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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

JORGE DE LIMA: SONETOS II

(Mosteiro dos Jerônimos)




Em que distância de ontem te modulo,
mundo de relativos compromissos?
Novas larvas e germes em casulo,
novos santos e monges e noviços.

Não máscaras nos olhos. Nem simulo.
Eu era pião, já vão evos mortiços
naquele calendário agora nulo,
com seus cerimoniais de escuros viços.

Recordas-te do afim, teu rei colaço?
Lembras-te dele em queda? Céus dos dias
com luzeiros – incêndios, lumes de aço.

E tu, grande Lusbel, guia dos guias
para reinar perdeste-me também
a mim que fui o espelho em que te vias.


***

Sinto-me salivado pelo Verbo,
rodeado de presenças e mensagens,
de santuários falhados e de quedas,
de obstáculos, de limbos e de muros.

Furo as noites e vejo-te, Solstício,
ou recolho-me ao âmago das coisas,
renovo um sacrifício expiatório,
lavo as palavras como lavo as mãos.

Esta é a zona sem mar e sem distância,
Solidão, sumidouro, barro-vivo,
barro em que reconstruo sangues e vozes.

Não quero interromper-me nem findar-me.
Desejo respirar-me no Teu sopro,
aparecer-me em Ti, continuado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

JORGE DE LIMA: SONETOS

(Bosch)






Sei teu grito profundo, e não me animo
a cortar a raiz que aTi me embasa.
Em mão mais primitiva não me arrimo
devo-Te tudo, origem, patas e asas.

Permite que eu revele história e limo
sem desobedecer a Tua casa.
Nazareno dos lagos, lume primo,
atende à pobre enguia de águas rasas.

Se desses versos outro lume alar-se
misturado com os Teus em joio e trigo,
sete vezes por sete me perdoa.

Ó Desnudado, é meu todo o disfarce
em revelar os tempos que persigo
– na vazante maré com inversa proa.


***


Eu te sinto pecado original
não só corroendo ainda os meus tecidos
porém intumescendo-me com a lava
do orgulho em que um arcanjo se abrasou.

Para me dominares a alma escrava
entorpeces-me todos os sentidos,
crânio, tórax, abdômen, membros, sexo,
tudo é uma gorda empola alta e convexa.

Mudas depois meu crânio, tronco e membros:
a boca em tromba, espádua em asas negras
sorriso, em gargalhada má. Lusbel,

vês que a minha figura se assemelha
à tua, tu que foste o meu modelo
orgulhoso da luz que me cegou.


sábado, 5 de dezembro de 2009

JORGE DE LIMA: A ESSÊNCIA CRISTÃ DA POESIA III


33

Vim para dar-te notícias deste mundo, sombra amiga, e eis que meus companheiros se deitam e se levantam ensangüentados como o sol. Já não acertam chamar-te com teu nome terrestre, pois seus lábios estão mais lívidos que o sangue dos mortos.
Corre entre o ar e o homem uma cantiga urdida de sortilégios: em cada coisa vivente a destruição começou.
Vim pára dar-te notícias, e eis que minha voz reboa com tais dimensões desconhecidas que me parece um pássaro de espanto.
Murmuro tua alegria, nesta aba de deserto: mas o eco total do mundo me estremece.
Pende teu ouvido para que eu nele me infunda e te diga: “Intercede para que renasçam as memórias abolidas dos itinerários de ascensão.”
Não há maior castigo do que a dúvida de possuir-se um coração mortal em holocausto à sanha dos irmãos.
Nem pena mais funda que esta de nos sentirmos mais travosos que as raízes.
Pende mais o ouvido: “Estamos confundindo o medo com a humildade ou mesmo com o frio deste inverno perene.”
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.
As poderosas nações trituram o hálito entre os dentes.
Vozes vindas de rasgados confins começaram a imprecar desde ontem.
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.

