domingo, 9 de dezembro de 2012

ROBERTO PIVA: POEMA


(Raoul Hausmann)
 
 
 
PIAZZA III
 
Meus olhos
              entornados
  num ligeiro sonho
                              automático
               em necessária
                              rifa de encantos
               algumas vezes
                               falando fora de
                       mim mesmo
                             & além disso
                       consolado
                                        nos terraços
                       de tijolos úmidos &
                                                gerânios de cobalto
        assobiando lentas canções
                        quando eu lembrava Jean
                 a olhar para mim
                             citando Baudelaire
                 na penumbra
                                 onde seu rosto
                       teria podido matar
                                    numa doce ELEVADA
                                                  fome
 


ROBERTO PIVA: POEMA


(Hannah Höch)
 
 
PARAÍSO
 
Beijos através do vidro
           seus brancos
                              fantasmas
na Quinta-feira das flores
                         a lua chegando na minha carne
        ritmos portáteis
                   como agora
                                        esta espécie de música
         nascendo ao mesmo tempo
                                               em máquinas
                                                                       & ilusões
      nenhum cálice
      nenhum amor
                             o timbre
                                              um encanto do LEÃO
                                                      arrastado
                     além da rua
                                    algabal = amuleto
                            ramos esquerdos da macieira
                                                     no Paraíso
                            das VELHAS TARDES
                  


ROBERTO PIVA: POEMA


(Kurt Schwitters)
 
 
PIAZZA XII
 
Teus olhos amarelos
                                 ritmados numa ferida distante
                                                                           de AMOR
A Rosa Azul & vazia como uma gaveta de hotel
Diga-me langorosamente os pequenos mamelucos
                                tremem em tentáculos eletrificados
       eu provo tua boca
                                       as folhas se desorganizam
                     em tapeçarias outonais
                                             & nas curvas de teus RINS
Fotografando em cores (em supremo grau como
                                                  o fogo na floresta)
uma cidade sagrada tão
                                        AZUL
 


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

LEITURAS




O livro de poemas A Queda da Bastilha, da poeta e romancista Leila Krüger, expressa em versos uma poesia pautada pelo sentimento. Versos líricos que proporcionam uma leitura fluente e leve que conduz o leitor.  O Eu lírico não se oculta em contenções vazias e experimentalismos lingüísticos estéreis característicos de muita “poesia” que se quer vanguardista mesmo diante do esgotamento das vanguardas como fato histórico. Sua poesia não nega o senso estético em prol do obsoleto. Se há certo exagero confessional em alguns poemas, o leitor é compensado com indagações poéticas e versos que lembram poetas expressivos como Mario Quintana e Cecília Meireles, o que faz de A Queda da Bastilha um belo e significativo livro de estréia.

 

Hilton Valeriano

 

 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

POEMA


(Marc Chagall)
 
 
 

POEMA PARA O SONO DE MARTA
 
As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.
 
Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.
 
É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 11 de novembro de 2012

ROMÉRIO RÔMULO: POEMA


(Lasar Segall)
 
 
 

sal, 1

morrer é um traço musical
desmanche da carne,toque de instrumento
navio aportado, soco duro.
a vida assombrada é um fragmento
emergido da terra, uma fogueira
onde a terra sem vida é uma beira
emoção do que é doce e virulento.
navio aportado, soco duro
o corpo me carrega em sal impuro.


ROMÉRIO RÔMULO: POEMA

 
(Leonardo da Vinci)
 
 

os mestres, os vandálicos, os loucos

1.
os mestres, os vandálicos, os loucos
não são os todos, e nem são muito poucos.
seus edredons são peles de camelos
suas carnes se respaldam em novelos
seus ovos são férteis nutrientes
a desmanchar e recozer os dentes.
quantas manhãs os vi a trovejar
os seus bafejos chegados d’ além mar.


2.
seus atos dominados por bobinas
se atropelam em todas as esquinas.

ROMÉRIO RÔMULO: POEMA

 
(Fra. Angélico)
 
 

quanto de mim vale um anjo

quanto de mim vale um anjo
se cada vazio oculto
se traduz por um diabo
na alma cheia de dentes
meus cavalos e pedreiras
minhas glândulas atávicas
os umbrais da minha sede
prontamente se revelam
uns bois de olhos sagrados
me contemplam com seu dorso
de pura dureza vista
nos antanhos já bebidos
são anjos, demônios, roncos
de uma pele atrevida
já pisada de histórias
e pratas não semeadas
quantos deuses me engolem
quantas almas me sufragam
se a avó em ato louco
pôs suas asas sobre mim?

