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domingo, 10 de março de 2013

OMAR KHAYYAM: POEMA


(Ivan Bilibin)
 
 
Rubai 12
 
 
Lancei minh’alma além da Terra e do Infinito
 A procurar o Céu e o Inferno, a esmo.
 Quando voltou a mim, disse num grito:
 “O Céu e o Inferno estão dentro em ti mesmo.”
 
 
Trad. Ivo Barroso
 
 


OMAR KHAYYAM: POEMA

 
(Ivan Bilibin)
 
 
Rubai 5
 
 
Procura ser feliz ainda hoje;
 Nada sabes do dia de amanhã!
 Toma uma urna de vinho e foge
 Da ciência, limitada e vã.
 E antes que o dia de todo se acabe,
 Escuta, ao luar, esta sábia canção:
 “Amanhã, talvez, quem sabe?
 te procure a Lua em vão!”
 
 
Trad. Ivo Barroso
 
 

sábado, 9 de março de 2013

OMAR KHAYYAM: POEMA




Rubai 9

 

 

Eu considero vil o coração

 Que, sendo incapaz de amar, não pode

 Conhecer o delírio da paixão,

 O amor brutal que explode

 Em chamas

 E nem o beijo — essa divina

 Esmola.

 Se não amas

 És indigno do Sol que te ilumina

 E da Lua que à noite te consola.

 

 

Trad. Ivo Barroso

 


 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

GIACOMO LEOPARDI: POEMA





CANTO XII - O INFINITO


Sempre caro me foi este ermo outeiro,

e aquela sebe, que em tão grande parte

do horizonte final o olhar exclui.

Mas sentado, a mirar intermináveis

espaços além desses, sobre-humanos

silêncios e sossegos profundíssimos,

me afundo no pensar, onde por pouco

meu coração não se amedronta. E, como

ouço o vento roçar contra estas plantas,

o silêncio infinito comparando

vou a tal voz: e sobrevêm-me o eterno,

as mortas estações, mais a presente

e viva, e o seu rumor. Assim, por esta

imensidade o meu pensar se afoga:

e o naufragar me é doce neste mar.

 (Tradução de Renato Suttana)


 
Sempre caro mi fu quest'ermo colle,

e questa siepe, che da tanta parte

dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.

 Ma sedendo e mirando, interminati

spazi di là da quella, e sovrumani

silenzi, e profondissima quïete

io nel pensier mi fingo, ove per poco

il cor non si spaura. E come il vento

odo stormir tra queste piante, io quello

 infinito silenzio a questa voce

vo comparando: e mi sovvien l'eterno,

e le morte stagioni, e la presente

e viva, e il suon di lei. Così tra questa

immensità s'annega il pensier mio:

e il naufragar m'è dolce in questo mare»









terça-feira, 17 de julho de 2012

A PUNIÇÃO DOS DEMÔNIOS




Assim como o ferro sai queimando da forma totalmente branco e em brasa, aquecendo o ar e tudo o que toca, da mesma forma, e muito mais fortemente, existe pena e malícia nos demônios, que são objetos dos atos de suas potências. Pois assim como o fogo, a água, o ar e a terra contrastam-se por corrupção nos corpos do homem doente ou morto, da mesma forma, e muito mais, contrastam-se a memória, o entendimento e a vontade no demônio, e em tal contraste existe paixão em toda aquela entidade, que supõe tudo o que sua memória lembra, seu entendimento entende e sua vontade odeia. Logo, como sua memória lembra, seu entendimento entende e sua vontade desama tantos objetos, quem pode considerar esta pena? E quem pode considerar o tempo sem fim que convém àquela pena durar incessantemente?

A pena espiritual é amar o mal em seu inimigo e saber existir naquele um grande bem, e também querer multiplicar o mal onde está multiplicado o bem. Os demônios têm esta pena, porque desamam todo o bem nos anjos benignos e nos homens justos. Por isso, têm pena, porque os desamam no bem e os amam no mal. Tal pena existe pela segunda intenção pois eles foram criados para que pela segunda intenção amassem-nos e pela primeira intenção amassem a Deus.

Os demônios têm pena pelo mal que os homens pecadores cometem, pois desejariam que tal mal fosse maior. E como o entendimento entende que quanto maior mal faz o demônio, mais cresce sua pena pela Justiça. Por isso, pela pena, sua vontade deseja fazer o mal, têm pena pelo mal não ser maior, porque seu entendimento entende o mal e porque não entende uma mal maior. Logo, como isso é uma pena tão grande, falta contar o trabalho que os demônios sustentam e que são contrários à Justiça de Deus.



Ramon Llull. O Livro dos Anjos. Trad. Eliane Ventorim e Prof. Dr. Ricardo Costa.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

ARTHUR RIMBAUD: POEMA


(William Turner)



A ETERNIDADE

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.

Alma sentinela
Murmura teu rogo
De noite tão nula
E um dia de fogo.