35

Estes cinco pães e estes cinco peixes
são semelhantes a todos os pães e a todos os peixes deste mundo.
Distribuo-os a cinco fomes semelhantes;
a todas as fomes absolutamente semelhantes no mundo.
Às fomes dos cinco continentes, às fomes dos cinco mundos espoliados
pelos cinco demônios ladrões de peixes e de pães.
Em minhas mãos estes cinco peixes representam
um oceano salgado de lágrimas.
E estes cinco pães são como cinco trigais devastados pelo fogo das guerras.
Há um momento em que das hastes do trigo
brotam pães semelhantes a peixes;
e os trigais oscilam,
como vagas de mãos acenando para os céus.
Desce dos céus trigo para as almas famintas de peixes
que voam como peixes-voadores sobre os mares encapelados
– mares encapelados, semelhantes
a trigais ondulantes em que voam pombas,
– pombas semelhantes ao Paráclito,
ao Peixe Voador,
ao Cristo,
ao Cristo multiplicado e distribuído em mim.

Jorge de Lima, Anunciação e Encontro de Mira-Celi. Ed. Nova Aguilar

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

JORGE DE LIMA: A ESSÊNCIA CRISTÃ DA POESIA II


O HOMEM – SER PROCESSIONAL

Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te protege.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti – perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti – seres anteriores a ti, – luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono – invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.


A MULTIPLICAÇÃO DA CRIATURA

Parece, Senhor, que me desdobrei,
que me multipliquei,
que a chuva dos céus cai dentro de minhas mãos,
que os ruídos do mundo gemem nos meus ouvidos,
que batem trigo, chorando, sobre o meu tronco nu,
que cidades se incendeiam dentro de minhas órbitas.
Parece, Senhor, que as noites escurecem dentro de meu ser múltiplo,
que eu falo sem querer por todos os meus irmãos,
que eu ando cada vez mais em procura de Ti.
Parece, Senhor, que tu me alongaste os braços
à procura de abóbadas raras e iluminadas,
que me estiraste os pés repousantes no Limbo,
que os pássaros cansados em meus ombros repousam
sem saber que o espantalho é a semelhança Tua.
Parece que em minhas veias
correm rios noturnos
em que barqueiros remam contra marés montantes.
Parece que em minha sombra
o sol desponta e se deita,
e minha sombra e meu ser
valem um minuto em Ti.


CONTEMPLAÇÃO

Se és cego de nascença ou cegaste lutando, crê!
E então a visão voltará; e tu hás de sofrer vendo sofrer o mundo;
porém, pede mais, pede contemplação:
E a grande Face descerá quando dormires, e ficarás um ser estranho,
com cem órbitas cobrindo tua pele bruta;
e não poderás caminhar mais entre os homens para não
os atropelares com tuas visões terríveis,
com as rodas aladas que te transportarão aos montes
onde as sarças sagradas ardem sob o divino Rosto.
Mas o fogo do Inferno há de vir te caldear
ou te extinguir ou te experimentar também.
E serás entregue aos areais desertos
que arderão a teus pés com uma fogueira imensa.
E se não te desviares da divina Presença
serás o aço de Deus,
serás o espelho divino
que refletirá a luz sobre o mundo apagado.


A MORTE DOS ELEMENTOS

E há de vir um dia em que a Terra que acolheu teu cadáver
será vazia como um cemitério.
E da água que te batizou e te matou a sede não restará uma gota.
E o ar não envolverá a terra nem as águas;
e junto aos três elementos que tantas vezes na Vida
nem te deram prazer, nem te deram pesar,
indiferentes a ti como se não existissem;
só o fogo, o forte fogo invencível
pode acompanhar teu espírito e envolvê-lo.
E chorarás em vão e rangerás teus dentes.


