domingo, 10 de março de 2013

OMAR KHAYYAM: POEMA


(Ivan Bilibin)
 
 
Rubai 12
 
 
Lancei minh’alma além da Terra e do Infinito
 A procurar o Céu e o Inferno, a esmo.
 Quando voltou a mim, disse num grito:
 “O Céu e o Inferno estão dentro em ti mesmo.”
 
 
Trad. Ivo Barroso
 
 


OMAR KHAYYAM: POEMA

 
(Ivan Bilibin)
 
 
Rubai 5
 
 
Procura ser feliz ainda hoje;
 Nada sabes do dia de amanhã!
 Toma uma urna de vinho e foge
 Da ciência, limitada e vã.
 E antes que o dia de todo se acabe,
 Escuta, ao luar, esta sábia canção:
 “Amanhã, talvez, quem sabe?
 te procure a Lua em vão!”
 
 
Trad. Ivo Barroso
 
 

sábado, 9 de março de 2013

OMAR KHAYYAM: POEMA




Rubai 9

 

 

Eu considero vil o coração

 Que, sendo incapaz de amar, não pode

 Conhecer o delírio da paixão,

 O amor brutal que explode

 Em chamas

 E nem o beijo — essa divina

 Esmola.

 Se não amas

 És indigno do Sol que te ilumina

 E da Lua que à noite te consola.

 

 

Trad. Ivo Barroso

 


 

OMAR KHAYYAM: POEMA


(Hans Memling)
 
 

Rubai 54
 
 
… E da Sabedoria escuta a voz que tantas
 vezes já repetiu aos que delas se esquecem:
 “A Vida é breve, e não és como as plantas
 que, depois de podadas, reflorescem!”
 
 
Trad. Ivo Barroso
 
 

sábado, 2 de março de 2013

EMÍLIO MOURA: POEMA

(Marc Chagall)
 
EXORTAÇÃO
 
 
Procura bem por entre as sombras,
um vestígio sequer daquele
que, entre mil formas imprecisas,
ágil, armava sob mitos
a única via imaginável
na hora furtiva que o raptava.
 
Procuro no ar, no áspero vento,
na alma das coisas que passaram,
um sinal, um único, nítido,
de algo que, vivo, ainda te fale,
eco de extinta melodia,
sob tanta pátina e cinza.
 
Ah, procura saber de tudo o
que amor trouxe de imaginário
que dom, que força, que segredo
pulsa nessa hora que foi dele
e, apesar de efêmera, soube
a algo, afinal, de eternidade.
 
 
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

EMÍLIO MOURA: POEMA

 
(Edvard Munch)
 
 
 
IN EXTREMIS
 
 
Um intraduzível clamor se levantará de Jerusalém,
                    Como a lamentação de Adonis Ciniro,
    Nos campos de Meguido. E toda a terra tremerá.
 
       Zacarias – (12,10, II)
 
 
Antes isso. Agora chegou o momento em que o teu espírito não terá mais
                                                                                                       [dúvida.
A fogueira está acesa, os homens desvairados, e a noite caminha como uma
                                                                                                      [fatalidade.
Procura uma só estrela dentro da noite: tua esperança há de morrer antes
                                                                [que os teus já estejam fatigados
e a melodia do vento já haja desaparecido sob o fragor e a fúria dos elementos.
 
Antes isso. A pedra fala, o vento eleva-se, a terra agita-se.
Que pranto é esse que rola em silêncio sobre tantas faces iluminadas?
(Choram as fontes, tremem as árvores, a noite está deserta...)
Que mãos são essas que, de repente, cessam de amaldiçoar e se aquietam
                                                                                                 [em êxtase?
 
Senhor! Do fundo dos corações obscuros ainda há, entretanto, corações
                            [feridos que transbordam humildemente de esperança e
                                                                                    [de reconhecimento,
e lábios que oram:
 – Sim, na verdade, Ele era o Esperado – e se enchem, Senhor, de espanto
                                                                                                 [e de silêncio.


EMÍLIO MOURA: POEMA


(Paul Gauguin)
 
 
 

SÚPLICA
 
 
Porque chamais: Senhor, Senhor...e
não fazeis o que eu digo?
 