ROMÉRIO RÔMULO: POEMA


(Guignard)
 
 


vila, 1

esta vila é uma verdade
plena de matos e pedras
rica de ouros e águas
espraiados pelos corpos
que ontem se viram escravos
nos atos mais comezinhos
onde cada ponte leva
onde cada água afunda
a memória dos algozes
do ouro por sucumbir
em lanhos, facas, machados
nos próprios ossos das gentes?
quanta carne se abriu
nos cantos desta cidade
que a fizeram roer ossos
e quebrar-se pelas pedras
entremeadas, devotas
com verdes caldos de lama?
o seu corpo é do diabo
a sua alma é fundida!

 

 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ANTÔNIO ADRIANO MEDEIROS: POEMA


 
 
UM ENCONTRO MUITO ESTRANHO


Para José N. Félix


Pretendia anexar
ao presente relatório
um atestado de saúde
que peguei no sanatório;
mas optei por guardá-lo
registrado em um cartório.

Não gosto de falatório
e abomino a mentira,
o boato e a fofoca
só me provocam à ira,
pois sempre digo a verdade,
mesmo aquela me fira.

Sei que o cara quando pira
sofre a alucinação,
porém essa experiência
para a qual peço atenção
foi tão real como é
a miséria da nação.

Próximo a uma estação
de trens, em noite chuvosa,
abriguei-me num boteco
de uma varanda espaçosa,
quando um velhote chegou
mancando em busca de prosa.

Uma brisa misteriosa
com ele o bar adentrou,
piscou um olho pra mim,
uma pinga encomendou,
e, sem ser meu convidado,
à minha mesa sentou.

Um sambinha assoviou:
- "Eu, na verdade
indiretamente sou culpado
da tua infelicidade..." -
e nesse exato momento
faltou luz pela cidade.

Rindo com sonoridade
diz: - "Assim está melhor:
a natureza da noite,
como quis o Criador,
deve ser escura e fria
- para o crime e o amor."

Achei aquele senhor
muito espirituoso
e um brinde à sua saúde
propus, mas ele, jocoso,
preferiu brindar à Morte,
com seu hálito sulfuroso.

E prosseguiu, misterioso:
- "Conheço seus pensamentos.
Há muito o espionamos
pelos Quatro Elementos.
Conheço todos seus planos
e sei dos seus sentimentos.

Sei que em alguns momentos
você perde a esperança,
mas vim propor-lhe negócios
de estrita confiança...
Antes, vou pedir um prato
qu’é pra gente encher a pança:

- Ô sêo garçom, sem lambança,
diga lá ao cozinheiro
que prepare uma cabeça
de bode pai-de-chiqueiro,
mas me traga, como entrada,
sangue do bode, primeiro."

"- Meu distinto cavalheiro"
- espantado, retruquei -
"e quais são esses negócios
que me vens propor, meu rei?
Se for coisa desonesta,
saiba que recusarei.

Drogas nunca trafiquei,
Nem nunca matei ninguém.
Jamais amigo, roubei
o que pertence a alguém,
e sempre, por toda vida,
procurei fazer o bem."

- “Ó meu querido neném,
bom rapaz, coração puro...
Tu não vales um vintém
na podridão dos monturos:
apodrecerás, meu bem,
um dia, por trás dos muros.

Eu ofereço, sem juros,
felicidade terrena:
glória, poder e riqueza,
e o prazer sempre em cena,
em troca de tua alma:
veja se não vale a pena!"

Lobo, chacal e hiena
uivaram na noite escura.
Trouxeram sangue de bode
misturado a rapadura.
No prato caíra morta
rechonchuda tanajura.

Quis brincar com a Criatura
que me fazia careta:
- “Valei-me, Nossa Senhora!,
que eu encontrei o Capeta!...
- Ora, vê se não amola,
pobre velhote perneta!

Me dizes ser Coisa Preta
sem dar a comprovação?
De seus poderes terríveis
quero uma demonstração:
que reine nesse boteco
agora a depravação!"

Nesse instante, no salão,
adentrou devasso bando,
a sorrir, a se abraçar,
e falar de contrabando.
Uma mulher ficou nua
sobre uma mesa, dançando.