DAS PROFUNDEZAS DO PECADO ORIGINAL

Ó pais primitivos que das profundezas do pecado original
me transmitistes o vosso sangue revoltado
que corre nas minhas vísceras,
que corrompe as minhas mãos,
que cega os meus olhos e o meu entendimento,
quanto vos sou semelhante, como sou uma perfeita imitação de vós,
como morro de vossa morte, como sofro de vossa ambição,
como me pertence o vosso erro!
Na noite tenebrosa em que me pusestes, ó pais errantes e pródigos,
me transmitistes a dúvida no Senhor,
me ocultastes a Face do Senhor, e perdestes a casa
para onde eu devia voltar!
Ó pais primitivos,
que me enviastes para uma existência que eu não solicitei,
e para a qual cheguei nu, humilhado e chorando,
eu vos perdôo pelo sangue de Cristo que me obrigastes a derramar,
pela traição de Judas meu irmão e teu filho,
pela negra expiação que me esmaga na Terra!


RESTITUO-ME

Estende a Tua mão, agora, que ninguém notará:
sem desespero e sem mágoa me restituirei a Ti.
Não te devolverei minha Figura sangrando,
nem também paralisada sob o sopro da morte:
Mas os pés fatigados de tanto caminho errado,
mas as mãos abatidas de tanta procura vã,
mas os olhos sem brilho que adiante das mãos viram a decepção.
Estende a Tua imensa Mão e ninguém notará
que entre milhões de homens,
um Elias anônimo, sem função no teu reino
desapareceu para sempre
sufocado de pó, sobre um tufão de cinzas.


A PROMESSA

O Sumo Sacerdote, o Principal, o Majestoso Oficiante,
o Bispo, o Presbítero estavam no Padre Único que subiu para o Altar.
Era belo, era meigo, era homem e era Deus,
era um ângulo da Trindade enfincado na Pedra
como um cometa imenso iluminado a Terra.
E detrás do imenso altar,
vozes o acusaram, mãos surgiram e lhe transpassaram o peito.
E o Majestoso Oficiante se transformara em vítima;
e nas mãos que o sacrificavam
estavam as suas próprias mãos que eram as mãos do Pai,
com a promessa milenar que se cumpria então.


O VENTRÍLOQUO

Debruça-te sobre tua voz para escutá-la:
tua voz existiu antes de tua forma.
Se o alarido do mundo não te permite entendê-la,
vai para o deserto,
e então a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo
e com a fecundidade do Gênese ante o Fiat do Pai.
Ouve a tua voz sobre a montanha para que o divino eco
atravesse os milênios
e reboe dentro de ti que és o templo de Deus!
Na tua voz adulta ainda existe o acalanto de tua ama
e o balanço de teu berço.
Ainda há apelos que vêm da alcova de teus pais,
ainda há os convites do instinto de tua juventude.
Debruça-te sobre tua voz e escuta as vozes que vêm nela,
as ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo,
os bramidos dos ventos nas tuas velas rotas,
a risada do diabo diante de teus desastres.
Ouve a tua voz entre as massas humanas
que como o mar se tornarão fecundas
e espalharão a palavra do Livro
pelas águas e pelos continentes.


MARTA E MARIA

Tu tens nas tuas mãos as duas irmãs de Cristo:
a que escreve, a que trabalha, a que propaga a palavra
divina, a que louva e proclama a sua glória e a sua
poesia; e a que silenciosamente ampara a tua fronte pendida
onde irão cravar uma coroa de espinhos.


ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS

À senhora Heitor Usai

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão – que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
sai entre os seus dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do Inferno!

Poemas de A túnica inconsútil. Ed. Nova Aguilar

sábado, 28 de novembro de 2009

JORGE DE LIMA: A ESSÊNCIA CRISTÃ DA POESIA


TARDE OCULTA NO TEMPO

O andarilho sem destino reparou então
que seus sapatos tinham a poeira indiferente
de todas as pátrias pitorescas;
e que seus olhos conservavam as noites e os dias
dos climas mais vários do universo;
e que suas mãos se agitaram em adeuses
a milhares da cais sem saudades e amigos;
e que todo o seu corpo tinha conhecido
as mil mulheres que Salomão deixou.
E o andarilho sem destino viu
que não conhecia a Tarde que está oculta no tempo
sem paisagens terrenas, sem turismos, sem povos,
mas com a vastidão infinita onde os horizontes
são as nuvens que fogem.