(Lc. 6,46)
 
 
Os inquietos, os loucos, os que ainda não Te descobriram, e os que nada
                                                                                                [compreendem,
os que pararam, e os que jamais tentaram a grande jornada,
todos eles. Senhor, estão comigo neste momento.
 
Comigo estão todos os que perderam a grande partida.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão os que não Te amam, nem Te compreendem,
os que Te negam, porque são felizes,
e os que Te negam, porque são infelizes.
Senhor, todos eles estão, agora, em minha insônia e em minha desolação,
            [como a presença da morte está na máscara dos que nada esperam.
Mata-os em mim, Senhor.
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MARIEL REIS: POEMA


(Alfredo Volpi)
 
 

O dia de meus anos
 
 
 
Para W.J. Solha
 
 
 
É o dia em que faço anos.
 
Nenhuma ou pouca importância.
 
Lá, no quintal, estão as crianças
 
E eu, aqui, dentro do quarto,
 
Rabisco no caderno as lembranças.
 
 
 
É o dia em que faço anos.
 
E lá fora também o devem comemorar
 
As coisas com nascimento remoto
 
Com pouca ou nenhuma consciência
 
Que nasceram e nada sabem do ciclo
 
De crescer, amadurecer, ter filhos,
 
Morrer confinado em lembranças
 
 
 
De um distante domingo,
 
Com amigos na varanda. Discutíamos
 
Heráclito, Píndaro e Ovídio
 
E não nos molhávamos mais no mesmo rio
 
Que um dia nos banhou em nossa infância.
 
 
 
E não nos afligíamos.
 
 
 
É o dia em que faço anos.
 
Costuma-se celebrar o antigo,
 
Aquele que mais tempo leva a desgastar-se
 
Aquele que o tempo não tem como inimigo
 
E passa os dias a juntar-se do que foi vivido.
 
 
 
É um dia de celebração, enfatizam os filhos.
 
Cercado pelas fotografias amarelecidas,
 
Constato que outro me habitava tão diferente...
 
Mas será comigo reduzido a nada
 
Nesse tempo tão presente.

MARIEL REIS: POEMA


(Marc Chagall)
 
 
ALICE
 
 
 
Desmonta a noite,
 
Com suas mãos infantis.
 
Recolhe as estrelas,
 
E arruma-as em uma caixa
 
Forrada de veludo vermelho.
 
 
 
A lua, com certo tremor,
 
Pede minha ajuda para colocá-la
 
Na moldura do espelho.
 
 
 
Desprende o manto negro
 
Presos por alfinetes no espaço,
 
Dobra-o e o deposita no fundo
 
Da gaveta do dia, repleta de claridade.
 
 
 
Esgarça o algodão e o cola sobre o azul
 
Do forro do vestido.
 
E, como Alice, grávida de sol,
 
Abre as pernas
 
Para que o dia amanheça.


MARIEL REIS: POEMA

 
(Renoir)
 

O Banho
 
 
 
Ao longo dos braços brancos
 
As marcas dos meus desejos,
 
Todas sulcadas: pequeno riacho
 
Por onde escorre a água do batismo
 
Do meu amor tardio que se calava.
 
 
 
Sobre o ventre macio se formava
 
Uma pequena ilha onde me refugiava,
 
As ondas mornas partiam a cada movimento
 
Das suas mãos espadanando como peixes
 
Que invadiam as minhas madrugadas.
 
 
 
O esmalte da banheira em que você deitava
 
Os pés apoiados em sua borda como plantas,
 
E sua voz ensangüentada. E a água resvalava
 
Por seus seios, instalada como em uma varanda
 
Eu escrevia meus anseios em uma tábua
 
 
 
Tal profeta que nada soubesse sobre a tarde
 
Que descia discreta sobre as suas pálpebras,
 
E descesse à floresta submersa e de lá arrancasse
 
As hordas em disparada dos deslumbramentos
 
Refletidas em sua fronte prateada.
 
 
 
Ao longo dos seus bocejos esvoaçam tranqüilos
 
O bando de nuvens estacionado em seus olhos,
 
De sua boca levemente escorrem os salmos
 
Dos navios desembocados na morte e lá o aviso,
 
Para os que escaparam de tal sorte:
 
 
 
“Desvia-te, ó peregrino, de terras movediças”.