segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO!

(Severino Borges)




Um feliz ano novo para todos leitores,poetas,artistas que estiveram no Poesia Diversa! Em janeiro estamos de volta.

domingo, 26 de dezembro de 2010

VAGNER PITTA: OS AVANÇOS DO JAZZ II





Segunda metade dos anos 50 - Ar Blakey, Max Roach, Horace Silver, Miles Davis, Clifford Brown, Thelonious Monk, Bill Evans, Sonny Rollins, John Coltrane, Charles Mingus : Hard Bop - A valorização do R'n'B no jazz.


Enquanto a Costa Oeste fervia com uma troupe de grandes instrumentistas, em Nova York os músicos negros seguiam mais amenos procurando novos meios de expressão após a febre do Bebop anos ateriores. Mas o trunfo dessa época foi a integração e a evidenciação dos vários estilos afro-americanos no jazz: o gospel, o blues e a soul music, componente do novo rhythm and blues da época. Nos inicio dos anos 50, Miles Davis, um dos músicos mais influentes da nova geração, cai no profundo vício da heroína; Charlie Parker já tinha dado a sua contribuição e seguiu fraco de saúde até a heroína o matar em 1955; Dizzy Gillespie continuava com grande sucesso, mas seguia a sua carreira com um grande revival às big bands, dessa vez unindo o jazz com rítmos afro-cubanos. Enfim, o início dos 50 foi uma época predominantemente de grandes músicos brancos do Cool e West Coast. Mas isso foi até Art Blakey, um dos "pais" da bateria moderna, formar com Kenny Dorham o grande conjunto Art Blakey's Jazz Messengers, onde surgiram uma multidão de grandes instrumentistas apartir de então. Alguns músicos que fizeram sucesso com Art Blakey nessa época foram justamente os principais responsáveis pelo aparecimento do chamado Hard Bop: podemos destacar, nesse período,os trompetistas Kenny Dorham, Clifford Brown, Lee Morgan, o saxofonista Lou Donaldson e o pianista Horace Silver que é considerado o principal "pai" do estilo ao surgir com um elemento chamado "funky", um ingrediente que consistia na repetição de figuras rítmicas sincopadas ao piano (notado claramente em seu dedilhado de mão esquerda), imprimindo, assim, um "balanço", um swing bem característico e catalizador desse estilo de jazz associado à música afro-americana.

Em paralelo ao Art Blakey's Menssengers, Max Roach, outro "pai" da bateria moderna, surge com um revolucionário quinteto que trazia músicos de alto quilate como o saxtenoristas Harold Land, o trompetista Clifford Brown e, como grande novidade, o joevem-tubista Ray Draper. Este quinteto de Roach ainda agruparia o poderoso saxtenorista Sonny Rollins que substituiu Harold Land e o espetacular trompetista Booker Little que entrou após a morte de Clifford Brown em 1956.


Miles Davis que vinha fazendo pouco sucesso e chegou até a se afastar da grande companhia dos seus amigos junkies, se mudando de Nova Iorque, resurge das cinzas com grande categoria ao vencer o vício da heroína entre 1953. Apartir da segunda metade da década de 50 Miles, mesmo sem uma banda fixa, surge com uma série de bons álbuns de Hard Bop para o selo Prestige e marca a sua contribuição para a época. Sua determinação em montar uma banda fixa e criativa como Dave Bubreck que colocou seu quarteto no olimpo das pequenas formações, o levou a procurar por talentosos músicos apartir de então. Miles mais uma vez mostraria ser um bom "cão farejador" sempre a procura de músicos que pudessem por em prática todas as suas idéias e suas ambições. Assim, Miles encontra John Coltrane que já vinha de seu grande aprendizado com Thelonious Monk; Bil Evans, um pianista branco que, como Ahmad Jamal (o pianista preferido de Miles Davis), tinha uma grande sensibilidade e era dotado complexidade harmônica( adquirida de suas instruções com George Russel, o Pai do Jazz Modal); o baterista Philly Joe Jones, grande amigo e companheiro de Miles Davis apartir de 1954; Paul Chambers, um jovem contrabaixista que tinha uma técnica assombrosa, dominando por completo o seu instrumento ( além de ser um grande entusiasta do R'n'B); Cannonball Adderlley, um dos maiores altoístas da época que tinha entre suas características a velocidade de fraseado e o estilo bluesy de tocar; enfim, Miles chega com uma banda definida em 1957 gravando com ela dois grandes álbuns responsáveis por inserir o Sistema Modal de Russell ao Hard Bop da época: Milestones de 1958 (com o quinteto) e o maior de todos os seus álbuns, Kind of Blue ( com o sexteto) já pelo selo Columbia em 1959.


Thelonious Monk, por sua, vez seguia desde os tempos do Bebop como uma estranha figura que, por ser extremamente original na forma com que tocava e compunha, acabou por ficar no ostracismo durante muitos anos desde sua estréia na Blue Note, no final dos anos 40 para início dos anos 50. Aliás, Monk não era sempre esquecido. Vez ou outra, ele era lembrado como o mais original e estranho pianista da época, mas nunca como um dos "pais" do Bebop, já que seu estilo era por demais original e único. Assim, apartir da metade de 1957 Monk ressurge ao lançar o brilhante disco Brilliant Corners. Entre o final dos anos 50 e início dos anos 60 o estilo de Monk foi finalmente reconhecido pelos críticos e pela nova de jovens músicos: ele resurgiu como uma influência tão forte que foi capaz de colocar a maioria dos músicos criativos aos seus pés: John Coltrane seria um dos jovens músicos a aprender muito do grande sacerdotte; Steve Lacy, um músico que vinha desde a metade da década de 50 com idéias vanguardistas, se deleitou ao estilo do pianista gravando grandes discos com suas estranhas composições; Cecil Taylor, outro grande músico dotado de idéias vanguardistas, mostrou ser a principal inluência e evolução do estilo pianístico e composicional de Thelonious Monk. Conclusão: em 1964 Monk aparece na capa da Revista Times já consagrado como uma eterna e moderna influência para todas as gerações de pianistas e compositores que viriam depois. A década de 60 foi marcada por excelentes registros de Monk pela Columbia Records: entre eles destacam-se Monks Dream, (1963) e Underground (1968).


Por fim, Charles Mingus, foi o principal nome do contrabaixo vindo do cenário do Bebop. Além de suas colaborações com os beboppers nos anos 40, Mingus também colaborou com inúmeros músicos de big bands e até do West Coast: alguns dos mais célebres músicos com os quais colaborou foram Duke Ellington, Red Norvo, Barney Bigard, Stan Getz, Billy Taylor, Lionel Hampton dentre outros. Mingus surge no cenário do Hard Bop com seu primeiro disco enquanto leader em 1956 intitulado Pithecanthropus Erectus: o estilo abrangia o blues e a música afro, suas próprias idéias experimentalistas e o uso de requintados arranjos e complexas harmonias , tendo como maiores modelos e inspirações o grande Duke Ellington (na forma do arranjo) e o estranho Thelonious Monk (no estilo harmônico). Além disso, Mingus foi o responsável pela ascensão do contrabaixo dentro do Jazz Moderno, conferindo a este instrumento um discurso próprio e uma liderança só vista anteriormente com Oscar Pettiford nos anos 40. Assim, Mingus segue nos anos 60 com seus experimentos e suas aventuras jazzísticas elevando o jazz a um patamar de complexidade até hoje questionado e estudado por muitos músicos e estudiosos do jazz.