Outras a foram imitando,
e alguns homens também.
Eram dez, ou vinte, ou trinta
- talvez fossem mais de cem -
e alguns nos convidavam
para ir dançar também.

- "Inda duvidas, meu bem,
que sou o Anjo Exilado?
Pois então passemos logo
a fazer nosso tratado:
já virei a ampulheta,
o jogo está começado.

Eu gritei: "Xô, desgraçado!
Isso é só um sonho ruim.
Na hora em que acordar,
estarás longe de mim.
Mas já que estás presente,
quero ir até o fim."

Vi um anjo serafim
tocando sua trombeta.
Chegou pra perto de mim
então o Bode Perneta,
e já foi dizendo assim:
“Aperte a mão do Capeta!"

Cumprimentei Coisa Preta,
que então se transformou
em um distinto, elegante
- aristocrático senhor -
a debochar com ironia
da virtude e do amor:

- "Ora, me faça o favor!...
Pra que serve honestidade?
Me aponte um só dos ricos
que nunca agiu com maldade:
se quer viver na miséria
seja honesto de verdade!

E a infidelidade
é que salva o matrimônio:
pra ser feliz no amor
um pacto com o Demônio
é necessário fazer,
nada a ver com Sant'Antônio..."

No boteco, um pandemônio:
grasnava rasga-mortalha.
Uma briga entre os devassos
fez surgir uma navalha,
atiçando ainda mais
os impulsos da canalha.

- “Nossa Senhora me valha!,
Bom Ciço ou Frei Damião:
nunca mais na minha vida
quero brincar com o Cão!
Ai, como está demorando
essa alucinação..."

- "Onde boto a minha mão,
prospera, cresce a riqueza.
Sou patrono do sucesso,
e triste da realeza
que duvidar dos poderes
que tem o Deus da Baixeza!

Já degolei com firmeza
cabeças imperiais.
Mandei crucificar muitos
que se diziam imortais.
Fiz a turba da Judéia
optar por Barrabás.

Com sangue e com funerais
fiz muitas revoluções,
a cristãos e outros tolos
ministrei boas lições,
sempre dei aos bons poetas
as grandes inspirações.

Sou eu quem tenta os ladrões
e seduz todas as putas.
Provoco as controvérsias
que sempre acabam em lutas.
Implanto gula e luxúria
e o amor pelas disputas.

Só as almas mais astutas
é que na vida prosperam.
Aqueles que contra mim
praguejam e se desesperam,
não sabem que são mais meus
que os que em casa me esperam.

Felizes os que vieram
à Missa Negra do Cão!
Sabem-se almas perdidas,
não passaram a vida em vão:
a verdade está na guerra,
irmão matando outro irmão."

Nesse instante, no saguão,
numa bandeja de ouro,
uma cabeça de bode
- ao lado um ovo goro -
serviram à nossa mesa,
onde pousara um besouro.

- "A mosca do mau agouro
sempre é minha convidada."
- diz Ele, e: - "Não costumo
dividir minha noitada,
mas vou te dar um pedaço
da cabeça ensanguentada."

Eu provei da empreitada
e confesso que achei boa,
e disse assim para Ele:
- "Se és o Diabo em pessoa,
o que pode interessar-te
em um sujeitinho à toa?"

- "Contra ele mesmo caçoa,
alma minha, fraca e vil...
- Tu és, amigo, retrato
do povo do teu Brasil:
muito fácil de enganar,
basta ter um bom ardil.

Manda à puta que a pariu
a tua credulidade!
Insistes na esperança?
Ora, já não tens idade...
Quebra esse teu quietismo,
vai bagunçar a cidade!

Vais deixar minha maldade
só com a classe dominante?
Brasileiro pobre e triste
é o que serás doravante,
com seus políticos ladrões
e a tua Igreja pedante!

Pensas que a cada instante
não pagam tributo a mim
os poderosos de sempre,
a canalha, a classe ruim
que pegou a tua terra
e que a deixou assim?

Se queres comer capim
- rá, rá! - santa paciência!...
Agora tenho um encontro
com a nobre jurisprudência:
fica aí com teu pudor
e a tua pura inocência!"