A humanos sufrágios,
E impulsos comuns
Que então te avantajes
E voes segundo...

Pois que apenas delas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
Sem dizer-se: enfim.

Nada de esperança,
E nenhum oriétur.
Ciência em paciência,
Só o suplício é certo.

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.


Maio de 1872.


Trad. Ivo Barroso



L’ÉTERNITÉ

Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour em feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise: enfin.

Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.


Mai 1872.




domingo, 24 de junho de 2012

WILLIAM BLAKE: POEMA




O TYGRE


Tygre Tygre, Brilhante brasido
Nas florestas do anoitecido,
Que imortal olho ou mão conseguiria
Conceber tua cruel simetria?

Em quais distantes descidas ou céus
Brilhou o fogo nos olhos teus?
Em que asas desafiou seu vogo?
Que mão desafiou segurar o fogo?

Que ânimo, & que arte, tem poder
Pra do teu cor os tendões torcer?
E ao começar a soar teu coração,
Que drásticos pés, & drásticas mãos?

Qual o martelo? qual a corrente?
Em que fornaça se fez tua mente?

Qual a bigorna? que drástica presa
Desafiou seu danoso terror tesa?

Quando os astros setas soltaram,
E o céu com suas lágrimas molharam,
Ele sorriu ao ver o que obrou?
Quem moldou o Carneiro, te moldou?

Tygre! Tygre! Brilhante brasido
Nas florestas do anoitecido,
Que imortal olho ou mão desafiaria
Conceber tua cruel simetria?

 (Tradução: Joedson Adriano)

THE TYGER:
 
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the fire?
 
 
And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

 
 
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

 
 
When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

 
 
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


SHELLEY: POEMA




OZYMÂNDIAS

Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse: duas destroncadas e vastas pernas de pedra
Permanecem no deserto. Na areia a elas contígua,
Um tanto soterrada, fendida face queda,

De carranca e hirto lábio e escárnio de quem castiga
Que dizem que seu escultor tais paixões bem traduziu
Que ainda sobrevivem, impressa em coisas inúteis,
A mão que as macaqueou e o coração que as nutriu.

No pedestal em palavras aparece declarado:
“Meu nome é Ozymândias, eu sou o rei dos reis;
Olhai minhas obras, grandes, e ficai desesperados!”

Nada ali remanesce: ao redor da decadência
Daquela colossal ruína, desmedido e despido,
O páramo plano areoso se estende em longa distância.

(Tradução: Joedson Adriano)


I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown

And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.

And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!"

Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.



LORD BYRON: POEMA





LINHAS INSCRITAS NUMA COPA FORMADA DUM CRÂNIO


Não fujas– nem pense meu espírito fugido:
Observas em mim o único crânio,
Do qual, diferente dos que têm vivido,
Tudo quanto flui nunca é insano.

Eu amei, vivi, bebi, e como tu: eu morri:
Pra se resignarem soterra os ossos meus;
Completa – me injuriar não vais conseguir;
O verme tem lábios mais podres que os teus.

É melhor manter as uvas espumantes,
Que do verme nutrir a ninhada-porcaria;
E circular o cálice que é transbordante
Da bebida dos deuses, que o que os répteis sacia.

Talvez onde outrora cintilou minha mente,
Pra ajudar os outros agora brilhe o odre;
E quando, ai! os cérebros já não mais sentem,
Qual o substituto que o vinho mais nobre?

Beba enquanto podes: uma outra raça,
Quando tu e os teus, como eu, houverdes ido,
Poderá te resgatar da terra que te abraça,
E rimar e foliar com os falecidos.

Por que não? se através dos poucos dias de vida
Das nossas cabeças tristezas são formadas;
Redimidas dos vermes e da argila temida,
Esta é a chance de serem usadas.



(Tradução: Joedson Adriano)



Lines Inscribed Upon A Cup Formed From A Skull



Start not—nor deem my spirit fled:
In me behold the only skull
From which, unlike a living head,
Whatever flows is never dull.

I lived, I loved, I quaffed like thee;
I died: let earth my bones resign:
Fill up—thou canst not injure me;
The worm hath fouler lips than thine.

Better to hold the sparkling grape
Than nurse the earthworm's slimy brood,
And circle in the goblet's shape
The drink of gods than reptile's food.

Where once my wit, perchance, hath shone,
In aid of others' let me shine;
And when, alas! our brains are gone,
What nobler substitute than wine?

Quaff while thou canst; another race,
When thou and thine like me are sped,
May rescue thee from earth's embrace,
And rhyme and revel with the dead.

Why not—since through life's little day
Our heads such sad effects produce?
Redeemed from worms and wasting clay,
This chance is theirs to be of use.


TENNYSON: POEMA





ULYSSES



É pouco o proveito de um inútil rei,
Da calma da lareira, entre inférteis fragas,
Unido à velha esposa, que menta e distribui
Leis de desigualdade a uma selvagem raça
Que acumula e dorme e come e não me conhece.

