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sábado, 5 de fevereiro de 2011
LÊDO IVO: POEMA

SONETO DA MORTE
Levado para longe pelo impulso
da vida, vi-me frente à rosa breve
da morte que cantava no meu pulso
qual se, morto, me fosse a terra leve.
Nenhum tremor senti ao vê-la olhar-me
como o sol para o sol do diamante,
amei-a por ser minha e não bastar-me,
durando em mim apenas um instante.
Oh rosa negra e branca, desejei
que, sendo morte, fosse como a vida
que, embora passageira, segue a lei
do eterno, e como o eterno é consumida.
Vem, morte que em mim brilha, e sê a estrela
de cinco pontas que em meu céu cintila.
LÊDO IVO: POEMA

SONETO AO TEMPO
Por ser tempo, é que o tempo não me basta
e se escoa, cantante, pelas margens
da vida feita de água que o arrasta
para o mal-entendido das viagens.
E leva tudo em seu roldão, deixando
perdido o tempo achado, como a fonte
se perde no existir, e vai cantando
entre as pedras e os bosques do horizonte.
Quadrante do real, ó velho espelho
dos dias, debruçado em ti, me vejo
igual e diferente, moço e velho,
sonho a que me assemelho no desejo.
E o tempo, eternidade decaída,
é meu contemporâneo, sendo a vida.
LÊDO IVO: POEMA
O ARREBOL
Assim eu quero o dia: a promessa da vida
no chão em que se abriga um passo errante
escondido entre as folhas pálidas do outono.
Seja o meu dia a proa de um navio
sob a luz indecisa que antecede a descoberta,
a nuvem que se alastra no chão arroxeado.
Porta fechada, o dia me encerra e me cativa
para que eu viva e morra e morra e viva
no profundo arrebol de uma aurora perpétua
e em meus olhos se crave, flecha, a luz do mundo.
LÊDO IVO: POEMA
A ACEITAÇÃO
Quem não aceita a chuva e deblatera o vento
ignora a realidade: em seu retorno o granizo
não se faz anunciar. O que é sucessivo
é real. A luz suspensa amplia a zona de sombra
no quarto onde a cama em desalinho
exibe os sinais da repetida luta desigual
entre a ilusão e a certeza, o gesto e a voz,
e talvez o silêncio estarrecido. E além das vidraças
está sempre o dia dilapidado pela chuva
e pelo vento que arrasta folhas e gravetos.
É o desfolhado dia dos homens, feito de água e terra,
e de passos que avançam no caminho invernal.
LÊDO IVO: POEMA

DEVOLUÇÃO
O dia me devolve o horizonte
que a noite apaga. Eis porque amo o sol
que, toda manhã, faz pousar em meus olhos
os meus pertences: árvores, água e montanha.
Só reclamo da luz o que ela pode dar-me.
Respiro o cheiro da madeira serrada.
Piso o orvalho esquecido na grama
onde palpita a pássaro amoroso.
A luz é uma pedra. No excesso de si mesma
ela me guarda, quente e fiel
como um ninho escondido na folhagem.
Hoje sou eterno e consinto em morrer.
LÊDO IVO: POEMA

O PÓ
Atinjo a aldraba da porta
e o mar canta em minha mão.
Jamais eu podia saber
que mesmo em abril a hora pertence ao tempo.
Domei-te, jovem tigre, no dia ululante.
Juntei-me à querela de glória do mar.
Prendi astros nas fibras de minha rede.
O essencial sempre ficou fora de meu alcance,
um punhado de pó na mão fechada,
a resposta da poeira à minha ambição.
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