Anos 60 - John Coltrane, Ornette Coleman, Cecil Taylor, Eric Dolphy, Albert Ayler, Andrew Hill, Freddie Hubbard, Steve Lacy :Free-Jazz - Um novo dialecto no idioma jazzístico


Já em 1956 Cecil Taylor e Steve Lacy surgiram com várias idéias expansivas em torno do Jazz Moderno: Cecil e Lacy gravam o disco Jazz Advance adiantando no jazz algumas abordagens da Música Erudita Contemporânea como o uso da atonalidade, do experimentalismo e dos rítmos complexos, características que Lennie Tristano já havia abordado quase uma década antes. Mas é apartir de Ornette Coleman que nasce um novo dialecto do jazz em 1959. Aliás, Ornette já vinha desde o início dos anos 50 com um estilo muito peculiar que lhe tinha rendido inúmeras demissões: muitos músicos com quem Ornette tocara no início da carreira diziam que o seu som era horrível e seu fraseado era torto e disforme. Dexter Gordon chegou ao ponto de expulsá-lo uma certa vez, alegando que ele desafinava e não sabia os acordes. Assim, em 1959 Ornette Coleman segue seus próprios extintos e concepções formando um distinto quarteto com músicos que tinham as mesmas idéias que as suas: o contrabaixista era Charlie Haden, o trompetista era Don Cherry, os bateristas eram Billy Higgins e as vezes Ed Blackwell. Em 1960 estava firmado apartir do lançamento do seu disco intitulado Free Jazz o nascimento de um novo dialecto do jazz contrário aos padrões do Bebop da mesma forma que o mesmo foi contrário aos clichês do Swing no início dos anos 40. Assim, Ornette surge da noite para o dia como o grande do inovador do Jazz Moderno, libertando-o dos padrões do Bebop e Hard Bop da época. Muitos músicos vinham de todos os lados para ver seu quarteto tocar no famoso clube Five Spot: entre os visitantes mais célebres estava o famoso maestro americano Leonard Bersntein que certa vez o aconselhou a seguir com aquele propósito dizendo: "filho, muitos jogarão pedra hoje, mas amanhã tú serás eternizado". O seu estilo Free Jazz consistia em improvisar sem usar os acordes convencionais como base e libertar a marcacão rítmica dos padrões do Bebop, tentando assim estabelecer novas e inusitadas formas de diálogos entre os instrumentos com quase sempre uma improvisação simultânea. O atonalismo -- um conceito originado na música erudita ocidental (e previsto por Lennie Tristano) e a livre improvisação foram os principais elementos do chamado Free Jazz. Mas apesar disso, Ornette Coleman ainda prezava o blues e a sonoridade do jazz -- a princípio, o que ele fez foi "libertar" o jazz dos manjados padrões rítmicos a harmônicos.

John Coltrane após alguns bons discos do HardBop, passa a trabalhar apartir dos anos 60 em busca de uma maior liberdade sonora. Ele queria um estilo próprio, poderoso e influente como o som de Sonny Rollins lhe parecera ser em meados dos anos 50. Assim, Trane se liberta totalmente do estilo bop e explora diversos tipos de músicas numa busca insensante pelo espiritualismo e pelas sonoridades místicas e inusitadas. Dá para traçar apartir de seu grande álbum Giant Steps e de sua colaboração no Kind of Blue (ambos de 1959) o fio evolutivo que levaria o músico a se libertar do fraseado Bop, criando, assim, seu próprio estilo livre e original como podemos ver em obras-primas como A Love Supreme, Ascension e Interstellar Space, gravado antes de sua morte em 1967. As três grandes influências de Coltrane em sua fase Free Jazz foram Albert Ayler que lhe instruiu como tocar o sax tenor mais livremente, Steve Lacy que lhe influenciou a usar o sax soprano apartir de 1960 e Pharoah Sanders que lhe influenciou buscar inspiração na música indiana e outras culturas orientais apartir de 1965.

Eric Dolphy, um músico descoberto pelo brasileiro Chico Hamilton, vinha fazendo carreira ao lado do grande Charles Mingus apartir do início da década de 60. Mas também alçou uma considerável (e curta) carreira solo com grandes discos que prezava o fraseado de Charlie Parker, as harmonias estranhas do dodecafonismo de Schoenberg e a liberdade rítmica de Ornette Coleman, com quem também já tinha colaborado em seus primeiros discos. Além disso, Eric Dolphy foi o grande respondável pela popularização do clarone (clarinete-baixo) dentro do Jazz Moderno, assim como Steve Lacy tinha popularizado o sax soprano anos antes. A principal obra-prima de Dolphy é o seu fantástico disco Out to Lunch de 1964, mesmo ano em que morreu, deixando, como seu companheiro Charles Mingus, uma obra de grande complexidade que ainda hoje frusta os grandes músicos e estudiosos do jazz.


Cecil Taylor e Steve Lacy seguiram comos os maiores e mais radicais músicos de Free Jazz. Cecil foi um dos responsáveis pelo sucesso de grandes músicos do cenário do free jazz sessentista: Andrew Cirille, Jimmy Lions, Alan Silva e muitos outros. Lacy por sua vez se impôs como o grande pioneiro e inovador do sax soprano e com idéias tão diversas que fugiu dos terreiros do Free Jazz, adentrando à outros tipos de arte moderna, dentre elas a artes plásticas. Enfim, tanto Cecil Taylor como Steve Lacy seriam fortemente rejeitados no cenário americano no início dos anos 60 por serem radicais ao extremo. No final da década de 60 esses dois grandes músicos foram atraídos para o vasto e proeminente cenário europeu.

Andrew Hill, um pianista já conhecido desde meados dos anos 50 também tinha incorporado as ídéias vanguardistas da década de 60. Porém seu peculiar estilo de composição e execução pianística caminhava no meio termo entre o Hard Bop e o Free Jazz, absorvendo ainda grandes influências da Música Erudita Contemporânea, já que seu professor de composição tinha sido o maestro e compositor Paul Hindemith, um dos maiores nomes da música erudita do século XX. Dentre os músicos que colaboraram com Andrew Hill estavam Joe Chambers, Richard Davis, Eric Dolphy, Bobby Hutcherson, Joe Henderson, Freddie Hubbard, Elvin Jones e posteriormente Woody Shaw e Tony Williams.


Por outro lado, o Hard Bop, agora tido como o mainstream do jazz, seguia com Miles Davis e seu quinteto composto por outros grandes jovens como o pianista Herbie Hancock, o baterista Tonny Willians, o contrabaixista Ron Carter e o saxofonista Wayne Shorter surgido do grande Art Blakey's Menssengers. Além de Miles, os trompetistas que mais faziam sucesso eram Donald Byrd que acabou incorporando a soul music e o funk no final dos anos 60 e Freddie Hubbard que agradava tanto o mainstream do Jazz Moderno como a Vanguarda, já que tinha partipado dos grandes discos Free Jazz de Ornette Coleman e Out To Lunch de Eric Dolphy.

Década de 70 - Miles Davis, Herbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarrett, Donald Byrd, Woody Shaw, Cecil Taylor, Anthony Braxton, Lester Bowie e Free Jazz Europeu ( Derek Bailey, Evan Parker, Chris McGregor, Peter Brötzmann, Han Bennink...) : Fusion/ Avant-Garde Europeu/ Post-Bop - A década da crise de indentidade.


A década de 70 é tida como o período em que o jazz atravessou uma grande crise de indentidade. Isto é, o grande advento do Rock na década de 60 e as diversas formas que o jazz tinha tomado acabou por espalhar e dividir os apreciadores que ficavam por demais confusos com tantas vertentes que, em sua maioria, tinha características interligadas mas na prática eram totalmente diferentes entre sí: de um lado o Post-Bop de Woody Shaw, um dos poucos músicos que se mantiveram lúcidos e fiéis às heranças do Jazz Moderno, se tornando, assim, a maior sensação do trompete da época; de outro lado o Free Jazz da escola de Chicago, mais propriamente representado pelas grandes AACM do saxofonista Anthony Braxton e Art Emsemble of Chicago do trompetista Lester Bowie; ainda tinha o Fusion de Miles Davis (ou Jazz-Rock) que ficou caracterizado pela integração da psicodelia, do rock e da música eletrônica ao Jazz.

