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segunda-feira, 1 de julho de 2013

JORGE ELIAS NETO: POEMA

(Hannah Höch)
 
O limite da razão
 
 
Os búzios
já não despejam ondas
e eu me despeço.
 
De resto,
somente uma
          suposição:
 
a questão passará a ser simples
quando dissermos: talvez...

JORGE ELIAS NETO: POEMA

(Raoul Hausmann)
 
 
 
Rebelde
 
 
Tardes perdidas existem
para que me negue
           aos teus caprichos.
Nelas, renuncio a tudo:
do alfabeto
aos sons
impregnados de incertezas.
O silêncio – pago adiantado.
Perdão é presságio de erro.
E o medo da solidão –
                  um desperdício.

JORGE ELIAS NETO: POEMA

(Paul Klee)
 
 
Nuage
 
 
Jamais percebi o tamanho
de tua sombra.
                         Mas, em certos dias,
          como hoje,
ela preenche
          a imensidão
                         do horizonte.

JORGE ELIAS NETO: POEMA

(Vermeer)
 
 
Politeísmo
 
Costumam rir dos meus Deuses
 
 
Antes que o Céu
           se incumbisse
do sumiço das estrelas
o menino desenhou
um Sol para cada País.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Alfredo Volpi)
 
 
 
Ode à bandeira
 
 
 
 
 
                                                                    Para Jorge Tufic
 
 
 
 
 
                                             
 
                                                 Verde, amarelo, azul
 
                                                                                 e branco
 
 
 
 
 
Nosso foco míope,
 
nesse dezembro escarlate
 
   ‒ com suas horas retintas ‒ ,
 
ignora a aurora,
 
despreza a lona do circo austral
 
de estrelas
 
impregnando o azul da Nação
 
com                     a face
 
perdida na orgia.
 
 
 
E, essa,
 
desfigurada,
 
revisita seus mortos,
 
homens,
 
pássaros,
 
plumagens,
 
                  poesia desgastada.
 
E estendida a flâmula
 
sobre o bastião da América
 
ensaia o remendo
 
do pavilhão desfeito.
 
 
 
Há de combinar auroras,
 
madrigais
 
sob parcas velas,
 
Sol à pino
 
de soberbas musas,
 
o azul do estio
 
agreste,
 
pinceladas anis
 
de Portinari,
 
festivas bandeirolas de Volpi,
 
flores de Bracher
 
e o olhar fulminante
 
dos santos de Solha.
 
Há de buscar o irrealizado,
 
e cobrir a poalha
 
estendida sobre a consciência.
 
 
 
Há de desfazer
 
o irremediável
 
suspiro das águas
 
baças de espuma,
 
cravejadas de plásticos
 
que refringem o sol
 
e sufocam os peixes.
 
Há de refazer a sinuosidade
 
secular dos rios,
 
que ardem sufocados
 
pelas mantas de concretos.
 
Fazer brotar as piracemas,
 
de escamas furtacor,
 
a gargalhar inocência.
 
Há de curar a mágoa
 
de Iracema –
 
distribuir oferendas
 
de contas nos remansos
 
a se transmutar
 
em coachar noturno.
 
 
 
Há de dourar
 
as negras coxas
 
com grilhões
 
de justiça,
 
desnortear o rumo dos
 
igarapés
 
no descaminho
 
das borboletas amarelas.
 
Há de escorrer
 
ouro das falésias
 
no Atlântico            sem fim.
 
 
 
Há de distribuir
 
o santo daime
 
na celebração das ocas,
 
polvilhar o verde
 
nas loucas esquinas
 
da miséria.
 
Preencher a atmosfera
 
com paragens bucólicas
 
onde o carvão
 
se regenere em matas
 
e os germes
 
pereçam sob a guarda
 
das harpias.
 
 
 
Há de perder-se
 
na remora 
 
das paisagens
 
e sentir-se
 
             terra.


domingo, 30 de setembro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Modigliani)
 
 
Na paisagem doméstica
 
 
E se dissesse: fica ...
 
Varreríamos de vez
nossas obscenidades
ou deixaríamos estendido
sobre o chão de casa
esse falso tapete de culpas?
 
Vê essas garrafas enfileiradas?
Os silêncios
que rasguei das paredes
colei nos gargalos
          em que me perdi.
Na profundeza úmida,
resta, olvidado, seu nome.


JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Marc Chagall)
 
 
Borgiana II
 
 
Repousa o veludo da pele,
        tigre selvagem,
nessa distante gleba
à qual chegaste
por caminhos incertos.
 
Lembranças grisalhas,
        velho tigre ...
Compartilho teus dentes
        nada castos...
 
Restou-nos o passado...
E suas páginas
de bordas marcadas.
Sempre reviradas,
        velho tigre,
para não esquecer os outros dias.
 
(O que nos resta quando o orvalho
            se perde no esquecimento?)
 