Eu não posso repousar da viagem: beberei
A vida até a borra; todo tempo eu gozei
Grandemente, sofri muito, juntamente com aqueles
Que me amaram e sozinho; no litoral e quando

Por arrastadas correntes as pluviosas Híades
Vexavam o sombrio mar: eu estou a tornar-me um nome;
Para sempre rumando com cúpido coração
Conheci e vi muito; cidades de homens
E maneiras e climas, conselhos e governos,
Eu mesmo não o último, mas honrado por todos;
E delibei o deleite da batalha com meus pares,
Longe nos soantes planos da tempestuosa Tróia,
Eu sou parte de tudo o que eu encontrei;
Embora toda experiência seja um arco por onde
Brilha o ignorado mundo, cuja margem fenece
Pra sempre e pra sempre assim que eu me movo.
Quão tediosa a pausa, fabricar um final,
Oxidar sem ser lustrado, não chamejar no uso!
Respirar não é vida. Vida empilhada em vida
Seriam todas tão pouco, e de uma pra mim
Já pouco remanesce: mas cada hora é salva
Daquele eterno silêncio, alguma coisa a mais,
Um guia de novas coisas; e vileza seria,
Por uns, três sóis estocar e guardar em mim mesmo,
E este gris espírito ansiando em desejo
Pra buscar conhecimento como estrela cadente,
Além do último linde do pensamento humano.

Este é o meu filho, o meu próprio Telêmaco,
Para ele eu lego o cetro e a ilha—
É o meu bem amado, discernindo pra cumprir
Esse labor, de calma prudência pra fazer fiel
Esse rústico povo, e por suaves degraus
Subordiná-los todos ao útil e ao bom.
É o mais inocente, centrado na esfera
Dos deveres comuns, decente pra não falhar
Em ofícios de ternura, e também pra pagar
A adequada adoração aos meus domésticos deuses
Quando eu estiver ido. Sua lide lida, eu a minha.

Aqui está o porto; o navio tufa suas velas:
Aqui paira o vasto escuro dos mares. Meus marujos,
Almas que pensavam e suavam e urdiam comigo –
Que sempre com um festivo boas-vindas recebiam
O trovão e os raios de sol, e opunham livres
Corações e livres frontes — vós e eu estamos velhos;
A velhice tem entanto sua honra e seu trabalho;
A morte encerra tudo: mas algo antes do fim,
Um lavor de nobre nota pode ainda ser feito,
Apropriado pra homens que lutaram com deuses.
As luzes começam a cintilar nas rochas:
O longo dia desvanece: a lenta lua sobe: o abismo
Geme ao redor com muitas vozes. Vamos amigos,
Não é assim tão tarde pra buscar um novo mundo.
Desatracai, e sentados bem em ordem batei
As sonantes esteiras; pois meu propósito quer
Navegar além do pôr do sol e do mergulho
De todas as estrelas ocíduas, até que eu morra
Pode ser que os golfos nos banhem e afundemos:
Pode ser que toquemos as Ilhas Afortunadas,
E o grande Aquiles vejamos, a quem nós conhecemos.
Se muito está perdido, muito temos; embora
Não tenhamos agora a força que em velhos dias
Movia terra e céu; o que nós somos, somos;
Um igual temperamento de heróicos corações,
Fracos por tempo e fado, mas fortes em seguir
A lutar, a buscar, a achar e não ceder.



 (Tradução: Joedson Adriano)



It little profits that an idle king,
By this still hearth, among these barren crags,
Match'd with an aged wife, I mete and dole
Unequal laws unto a savage race,
That hoard, and sleep, and feed, and know not me.

I cannot rest from travel: I will drink
Life to the lees; all times I have enjoy'd
Greatly, have suffer'd greatly, both with those
That loved me, and alone; on shore, and when
Thro' scudding drifts the rainy Hyades
Vext the dim sea: I am become a name;
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known; cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honour'd of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy,
I am a part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro'
Gleams that untravell'd world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnish'd, not to shine in use!
As tho' to breathe were life. Life piled on life
Were all too little, and of one to me
Little remains: but every hour is saved
From that eternal silence, something more,
A bringer of new things; and vile it were
For some three suns to store and hoard myself,
And this gray spirit yearning in desire
To follow knowledge like a sinking star,
Beyond the utmost bound of human thought.

This is my son, mine own Telemachus,
To whom I leave the scepter and the isle—
Well-loved of me, discerning to fulfil
This labour, by slow prudence to make mild
A rugged people, and thro' soft degrees
Subdue them to the useful and the good.
Most blameless is he, centred in the sphere
Of common duties, decent not to fail
In offices of tenderness, and pay
Meet adoration to my household gods,
When I am gone. He works his work, I mine.

