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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MARIEL REIS: POEMA

 
(Renoir)
 

O Banho
 
 
 
Ao longo dos braços brancos
 
As marcas dos meus desejos,
 
Todas sulcadas: pequeno riacho
 
Por onde escorre a água do batismo
 
Do meu amor tardio que se calava.
 
 
 
Sobre o ventre macio se formava
 
Uma pequena ilha onde me refugiava,
 
As ondas mornas partiam a cada movimento
 
Das suas mãos espadanando como peixes
 
Que invadiam as minhas madrugadas.
 
 
 
O esmalte da banheira em que você deitava
 
Os pés apoiados em sua borda como plantas,
 
E sua voz ensangüentada. E a água resvalava
 
Por seus seios, instalada como em uma varanda
 
Eu escrevia meus anseios em uma tábua
 
 
 
Tal profeta que nada soubesse sobre a tarde
 
Que descia discreta sobre as suas pálpebras,
 
E descesse à floresta submersa e de lá arrancasse
 
As hordas em disparada dos deslumbramentos
 
Refletidas em sua fronte prateada.
 
 
 
Ao longo dos seus bocejos esvoaçam tranqüilos
 
O bando de nuvens estacionado em seus olhos,
 
De sua boca levemente escorrem os salmos
 
Dos navios desembocados na morte e lá o aviso,
 
Para os que escaparam de tal sorte:
 
 
 
“Desvia-te, ó peregrino, de terras movediças”.

terça-feira, 24 de julho de 2012

OLAVO BILAC: SONETO


(Renoir)


XXXI

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.


sábado, 16 de junho de 2012

FRANCISCO CARVALHO: POEMA


(Renoir)

HERÓI

Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.

Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
— Não é o aventureiro que fez xixi na lua.

— Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.

sábado, 24 de abril de 2010

O POETA GUSTAVO FELICÍSSIMO

(Renoir)
GUSTAVO FELICÍSSIMO

É natural de Marília, interior de São Paulo, mas está radicado na Bahia desde 1993. Seus poemas aqui apresentados seguem o molde da Retranca, forma fixa criado pelo poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo e da qual Felicíssimo é um dos mais importantes cultores no momento.


Os meus poemas

Vão meus poemas, todos eles,
para os que são, mas não se encontram,
para os que avançam e se perdem,
para os que vivem e se matam;

mas que assim sendo permanecem
feito os frutos que não perecem;

neles não há nada de novo,
nenhuma trama ou relevância,
neles não há nada de novo:

em meus poemas vejo apenas
o bálsamo de auroras plenas.


Senda

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo

a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta;

trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.


Piano

Arrebata-me ao pôr-do-sol
o som de um piano distante;
sua canção, que desconheço,
trás magia por um instante;

entra pela porta e janela,
faz do aposento passarela

enquanto uma réstia de luz
cintila sobre o meu poema
que nesse momento transluz:

à folha toda iluminada
não cabe acrescentar mais nada.


Gustavo Felicíssimo é poeta e ensaísta, tendo diversos artigos publicados na imprensa brasileira e sites especializados em literatura, mas em livro permanece inédito. Fundou, juntamente com outros escritores, o tablóide literário SOPA, em Salvador, do qual foi seu editor. Organizou e fez publicar “Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna”, uma mostra dos novos autores da região cacaueira da Bahia.
Graduando em Letras, UESC, atua como preparador de textos e revisor para editoras e poetas. Seu primeiro livro de poesia, “Revelação & Outros Poemas”, será lançado ainda neste ano. Venceu o Prêmio Bahia de Todas as Letras, edição 2009, em duas categorias, Poesia e Literatura de Cordel.
Edita o blog Sopa de Poesia, cujo endereço virtual é: http://www.sopadepoesia.blogspot.com/

quarta-feira, 17 de março de 2010

UM POEMA DE BERNARDO LINHARES

(Renoir)


LUAU

Num mar tranqüilo de fim de tarde
o vento sopra a vela do dia,
a noite penetra pela fresta,
onírica, sim, ela suspira.
Adormecida sonha com anjos,
no silêncio do sem-fim desperta
nova e nua.Abraçando o oceano
no quarto crescente curva em arco
e toda inteira, recheada em chamas,
o vento lambe os seus fios dourados.

terça-feira, 16 de março de 2010

UM POEMA DE LARA BARROS

(Renoir)



INCÓLUMES PASSOS

Era uma manhã de domingo ensolarado, pela janela avistavam-se pombos e periquitos alçando vôos longínquos, com os pés ainda nus, correndo por entre passos alvoroçados, nada lineares, seus pés foram atingidos de forma súbita, por um furo de uma flerpa bendita que lhe trouxe a reflexão da necessidade de caminhar com mansidão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O NU II

(Renoir)
Se o nu é menos um “tema” da arte do que um de seus territórios essenciais, é que o erotismo encontra na obra de arte sua necessária e legítima presença (até na arte mais modesta, tal como as esposas nuas pintadas no interior dos baús de casamento, na Idade Média). O nu suscita uma emoção específica; é com o nosso próprio corpo de carne que o percebemos, e as sensações que agitam nosso ser multiplicam, sublimando-a, a emoção erótica que o nu nos proporciona. Por sua formação, a glorificação dessa matéria viva com a qual o espectador também é modelado reconcilia-o com seu próprio corpo; contemplar um nu apazigua o desejo e confere ao olhar uma serenidade que a presença imediata de uma nudez proíbe; através da miragem da imortalidade de um corpo penetrado de espiritualidade, o nu parece revelar a ordem e a harmonia do mundo.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus

O NU

(Renoir)
Se a nudez é uma experiência naturalista, o nu é um conceito de arte. O rosto de um corpo despido deixa de ser o pólo de atração da vida expressiva, ele já não exprime tudo: perplexo, nosso olhar não sabe onde pousar. Além disso, ameaçada por suas próprias desordens e profundamente perturbadora, pois anuncia a embriaguez ou a violência dos prazeres possíveis que o cerimonial da roupa e dos adornos já não atenua, a nudez é reformulada pelo olhar da arte para se tornar o Nu. Adorno que aderiria à totalidade de um corpo, apresentação melódica da nudez remodelada, o nu artístico é enfim o corpo seguro de si mesmo e por isso oferecido sem reservas ao divino prazer da contemplação.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009