Nas catedrais, teu ouro roubado.
Depois raspado dos pilares
para cobrir os dentes.
Como se sorrir dourado
os fizesse arremedo de gente...
 
(Quanto de tua mordedura
            permeia nossos sonhos?)
 
Não se traduz o mistério
de tuas escápulas,
nem a névoa em teus olhos...
Quem sabe a milonga nos taquarais
ou tuas listras obliquas
resistam ao imprevisível fim.
 
           Tardam as horas ...
Cada expectativa tem teu cheiro
e se esforça para caber no poema.
 

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(William Blake)
 
 
 
Borgiana I
 
 
Atiro os cacos
do espelho partido.
Busco-os no chão,
onde as imagens se dispersaram.
 
Com o que resta na moldura,
brinco de cortar os dedos
encaixando respostas
no rosto trincado.
 
E, se, no entanto, a figura
se assemelha ao medo,
remisturo todo
o ser desfigurado.
 
Pois a faina louca
de remexer segredos
fez-me encontrar as sombras
dos dias passados.
 
 


sábado, 1 de setembro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Jusepe di Ribera)
 
 
 
Do que prende os pés dos sonhos
 
 
 
Esguios germes,
arcanos dos polos,
de imensas geleiras.
Procriando na
neve espessa,
retardam o caminhar
dos insistentes.
(A maior morte,
        em vida,
é a impossibilidade.)
 
 
 
 
 
 


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

JORGE ELIAS NETO: SONETO

 
(W.J Solha)
 
 
 
Soneto para apaziguar borboletas
 
 
Para W. J Solha
 
 
A sombra é neutra, e desandado o escuro,
 
e, se não há certezas, há o adeus,
 
da emoção que dura ao saber-se nulo
 
o testemunho erguido de um deus.
 
 
E se silente a cama – à procura
 
da insignificância hirta e desperta –
 
oferecer leito e cocho à loucura,
 
dizer-se talvez louco, mas alerta.
 
 
O chão é leito tosco, mas correto
 
a todo ser avesso a esperança,
 
àquele que titubeia e tropeça,
 
 
na pedra desolada e, sim, temida
 
que rola o descaminho, sem inércia.
 
Salvam-lhe a vida as asas de poeta.
 
 
 
Vitória, 25 de agosto de 2012
 
 
 


domingo, 24 de junho de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(Piero Dorazio)


Rês


Para José Augusto Carvalho


Eis

o meteoro

da impaciência

que destrincha a carne,

que fratura

o tempo e

me descobre

tenro,

palatável,

em meio

aos estilhaços

da urgência.



Nutrido

em úbere

divino,

resfriado nas

evidências da razão

       – que não basta.


sábado, 23 de junho de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(Monet)



Fração do indizível




O branco desse gelo

é todo poema ―

verdade possível.


Entre o amor,

e outras alucinações,

o inefável me acena

caridoso.


(A grande face

e sua biografia

de renuncias

e equívocos.)


Minha distância

não é exercício de retórica,

apontamento

de um ególatra,

tons pastéis despejados

na boca de lobo.


Não há indiferença

quando parto

e retribuo

o aceno.

terça-feira, 8 de maio de 2012

JORGE ELIAS NETO: UM POEMA INÉDITO


(Caravaggio)

Discurso para o cadáver

Teus olhos
não mentem,
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida –
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.

Do exato
ponto
que se parte
– se esquece–
o espectro
da carne
                   – do irremediável.

Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
– questão alheia –
(prevalecerá a vontade
               do Universo.)

Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.

Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos
ao lançar os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.

E o que disse
da memória ...
A memória sem lar,
desnecessária,
posto a ausência
cúmplice.

Se pudesse
te acenderia um cigarro...
Deixaria a guimba
                        pendurada
em teus lábios.

(Como é bela e
                              inútil
a última
                   centelha...)

Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade
                         despeja
suas crias.)

Vestirei a máscara
e restarei
um momento – breve –
(o tempo de observar a indecisão
das chamas perante o choro
                        humano.)


Vitoria, 05 de maio de 2012



terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(Paul Klee)


Cronópio

Para os cronopianos e Cortázar

Sou o fiel

depositário

de um

torrão de açúcar.

 
Guardei

um tanto

de giz

entre as unhas

(pó de palavras)

 
e essa lasca

de marfim

do túmulo profanado

dos paquidermes.

 
Isso basta,

na trégua

precária

no gargalo

desse vulcão

que hiberna

em estado de

flor.


Polvilho

as relíquias

pois ignoro

a espessura

das trevas.

 
O inverno é longo

– o bastante –

para que a neve

reaga a esses

rudimentos de liberdade

extinta.

 
Haverá um tempo

de degelo,

águas e

correntezas;

de uma outra

dimensão

por detrás

dessa moldura

vazada.

 
Caronte

aguarda

o sal da

terra.


Os demônios

(e os cronópios)

sempre souberam

que para o sobrevivente

a primeira qualidade

do sonho

é ser corruptível.