There lies the port; the vessel puffs her sail:
There gloom the dark broad seas. My mariners,
Souls that have toil'd, and wrought, and thought with me—
That ever with a frolic welcome took
The thunder and the sunshine, and opposed
Free hearts, free foreheads—you and I are old;
Old age hath yet his honour and his toil;
Death closes all: but something ere the end,
Some work of noble note, may yet be done,
Not unbecoming men that strove with Gods.
The lights begin to twinkle from the rocks:
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep
Moans round with many voices. Come, my friends,
'Tis not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho' much is taken, much abides; and tho'
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven; that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

ENTREVISTA COM IVO BARROSO




IVO BARROSO nasceu em Ervália-MG e reside no Rio desde 1945. Formado em Direito e em Línguas e Literaturas Neolatinas. Foi assistente do Editor das enciclopédias Delta-Larousse, Mirador e Século XX. Editor-adjunto do Suplemento Literário do JB, da revista Senhor e de Poesia Sempre (da Biblioteca Nacional). Publicou mais de 30 traduções de grandes autores entre romancistas como Hermann Hesse, Georges Perec e Jane Austen, e poetas como William Shakespeare, T.S. Eliot, William Blake e Arthur Rimbaud. Seus livros de versos, Nau dos Náufragos (1982) e Visitações de Alcipe (1991), foram ambos editados em Portugal, onde foi editor da revista Seleções do Reader´s Digest. No Brasil publicou A Caça Virtual e outros poemas (2001, finalista do prêmio Jabuti de poesia daquele ano), editado pela Record. Organizou os livros Poesia e Prosa, de Charles Baudelaire (Nova Aguilar, 1995) e À Margem das Traduções, de Agenor Soares de Moura (Arx Editora, 2003). Escreveu O Corvo e suas traduções (Nova Aguilar, 2000 – agora em 3ª edição, 2012, pela LeYa-SP) e Poesia Ensinada aos Jovens (Tessitura-BH, 2010).




1) – Como ocorreu seu contato inicial com a literatura?

O Tesouro da Juventude.               

2) – Como você vê a cena literária – prosa e poesia - contemporânea no Brasil?   

Muita publicação, pouca qualidade.


3) – Como você vê a relação entre Tradição e movimentos de vanguarda, sejam eles no âmbito da literatura – prosa e poesia, música ou artes plásticas? É possível diálogo entre a Tradição e as vanguardas, ou uma obra de invenção deve ser necessariamente uma obra de ruptura?

A vanguarda de hoje será a tradição de amanhã.

4) – Como você vê a importância dos movimentos Modernista de 22 e do Concretismo para o desenvolvimento da literatura brasileira e seu suposto endeusamento quanto aos aspectos positivos? Não estaríamos em tempo de crítica avaliativa sobre a verdadeira contribuição desses movimentos e seus prejuízos em relação às estéticas do romantismo, simbolismo e parnasianismo para a literatura brasileira?

O movimento modernista marcou de certa forma a literatura brasileira, passamos a escrever à moderna ou à antiga. O concretismo não chegou a ser um movimento. Foguete coreano que cai apagado no quintal. Não há hoje rigorosamente ninguém no mundo inteiro escrevendo poesia concreta.

5) – O crítico literário Antônio Cândido, afirmou que todo país possuiria um representante máximo de sua literatura, um escritor que encarnasse a identidade cultural de seu país, sobretudo no âmbito da linguagem, e citou como exemplos nomes como Cervantes na Espanha, Goethe na Alemanha, Dante na Itália, Borges na Argentina, Camões em Portugal. O mesmo afirmou que o Brasil não possuiria essa figura máxima em sua literatura, talvez dois nomes, Guimarães Rosa e Machado de Assis. Qual sua opinião sobre essa questão? O que pensar de um nome como o padre Antonio Vieira?

Sou mais o Machado. Rosa está deixando de ser lido e Vieira na verdade nunca foi.

6) – Quais são os desafios, especificações e diferenças quanto a tradução de obras em prosa e poesia?

Quanto ao condicionamento ético a observar (fidelidade ao texto, correção vocabular, configuração estilística, etc), não há rigorosamente diferenças entre traduzir prosa ou poesia. Para esta última, no entanto, são requeridas algumas condições especiais do tradutor: em primeiro lugar, que seja poeta, que conheça os mais diversos estilos poéticos, a técnica do verso – mesmo quando se tratar da tradução de versos livres). Não consigo imaginar a tradução de um poema feita por alguém que nunca tenha escrito poesia. O resultado será necessariamente prosaico.

7) – Como você vê a relação entre obras traduzidas de outro idioma, sobretudo grandes clássicos da prosa e poesia, e sua importância para o crescimento cultural de um país ao tornar acessível essas obras ao leitor que não domina o idioma original?

