âncoras instantâneas. cordas vocais armazenadas nas implacáveis asas (hastes cunhadas pelos nervos dos atiradores furtivos).

Minérios: ____________________ os ciprestes e as travessias luzem ao encerrarem-se supremamente nos jactos do restolho caligráfico para urdirem as tábuas de ar no ócio das cúpulas viciadas pela sonoridade dos marfins que separam a germinação/lapidação das moradas nocturnas:__________ anémona dos périplos das fundições (os favos das sombras emolduram-se na irradiação das crateras e as grades órfãs estendem-se pela vela e pela crina das ressonâncias vaporizadas entre os apanhadores de abelhões anestesiantes: ______ aros dos astros salinizados: _______ estirpes das monções planetóides (_______ cenários a balbuciarem no mercado dos inquietadores de baleias): crustáceos amplificados nos pigmentos das rotações artesianas e a febre das manchas-das-espigas esgota-se nos arames tingidos pelo estrume dos nascimentos vertiginosos ):__________embocadura.

O flagrante nas inaugurações dos controlos aeroportuários que veneram o pequeno sorvedouro da adivinhação na cumeeira dos álamos-dos-quartéis: _______ flautas-de-ácido, os olhos da gorgona, (vistos das aprendizagens electrónicas) onde os beijos dos amantes são oxidados no monte incomunicável de dois pássaros.

(batida de lâmpadas-do-metabolismo), precipício perpetuamente multicolor a projectar os icebergues das mandíbulas.

uma pedra. outra pedra de seiva transversal. a equimose desordenada do corpo-cataclismo. (LESÕES INTERNAS rentes às ignições das olências das cavernas): o violinista vocifera a expansão dos gatilhos da cordilheira para desenrolar as esporas monossilábicas equivalentes aos anteprojectos das dunas solares: (a rosácea dos labirintos, aquela que desmancha os caminhos o espreita nas fronteiras do acontecimento-subterrâneo-das-vertebras-acesas-de-trajectórias-entregues-às-pétalas-do-mercúrio-dos-espelhos-que-constroem -glotes-farejadoras e nas-dinastias-transitórias-dos-vulcões-balsâmicos-a purificar-o-sândalo-do-fóssil) _________________ Deus é a ausência do livro. (e o livro se torna a lenta decifração de sua ausência. Disse reb Ségré com duas vozes).