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sábado, 24 de setembro de 2011

SÔNIA BRANDÃO: POEMAS

(Ismael Nery)





LABIRINTO

A noite é um labirinto de pedras.
As palavras se quebram em minha boca.
Um grito, dentro do peito.

Recolho-me no umbigo da dor
mastigando o pão da morte.



SONHO

Sonharemos no sono da morte?


ENIGMA

Difícil é aprender o silêncio da pedra.


CASA VELHA


Quantas coisas viram tuas janelas
e os olhos que nelas se debruçavam.
Olhos que viam o dia nascendo e a névoa
como uma coberta sobre a serra,
viam as flores dançando lá fora,
viam a noite, a lua convidando a amar.

Esses olhos e tuas janelas
se fecharam para sempre.

Hoje, apenas os fantasmas te habitam.


APRENDIZADO


Não te espante o meu silêncio:
estou aprendendo a morrer.


PRECE

Devolva-me, Senhor, as palavras.
Talvez eu as compreenda e me salve.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

ENTREVISTA COM A POETA SÔNIA BRANDÃO




1) – Como ocorreu seu contato inicial com a literatura?

Logo que aprendi a ler. Ganhei uma coleção de 12 livros de histórias infantis, que me fascinaram. A partir daí não parei de ler.


2) – “Desde o dia em que nascemos/ o espelho nos vê como terra”. Sua escrita expressa uma forma contemplativa ou reflexiva sobre as coisas, transitando por gêneros lingüísticos como o aforismo. Comente essas características.

Prefiro não chamar de aforismo o que escrevo. O aforismo trabalha com ideias, eu apenas tento criar imagens com o mínimo de recursos.

3) – “Entre anjos, arcanjos e potestades/ estou onde deveria estar.” O máximo no mínimo. Brevidade e concisão. Lirismo e reflexão. Seus escritos poéticos expressam uma legítima confluência entre imagens e conceitos lembrando o escritor Antonio Porchia. Comente sobre suas influências literárias.

Os poetas que eu mais leio são João Cabral, Drummond, Eugênio de Andrade, Ledo Ivo, Fernando Pessoa. Posso ter esquecido algum. Agora, não sei dizer que influência recebi de um ou outro.


4) – Como é seu procedimento ao escrever?

Busco a economia de linguagem. Quando um poema sai mais longo, muitas vezes é cortado. O objetivo é chegar ao essencial.


5) – Qual sua visão sobre a internet como espaço de divulgação literária?

A internet propicia uma forma eficaz de exposição da obra literária enquanto está sendo criada. Conhecemos muitas obras por meio dela, assim como muitos leitores nos conhecem (talvez você, sem a internet, jamais soubesse quem é Sônia Brandão).

sábado, 19 de março de 2011

SÔNIA BRANDÃO: AFORISMOS POÉTICOS II



MEMÓRIA


No coração da árvore

a memória do rio.

ABSOLUTO


Uma agulha cerzindo o universo.

DOM

Os homens me deram a dor.

Deus me deu a canção.

ÁRVORE

Teu grito

meu silêncio

frutos da mesma dor.

CIÊNCIA

Meus olhos conhecem

o segredo das pedras.

ESPELHO

No espelho do tempo

a pedra há de florir.

QUIETUDE

No espelho do lago

repousa o silêncio

do sono dos deuses.

A GRUTA

Entre anjos, arcanjos e potestades

estou onde deveria estar.

SÔNIA BRANDÃO: AFORISMOS POÉTICOS





DOR


Mataram as minhas borboletas azuis.


SOLIDÃO

Sou um fruto esquecido
numa árvore morta.

RESÍDUO

Tenho apenas um punhado de areia em minhas mãos.
Mas o mar ainda canta em meus ouvidos.


MEMENTO


Desde o dia em que nascemos

o espelho nos vê como terra.


GREGUERIA

Leve-me flores quando o meu relógio morrer.


PERFÍDIA


Abriguei a rosa no meu peito.

Em troca ela me deu a dor.


A ROSA


Por ela choraram

os olhos do céu.


RÉQUIEM

Arranquem meus olhos.

A flor está morta.


DECISÃO

Entre morrer e não morrer

Escolhi as palavras.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SÔNIA BRANDÃO: OLHAR POÉTICO

(Miró)




ILUMINAÇÕES


1.

No espelho do tempo

a pedra há de florir.


2.

Meus olhos conhecem

o segredo das pedras.

3.

Canto para o pássaro.

Tenho uma árvore no peito.


4.

De tanto olhar o ninho

nos meus olhos

nasceram pássaros.


5.

Tecendo desenhos entre o céu e a terra, as

folhas voam como borboletas loucas.


6.

O grito dos bem-te-vis sangra o silêncio do dia.