Na Europa o free jazz começava a se projetar de forma mais radical apartir das grandes formações de Chris McGregor, um sul africano que passou a atuar na Inglaterra e Alemanha com seus grandes conjuntos,mais propriamente com sua famosa orquestra Brotherhood Of Breath, um grande conjunto de músicos africanos e europeus que dialogavam simultanemente através de uma nervosa e livre improvisação. Desse conjunto surgiria Evan Parker, um músico que viria a formar uma concepção de música e de articulação instrumental totalmente própria.
Além desses músicos outro grande e estranho saxofonista já havia marcado o cenário do Free Jazz Europeu: o alemão Peter Brötzmann, que se juntou a músicos como Han Bennink (fundador da Instant Composer Orchestra), Evan Parker e Willem Breuker para gravar, em 1968, o barulhento disco Machine Gun, se firmando como a maior promessa da música improvisada na Europa desde então. Enfim, o cenário do Free Jazz Europeu acabava por se tornar um grande celeiro de músicos que tinha como ponto de partida o Free Jazz americano, mas optaram por radicalizar mais ainda através de experimentalismos e de suas próprias técnicas e concepções, baseadas nas influênias do vanguardismo europeu -- a música abstrata de Boulez, a música eletrocústica de Stockhausen, dentre outros elementos originados do serialismo. Os maiores exemplos de músicos da vanguarda européia que se distanciaram do jazz são, justamente, o saxofonista Evan Parker e o guitarrista Derek Bailey, ambos músicos que detinham concepções e técnicas próprias de tocar seus instrumentos, de modo que até hoje quase ninguem se atreve a enquadrar seus estilos dentro do conceito de Jazz.


O cenário da Livre Improvisação Européia se tornou, então, um circuito alternativo para os músicos do Free Jazz americano: alguns dos músicos a buscarem inspiração e trabalho no circuito europeu já no final da década de 60 foram Lester Bowie e Cecil Taylor que viajou à Europa com o seu célebre conjunto denominado Cecil Unit em 1969. Assim, não é nenhuma novidade quando se ouve ou se lê que os músicos de Free Jazz norte-americanos trocaram suas idéias experimentais com o distante mundo do Avant-Garde europeu e vive-versa.


Nos Estados Unidos, o maior reduto dos vanguardistas passou a ser Chicago, um reduto que ja tinha história em termos de músicos progressistas. Em Chicago evidenciaram-se grande músicos vanguardistas como Roscoe Mitchel, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins e Anthony Braxton. Esse ultimo, aliás, um jovem entusiasta da matemática e da Música Erudita Contemporânea de Schoenberg, Xenakis, Stockhausen e John Cage, engajou-se uma insensante busca por novos caminhos que, em muitas vezes, não evidenciaram nenhum resultado claro de descoberta musical, mas que, em sua totalidade, trouxeram novas abordagens ao avant-garde. As composições de Braxton buscam a abolição da maioria os padrões do Jazz Moderno (o blues e as influencias afros, o improviso sobre acordes, as blue notes e o swing), procurando incorporar o uso da matemática (como Xenakis) ou da música de computador (como Stockhausen). Braxton impressionaria ainda pelo uso de inusitados e enormes instrumentos, bem como através de estranhas formações que iam de apenas um instrumento solo ( como For Alto) até grandes emsembles, como a sua composição para um conjunto de Tubas e uma outra para duas orquestras.


O Art Emsemble of Chicago de Lester Bowie e a AACM de Braxton e Roscoe Mitchel procuravam partir do Free Jazz de Ornette Coleman mas com uma proposta totalmente nova que consistia em incorporar diversas sonoridades da música negra afro-americana e da world music, bem como diversos tipos de instrumentos e diversos músicas no conceito de livre improvisação. A maioria dessas aventuras geraram trabalhos invencionistas: uma grande torrente de experimentalismos não elaborados -- a premissa , afinal, era tocar uma música espontânea, sem bases ou propósitos definidos. Esse núcleo, aliás, caminhou lado a lado com o novo cenário do free jazz europeu.

Mas apesar de todos esses movimentos de radicalização estarem em andamento, o fusion, encabeçado por Miles Davis, foi o grande protagonista da década de 70 em termos mercadológicos. Miles e seus discípulos, por suas vezes, seguiam eufóricos e totalmente distantes do tal como ele fora nas décadas de 50 e 60. Alguns músicos que fizeram sucesso nessa nova estética foram Jaco Pastorius, Wayne Shorter e Joe Zawinul com seu grupo Weather Report, Herbie Hancock com seu grupo Headhunters e Chick Corea com o Return to Forever dentre outros. Miles Davis, o músico respondável pelo sucesso de todos esses jovens do cenário da Fusion também seguia firme e forte como o grande pioneiro do Fusion e já como uma grande figura da Pop Music americana. Mas apesar de todos esses músicos seguirem o euforismo do mercado fonográfico, Keith Jarrett, um dos pianistas do Fusion inicial de Miles Davis, se volta para a lucidez para o piano acústico engajando-se numa incensante busca pela complexidade e, por consequência, pelo reconhecimento do público ao seu estilo inovador de abordar o intrumento.


Diante de tantas reminiscências e de tantos experimentalismos, a década de 70 foi considerada uma espécie de "década perdida" pelos mais puristas, haja vista que o jazz acústico havia minguado quase que totalmente do mercado, enquanto que a música pop e o rock tomou todo o espaço. Ao lado desse fato, tinha outro que era os experimentalistas querendo se apropriar do termo "jazz" para etiquetar suas obras. No entanto, o próprio Miles Davis, que até fora um experimentalista nos primeiros anos do jazz fusion, chegara a decretar uma suposta "morte do jazz", aderindo à música pop. Porém nos anos 80 aconteceria, através do trompetista Wynton Marsalis, um grande fenômeno chamado Renascimento do Jazz. Wynton Marsalis resgatou o jazz acústico -- tendo como base o bebop, hard bop e post-bop -- partindo de onde Miles tinha parado em 1968, demonizando não só o fusion e o pop, mas também a chamada "livre improvisação" dos experimentalistas.

sábado, 25 de dezembro de 2010

VAGNER PITTA: AVANÇOS DO JAZZ




Avanços do Jazz: da Modernidade à "Morte"

Anos 30 e ínicio dos anos 40 - Duke Ellington : Swing - Os primeiros espamos de Modernidade

Duke Ellington foi um dos primeiros grandes nomes do jazz a integrar o rol dos mestres modernos que se tornaram influências definitivas para todas as gerações subsequentes. Mestre na composição, nos arranjos e no piano, Duke já era considerado moderno mesmo nos anos 30, um gênio à frente da sua época. Numa época onde o jazz era totalmente impulsionado pelos apelos comerciais do cinema, do rádio e era essencialmente um entretenimento das elites nova-iorquinas, Duke se destacou por compôr prezando sempre a complexidade: ele escreveu alguns dos mais melodiosos temas de jazz da história, foi pioneiro por inserir o formato da suite sinfônica no jazz -- vide obras como Black Brown and Beige --, foi um dos maiores gênios do arranjo e da harmonia da história e um dos maiores bandleaderes que já se conheceu. Sua sensibilidade como compositor era tão aguçada, que ele detinha a capacidade de escrever para todos os instumentos de sua orquestra como se estivesse escrevendo um concerto para cada um deles, juntanto-os depois num arranjo coeso e brilhante, cheio de melodias lindas, efeitos de surdina, sobreposição de vozes e outros efeitos sonoros que evocam tanto a influencia urbana -- com seus barulhos de carros e trens -- como o lamento afro-americano. Conclusão: Duke Ellington, mesmo sendo da época onde o jazz era basicamente dança, se tornou uma influência definitiva para todas as gerações de pianistas, bandleaders, compositores e arranjadores que surgiriam nas décadas posteriores.