Há pelo menos uma dúzia de frases consagradas sobre a importância da tradução no relacionamento cultural dos povos. A tradução como ponte... como passaporte... etc. Sem essas transposições a literatura de um país ficaria restrita à sua produção nacional, que necessariamente não contém a variedade nem a abrangência do conjunto das demais literaturas. Nunca me espanto com o número esmagador de obras estrangeiras traduzidas em relação às publicadas, no mesmo período, por nossos autores. O excesso é sempre benéfico: no meio do lixão importado vem sempre alguma coisa que serve de estímulo ao conhecimento e à produção locais.

8) – Como tradutor, quais são os escritores mais complexos em termos lingüísticos e temáticos que você traduziu?

A vida, modo de usar, de Georges Perec, pela sua variedade estilística, abrangência de assuntos, vocabulário concreto foi uma tradução –digamos – trabalhosa. Já traduzir Rimbaud, exigiu a permanência num estado de expectativa poética, principalmente quanto As iluminações, onde qualquer vacilo elimina ou amortece o impacto fraseológico e a vibração sensorial do texto.

9) – Dois grandes poetas franceses estão traduzidos em nosso idioma, Rimbaud, em tradução de sua autoria, e Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira. Qual a importância da presença desses escritores para nossa literatura?

Não só a de Baudelaire e Rimbaud, mas a presença de qualquer grande criador é imprescindível para a literatura como um todo. A obra deles se torna patrimônio comum através da tradução. Daí a universalidade de um Shakespeare, de um Dante, de um Victor Hugo.

10) – Também dispomos da obra completa do poeta T.S. Eliot em nosso idioma, cuja poesia foi traduzida por Ivan Junqueira, e o teatro traduzido por você. Qual a importância da presença desse escritor para nossa literatura?

Eliot pode ser considerado um desses expoentes de nosso tempo. O mesmo se dá com Joyce. Cada vez mais são traduzidos em todos as línguas, deixando de ser escritores de língua inglesa para se tornarem ícones universais.

11) – Comente sobre seu último livro intitulado O Corvo e suas traduções, de Edgar Allan Poe.

Trata-se de um livrinho sem maiores pretensões, não chega a ser um ensaio. Mas uma tentativa de provar criticamente e divulgar a tradução de O Corvo, de Edgar Allan Poe, feita por Milton Amado, um quase desconhecido, como sendo a interpretação mais adequada do poema, já tratado por vários outros tradutores.Mais que um problema de fidelidade é um caso de adequabilidade, de afinação instrumental.

12) – Em termos de tradução, parece existir em nosso país duas vertentes, a “transcriação”elaborada pelos concretistas Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari e alguns de seus discípulos como José Paulo Paes ou mesmo Nelson Ascher, e uma tradução em muitos aspectos entendida como“Tradicional”, supostamente representada por Ivo Barroso, Ivan Junqueira e o falecido poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos. Como você vê essa questão?

Para evitar qualquer mal-entendido, declaro desde logo que considero os irmãos Campos os maiores e melhores tradutores de poesia entre nós, pelos desafios que enfrentaram. Já disse que a Universidade de São Paulo devia recolher a obra deles num volume e distribuir a todos os tradutores de poesia.

Por outro lado, não vejo a existência de tais vertentes, ou qualquer conflito no que fazem os tradutores de poesia. O que alguns chamam de “transcriação” para mim é simplesmente “tradução”, ou seja, a tradução integral com observância da forma, do estilo, dos recursos, da qualidade poética. Sou contra a intromissão do tradutor na obra traduzida, seja para “melhorá-la”,atualizá-la, ou facilitá-la. O tradutor deve transladar o que está escrito e da forma como foi escrito – mantendo, evidentemente, o teor poético, mas não fazer um outro poema em cima do original. Queremos o autor (ou a sombra do) autor e não a pessoa que o traduz. Daí não fazer sentido falar em tradução de vanguarda e tradução tradicional: o que há é boa ou má tradução – e ponto.

13) – Comente sobre sua poesia e a possibilidade de um livro novo de poemas de sua autoria.

Em 2001 reuni tudo que me pareceu válido (digno de ser publicado) de minha produção autônoma, sem preocupações com épocas ou estilos, e fiz uma espécie de antologia (A Caça Virtual e outros poemas) que era, ao mesmo tempo, meu livro de estréia. Minha produção atual é muito escassa, mas recolho os versos para um (pouco) provável segundo livro, este certamente conservando uma certa unidade, já que os poemas serão da mesma época (atual). Mas não me importo de passar como autor de um único livro de versos. Tenho boas companhias.



quarta-feira, 30 de maio de 2012

WILLIAM BLAKE: PROVÉRBIOS DO INFERNO



Na semeadura aprende, na colheita ensina, no inverno desfruta.

Conduz tua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela incapacidade.

Quem deseja e não age, procria a pestilência.

O verme perdoa o arado que o cortou.

Enterre-se no rio aquele que ama as águas.

Um tolo não vê a mesma árvore que um sábio vê.

