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domingo, 29 de abril de 2012

PEDRO DU BOIS: POEMA


(Felipe Góes)


VIVER

Não deixam
sua morte
expiar a culpa

fica vivo
e os dias passam lentos
em calendários repetidos

dizem da sua vida
o erro cometido
estão em sua porta
aberta ao mundo
real das entregas

pede à morte
o descanso
e tem o trabalho
das bruxas estéreis

estar vivo é a morte
resumida.

PEDRO DU BOIS: POEMA


(Felipe Góes)


HOJE

Hoje em portas abertas
fecho o sentido; sem contato
apago o trajeto; sem o agito
quebrado dos pedaços colo
a imagem ao sentido e repito
antiga música romanceada
em estradas percorridas; hoje
certo do regresso posto-me
à porta e com olhos de aguardo
anseio a visão do vulto
no alongar do trajeto; hoje
em respeito devido acolho
dúvidas e as espano
em limpas diretrizes; hoje
absorto na realidade da casa
fecho as portas e me recolho
no instinto anterior aposto
ao dia interior do futuro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

ENSAIO





ABSTRAÇÃO, FIGURAÇÃO E INTEGRAÇÃO: A PINTURA DE FELIPE GÓES





Hilton Valeriano





A arte é o invólucro da verdade.”




Se a arte é a forma visível da representação, o universo temático de Felipe Góes mostra-nos a simbiose entre a abstração e a figuração. Paisagens marcadas por uma luminosidade integradora de cores que proporcionam a impressão de anulação do expectador ante as cenas, ou seja, o sentimento pleno de estar inserido em um espaço de vivência não apreendido reflexivamente. Se no âmbito da fenomenologia a consciência encontra-se sempre em um estado intencional, a pintura de Felipe Góes nos leva ao questionamento da possibilidade de apreensão do real como vivência intencional da subjetividade. O “eu” como oposição ao meio – representado pelas cenas e paisagens – dissolve-se por não se delimitar como consciência reflexiva e sim como sentimento integrado. Uma característica peculiar de sua pintura gerada pelo jogo de cores ou ofuscação parcial de suas diferenças em um processo de luminosidade e leveza. Se for comum a alguns artistas revelarem seu intento, a obra de Felipe Góes traz em si a ocultação pelo jogo expressivo das cores e suas possibilidades de apreensão. Apreensão como vivência não reflexiva. Poderíamos dizer que sua arte não se encerra em um plano conceitual. Outra característica importante de sua pintura é a relação que se estabelece entre a parte abstrata e figurativa de suas telas. A figuração estabelece-se em uma planificação abstrata. Esse plano abstrato é responsável por engendrar a carga significativa da obra. Em suas cenas ou paisagens não há ruptura entre abstração e figuração e sim complementação semântica. Destaquemos alguns paradigmas estéticos de reflexão proporcionados por essa obra autêntica.




1 – As cores não devem apenas prover os sentidos, mas engendrar o sentimento de toda criação.



 A apreensão da obra em seu âmbito figurativo evidencia o plano criativo do artista, mas não como compreensão conceitual ou referência de estéticas que tenham influenciado o pintor em seu gesto criador. A apreensão se dá como participação intersubjetiva, como fruição estética decorrente da conjunção de cores e sua planificação.





2 – O plano figurativo de uma obra pode estruturar-se a partir de uma dimensão abstrata provedora de significação.


As paisagens ou figuras estruturam-se a partir da relação conjuntiva das cores e sua planificação abstrata. A dimensão abstrata apresenta-se como provedora da figuração e significação da obra.





3 – A apreensão de um universo temático como vivência não reflexiva.


O expectador é tomado pelo conjunto figurativo. O contato com a obra dá-se pela imersão vivencial. Vive-se a obra como figuração de uma realidade onde a consciência está imersa como parte integrada e não reflexiva.



4 – A obra como ocultação do intento do artista.


A conjunção entre dimensão abstrata e figurativa gera a multiplicidade de significação. Conseqüentemente o intento criativo do artista torna-se oculto ou obliterado pela vivência subjetiva do expectador.




5 – A obra como jogo de apreensão de vivências mediante a anulação do “eu” expectador.


Na pintura de Felipe Góes traça-se a anulação da consciência reflexiva em prol de uma vivência apreensiva da obra. A pintura de Felipe Góes não pode ser pensada antes de ser vivida em sua significação.





sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

STEFANNI MARION: POEMA


(Felipe Góes)


.mimeógrafo.

a zabê

ressurjo vivo neste surdo ladear
denso no arranha-céu da noite profunda.
- venha comigo, venha comigo.
sentir este senso, esta ternura
que atravessa e rasga profundo
nosso turvo melodrama juvenil.
não sentes a mesma dor em teu peito
vadiando pelos vasos de rubi?
cortinas sonoras encantam.
ouço que algo rumoreja
nas galáxias da mente onde guardo
teu corpo, tua alma e tudo de ti.
acetinado manto negro da noite
inventos de princípios cadavéricos.

