sexta-feira, 16 de outubro de 2009

POEMA


A colheita

Limiar de um gesto incólume.

Sob o sol

feixes reluzem.

Dádiva da complacência.

FEDERICO GARCÍA LORCA: DOIS POEMAS


O CANTO QUER SER LUZ

O canto quer ser luz.
No escuro o canto tem
fios de fósforo e lua.
A luz não sabe o que quer.
Em seus limites de opala,
encontra-se consigo mesma
e volta.

EL CANTO QUIERE SE LUZ

El canto quiere se luz.
En lo oscuro el canto tiene
hilos de fósforo y luna.
La luz no sabe qué quiere.
En sus límites de ópalo,
se encuentra ella misma,
y vuelve.

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VARIAÇÃO

O remanso do ar
sob o ramo do eco.

O remanso da água
sob fronde de luzeiros.

O remanso de tua boca
sob espessura de beijos.

VARIACIÓN

El remanso dela aire
bajo la rama del eco.

El remanso del agua
bajo fronda de luceros.

El remanso de tu boca
bajo espesura de besos.

Tradução: William Agel de Mello

EMILY DICKINSON: DOIS POEMAS


A Natureza é o que sabemos
Mas a Arte não diria –
Tão cega é para o que é Simples
Nossa Sabedoria.

Nature is what we know –
Yet have no Arte to say –
So impotent our Wisdom is
To her Simplicity.

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O Céu não nos usurpa nada –
Mesmo aparentes furtos
São compensados sutilmente
Por desígnios ocultos –

Not One by Heaven defrauded stay –
Although he seem to steal
He restitutes in some sweet way
Secreted in his will –

Tradução: José Lira

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

MARC CHAGALL


DOIS POEMAS

Primavera

Ruas, trajetos
circunscritos.
Aglomeração
de pessoas.
Novos velhos
colóquios.
Alarido obtuso, insigne.
A existência consumida
como uma coisa.
Na escadaria
da catedral
pedintes ingênitos
sob um sol
obsequioso.
É primavera:
não há flores.


Noite

Somente as luzes
dos postes
iluminam
a noite.
O céu esquálido,
obstruído
por prédios e
fios elétricos.
Insetos
conclamam
a subserviência
do sono.

A DIMENSÃO CULTURAL DO HOMEM



Nós apreendemos a natureza apenas através da ideia que dela formamos: uma ideia cultural, ligada à verdade do homem e do mundo, que a história humana, por meio tanto da arte quanto da filosofia e da ciência, não cessa de elaborar e questionar.

Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus

Homem e coisa. – Por que o homem não enxerga as coisas? Ele próprio está no caminho: ele esconde as coisas.

Friedrich Nietzsche, Aurora. Ed. Companhia das Letras

domingo, 11 de outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

POEMAS DE MAJELA COLARES



"fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformando em chama
aceso verso, pensado e medido"









A CEGUEIRA DA LUZ

a cor da luz que refugia a noite
reflete sombras pressentidas quando

o tempo, ocaso, conspirou a luz

e nas pupilas desta noite fria
a luz fundiu-se contornando sombras

e se fez sombras quando luz, a luz...


VERTIGEM DA HORA

janela, muro, firmamento
a liberdade esvoaçando, rondando a vida
a imaginação rondando a mente
criando mundos
- mundo é o que dentro de nós existe
seus limites estão na ideia
circundam o tempo...
poderá ir um pouco além do muro
no entanto
confunde-se com o firmamento
com a vertigem da hora

a solução para o caos
está dentro de si
da mais remota e obscura
profundeza dos sentidos
à nítida e expressiva superfície de cada instante

os horizontes do grito de liberdade
a solidão do cárcere
nos habitam...
- cada homem é levado a conspirar um desses templos


CANTO VI

Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras


AS MARCAS DO TEMPO

o último impulso do segundo antes
ao projetar-se no após segundo

risca no tempo cicatrizes, fendas
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante

no confundível e abstrato mármore
imagem sólida do momento único


Poemas do livro As cores do Tempo

sábado, 12 de setembro de 2009

MAGRITTE II


POEMAS

Wittgenstein


Saber-se de antemão mudo
e no entanto dizer
a quem se dispõe ouvir
o que não pode ser dito



Chuva


ouvir a chuva
silenciar palavras
recolher sobras
diárias
da convulsão
humana

sentir a chuva
aproximar pessoas
acolher o tempo
desigual
endêmico

lavar as mãos
de quem só soube tê-las

fechadas



Ser


Breve
pulsar
de uma
libélula.
Apenas
a possibilidade
de ser.
(– As folhas,
ressequidas
pela
estiagem!)
Supostamente
gratuita
a alegria
dos meses.
Ilusão
de felicidade:
eterna
realização
do vivido.



Meditação sobre ruínas


Em seu convívio com o extremo
fruto algum será colhido.
Reclamas pela felicidade
em um mundo aliciado pelo passado.



Meditação sobre ruínas II


As dissidências do tempo.
Intermitente ânsia de sonhos.
Outrora luz, hoje esquecimento.




O jansenista


A promiscuidade dos séculos.
Estar morto e não sabê-lo.