O homem cuja face não brilha jamais se tornará um astro.

A Eternidade está de amores com as produções do tempo.

A abelha diligente não tem tempo para lástimas.

As horas da insensatez são medidas pelo relógio, mas as da sabedoria relógio algum pode marcar.

Todo alimento sadio se consegue sem armadilha ou rede.

Pássaro algum voa alto demais se o faz com as próprias asas,

Um corpo morto não refuta injúrias.




O ato mais sublime consiste em colocar alguém antes de si.

A Loucura é o manto da velhacaria.

A Vergonha é o manto do Orgulho.

As prisões são erguidas com as pedras da Lei e os Bordéis com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a generosidade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza, ri; o excesso de alegria, chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o estrondo do mar tempestuoso, e o gládio destruidor são porções de eternidade grandes demais para o olhar humano.

A raposa condena a armadilha, e não a si mesma.

Alegrias fecundam, tristezas procriam.

Que o homem use os despojos do leão e a mulher o tosão das ovelhas.

Ao pássaro o ninho, à aranha a teia, ao homem a amizade.

O tolo egoísta e sorridente & o tolo carrancudo e triste serão ambos considerados sábios se servirem de exemplo.

O que hoje está provado não passava ontem de imaginação.

O rato, o camundongo, a raposa, o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante espreitam os frutos.

A cisterna contém: a fonte transborda.

Um pensamento enche a imensidade.

Fala sempre o que pensas e os vis te evitarão.

Tudo o que é crível é uma imagem da verdade.

A águia perdeu todo o seu tempo se deixando ensinar pela gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; de dia, age; de tarde, come; de noite, dorme.

Quem permite que o imponhas é porque te conhece.




Assim como o arado obedece a palavras, assim Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Espera veneno das águas paradas.

Só se sabe o que é bastante depois de se saber o que é demais.

Escuta a censura dos tolos! É um privilégio de reis!

Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira nunca pergunta à faia como crescer, nem o leão ao cavalo como abater sua presa.

Quem recebe agradecido produz colheita abundante.

Se outros não tivessem sido tolos, nós é que o seríamos.

A alma do doce deleite jamais será maculada,

Quando vês uma Águia, vês uma porção do Gênio. Ergue tua cabeça!

Como a lagarta escolhe as folhas mais belas para lançar seus ovos, assim o padre lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma pequena flor exige o trabalho de séculos.

A blasfêmia, distende; a bênção, afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.

As preces não aram! Os louvores não colhem.

As alegrias não riem! As tristezas não choram!

A cabeça Sublime, o coração Pathos, o sexo a Beleza, as mãos e os pés Proporção.

Assim como o ar ao pássaro e o mar ao peixe, seja o desprezo ao desprezível.

O corvo gostaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco.

Exuberância é Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, acabaria astuto.

O Progresso constrói estradas retas, mas as estradas tortuosas sem Progresso são os caminhos do Gênio.

Antes matar um infante no berço do que acalentar desejos reprimidos.

Onde o homem falta, a natureza é estéril.

A verdade não deve ser dita para ser apenas compreendida, e não acreditada.

Bastante! Ou demais


Tradução de Ivo Barroso

terça-feira, 22 de maio de 2012

UM POEMA DE JORGE LUÍS BORGES EM TRADUÇÃO DE W.J.SOLHA


(W.J.Solha)



