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sábado, 1 de setembro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Jusepe di Ribera)
 
 
 
Do que prende os pés dos sonhos
 
 
 
Esguios germes,
arcanos dos polos,
de imensas geleiras.
Procriando na
neve espessa,
retardam o caminhar
dos insistentes.
(A maior morte,
        em vida,
é a impossibilidade.)
 
 
 
 
 
 


domingo, 12 de agosto de 2012

OSCAR GAMA FILHO: POEMA


(Jusepe di Ribera)


ECCE HOMO
EIS O HOMEM

Nascido postumamente, vestido por muralhas
derrubadas por flores adubos de navalhas,
O crescedor de idos vê seu coração distante e tinto
e partido pelas setas dos longes findos.

Una após una, o jardim cresce, ruma e se completa,

E cada nova flor é uma nova flecha,
Aguda e afiada que, aérea, no céu desabrocha
em chuvas de pétalas de sangue, roxas rosas-rochas.

E monges antimuralhas aproveitam tréguas, claridades certas,
Para colher linhas do horizonte, que usam de flechas,
Desmontando a paisagem, tornando-a deserta.

E tanto deserto enfim contagia o que nasceu póstumo,
Que se vê nu e túmulo desuno sem húmus,
E, profecia vinda antes da língua,
Se contenta em morrer à míngua,
O corpo no passado ainda
e a alma só no futuro será compreendida
mas despida de matéria de onde venha a sua vinda.

OSCAR GAMA FILHO: POEMA


(Jusepe di Ribera)


A Arte da Guerra
Carta-testamento para Renato Pacheco (1928-2004)

Preso em Trancoso blues,
Trancado, não pelo repouso contínuo no pus,
Mas sim pelo descanso eterno no supercílio:
         — No soco direto da aranha venenosa na trilha do rio
fui a nocaute por medo da cegueira de Borges e Homero.

Porém não quero ser cego assum negro Otelo
para assim cantar melhor o que quero:
         — Cantando a meio vapor pelo rio
já sou mais rápido do que a visão  fugidia que a mira
líquida da crítica divisa em meu exílio.

Morrendo de saudade por bolhas de varíola
trazidas pelas picadas da aranha em lugar de olhos,
Prefiro não ficar cego por enquanto
e por enquanto se torna bastando,
Bastante, o bastante.
Basta antes.

Ando tão ocupado vendo,
Que não tenho tido tempo para envelhecer.
Como você, Renato Pacheco,
Por isso não lhe escrevi antes.
Antes foi o bastante.

A arte da guerra
é a da espera.
Temos de sobreviver por eras
à espera que o inimigo pereça
pelo mal que reside em seu destino e que o envenena,
Não por nossas mãos, pois em peçonhência a ele nos igualaríamos.

Tal como a cura psicanalítica,
Garantida em um prazo de duzentos anos,
Temos de sobreviver a ele
lutando a “guerra sem travá” do Ticumbi,
Pois na “guerra travada” com as armas do mal ele seria vencido no segundo
tornando-nos os herdeiros reais do reino decaído,
Paraíso perdido contra o qual nos voltamos
em revolta que lançamos contra ele tudo em volta.
Tudo volta.
Tudo volta em outros
miltons, renatos, vicos:
         — Em nós, seus filhos, em eterno retorno do viço. 

Em você, Renato, renasço o re-nato renascido
por mandinga trazida do berço Pendragon
étimo, étnico, genético, agônico,
A eles sobrevivendo se transformando em sabedoria
que vai além da livraria
com que te sepultariam
— se você coubesse dentro de uma poesia —
e de que você se livraria
com seu sorriso largo sábio aberto
que, anterior ao pensamento, o entenderia.

Renato renascido pela Palavra
do belo não é  o que se mata,
É o que ressurge da assassina faca
da  fênix que vem refazê-lo menino
para que possa cumprir o seu destino:

         — Renascer por autoconcepção
do saber

em moto-perpétuo partenogênese.

A arte da guerra é a da espera.
Temos de saber sobreviver por eras.
Estar no inferno sem desesperar
é o mesmo que estar no céu em espera.
Sabê-lo, eis o segredo
para se manter atualizado no degredo
do lar perpétuo.

A arte da guerra é a da espera.
Você continua ganhando o jogo.
Espere e verá.

Por eras, seguindo seu exemplo, não terei tempo para envelhecer,
Por eras, a arte da guerra foi e era a espera.
E a esperança não se desespera.
Espera, neném — ah, veja, olhe lá!
Abre-se a esfera da Terra:
         — A arte da guerra é a da espera!

Não tenho tempo para envelhecer.
A arte da guerra é a da espera.

Espera em paz.

Florianópolis-Trancoso, 11 de janeiro de 2005.