Anos 40 - Charlie Parker & Dizzy Gillespie: Bebop - a grande modernidade por pequenas formações


Nasce o chamado Jazz Moderno: Charlie Parker e Dizzy Gillespie foram os dois jovens que, recém-desempregado das suas sua respectivas orquestras, passaram a se encontrar nos spots do Harlem para participar das famosas jam sessions. As formações eram pequenas e lá duelavam entre sí, modificavam e improvisavam sobre temas já manjados e acabavam por inventar outros temas que logo formariam os standards desse novo estilo chamado Bebop. Os beboppers experimentaram diversos tipos de formações até encontrar o famoso padrão trompete+sax+piano+contrabaixo+bateria, com o qual cada instrumento teria uma maior liberdade para solar e improvisar. O pré-requisito para o estilo era ser um virtuose de mão cheia , ou seja, ser dotado de um ligeiro fraseado: tal músico que tivesse essas características e fosse excelente improvisador, esse seria um vencedor dos duelos de solos. Charlie Parker e Dizzy Gillespie foram os criadores da técnica Bebop em seus respectivos instrumentos: todos queriam improvisar e frasear tão rápido quanto eles. Ainda considerando os outros instrumentos, podemos destacar, além de Bird e Dizzy, outros grandes responsáveis para o surgimento do Bebop: Papa Jo Jones e Kenny Clarke seriam pioneiros que configuraram a linguagem Bebop para a bateria, vindo em seguida evoluir em jovens como Art Blakey e Max Roach alguns anos depois. O piano teria dois grandes representantes: Bud Powell, o grande responsável por definir o estilo pianístico da época e Thelonious Monk, um pianista que por ter estilo muito peculiar ficou esquecido como um dos grandes "pais" do novo estilo com o decorrer dos anos. Assim, dos anos 40 com o descobrimento do Bebop até hoje, tudo no jazz nada mais é do que uma variação do moderno estilo Bop, diferindo apenas em algumas características que foram aderidas ao estilo ao longo da história.


Final dos anos 40/ Começo dos anos 50 - Lennie Tristano, Miles Davis, Gil Evans, Chet Baker, Gerry Mulligan : Cool Jazz & West Coast - A predominância dos "brancos".

Não se sabe ao certo quem foi o primeiro músico que cunhou a expressão "Cool" no cenário do jazz. Mas sabe-se que já em 1947 os discos Cool Breeze de Dizzy Gillespie e Cool Blues de Charlie Parker firmavam a palavra como um termo que caracterizava o estilo mais calmo que de tocar jazz, ou seja, o estilo mais lírico, mais "cabeça fria", mais "sossegado", já que o Bebop era um estilo por demais afoito e virtuoso. Esse estilo já vinha sendo percebido nos solos de Lester Young alguns anos antes: o veterano saxtenoriza prezava as frases mais líricas, mais lentas, trabalhando mais em torno do timbre do que das frases. Foi com esse mesmo intuíto de polemizar em torno da velocidade exarcebada do bebop é que surge em Nova Iorque, em meados dos anos 40, um pianista cego com "idéias malucas": seu nome era Lennie Tristano. Suas idéias consistia em unir o jazz com aspectos da música erudita ocidental e trabalhar novas texturas sonoras mais dissociadas do aspectos africanos ou da velocidade estrutural, reformulando, assim, o Bebop que na sua visão tinha se tornado um estilo de muitas notas e pouca música. As idéias de Lennie Tristano eram tão avançadas para a época que ele foi capaz de prever a união entre o jazz e a Música Erudita Contemporânea, ou seja, Tristano, em seus comentários, já previa o encontro do jazz com elementos da vanguarda ocidental: como o atonalismo, que seria uma das bases do Free Jazz ( ou Jazz Avant-Garde) no final dos anos 60. Em suas composições, em seus conjuntos e em todas as suas concepções Lennie Tristano dispunha de vários elementos para fugir dos clichês dos beboppers: ele usava harmonias mais complexas e obrigava seus bateristas a usar mais a escovinha do que as baquetas para se obter um som mais "cool" e menos africano. Posteriormente, ele se concentrou mais na carreira de professor do que de líder de banda, dirigindo uma influente e moderna escola de onde saíram inúmeros grandes músicos como Sal Mosca, Billy Bauer, Lee Konitz, Phill Woods, Warne Marsh dentre outros.

Ainda paralelo ao Cool, surgiu o termo West Coast Jazz (jazz da Costa Oeste). Miles Davis, um jovem visionário que procurava se cercar sempre dos melhores músicos ( dentre os quais os músicos da orquestra de Claude Thornhill, o grande reduto de bons arranjadores), foi o elemento final para a definição do Cool Jazz:. Em 1949, contribuindo com apenas duas composições, Miles lançou o disco Birth of the Cool, definindo e evidenciando o estilo. Nesse projeto, Miles apenas liderou um trabalho onde os maiores responsáveis foram Gerry Mulligan, John Lewis, John Carisi e Gil Evans ( o mais célebre arranjador de Thornhill). O projeto, aliás, começa com a irreverente Tuba Band, o conjunto apresentado por Miles em 1948 com vários músicos brancos vindos da Costa Oeste. O conjunto tinha instrumentos um tanto inusuais em formações da época: tais como a tuba a a trompa.

No início dos anos 50 o reduto chamado West Coast se tornou a grande proposta para os inúmeros músicos brancos do oeste americano. Mostrando que os "brancos também sabiam swingar", a Costa Oeste passou a ser o reduto mais reverenciado até mesmo que o cenário da grande Nova Iorque. Os músicos tinha influências diversas: desde as preferências por aspectos da música erudita ( de onde surgiu o estilo Third Stream) passando pelo Bebop até desembarcar no recente Cool Jazz. Essas prefêrências diversas dos "músicos brancos" lhes permitiram unir a música ocidental com a afro-americana se firmando, assim, como inovadores compositores e arranjadores. Tanto que alguns músicos brancos que foram trabalhar em Nova Iorque com Claude Thornhill e outros grandes bandleaders, voltaram para a Costa Oeste no início dos anos 50, já que o cenário nessa época se mostrava totalmente promissor. Alguns bons músicos e arranjadores (como Henry Mancini) foram atraídos pelo enorme mercado do cinema em Hollywood, compondo grandes musicais e trilhas sonoras para filmes da época. Outros passaram ser atrações nos grandes clubes de Los Angeles à Nova Iorque, mostrando que os brancos podiam tocar jazz como os negros: dentre esses músicos os que mais destacaram foram Dave Bubreck e Paul Desmond com o famoso quarteto, Stan Kenton com seu moderno estilo de big band, o influente baterista Shelly Manne, Gerry Mulligan e Chet Baker com o revolucionário quarteto sem piano e Stan Getz com seu melodioso sax tenor a La Lester Young. Ainda na primeira metade dos anos 50, John Lewis, um dos únicos músicos negros a integrar o time Birth of the Cool, formou o moderno Modern Jazz Quartet e Chet Baker seguiu como a grande alma do Cool e o grande "Poeta do Jazz".

GALERIA JAZZ

(Dave Douglas)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

CÂNDIDA DE SANTIAGO LINHARES: POEMA

(Bradí Barth)




UMA CANÇÃO PARA ISABEL

A Dulce Maria Linhares Maciel


Esta canção devia ser escrita...
Vinte séculos se passaram.
E o tempo não conseguiu gastar
O que era para subsistir!
Como denominar a força
Que reuniu cada palavra dispersa
Para arquitetar a frase, mensagem-cristalina?...
Nobre amiga Isabel, por que deveria eu participar do diálogo?
Agora que ele foi escrito em mim,
Com palavras vivas, subsistirá...
Traduzirei para quem foi preparado
A verdade e a beleza ocultas, mas latentes,
Que arrebatam e edificam:
Teu ventre, intumescido, tomou a forma do cosmo,
E traduziu no tremor vivido
O estremecimento de toda criação
Sensível à grande presença onipotente
Que veladamente se iniciava
No primeiro corpo-templo:
O de Maria!
E, quando em ti, tua criança vibrou
Simbolizava a humanidade
Superanimada pela energia divina,
Que emanava do Emanuel
O “Deus conosco” fraternalmente
Unido para sempre!

Ninguém pode conceber
O abismo que distingue
A criação de antes,
Da criação de após,
A encarnação do verbo!
Mas a nuvem que pairava sobre a manjedoura,
A árvore silenciosa, onde mãe e filho repousavam,
O pó, do caminho que levava Miriam à fonte,
A água clara que enchia o cântaro,
O fogo que crepitava
No lar de José, o operário,
Estes sabiam, sim,
Ante de ti e de mim,
O imortal segredo
Só agora desvendado!...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POEMA

(Ouro Preto)



O REI MENINO

O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio da Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.

Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem jóias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.

O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.

Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.

GALERIA JAZZ

(Ornette Coleman)

sábado, 18 de dezembro de 2010

MOBY DICK POR RUAZ

Convido os leitores do Poesia Diversa a verem os desenhos de Ruaz para o clássico Moby Dick. Vale a pena acompanhar essa série.

www.homemdofarol.blogspot.com

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

DALTO FIDENCIO: POEMAS

(Max Ernst)



PERDAS

Não chores pelos passos que se vão
E pela dor do adeus desatinado,
Finde seus soluços... cante uma canção!
Deixe a poesia estar ao seu lado.

