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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DEREK SOARES CASTRO: SONETO






Exéquias d'Aurora

De rendas vestalinas, sendilhadas,
Em diáfanos véus auroreais,
Caídos brandamente, sepulcrais,
Por sobre as alvas mãos frias, finadas...

Por melífluos matizes outonais,
Em contraste co'as sedas, bem bordadas,
Na plenitude dessas vãs caladas,
Passou todo o cortejo cheio d'ais!

No embalo duma marcha langorosa,
A passarada flébil e chorosa
Cantava a mais nostálgica balada;

A abóbada celeste no infinito,
Abriu-se no céu mais puro e bonito,
Levando a minha eterna, sempre amada!

quinta-feira, 3 de março de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Tàpies)




LÚBRICA MIRAGEM NA ÁFRICA


África... No escuríssimo deserto
Desliza e nada pela rubra areia,
Pelas dunas do caos noturno e incerto,
Uma perdida e esplêndida sereia...


Seguimos pelo mar vermelho e aberto
Com bocas glaciais de nossa ceia.
Enquanto tu descansas, eu desperto
Para mais aventuras quentes... Eia!


Na savana, aparece uma leoa...
Morde e desmorde, a cândida selvagem,
Qualquer animal, planta e até pessoa!


Transparente se torna a fria imagem...
Um rugido sereno urge e ressoa...
Surge e ressurge a lúbrica miragem!


domingo, 20 de fevereiro de 2011

EDIR PINA DE BARROS: POEMA




NOTURNA

Sorvendo a seiva dessas minhas dores,
Eu vou cerzindo sonhos esgarçados,
Outrora dentro em mim acastelados,
Replenos de ilusões, de mil alvores...

Sonhos tecidos co’s sedosos fios
daquele amor que era minha luz,
que agora a tantas dores me conduz,
causando em mim tamanhos desvarios...

Os inumados sonhos meus, quimeras,
Razão de meu viver em outras eras,
São fontes de penares, dissabores.

Hoje mergulho em mil brumais tristezas,
Num mar de pranto, mágoas, incertezas,
Sorvendo a minha dor e os seus licores...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA




TRÊS ESTROFES

As flores não florescem no inverno
Apenas a relva branca predomina
No cemitério do tédio eterno,
Onde a tortura de viver não termina!


Escuridão, o Sol foi-se embora?
Trevas, por que cobristes tudo?
O tempo destruiu a doce flora
E nas águas me afoguei para sempre!


O eclipse era lindo, mas escureceu...
As sombras fecharam toda a luz
No labirinto em que se perdeu
Aquele que nunca mais a vida conheceu...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

EDIR PINA DE BARROS AO SOM DE MADELEINE PEYROUX


NOSTALGIA

Andeja solitária dessas ermas sendas,
A semear o pranto em forma de poesia,
Eu levo dentro em mim a dor da nostalgia,
Cantada em tantos versos, tantos mitos, lendas!

Caí, ó, nostalgia, nos teus véus e rendas,
Nas fendas das saudades, da melancolia
Daquele mui distante e tão ditoso dia
Que recebi dos Deuses tão sublimes prendas!

Das prendas que, na vida, recebi dos céus
De todas, a melhor, foi conhecer o amor
Que hoje vive em mim em forma de saudade...

E se distante vai a minha mocidade
Replena de paixões, de sonhos, de fulgor,
Agora eu tenho a ti, os teus sedosos véus!


Recomendo a leitura desse belo soneto ao som da música Love And Treachery da cantora Madeleine Peyroux http://www.radio.uol.com.br/

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

EDIR PINA DE BARROS: POEMA

(Max Ernst)




Sonhos meus!

Oh! Sonhos meus! Etéreos, inefáveis!
Por que minh’alma invadem, deletérios?
Quais frias brumas prenhes de mistérios,
Se tornam para mim inexploráveis...

Oh! Sonhos meus! Bisonhos, mas afáveis,
Por que me vêm de todos hemisférios?
Não sei andar, viver nos seus impérios,
Nas suas terras mornas, não aráveis...

Sonhos! Não os suporto mais comigo,
Pois não tangíveis são, tal qual a lua,
Se rompem como as bolhas lá da praia...

Quisera ser seu ninho e seu abrigo,
E ser também amiga e amante nua
Nos seus lençóis suaves de cambraia...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA



CÍRCULO

Imagens a dançar na quente tarde...
Espinhos de mil rosas dissolvidas,
Que são marcas de tantas outras vidas
Atormentando meu rosto covarde...