Outro poema dos dons

Graças quero dar ao divino
Labirinto dos efeitos e causas,
Pela diversidade das criaturas
Que formam este singular universo,
Pela razão, que não cessará de sonhar
Com um plano do labirinto,
Pelo rosto de Helena e perseverança de Ulisses,
Pelo amor que nos deixa ver os outros
Como os vê a divindade,
Pelo firme diamante e a água solta,
Pela Álgebra, palácio de precisos cristais,
Pelas místicas moedas de Ângelo Silêsio,
Por Schopenhauer,
Que talvez decifrou o universo,
Pelo fulgor do fogo,
Que nenhum ser humano pode olhar sem assombro antigo,
Pela acaju, cedro e sândalo
Pelo pão e sal,
Pelo mistério da rosa
Que prodigaliza cor e não a vê,
Por certas vésperas e dias de 1995,
Pelos rijos tropeiros que na planície
arreiam os animais e a alvorada,
Pela manhã em Montevidéu,
Pela arte da amizade,
Pelo último dia de Sócrates,
Pelas palavras que num crepúsculo se disseram
De uma cruz a outra,
Por aquele sonho do Islã que abarcou
Mil noites e uma noite,
Por aquele outro sonho do inferno,
Da torre do fogo que purifica
E das esferas gloriosas,
Por Schwedenborg,
que conversava com os anjos nas ruas de Londres,
Pelos rios secretos e imemoriais
que convergem em mim,
Pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,
Pela espada e pela harpa dos saxões,
Pelo mar, que é um deserto resplendecente
E uma cifra de coisas que não sabemos,
E um epitáfio dos vikings,
Pela música verbal da Inglaterra,
Pela música verbal da Alemanha,
Pelo ouro, que relumbra nos versos,
Pelo épico inverno,
Pelo nome de um livro que não li:
Gesta Dei per Francos,
Por Verlaine, inocente como os pássaros,
Pelo prisma de cristal e o peso do bronze,
Pelas listras do tigre,
Pelas altas torres de San Francisco e da ilha de Manhattan,
Pela manhã no Texas,
Por aquele sevilhano que redigiu a Epístola Moral
e cujo nome, como ele teria preferido, ignoramos,
Por Sêneca e Lucano, de Córdoba,
Que antes do espanhol escreveram
Toda a literatura espanhola.
Pelo geométrico e bizarro xadrez,
Pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,
Pelo olor medicinal dos eucaliptos,
Pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
Pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
Pelo costume,
Que nos repete e nos confirma como um espelho,
Pela manhã que nos dá ilusão de um princípio,
Pela noite, sua treva e astronomia,
Pelo valor e felicidade dos outros,
Pela pátria, sentida nos jasmins
Ou numa velha espada,
Por Whitman e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
Pelo fato de que o poema é inesgotável
E se confunde com a soma das criaturas
E não chegará jamais ao último verso
E varia segundo os homens,
Por Frances Haslam, que pediu perdão aos filhos
Por morrrer tão devagar,
Pelos minutos que precedem o sonho,
Pelo sonho e pela morte,
Esses dois tesouros ocultos,
Pelos íntimos dons que não enumero,
Pela, misteriosa forma do tempo.
(Tradução de W.J.Solha)


Otro poema de los dones

Gracias quiero dar al divino
Laberinto de los efectos y de las causas.
Por la diversidad de las criaturas
Que forman este singular universo,
Por la razón, que no cesará de soñar
Con un plano del laberinto,
Por el rostro de Elena y la perseverancia de Ulises,
Por el amor que nos deja ver a los otros
Como los ve la divinidad,
Por el firme diamante y el agua suelta,
Por el álgebra, palacio de precisos cristales,
Por las místicas monedas de Ángel Silesio,
Por Schopenhauer,
Que acaso descifró el universo,
Por el fulgor del fuego
Que ningún ser humano puede mirar sin un asombro antiguo,
Por la caoba, el cedro y el sándalo,
Por el pan y la sal,
Por el misterio de la rosa
Que prodiga color y que no lo ve,
Por ciertas vísperas y días de 1955,
Por los duros troperos que en la llanura
Arrean los animales y el alba,
Por la mañana en Montevideo,
Por el arte de la amistad,
Por el último día de Sócrates,
Por las palabras que en un crepúsculo se dijeron
De una cruz a otra cruz,
Por aquel sueño del Islam que abarcó
Mil noches y una noche,
Por aquel otro sueño del infierno,
De la torre del fuego que purifica
Y de las esferas gloriosas,
Por Schwedenborg,
Que conversaba con los ángeles en las calles de Londres,
Por los ríos secretos e inmemoriales
Que convergen en mí,
Por el idioma que, hace siglos, hablé en Nortumbría,
Por la espada y el arpa de los sajones,
Por el mar, que es un desierto resplandeciente
Y una cifra de cosas que no sabemos
Y un epitafio de los vikingos,
Por la música verbal de Inglaterra,
Por la música verbal de Alemania,
Por el oro, que relumbra en los versos,
Por el épico invierno,
por el nombre de un libro que no he leído:
Gesta Dei per Francos,
por Verlaine, inocente como los pájaros,
Por el prisma de cristal y la pesa de bronce,
por las rayas del
tigre,
por las altas torres de San Francisco y de la isla de Manhattan,
por la mañana en Texas,
Por aquel sevillano que redactó la Epístola Moral
y cuyo nombre, como él hubiera preferido, ignoramos,
Por Séneca y Lucano, de Córdoba,
Que antes del español escribieron
Toda la literatura española,
Por el geométrico y bizarro ajedrez,
Por la tortuga de Zenón y el mapa de Royce,
por el olor medicinal de los eucaliptos,
Por el lenguaje, que puede simular la sabiduría,
Por el olvido, que anula o modifica el pasado,
Por la costumbre,
Que nos repite y nos confirma como un espejo,
Por la mañana, que nos depara la ilusión de un principio,
Por la noche, su tiniebla y su astronomía,
Por el valor y la felicidad de los otros,
Por la patria, sentida en los jazmines
O en una vieja espada,
Por Whitman y Francisco de Asís, que ya escribieron el poema,
Por el hecho de que el poema es inagotable
Y se confunde con la suma de las criaturas
Y no llegará jamás al último verso
Y varía según los hombres,
Por Frances Haslam, que pidió perdón a sus hijos
Por morir tan despacio,
Por los minutos que preceden al sueño,
Por el sueño y la muerte,
Esos dos tesoros ocultos,
Por los íntimos dones que no enumero,
Por la música, misteriosa forma del tiempo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