Lágrimas jamais serão a solução
Quebre o elo, liberta-te da corrente
E saibas que nada perdeste... não!
Pois só se perde o que nunca se teve realmente.

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A DOR DO SILÊNCIO

A dor do silêncio me traz mementos
De sua doce voz, a me tornar refém
A me fazer sorrir em todos os momentos
Sem medo, sem lágrimas, sem réquiem.

A dor do silêncio agora jaz aqui
Naquela flor tão morta, tão calma
Pedindo um choro qualquer para si
Sem pompa, sem vela, sem trauma.

A dor do silêncio desatina a sede
Da vida humana...o líquido carmesim!
O sangue mortal cai em minha rede
Sem culpa, sem volta, sem fim.

A dor do silêncio se faz presente
Saudades da luz que tive um dia
Pois vago nas trevas eternamente
Sem vida, sem morte, sem poesia.

__________________________________________


CAIAM MUROS

Canta teu lamento único o violino
E as lembranças de teus lábios me elevam,
Oh! É doce o sussurrar do hino
Seus olhos, num sorriso, me enlevam.

Amores impossíveis? Esperançosas juras.
Distâncias traiçoeiras, ai de nós!
Muros a nos separar de forma atroz
Se evolam nuvens negras; impuras.

Amores possíveis, ribomba minha voz!
Empunha a Katana, destroça a muralha!
Pois há de chegar, nosso reino de Oz,
Prepara porém, teu coração para a batalha.

O que é a falta de ouro ou mesmo infinitas léguas?
Se nos amamos de alma e corpo e de corpo e alma,
O amor, nossa arma suprema. Venceremos sem tréguas,

Esta guerra, que nos impôs o destino num momento hirto,
Juntos em vida ficaremos, traçado na esquerda palma
Pois nada pode tolher um amor que já estava escrito.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

GALERIA JAZZ

(Bill Evans)

VIVA O GOVERNO DO POVO! VIVA!





Em um único ano, o aumento salarial concedido custará aos cofres públicos aproximadamente R$ 86,7 milhões a mais. No total, o salário desses membros do Legislativo e Executivo somará um montante de R$ 219,5 milhões, sendo que antes do reajuste o gasto chegava a cerca de R$ 132 milhões.

Para os deputados e senadores, a mudança significa um acréscimo de 61,8%. Para o presidente e os ministros, a conta chega a mais de 130%.

Com o aumento de salário de um único deputado, seria possível pagar seis agentes de saúde, dois analistas de transporte ou especialistas em meio ambiente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), de acordo com os dados oficiais da tabela de remuneração dos servidores federais.

De salário, um deputado federal embolsa R$ 16.512. A Cota por Exercício de Atividade Parlamentar varia de R$ 23.033 a 34.258,50, para despesas com o trabalho, como combustível e passagens aéreas.

Já um senador, que recebe salário igual ao de um deputado, tem ainda até R$ 23 mil em passagens aéreas, despesas de até R$ 15 mil por mês cobertas pela verba indenizatória, além de verba disponível para moradia, telefone, correio e gráfica.

Fonte: Terra Magazine

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

VIVA O GOVERNO DO POVO! VIVA!





BRASÍLIA - O Senado aprovou no final da tarde desta quarta-feira, em votação relâmpago, o decreto legislativo que equipara os salários de presidente da República, vice-presidente, ministros de Estado, senadores e deputados aos vencimentos recebidos atualmente pelos ministros do Supremo Tribunal Federal: R$ 26.723,13.
fonte: O Globo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

GALERIA JAZZ

(Miles Davis)

GALERIA JAZZ

(Miles Davis)

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: POEMA

(Fra. Angélico)




CARTÃO DE NATAL

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem,
o sim comer o não.

domingo, 12 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

JUNQUEIRA FREIRE: POEMA

(Van Gogh)



Louco (Hora de Delírio)

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele,

Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim — o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Os sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.

FAGUNDES VARELA: POEMA

(Fra. Angélico)




INVOCAÇÃO

Eu te vejo sentada entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.
América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Pura em tua nudez, sempre singela,
Da Gália mentirosa o luxo deixas,
És da Escritura a tímida gazela!
Teus vestuários são tuas madeixas!
Do mundo conhecido és a donzela!
Sempre perdoas e jamais te queixas!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Hei de em minhas canções sempre invocar-te,
Pois creio que me atendes, que tens almas!
De teu cocar farei um estandarte
A cuja sombra tenha asilo e calma!
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Nada na terra meu talento espalma!...
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Simbolizas os filhos do futuro,
Os homens da esperança e da verdade,
Não tens de antigos o pensar escuro,
És só luz, pensamento e liberdade!
Não te manchou o rosto o bafo impuro
Das seitas infernais da média-idade!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Quero-te sempre assim entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.

América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!


I

Jesus! Filho de Deus! Quero adorar-te
No céu, na terra, no universo inteiro!
Vejo teu nome escrito em toda a parte
Onde vai meu olhar de forasteiro!
Milagres de saber, prodígios de arte,
Senhor e servo, artista e pegureiro,
Todos repetem neste mundo vário,
O poema sublime do Calvário!


II

Os astros de mais luz, orbes imensos,
Hipérboles lançadas sobre os ares,
Brilhantes a rolar em mares densos,
Escarpados de angélicos colares;
Gênios supernos, querubins infensos,
Tudo, tudo, Senhor, em teus altares
São míseras ofertas que a desgraça
Logo transforma em pó, cinza e fumaça!


III

A faixa branco-azul dos hemisférios,
Onde palpitam borboletas de ouro,
Estrada excelsa dos salões sidéreos,
Mostra a meus olhos imortal tesouro!
Ali vagueiam meus irmãos etéreos!
Ali repousa meu sonhar vindouro!
Ali da glória resplandece a origem!
Ali domina a sempiterna Virgem!


IV

O’ Cristo! Se de um sangue sacrossanto
Banhaste a gleba vil onde pisaste,
Se jogaram soldados em teu manto
Quando da cruz as dores suportaste,
Tudo mudou-se! Do divino pranto
Constelações sem número formaste!
Da túnica manchada por imundos
Fizeste o pavilhão que abriga os mundos.


V

Nos belos tempos da saudosa infância
Quadra de louros sonhos, de esperanças
Ouvia-te das balsas na fragrância:
- “Vinde, vinde até mim, pobres crianças!”
Tu me deste a miséria e a abundância,
Quando chorei, me consolaste, ó Deus!
Ao clarão imortal dos olhos teus!


VI

Rujam embora as vagas do oceano
Mandando aos alcantis navio incerto,
Corra o gládio de bárbaro tirano
Transformando as cidades num deserto!
Passe da peste e morte o sopro insano,
Medonho, horrendo em boqueirão aberto!
Flagele a humanidade a sede, a fome...
O’ Cristo! Creio em ti, creio em teu nome!


VII

Jesus! Hoje porém se os livros abro
E o fruto colho da fatal ciência,
Tudo vejo em terrível descalabro!
Nem crenças, nem razão, nem consciência
De velha planta tronco feio e glabro
Volve este pobre mundo em decadência!
Só tu podes verter aos homens luz,
Árvore santa onde sofreu Jesus!

PE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA: POEMA

(Praga)




A PRESENÇA MAIS PURA


Nada no mundo mais próximo

mas aqueles a quem negamos a palavra

o amor, certas enfermidades, a presença mais pura

ouve o que diz a mulher vestida de sol

quando caminha no cimo das árvores

“a que distância da língua comum deixaste

o teu coração?”

a altura desesperada do azul

no teu retrato de adolescente há centenas de anos

a extinção dos lírios no jardim municipal

o mar desta baía em ruínas ou se quiseres

os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas

as conversas ainda surpreendentemente escolares

soletradas em família

a fadiga da corrida domingueira pela mata

as senhas da lavandaria com um “não esquecer” fixado

o terror que temos

de certos encontros de acaso

porque deixamos de saber dos outros

coisas tão elementares

o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol

quando caminha no cimo das árvores

“a que distancia deixaste

o coração?”