Antigos sonhos... tudo que é belo arde,
Cintila pelas sombras divididas
E as imagens agora tão perdidas
Buscam um novo rumo, novo alarde!

Ó vertigens lacrimais, circulai...
Ó âmagos azuis dos sonhos meus,
Ó dizei, devaneios, ó chorai!...

As imagens se perdem nos sons seus
E trilham ébrias pelo meu grã ai!
Tudo diz: Amém! Tudo diz: Adeus!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Goya)



PROFECIA

Um dia, tu estarás em pleno choro,
Sangrando em negras lágrimas a terra.
As almas do passado em grave coro,
Declararão a ti a mais suprema guerra.

O castelo dourado e azul morreu,
E a vida continua em triste pranto.
Eis aquilo que nunca se esqueceu,
E que conduz o azedo e amargo canto:

Um dia, tu estarás em forte grito
Que tingirá de luto o sonho pulcro
E assim se cumprirá a tal profecia.

O futuro será pra sempre aflito,
Nós que estamos em lúgubre agonia
Seremos então um único sepulcro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Paul Delvaux)




PÉROLA BELÍSSIMA

“Ave, formosissima!”
Carl Orff - Carmina Burana


Brota da concha, pérola belíssima...
No mar do caos, brilha, vive e rege
Linda, a deusa que tudo desprotege,
Revelando ar de pérola vivíssima!

Ó gris paz sacrossanta, pura herege,
Que traindo a razão, é diviníssima!
Dragão de cor estranha e sublimíssima!
Delfim que purifica, que protege!

Queimando tudo surge a negra espuma...
Um mar misterioso de venenos...
Pérola tão belíssima, vil bruma!

Domina a prostituta santa Vênus,
Na terra, como livre e leve pluma,
Embriagando os seres de céus plenos!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

EDIR PINA DE BARROS: POEMA

(klimt)



Se tu me amas...

Se tu me amas entra bem silente,
Sem despertar-me deste sono leve...
Na minha pele tua marca inscreve,
Qual tatuagem, com teu beijo ardente...
*
Se tu me amas neste instante breve,
Desliza sobre mim tal qual serpente,
Sem preocupar em ser cordial... Decente...
Oh! Sê aquele que se dar se atreve!
*
Se me amas mesmo sem pudor, tolice,
Que vás embora junto com a lua,
E deixa-me sonhar um novo dia...
*
E deixa que de longe eu te cobice,
E queira-te de novo, ébria e nua...
Mantendo em mim, do amor, doce utopia!

sábado, 11 de dezembro de 2010

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Aleijadinho)



PLENO DE ESPLENDOR


"O grito que ora prendo é só por ti..."
Ronaldo Rhusso


Grita a Cruz as virtudes esquecidas
Gotejando fulgores, uns matizes
Que invadem minhas lúgubres feridas...


Há sacrossantas flamas que, em deslizes,
Encantam-me num êxtase de vidas
Dando alvuras aos sonhos infelizes


E penso que és tão pleno de esplendor


Porque o cedes a todos com amor!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

EDIR PINA DE BARROS: POEMA



O EREMITA

Um vulto que caminha no deserto,
E flutuando vai por sobre a areia,
E o vento forte sua tez golpeia,
Não há ninguém e nada há por perto...
*
Assim se vai ao léu, sem rumo certo,
Em nada mais se ancora ou se esteia,
Não sofre, nem deseja, nada anseia,
Segue sozinho e com destino incerto...
*
Longe se vai, fugindo do tumulto,
Nada mais quer e nada mais almeja,
Flutua no silêncio que lhe apraz!
*
E nada é além de um nobre vulto,
Etéreo vulto que sozinho andeja
Levando dentro em si a luz, a paz...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

VITOR DE SILVA: POEMA

(Rafael Sanzio)



Sempre Luz


Há nos cantos efusivos, os diversos
desencantos abraçados à verdade,
de que o homem resumiu a claridade
ao capricho da matéria sem anversos.

É o intróito de uma cor sem universos,
sob a capa da tensão de sermos Sade,
e cuspir no coração da Unidade
a razão dos sentimentos tão dispersos.

Pelo rastro das paixões que viram mágoas,
corredores de ilusões que vão às águas
dos processos das mecânicas impuras.

Mas irrompe das alturas uma prece,
são eflúvios de Jesus, que no Amor desce,
a Esperança derradeira das Alvuras!

domingo, 28 de novembro de 2010

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Rafael Sanzio)



COMO TE CONTEMPLO!