ACEITO AS GRANDES PALAVRAS

Aceito as grandes palavras eficazes
e os caminhos que Deus pôs diante de mim.
Aceito o sangue derramado se é necessário
para levantar o pobre.
(Minha meditação me queima, Senhor!
Mas me deixai falar para me desafogar.)
Aceito a oração para mim e para distribuí-la como pão.
(Minha meditação me queima, dai-me água
para me dessedentar.)
Aceito a não importância da vida.
(Senhor, pegai minha mão para não me matar.)
Aceito os dias com seus cinemas, seus bonds,
seus flirts, suas praias de banho, sua atualidade.
Mas deixai-me ver no meio dessa conturbação
o que está acima do tempo, o que é imutável.
Senhor, estou cansado, quero descansar.


SOU PARA ME SALVAR SOBRE AS TÁBUAS DA LEI

Não sou só para comer trigo.
Sou para cair e para me levantar,
para viver e para não ligar à vida
nem à morte nem ao tempo
nem às águas paradas
que apodrecem dentro dele.
A mansão de meu pai tem muitas casas:
a nostalgia dessas casas mora em mim.
Sou para procurar roteiros no mar,
para me arrepender e me salvar,
para anunciar como um profeta
e negar três vezes antes do galo cantar.
Sou para me enlamear no mundo e para me lavar na luz.
Sou para me afundar nos pecados mortais.
E para me salvar sobre as tábuas da Lei.


O POETA VENCE O TEMPO

Já não vejo mais a paisagem de plantas carnívoras.
Levadas pelos riachos a água velha canta de novo.
A relva ignora sua tragédia e alteia as folhas inocentes.
Regresso ao teu tempo, Davi.
Como tu tenho harpa e tenho Deus.
E num dia Bíblico assim
fora dos tempos duros
posso voltar às origens,
e sentir como tu
que sou mais forte que o rei,
mais forte que todos os Golias.
Mas não sei como tu
distinguir se essa estrela claríssima
é a estrela da manhã
ou se é mesmo a poesia
que nós vemos no céu
– antecedente e posterior a tudo.


OS QUE VIRÃO NOS CAMELOS

Pobres de espírito os que julgam a Lei pelos homens da lei,
a Igreja pelos homens da Igreja,
a eternidade por um trapo de tempo.
Pobres os que não têm perspectiva
e são fortes de ódio para dominar.
Pobres os que iluminam os falsos dias
e são fugazes como as tempestades.
Pobres os que enfraquecem o espírito
e não têm joelhos para ajoelhar.
Pobres os que não passarão
onde os camelos atravessarão.
Pobres os que não vêem o que ficou atrás,
e o que há de vir, quando as portas baterem.
Pobres os que não conhecem
um minuto sequer de poesia.
Pobres esses pobrezinhos.
Misericórdia, Senhor, para esses pobres.


O TORMENTO

Na sétima lua edifiquei a porta grande da casa do Senhor
e mandei traçar nos muros exteriores os exemplos do céu.
E ensombrei de nuvens gordas o recinto dos povos.
Quebrei as estátuas de Baal, para evitar as calamidades surdas,
equipei as frotas sagradas e mandei-as partir:
renovei a aliança com a suprema Presença,
e ela uma noite me ofereceu um sinal.
Compreendi a grande significação dos mistérios
para saber que nesse mundo apagado,
as verdades são nulas, o real está além.
Mandei buscar num país muito longe
o filho dum ourives para gravar silêncios.
Abri o livro diante do povo
pensando que o povo estava no nível do Alto.
Mas o povo não pôde enxergar os silêncios do livro.
Nem suportar a claridade esquisita que das páginas saía.
Baixei a cabeça no maior dos desânimos.
E o tempo me chamou para morrer.
A eternidade me chamou para viver: irei.

(Poemas de Tempo e Eternidade. Ed. Nova Aguilar)