ILONA BASTOS: POEMA

(Paul Delvaux)




O QUÊ?

Aqui sentada, observando
o vulto que atravessa a ponte
caminhando por entre as nuvens,
que não detém seus passos e avança
subindo em direcção ao céu,
que se afasta lento, inexorável,
no sentido da margem oposta,
que a custo, esforçado, vitorioso,
alcança finalmente o seu destino,
penso na humanidade que caminha,
que persevera, se obstina,
que destrói, mas conquista,
que luta, porém consegue,
que sofre, contudo atinge…

… o quê?


ROMMEL WERNECK: POEMA

(Aleijadinho)



PLENO DE ESPLENDOR


"O grito que ora prendo é só por ti..."
Ronaldo Rhusso


Grita a Cruz as virtudes esquecidas
Gotejando fulgores, uns matizes
Que invadem minhas lúgubres feridas...


Há sacrossantas flamas que, em deslizes,
Encantam-me num êxtase de vidas
Dando alvuras aos sonhos infelizes


E penso que és tão pleno de esplendor


Porque o cedes a todos com amor!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SÔNIA BRANDÃO: OLHAR POÉTICO

(Miró)




ILUMINAÇÕES


1.

No espelho do tempo

a pedra há de florir.


2.

Meus olhos conhecem

o segredo das pedras.

3.

Canto para o pássaro.

Tenho uma árvore no peito.


4.

De tanto olhar o ninho

nos meus olhos

nasceram pássaros.


5.

Tecendo desenhos entre o céu e a terra, as

folhas voam como borboletas loucas.


6.

O grito dos bem-te-vis sangra o silêncio do dia.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CÂNDIDA DE SANTIAGO LINHARES: POEMA

(Giotto)



ESTRELA

A Delano Coelho Brito


Trago-te a palavra,
Não apenas com expressão burilada
Que completa a sutileza do dizer...
Trago-te a palavra inserida,
Que impregna o ser com a força dos “Faça-se”,
Que arrebata a alma na eclosão de nova vida.
Trago-te o gesto,
Que esta mesma palavra fecundou;
Trago-te o gesto, sopro de vida na tua face de pedra,
Leveza na solidão crispada!...

Trago-te símbolo!...
Como os Magos, também possuo a minha estrela
Já não importa que as estradas se entrelacem,
Os caminhos se confundam
E eu perca todas as rotas!...
Fitando a minha estrela chegarei ao fim.
Não temo o Rei que espera,
Porque trago as oferendas...
A palavra... o gesto... e símbolo...
Tudo porei aos seus pés.
E jamais me sentirei
Despojada... vazia ou vencida,
Porque n’Ele e em ti
Tornei-me imensa!...




sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

FAGUNDES VARELA: POEMA

(Fra. Angélico)



AVE! MARIA!

A noite desce - lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: - Ave! Maria!

Na torre estreita de pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vesper desponta,
Cantam os anjos: - Ave! Maria!

No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: - Ave! Maria!

E, longe, longe, na velha estrada,
Pára e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla,
E fala aos ermos: - Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: - Ave! Maria!

Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca,
Curva-se e clama: - Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: - Ave! Maria!

Ave! Maria! - No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! - Ave! Maria!

EDIR PINA DE BARROS: POEMA



O EREMITA

Um vulto que caminha no deserto,
E flutuando vai por sobre a areia,
E o vento forte sua tez golpeia,
Não há ninguém e nada há por perto...
*
Assim se vai ao léu, sem rumo certo,
Em nada mais se ancora ou se esteia,
Não sofre, nem deseja, nada anseia,
Segue sozinho e com destino incerto...
*
Longe se vai, fugindo do tumulto,
Nada mais quer e nada mais almeja,
Flutua no silêncio que lhe apraz!
*
E nada é além de um nobre vulto,
Etéreo vulto que sozinho andeja
Levando dentro em si a luz, a paz...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

VITOR DE SILVA: POEMA

(Rafael Sanzio)



Sempre Luz


Há nos cantos efusivos, os diversos
desencantos abraçados à verdade,
de que o homem resumiu a claridade
ao capricho da matéria sem anversos.

É o intróito de uma cor sem universos,
sob a capa da tensão de sermos Sade,
e cuspir no coração da Unidade
a razão dos sentimentos tão dispersos.

Pelo rastro das paixões que viram mágoas,
corredores de ilusões que vão às águas
dos processos das mecânicas impuras.

Mas irrompe das alturas uma prece,
são eflúvios de Jesus, que no Amor desce,
a Esperança derradeira das Alvuras!

RINALDO GISSONI: POEMA

(Giotto)


FUGA PARA O EGITO

A viagem foi lenta, ao longo do deserto,
mais que uma aventura fosse um desatino,
rudes dimensões, e qual Egito incerto,
pela areia esquiva, e sob o sol a pino...

Estava Maria triste no deserto
enquanto levada para o seu destino,
não pelo simum errante, mas de certo
por faltar abrigo para o Deus-Menino.

Oásis, afinal, na extrema desventura:
sombra que alivia os cáusticos horrores,
água que mitiga a sede malsinada!...

Foi assim que um dia, a doce Criatura
espargiu consolo sobre os sofredores,
e água viva para toda a humanidade!...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

CRUZ E SOUSA: POEMA

(Velázquez)



DEUSA SERENA

Espiritualizante Formosura
Gerada nas Estrelas impassíveis,
Deusa de formas bíblicas, flexíveis,
Dos eflúvios da graça e da ternura.

Açucena dos vales da Escritura,
Da alvura das magnólias marcessíveis,
Branca Via-Láctea das indefiníveis
Brancuras, fonte da imortal brancura.

Não veio, é certo, dos pauis da terra
Tanta beleza que o teu corpo encerra,
Tanta luz de luar e paz saudosa...

Vem das constelações, do Azul do Oriente,
Para triunfar maravilhosamente
Da beleza mortal e dolorosa!

domingo, 28 de novembro de 2010

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Rafael Sanzio)



COMO TE CONTEMPLO!

Ah! Como eu te admiro! Como te contemplo!
Tu disseste sim ao nosso Deus Senhor.
Foste tu o belíssimo e sublime templo,
Em que foi gerado o Filho Salvador!

Quero seguir tuas frases e teu exemplo!
Eis aqui o menor servo do Redentor...
Ah! Como eu te admiro! Como te contemplo!
Minha alma engrandece ao Deus do grande amor...

Eu, que nem o amor de meus próximos tive,
Descobri um amável pai chamado Deus
E que minha Mãe Santíssima em mim vive...

Jesus, seguirei pra sempre os passos teus,
Pela obediência, pobreza e pureza,
Pra viver na mais triunfante nobreza!

MARCILIO MEDEIROS: POEMAS

(Jackson Pollock)



A MORTA


seca
a porta
despida
fibra ante fibra
ocultando-se

cadáver
posto até quando
destroçar os veios
enxame de abelhas
descompactando-se

CAVALGADURA


sim,
olhos de marfim
órbitas de sodalita
perfuram, insólitos

o mole centro
do abdômen
dentro do homem
saturam

sala vazia de órgãos
vãos órfãos azia
amálgama
escura

cavalo
que cavalga
a alma
dura

MORTE TERMO TEMOR

Aguarda: tom de neve.
Água parda proscreve
a rapidez. Agora tarda

Afeito: bom para sumir,
de terra desfeito, vai surtir
único e último efeito.

Fira: dom da faísca.
Fogo de pira confisca
quem só se reproduziu na lira.

Alarde: som de alaúde,
ar de notas arde sobre o ataúde,
antes que chegue a tarde.

PÉS

Escassez de nuvens
sobre o piso.
Tez inchada de pés sem
o alarido
dos passos.
Descalços
todavia presos
Crassos
mas não tesos

Em vão
será suficiente
supor
que movimentos
de dedos
sustarão
termo, memória, medo
do rumor.


sábado, 27 de novembro de 2010

MÁXIMAS OU AFORISMOS SOBRE O AMOR

(Klimt)



2

É possível que ao findar o dia possamos olhar para nós mesmos e percebermos que realizamos o ato primordial pelo qual nos tornamos humanos: Amar. Mas se somos humanos quando amamos, o que somos quando odiamos?