Ah! Como eu te admiro! Como te contemplo!
Tu disseste sim ao nosso Deus Senhor.
Foste tu o belíssimo e sublime templo,
Em que foi gerado o Filho Salvador!

Quero seguir tuas frases e teu exemplo!
Eis aqui o menor servo do Redentor...
Ah! Como eu te admiro! Como te contemplo!
Minha alma engrandece ao Deus do grande amor...

Eu, que nem o amor de meus próximos tive,
Descobri um amável pai chamado Deus
E que minha Mãe Santíssima em mim vive...

Jesus, seguirei pra sempre os passos teus,
Pela obediência, pobreza e pureza,
Pra viver na mais triunfante nobreza!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

GABRIEL RÜBINGER: POEMA




Lux Aeterna


A Luz Eterna andante invade os lares,
Quasares brilham no céu flutuante.
Um lampião aceso, e os negros mares,
Trissares de estrelas no quadrante.

Espetáculos ébrios de pulsares,
Aos pares, em silêncio causticante.
Um furacão represo invade os ares,
Vulgares beijos, lume irradiante.

Paro-me em meio a três pilares:
Oculares Três Marias, vagante,
O céu gira em turnos regulares,
Hectares tão longes, tão distante!

Tão vívido de paz busco lugares
Que permeiam o infinito semblante
Das estrelas, mães espetaculares!
Tão vívido, e mais, e mais luares!
O céu é incrustado de brilhante,
E as estrelas são gigantes altares!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

EDIR PINA DE BARROS: SONETO

(Paul Delvaux)



Sem disfarce!


Diante desse espelho estou agora...
Como fugir não há de meu olhar,
E meus detalhes passo a debulhar,
E marcas vejo em mim da fria aurora.

Em minha tez um mapa bem traçado,
Com becos, com veredas e mil atalhes,
Que levam-me, sem erro, aos meus detalhes,
De volta me conduzem ao passado!

Exploro cada vinco em minha face,
A recordar amores meus, amantes...
Os tempos mais felizes, tão pujantes!

E a mim me busco, em todos os quadrantes,
Embora a minha vista já se embace,
A mim me encontro, nua e sem disfarce!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

EDIR PINA DE BARROS: SONETOS

(Vernet)



ARREBOL


Nesse horizonte teu eu me declino,
Desmaio aos poucos qual o sol na tarde,
Vou me entregando sem fazer alarde,
Enquanto na igrejinha tange o sino...

Retiro meus mil véus, me descortino,
E perco meu pudor e meu resguarde,
Esqueço que sou frágil, sou covarde,
De amor me morro e perco todo o tino!

E nesse enlace nos tornamos um,
Sem ter receios, sem limite algum,
Enquanto canta ao longe o rouxinol

E nesse instante único, incomum,
Em ti me morro, tal qual morre o sol...
E nos tornamos juntos o arrebol!

CREPUSCULAR


Crepuscular amor que se declina,
Tal qual o sol morrendo no arrebol,
Já não chilreia mais, qual rouxinol,
E não tem mais o encanto, que fascina!

Tal como o dia que se vai com o sol,
Dando lugar à lua peregrina,
Com sua luz de prata purpurina,
Perdeu o seu lugar, que era de escol!

Tal como o sol se vai, agonizante,
Depois de belo dia radiante,
De tanto brilho, luz, pujança!

Perdeu a sua paz, a temperança,
E morre assim tão só, sem esperança,
Na sepulcral tristeza desse instante!

JARDINS SECRETOS

Cultivo dentro em mim jardins secretos
Regados com meus prantos vãos, doridos,
Que permanecem sempre bem floridos,
E de perfumes são também repletos...

Neles cultivo os meus amores idos,
Os sentimentos meus, dos mais diletos,
Os meus penares tolos, mas discretos,
Etéreos sonhos meus, jamais vividos...

Jardins secretos que florescem em mim,
Rebentos dessa dor que em mim se espalma...
Aos meus amores idos, meus legados!

Orquídeas, cravos, rosas cor carmim,
Que viçam sobre húmus de minh’alma,
Nos limos de meus prantos represados...

MORREM OS SONHOS


Morrem os sonhos, todas as quimeras,
Depois de agonizar com mil esperas,
Quais rosas pelo vento desfolhadas,
Nas mais eternas, frias madrugadas!

