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sábado, 8 de janeiro de 2011

ILONA BASTOS: POEMA



A CHUVA


Este som, leve e metálico,
Da chuva que bate nos vidros,
Acaba por ser gentil…
Mesmo quando o seu toque se acelera,
Ou se retarda em singulares gotas,
Ou quando o vento sopra, em sonantes rajadas,
Ou, sonolento, se esparsa, quase se apaga,
Na inércia cinza da paisagem.

É fresca, esta chuva!
Como a ouço, talvez brejeira,
Não indelicada…
Deixou exultantes as flores vermelhas
Daquela exótica planta do jardim fronteiro,
De que não conheço o nome nem o apelido.
Garota, foge ao ritmo agora, insistente,
Esparrinha o tecto da marquise, desafiante…

As nuvens escuras avançam com rapidez!

Sente-se a chuva protegida, e precipita-se
Com violência implícita,
Tão distante da delicadeza inicial.
Rufia, já não soa a música,
Como anunciara à chegada,
Agreste, não poupa os tons, as linhas,
Os traços, as cores, os vultos
Desta cidade, que se afunda no temporal…

sábado, 11 de dezembro de 2010

ILONA BASTOS: POEMA

(Paul Delvaux)




O QUÊ?

Aqui sentada, observando
o vulto que atravessa a ponte
caminhando por entre as nuvens,
que não detém seus passos e avança
subindo em direcção ao céu,
que se afasta lento, inexorável,
no sentido da margem oposta,
que a custo, esforçado, vitorioso,
alcança finalmente o seu destino,
penso na humanidade que caminha,
que persevera, se obstina,
que destrói, mas conquista,
que luta, porém consegue,
que sofre, contudo atinge…

… o quê?


sábado, 13 de novembro de 2010

ILONA BASTOS: UMA GRANDE POETA DE LISBOA


NEVOEIRO
Ilona Bastos


Lembrando uma paisagem escandinava
Desenham-se, além dos vidros da janela,
Os traços suaves dos ramos de pinheiro,
Esbatidas manchas de quadro em aguarela,
Por entre o esbranquiçado frio do nevoeiro.

Também, mais próxima, desmaiada, a relva
Se distancia, neutra, na densa neblina,
E o fundo baço, que esconde o arvoredo,
Envolve o céu e a vida em leve musselina.

Só um vulto, esbelto, vem descendo, ledo,
A longa escadaria, que o nevoeiro adoça,
E uma gaivota livre, de asas prateadas,
Planando baixo, os seus cabelos roça.

Agora, vejo as nuvens, rasas e molhadas,
Correrem, junto à erva, em desfilada,
Afugentando o véu, os seres, a quieta paz
Desta atmosfera idílica, encantada.

Soprando velozmente, vem o vento e faz,
Agreste, forte, intenso, espantar a magia
Do nevoeiro imenso, prenhe de mistério,
Que a manhã cobriu, neste invernoso dia.

Então, no céu, o azul retoma o seu império,
O sol inunda a relva, a rua, todo o parque,
Regressam vozes, passos, gente radiosa,
Da vida, a cor, o brilho, a infinita arte...

E, na transparência pura, gloriosa,
Desta pintura bela, perfeita em limpidez,
Na Natureza rica, na vívida Criação,
Esboça-se, com espantosa nitidez,
A imagem de Deus - sublime revelação!



NA ESPLANADA
Ilona Bastos


Nestes dias frios e ensolarados,
Ruas e rossios de Inverno pintados,
Enchem-se esplanadas de quentes roupagens,
Sempre renovadas antigas imagens.

Como em tempos idos, há cabeças brancas,
Senhoras idosas de gestos pausados,
Há conversas longas e faces atentas,
Até mantas grossas de lã aos quadrados,
Que lembram convés, cadeiras de lona,
Balanço do mar que em sonho retorna.

Como antigamente, há lindos meninos,
Belos caracóis, passos pequeninos.
Há bolas e carros, e o cão a ladrar.
Torradas no prato, leite a fumegar,
E água a luzir, fresca, transparente,
No centro da mesa, estrela refulgente.

Há os cavalheiros, tal como era dantes,
Lendo os seus jornais com toda a atenção.
De lápis na mão, jovens estudantes
Livros sublinham com sofreguidão.
Sábias teorias têm de estudar,
Para um dia o Mundo poderem salvar.


Neste dia frio, mas ensolarado,
Rua e rossio olho com agrado.
Vejo, de repente, parando a sorrir,
Passado e Presente, Futuro a florir.



O TEMPO
Ilona Bastos


Quando voltará o tempo
a estender-se a nossos pés
como uma planície verdejante?

Que saudades das tardes imensas,
infinitas, em que brincávamos,
corríamos, descansávamos
e líamos, horas a fio,
esses romances que nos enchiam a alma
e que em nós se tornaram!

Durmo demais ou de menos?
Sou lenta ou, antes,
apressada em demasia?
Manhãs e tardes esfumam-se
na voragem do dia-a-dia…

Nervosamente antecipo o pôr-do-sol,
enquanto percorro este labirinto
feito de momentos compartimentados,
intercalados por corredores
apinhados de ânsias e temores,
que são o meu tempo de hoje.

Sonho com o regresso do tempo infindo,
em que o corpo voltará a correr livre,
como criança, e o espírito, ousado,
voará mais alto do que nunca!

Tanto desejo esse tempo!
Tanto planeio criar
nessa planície verdejante!

Caiam paredes!
Dilate-se o espaço!
Germinem sementes!
Estenda-se a nossos pés
a imensidão do tempo!


NAS MALHAS DO TEMPO
Ilona Bastos


Atrapalho-me nas malhas do tempo.
Quanto mais tento detê-lo,
Mais me prende o tempo a mim,
Na lentidão que aos meus gestos dá,
Na confusão que ao pensamento doa.

E, assim, tropeço nas horas e nos minutos,
Enquanto o tempo, trocista, sorri,
Célere avança e se afasta, jocoso,
Acenando de longe, provocador,
Sempre seguindo o seu caminho.

Caio em desespero, olho o relógio,
E os ponteiros que lestos se aproveitam
Da distracção do meu escrever,
Para saltar, ágeis, no mostrador
Da vida levando, de assentada,
Luminosas porções de tempo perdido.

Hesitante, paro, num repente,
Sem saber se dar ouvidos à voz troante
Que no interior de mim ecoa, persistente
Em deslizar-me pelo braço, até à mão
Que segura a caneta e a faz correr
E patinar, dançando, sobre o papel.

Não! Tenho de sair e seguir o meu percurso,
Mesmo se o tempo se entretém
A trocar-me as voltas e a rir, escarninho,
Perante o torpor dos meus gestos indecisos,
E a inconstância do meu pensar,
Perdida que estou nas malhas do tempo.