3

Amamos pouco quando satisfazemos nossos desejos, pois o amor não reside na posse e sim no desprendimento.

4

Amamos quando outorgamos ao outro o direito de ser si mesmo; portanto, de não ser apropriado.

5

Todo objeto de desejo é uma reclusão ao amor.

21

Para todas as formas de amor há sempre uma maneira de se compartilhar a solidão.

49

Nunca amamos o suficiente quando amamos o que desejamos.

54

No amor elevamos e rebaixamos o que desejamos.

61

Não saberemos do amor sua verdade. Somente sua condição.

63

Porque amamos também odiamos.

64

Amor e ódio: sentimentos recíprocos?

66

Nunca amamos o suficiente para não precisarmos odiar.


101

A fronteira entre o amor e o ódio é sempre dúbia.

120

As ocasiões para o amor são sempre repentinas. O que explica a inconstância dos relacionamentos.


140

No amor raramente perdoamos o sentimento de vingança.

142

Também destruímos ao amar.

144

Nem mesmo no amor prescindimos da solidão.

146

Há múltiplas formas de amor, mas só um desejo.

151

Amor: raro enleio em meio ao incerto jogo das representações.

155

Não somos culpados por amar e sim por sermos amados.

165

A fidelidade de um homem não se vincula ao seu amor e sim ao seu caráter.

182

No amor pagamos tributo de nossos defeitos assim como de nossos melhores intentos.

202

No amor ou no ódio cedemos aos erros mais primários.

Hilton Valeriano


Obs. Aforismos de minha autoria protegidos por direitos autorais.

RÉGIS BONVICINO: POEMA

(Tàpies)



CANÇÃO ( 4 )

Quantas vezes esfregou
os dedos nas unhas
o sol caindo atrás das paredes
quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio
quantas vezes esteve
no justo oriente de qualquer limo
quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou
aspirina
os dias passaram, severos,
como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes
as grimpas não giraram
o amor era das palavras, entre elas
fria estrela que irrompe

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

GABRIEL RÜBINGER: POEMA




Lux Aeterna


A Luz Eterna andante invade os lares,
Quasares brilham no céu flutuante.
Um lampião aceso, e os negros mares,
Trissares de estrelas no quadrante.

Espetáculos ébrios de pulsares,
Aos pares, em silêncio causticante.
Um furacão represo invade os ares,
Vulgares beijos, lume irradiante.

Paro-me em meio a três pilares:
Oculares Três Marias, vagante,
O céu gira em turnos regulares,
Hectares tão longes, tão distante!

Tão vívido de paz busco lugares
Que permeiam o infinito semblante
Das estrelas, mães espetaculares!
Tão vívido, e mais, e mais luares!
O céu é incrustado de brilhante,
E as estrelas são gigantes altares!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A ARTE DOS VITRAIS




A cada entardecer, figuras e luzes sagradas pouco a pouco diluem-se na noite e ressuscitam de manhã, para oferecer a imagem radiante do eterno retorno da Palavra divina. A rosácea, flor que gira como o universo na sua perfeição concêntrica, torna-se um imenso cristal multifacetado que, qual síntese fulgurante da criação, espalha à sua volta a radiância e o sopro da emanação divina.

No mesmo momento (entre 1260 e 1270) em que os mestres vidreiros de Notre-Dame de Paris ajustavam os vitrais da grande rosácea, a alguns passos dali, no Convento dos Dominicanos, na Rua Saint-Jacques, Tomás de Aquino escrevia: “Na emanação das criaturas há como que uma circulação ou uma respiração, devido ao fato de que todos os seres voltam no fim para o lugar de onde procedem, como de seu princípio”.


(Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus)

A ARTE DOS VITRAIS II




O esplendor dos vitrais da catedral gótica também realiza, por meio do que há de mais brilhante na natureza, a captura da beleza divina, para aí fazê-la presente. Em especial no espaço resplandecente da rosácea, os engastes de chumbo parecem aprisionar uma abundância de figuras emprestadas da natureza e dos relatos das Escrituras. Atravessando-as como um sopro, para iluminá-las e acabar por dissolvê-las num deslumbramento, a luz do sol decompõe-se e se recompõe, para se tornar, transfigurada, a do Deus criador, cuja flamejante difusão no interior do templo capta o fiel, a fim de convidá-lo para a festa próxima de sua própria transfiguração.

(Michel Ribon, A arte e a natureza. Ed. Papirus)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PAULA CAJATY: POEMA

(Paul Delvaux)



Quiasmas tardios

ainda suspiram razões
desprovidas de sentido
e respiram fuligem
na ausência de qualquer
poeira fixa e imutável
que lhes aplaque a fome

.

são esses quiasmas do nada
bravio
que se entrecruzam
selvagens
num acaso incolor
ao tardio do tempo
que paira fugaz,
verte morto
e esvai gélido
descosendo tramas
miragens e almas.
ainda preferem o tormento
talvez, a lembrança atroz
ao descanso na paz insípida
cama inodora, angustiosa
da inexistência.

domingo, 21 de novembro de 2010

POEMA

(Tàpies)




CENAS

I

sacos de lixo
ao chão
o pó
de passos
perdidos
homens caminham
em nenhuma
direção

II

restos
pútridos
alimentos
expostos
ao tempo
aos homens
vielas
e a água
da chuva

III

o semáforo
fechado
automóveis
atravessando
o canto inócuo
de pardais
a solicitude
daqueles
que esperam

IV

edifícios
enfileirados
calçadas
devolutas
presença inóspita
da lua
cães ladram
ante os ruídos
dos ratos

IACYR ANDERSON FREITAS: POEMA

(Klimt)



ORÁCULO DE EROS

Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.

Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.

Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.

Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama

a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).

Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento

e por ele, vento, encarnado,
a salvo de teu próprio achado,

por fim tão senhor quanto escravo
: corpo de onde eu mesmo me escavo.


Do livro viavária. Ed. Nankin.

sábado, 20 de novembro de 2010

NOVO LIVRO DO GRANDE POETA MINEIRO IACYR ANDERSON FREITAS




TUDO EM BREU SE RESUME

Paira ainda, no ar, a certeza
de que tardaste a ser eterna,
de que o tempo, ao qual foste presa,
cessou de vez tua lanterna.

Mas como pôde tardar tanto
toda a grandeza do teu lume?
A cegueira deu-te esse manto
em que tudo em breu se resume.

Andas com ele a noite inteira
e é inútil. Chove. Faz frio.
Tua dor tem, por companheira,
a escuríssima foz de um rio

que erra em ti, sabendo-te à beira
de um cais sem pouso e sem navio.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

(Goya)




“Não somos mais do que os anunciadores, as trombetas de um Juízo sem Juiz.”

Emil Cioran

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

POEMA

(Tàpies)



CHUVA

ouvir a chuva
silenciar palavras
recolher sobras
diárias
da convulsão
humana

sentir a chuva
aproximar pessoas
acolher o tempo
desigual
endêmico

lavar as mãos
de quem só soube tê-las

fechadas

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CONVITE: DESCANSO DAS LETRAS

Prezados leitores do Poesia Diversa, todos estão convidados a visitar o espaço literário Descanso das Letras. Poesia e arte de qualidade.

www.descansodasletras.blogspot.com

MÁXIMAS OU AFORISMOS VI

(Paul Delvaux)



193

Há no amor algo de divino e demoníaco. Nunca apreendemos o outro, somente nossas considerações afetivas.


194

No sexo, o silêncio do espírito ressoa as contrações da carne.


201

No corpo feminino todo caminho é revés.


203

O essencial: dos sonhos a vida reivindica somente os despojos.


209

No sexo, o pudor é o estigma pelo qual o espírito ainda faz-se pulsar.

168

No coito não se preside o espírito, apenas a natureza.


164

No sexo a carne transfigura o espírito submetendo-o. Assim, os mais íntimos desejos prevalecem sobre a moralidade e o animal vence a civilidade.


156

Coito: cilício da queda.