Morrem os sonhos como morrem as flores,
Perdendo seus encantos, seus olores,
Iluminados tons dos mais singelos...
Pois são de areia todos seus castelos!

Os sonhos morrem quais as borboletas
Que se atirando nos faróis da vida,
Desfazem-se na luz, em mil pedaços!

Morrem os sonhos se não há poetas,
Que os recolhendo, dão-lhes luz, guarida,
E façam versos com seus estilhaços!

QUANTA IRONIA!


Vês? Sou agora um pássaro que voa!
De teu sarcasmo torpe estou liberta,
Não tenho mais aquela vida incerta,
Tua perfídia já não me magoa!

Vês? De ti a minha vida está deserta,
E agora vivo bem, sorrindo à toa,
E dentro em mim teu nome não ecoa,
A tua voz mais nada em mim desperta!

Mas hoje vens aqui! Quanta ironia!
E choras teus sofreres e agonia...
E te humilhas! Dizes que me amas!

Não vês que nada sinto com teus dramas?
Que cinza não restou das velhas chamas?
Não tens pudor nenhum, nem galhardia!

COISAS DO CORAÇÃO


- “Coisas do coração” – Assim me dizes...
Assim traduzes minhas mágoas, dores
Que deixam n’alma tantas cicatrizes,
Levando desta vida seus dulçores...

- “Coisas do coração, dos teus verdores”...
E assim disfarças todos teus deslizes,
Mas nossos dias já não são felizes
E vão morrendo em mim os meus fulgores.

Tu nem percebes que me vou aos poucos,
Que agoniza dentro em mim o amor,
O mesmo amor que já foi teu um dia...

- “Coisas do coração! Ciúmes loucos!”
Se ouvisses meus queixumes, meu clamor,
Até o fim da vida amar-te-ia...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

EDIR PINA DE BARROS: POESIA



POESIA

Oh! Tu que vens de longe, pés cansados,
E que enormes mágoas trazes junto,
Oh! Entra! Senta! Cala! Eu não pergunto,
Por estes olhos teus, tristes, molhados!

Oh! Alma andeja! Os passos teus trilhados,
Na escura noite triste e tão sem fim,
Assim chegaram firmes, sós, a mim.
Oh! Tu que vens de longe, pés cansados...

Oh!Entra! Senta! Fica a sós comigo!
Não Fala! Não pergunto nada agora...
Fiquemos juntas nesta noite fria!

E deita calma no meu colo amigo!
Esquece tudo que ficou lá fora...
Sou terna! Amiga! Chamam-me Poesia!

sábado, 25 de setembro de 2010

DENISE SEVERGNINI: GRUPO POESIA RETRÔ




Romanesca


Oh!Amado dos mantos em negrumes espectrais!

Dedilho-te em evanescentes filigranas auspiciosas.

Lassidão absorta a tua... Evoco Posseidon nos abissais,

Rogando-lhe tua anátema destas hordas prestigiosas!


Numa abóbada celeste guarnecida de meus fadários

Esquadrinho-te como pulcra figura do bem fantasmal

Não nego amar-te... Pouco de ti apreendo nos hinários

De meu lied conspícuo, entoado a ti no cortejo sepulcral


Nulo ósculo, inexistente amplexo... Somente falácias.

Eternal viuvez de um femíneo íntimo deslumbrado!

Eu: Romântica nas expectativas, dolente nas tuas inércias!

Cavaleiro das plangentes azinhagas, tu és desalmado!


Tombo no vácuo noturno... E o plenilúnio tão denso

Vocifera toda crucificação no feminil cerne sacrificado

Altivo cavalariano, declina do negro corcel e propenso

Oblata amor a esta dama detentora de imo extasiado!

ROMMEL WERNECK: GRUPO POESIA RETRÔ


(Eduardo Fiel)


O TEMPO ME RESPONDERÁ

Parado. De pé. Sentado. Genuflexo.
Perdido na vida e rezando um rosário...
Perdido na vida e sempre solitário...
Vendo no chão lúgubre e torto reflexo.

Eu, o pródigo filho, inconstante e disperso
Pensando naquele passado lascivo...
Pensando naquele grande sonho esquivo...
Vendo no chão, um jovem cansado e perverso.

Oh! Dúvidas! Oh! Quantas inseguranças!
A vida – vazia estação em que se espera...
Oh! Dúvidas! Oh! Quantas desesperanças!

O que eu quero ser? O que acontecerá?
Como viver nesta triste primavera?
O tempo, só o tempo me responderá!