água fria, água fria.
morrerias comigo, num verso e último apelo?
negra linha e agulhas pontiagudas,
costuraria suas desgraças em meu peito?
minha musa invernal
por tantos dias a sentirei
púbere mimeografada,
avistarei teus olhos nas alturas dos edifícios,
tua presença doce e lúcida teatral,
enquanto olharei a noite e lançarei
minhas palavras para que te encontrem,
sinto a transformação,
somos mulher, homem
entre gozos, flâmulas e tremores:
nossa inocência chega ao fim.

domingo, 20 de novembro de 2011

ENTREVISTA COM O PINTOR FELIPE GÓES






















1 – Quando ocorreu seu contato inicial com a pintura?



Desde a infância tenho interesse em criar coisas, construir objetos, desenhar e pintar. Recentemente, esse envolvimento com a pintura se intensificou e com isso veio a necessidade de compartilhar com os outros minha produção, ouvir opiniões, rever conceitos. Isso é essencial para o desenvolvimento do trabalho.


2 – Quais são suas influências no campo da pintura?

Refletindo sobre essa questão das influências – e sobre porquê algumas delas mudam com o tempo e outras continuam nos apoiando por longos períodos – vemos que o artista não é apenas passivo na absorção de influências, e que muitas vezes é ele que busca se influenciar por determinadas referências ao longo de sua trajetória.

Essas mudanças e permanências das referências importantes vêm da necessidade interna de cada trabalho ao se desenvolver.

Dito isso, e lembrando que estamos falando de pintura, a qual possui uma gigantesca tradição na história ocidental, meu trabalho é antes de tudo uma maneira de se relacionar com a tradição, mergulhar nesse caldo e depurar algo válido no processo.

Algumas influências que sempre me acompanham foram Rothko, Volpi e Guignard. Além destes, algumas referências importantes no inicio do meu trabalho foram Bram van Velde e Richard Diebenkorn.


3 – Você se filia a uma determinada corrente de pintura contemporânea?

Não tenho a ambição de provar algo ou convencer as pessoas através da arte. Acredito que meu trabalho possui a característica intrínseca de não carregar uma mensagem que possa ser instantaneamente interpretada e, portanto, qualquer noção de Corrente, Movimento, Manifesto (só para citar alguns termos) é externa à minha produção.

Porém, ao analisarmos a história da arte vemos que essa é formada basicamente por Escolas, Correntes e Movimentos. Portanto minha resposta hoje é negativa, mas posso estar equivocado devido à ausência de um necessário distanciamento histórico.


4 – Sua pintura mescla tanto dimensões figurativas quanto abstratas, e em muitos aspectos, parece mostrar uma continuidade em ambas as dimensões, como uma espécie de complementação estética. Como o abstrato e o figurativo se determinam em sua pintura?

Interessa-me transitar nessa zona ambígua onde parece que a narrativa está para se formar, mas que de fato não se viabiliza plenamente.

Parece que em meus últimos trabalhos existe uma noção de imagem, tão cara à sociedade contemporânea, mas que diferentemente do que acontece na publicidade ou nos programas de televisão, esta imagem não carrega um significado imediato, e dessa forma torna-se impossível seu consumo instantâneo enquanto mensagem.

Assim, esse embate entre figurativo e abstrato também pode se caracterizar como um embate entre a mensagem e o silêncio, sobre essa impossibilidade de dizer algo (ou a possibilidade de não dizer nada) mesmo que através de figuras reconhecíveis.


5 – A opção por cores vivas em suas telas parece mostrar a sobreposição do sentimento como diretriz do olhar em relação às diversas paisagens que compõem sua obra. Comente esse aspecto de sua pintura.

Creio que é a relação entre as cores que define meu programa de trabalho, e como você observou existe uma sobreposição da força da cor sobre a fragilidade do assunto.

Uma observação atenta sobre meu próprio trabalho leva-me a pensar que sua força não vem das cores individualmente, e que se nós pudéssemos analisá-las separadamente veríamos que elas não são tão vivas assim. Talvez sejam até meio desbotadas e lavadas.

Considerando o que comentamos anteriormente, parece que não existe interesse em dar respostas definitivas às grandes questões, mas uma noção de admiração e assombro, mais coerente com o território incerto da arte. Provavelmente é daí que vem esse interesse pela imensurabilidade da cor, que ilude e coloca a análise no plano do sensível, onde o desenho analítico é deturpado pela imperfeição das bordas de tinta.






quarta-feira, 16 de novembro de 2011

GALERIA FELIPE GÓES











"O princípio plástico dum quadro protege-o da exegese interessada."



Murilo Mendes