157

As sinuosidades do corpo: premissas do amor.


147

Amor: cobiça do corpo.

148

Amor: anelo do coito.


133

Não compete aos deuses a dádiva do gozo.


134

No ofício do amor os corpos transgridem o espírito.


22

A essência das coisas reside no âmbito do desejo. Envolta no manto de nossas vaidades, as coisas quando despidas, pouco ou nada significam.


Obs. Aforismos de minha autoria protegidos por direitos autorais.

EDIR PINA DE BARROS: SONETO

(Paul Delvaux)



Sem disfarce!


Diante desse espelho estou agora...
Como fugir não há de meu olhar,
E meus detalhes passo a debulhar,
E marcas vejo em mim da fria aurora.

Em minha tez um mapa bem traçado,
Com becos, com veredas e mil atalhes,
Que levam-me, sem erro, aos meus detalhes,
De volta me conduzem ao passado!

Exploro cada vinco em minha face,
A recordar amores meus, amantes...
Os tempos mais felizes, tão pujantes!

E a mim me busco, em todos os quadrantes,
Embora a minha vista já se embace,
A mim me encontro, nua e sem disfarce!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

GALERIA JAZZ

(Lester Young)

CLOVES MARQUES: TANKAS II

(Alexandre Cabanel)



Quantas vezes fiz
baço o frescor do seu dia,
oh minha perdiz.

Quando a ave é de rapina,
roubar o amor não é sina.

__________

Minha doce Amada
sabe o quanto faz o amor
ser brasa avivada.

Inflamável, a pele aceita
ser rastilho à colheita.

__________

Foi assim, Amor,
o silêncio entrecortado,
gotas de suor.

Uma, deu sabor ao beijo,
Outra, fez despido o tempo.

__________

Tão somente seja
– nem lua, nem sol –
das dobras do amor.

Uma onda, Esposa, cobre,
a outra, seja o que for.

__________

Plantei em seu sexo
lâminas de brilho, Amor,
e com o sol nascente

vi explodir em seu ventre
a justificada luz.


Do livro Tankas de Amor Amado. Ed. Casa de Taipa.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

ILONA BASTOS: UMA GRANDE POETA DE LISBOA


NEVOEIRO
Ilona Bastos


Lembrando uma paisagem escandinava
Desenham-se, além dos vidros da janela,
Os traços suaves dos ramos de pinheiro,
Esbatidas manchas de quadro em aguarela,
Por entre o esbranquiçado frio do nevoeiro.

Também, mais próxima, desmaiada, a relva
Se distancia, neutra, na densa neblina,
E o fundo baço, que esconde o arvoredo,
Envolve o céu e a vida em leve musselina.

Só um vulto, esbelto, vem descendo, ledo,
A longa escadaria, que o nevoeiro adoça,
E uma gaivota livre, de asas prateadas,
Planando baixo, os seus cabelos roça.

Agora, vejo as nuvens, rasas e molhadas,
Correrem, junto à erva, em desfilada,
Afugentando o véu, os seres, a quieta paz
Desta atmosfera idílica, encantada.

Soprando velozmente, vem o vento e faz,
Agreste, forte, intenso, espantar a magia
Do nevoeiro imenso, prenhe de mistério,
Que a manhã cobriu, neste invernoso dia.

Então, no céu, o azul retoma o seu império,
O sol inunda a relva, a rua, todo o parque,
Regressam vozes, passos, gente radiosa,
Da vida, a cor, o brilho, a infinita arte...

E, na transparência pura, gloriosa,
Desta pintura bela, perfeita em limpidez,
Na Natureza rica, na vívida Criação,
Esboça-se, com espantosa nitidez,
A imagem de Deus - sublime revelação!



NA ESPLANADA
Ilona Bastos


Nestes dias frios e ensolarados,
Ruas e rossios de Inverno pintados,
Enchem-se esplanadas de quentes roupagens,
Sempre renovadas antigas imagens.

Como em tempos idos, há cabeças brancas,
Senhoras idosas de gestos pausados,
Há conversas longas e faces atentas,
Até mantas grossas de lã aos quadrados,
Que lembram convés, cadeiras de lona,
Balanço do mar que em sonho retorna.

Como antigamente, há lindos meninos,
Belos caracóis, passos pequeninos.
Há bolas e carros, e o cão a ladrar.
Torradas no prato, leite a fumegar,
E água a luzir, fresca, transparente,
No centro da mesa, estrela refulgente.

Há os cavalheiros, tal como era dantes,
Lendo os seus jornais com toda a atenção.
De lápis na mão, jovens estudantes
Livros sublinham com sofreguidão.
Sábias teorias têm de estudar,
Para um dia o Mundo poderem salvar.


Neste dia frio, mas ensolarado,
Rua e rossio olho com agrado.
Vejo, de repente, parando a sorrir,
Passado e Presente, Futuro a florir.



O TEMPO
Ilona Bastos


Quando voltará o tempo
a estender-se a nossos pés
como uma planície verdejante?

Que saudades das tardes imensas,
infinitas, em que brincávamos,
corríamos, descansávamos
e líamos, horas a fio,
esses romances que nos enchiam a alma
e que em nós se tornaram!

Durmo demais ou de menos?
Sou lenta ou, antes,
apressada em demasia?
Manhãs e tardes esfumam-se
na voragem do dia-a-dia…

Nervosamente antecipo o pôr-do-sol,
enquanto percorro este labirinto
feito de momentos compartimentados,
intercalados por corredores
apinhados de ânsias e temores,
que são o meu tempo de hoje.

Sonho com o regresso do tempo infindo,
em que o corpo voltará a correr livre,
como criança, e o espírito, ousado,
voará mais alto do que nunca!

Tanto desejo esse tempo!
Tanto planeio criar
nessa planície verdejante!

Caiam paredes!
Dilate-se o espaço!
Germinem sementes!
Estenda-se a nossos pés
a imensidão do tempo!


NAS MALHAS DO TEMPO
Ilona Bastos


Atrapalho-me nas malhas do tempo.
Quanto mais tento detê-lo,
Mais me prende o tempo a mim,
Na lentidão que aos meus gestos dá,
Na confusão que ao pensamento doa.

E, assim, tropeço nas horas e nos minutos,
Enquanto o tempo, trocista, sorri,
Célere avança e se afasta, jocoso,
Acenando de longe, provocador,
Sempre seguindo o seu caminho.

Caio em desespero, olho o relógio,
E os ponteiros que lestos se aproveitam
Da distracção do meu escrever,
Para saltar, ágeis, no mostrador
Da vida levando, de assentada,
Luminosas porções de tempo perdido.

Hesitante, paro, num repente,
Sem saber se dar ouvidos à voz troante
Que no interior de mim ecoa, persistente
Em deslizar-me pelo braço, até à mão
Que segura a caneta e a faz correr
E patinar, dançando, sobre o papel.

Não! Tenho de sair e seguir o meu percurso,
Mesmo se o tempo se entretém
A trocar-me as voltas e a rir, escarninho,
Perante o torpor dos meus gestos indecisos,
E a inconstância do meu pensar,
Perdida que estou nas malhas do tempo.

ÁLVARES DE AZEVEDO: POEMA



PÁLIDA INOCÊNCIA

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
O medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo de abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!

CLOVES MARQUES: TANKAS

(Alexandre Cabanel)



Fazer é ato de
dor que só fere a quietude:
ré necessidade.

Sísifo proclama basta!
Se encalha na vaidade.

__________


As cartas deságuam
revoadas de punhais
– os ditos conselhos –

a quem às vezes enxerga
e nem precisa de espelhos.

__________


Há desconfiança
na pele antiga da dor.
Inventa verdade,

vara muitas paciências
essa dor que é piedade.

__________


Descansa o sagrado
entre a chama do dever
e o atroz direito.

Toma o fogo, oh, Prometeus,
e deita brasas no peito.

__________


Enfrento o processo.
Qual a forma desejada?
A do sofrimento.

Na diferença dos homens,
paradoxo é seguimento.

__________


Viver abandono
tem desinência de dor
em todo animal.

Mastiga o nada do mundo,
pois tudo mais é fatal.


Do livro Noturno - tankas da madrugada. Ed. escrituras