ÁNGEL GONZÁLEZ: POEMAS TRADUZIDOS

(Lucio Fontana)








Ángel González (1925-2008) um dos mais notáveis poetas espanhóis da chamada Geração dos 50. Por muitos considerado o maior poeta espanhol do século XX. Entre seus livros mais conhecidos figuram Áspero mundo, y Sin esperanza, con convencimiento. Sobre Angel González escreveu Luis Isquierdo na introdução da última antologia publicada do autor:


O dom do poeta é a denúncia do negativo que perpassa a vida: a belicosidade que não cessa, a dependência de imposições, o medo disseminado das condutas. Sem renunciar à beleza, os versos tem que tratar também de nossos erros e fracassos. A beleza resiste, e tem seus momentos. Entretanto tem-se que ter conhecimento de sua raridade.

Tradução: Jorge Elias Neto



[ Para que yo me llame Ángel González]

Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento ...



[ Para que eu me chame Ángel González]


Para que eu me chame Angel González,
para que meu ser pese sobre o solo,
foi necessário um amplo espaço
e um largo tempo:
homens de todo o mar e toda terra,
férteis ventres de mulheres, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
em um novo corpo.
Solstícios e equinócios deslumbraram
com sua luz oscilante, seus múltiplos céus,
a viagem milenar de minha carne
vencendo os séculos e os ossos.
De sua passagem lenta e dolorosa
de sua fuga até o fim, sobrevivendo
naufrágios, agarrando-se
ao último suspiro dos mortos,
eu não sou mais que o resultado, o fruto,
o que tombou, podre, entre os restos;
este que vês aqui,
tão somente este:
um escombro tenaz, que resiste
a sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a nenhum lugar. O êxito
de todos fracassos. A enloquecida
força do desalento ...


Eso no es nada

Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.


Isso não é nada

Se tivéssemos a força suficiente
para se comprimir como se deve um tronco de madeira,
somente nos restaria entre as mãos
um pouco de terra.
E se tivéssemos ainda mais força

para pressionar com toda intensidade
essa terra, somente nos restaria
entre as mãos um pouco de água.
E se fosse possível alguém
comprimir a água,
já não nos restaria entre as mãos
nada.


Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.


Aniversários


Eu observo: como vou me tornando
incerto, confuso,
disolvendo-me no ar
cotidiano, grosseiros
retalhos de mim, desleixado
e maltrapilho.
Eu compreendo: vivi
um ano mais e isso é muito duro.
O coração pulsa todos os dias
quase cem vezes por minuto!
Para viver um ano é necessário
morrer-se muitas vezes.


El derrotado

Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.

Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.

Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.



O derrotado


Atrás tombaram os escombros:
fumegantes pedaços de tua casa,
Verões incendiados, sangue seco
para que engorde – o último abutre -
o vento.

Tú segues adiante na viagem, até
o tempo chamado porvir.
Porque nenhuma terra
te pertence
porque nenhuma pátria
é nem será tua,
porque em nenhum país
Pode acolher teu coração vazio.
Nunca – e isso é tão claro -
Poderás abrir uma porta
e dizer, simplesmente: « bom dia,
mãe ».
Embora efetivamente o dia seja bom,
Haja trigo nos campos
e as árvores
extendam até ti suas fadigadas
ramagens, oferecendo-te
frutos e sombra para que descanses.


Otro tiempo vendrá distinto a éste...

Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.


Outro tempo virá distinto deste ...

Outro tempo virá distinto deste.
E alguém dirá:
«Falas-te mal. Devias ter contado
outras histórias:
violinos esticando-se indolentes
em uma noite densa de perfumes,
belas palavras qualificativas
para expressar o amor sem limite,
amor acima de todas
as coisas.»
Porém hoje,
quando a luz do Amanhecer
é como a espuma suja
de um dia antecipadamente inútil,
estou aqui,
insone, fadigado, velando
minhas armas derrotadas,
e canto
tudo que perdi: pelo que morro.


Son las gaviotas, amor

Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.

São as gaivotas, amor

São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.
Mar de inverno. A água cinza
mancha de frio as rochas.
Tuas pernas, tuas doces pernas,
enternecem as ondas.
O céu sujo tomba
sobre o mar. O vento borra
o perfil das colinas
de areia. As tediosas
lagoas de sal e frio
imitam tua luz e tua sombra.
Gritos, lá do alto,
que tu não escutas, absorta.
São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.

González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.



Jorge Elias Neto (1964) é médico, pesquisador, poeta e leitor. Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. - 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. - 2010) , Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Participação: Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos-afins, Poesia diversa e no Portal Literário Cronópios.
Blog: http://jeliasneto.blogspot.com E-mail: jeliasneto@gmail.com