Turvou-se-me a consciência
e logo caí no chão.
Acordei todo ensopado,
lambia-me um negro cão.
Ninguém mais via por perto
- tudo estava tão deserto
como a terra do sertão.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

MAJELA COLARES: POEMA


(Albrecht Dürer)
 
 
 
SONHO ANTIGO
 
ao Padre Pitombeira
 
 
Nos encontramos, enfim, não dispersos
por amor e querência desta vida...
 
nesta luz, que me envolve, está contida
a verdade que Deus me diz em versos
 
tão profunda pensei e concebida
feito luz, clareando corpo e mente
 
que elevada a um plano congruente
era amor e ternura revivida
 
mas o mundo se alterna em regras vãs
que segregam amores e amanhãs
 
limitando o que brota à flor da pele
é tudo que maldigo e, sim, condeno
 
essas vãs convenções – mundo pequeno
faz com que o meu sonho se rebele...
 
deste mundo esperei uma Canaã
não me veio algo além de um caos terreno
 
 
Do livro Memória Líquida – Ed. Confraria do Vento


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

RAIMUNDO CORREIA: POEMA


(Goya)
 
 
TEMOR
 
Esses momentos breves
De ventura, e em que um raio doce aclara
Um trecho à tua tenebrosa vida:
Saboreá-los deves,
Esses momentos de fugaz ventura.
– Esta é como esquisita fruta rara,
Por muito rara, muito apetecida;
Fruta, cujo sainete pouco dura,
Saboreada com vagar, embora;
Deleita o gosto, assim saboreada,
Porém, sofregamente devorada,
Mata às vezes o louco que a devora!
Que o teu lábio sorria
Enquanto a dor sopita não desperta,
Nem vem do íntimo gozo que cala
Discreto e receoso,
Nenhum rumor alegre despertá-la.
Como um vinho acre-doce, da alegria
Ao saibo às vezes mescla-se o amargoso
De uma tristeza incerta
E vaga... Aos tristes disfarçá-las custa;
Pois, por um só prazer, mesquinho e raro,
A desventura cobra-se tão caro,
Que aos tristes o menor prazer assusta!


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

LEILA KRÜGER: POEMA

 
(Tàpies)
 
 
Desenho


Quem és tu?
Que me desenhas no espelho um corpo nu...

e a roupa de existir dorme em outro armário
o sono justo dos cansados de mim.

Afinal, quem és tu? Que desbotas no espelho...


LEILA KRÜGER: POEMA


(Ismael Nery)
 
 

Distância
Que distância é essa entre meu espelho e os olhos alheios?
Entre a bondade imaginária e a gelidez evidente...
que distância é essa entre meus olhos profundos
e os olhos rasos do mundo?
Que distância é essa entre eu e o resto?
Entre eu e o tudo? Entre eu e o vento...
 
e a proximidade do nada
que de repente abraça como se abraça um estranho na estrada. Somos estranhos no breu
                                 – todos e eu!
 
Que distância é essa que me ama?
E meu nome chama na tarde linda; e nunca termina...
 
 

LEILA KRÜGER: POEMA

 
(Evelyn de Morgan)
 
 
 
Becos
 
Deus!
 
Quantas ruas escuras e becos eu tive que vagar
                                                 em busca
de um amor que não podia ter...
                                                 em busca
de um afago que não estaria nunca em um orgasmo
               em um beijo dócil por acaso.
 
Quantos olhares roubados...
 
Quantas mãos despedaçadas em adeuses inevitáveis quantos rostos amáveis que foram
                                fumaça na madrugada.
Quanta lágrima com pedaços crus de alma...
 
Quantos drinques amargos, quantos cansaços
                                quantas promessas
que já surgiram quebradas
                   por trás de sorrisos encantadores.
 
Quantas dores...
quantas dores de parto em dias de paredes
                                        que gritavam no quarto.
 
Gritavam teu nome...! Que eu não conhecia...
 
Quantos desvarios
quantos rios eu atravessei, sem saber nadar
para de repente tocar a luz da tua essência
                                                   que me recriou.
 
E eu nada sei além de ti...


domingo, 30 de setembro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Modigliani)
 
 
Na paisagem doméstica
 
 
E se dissesse: fica ...
 
Varreríamos de vez
nossas obscenidades
ou deixaríamos estendido
sobre o chão de casa
esse falso tapete de culpas?
 
Vê essas garrafas enfileiradas?
Os silêncios
que rasguei das paredes
colei nos gargalos
          em que me perdi.
Na profundeza úmida,
resta, olvidado, seu nome.


JORGE ELIAS NETO: POEMA

 
(Marc Chagall)
 
 
Borgiana II
 
 
Repousa o veludo da pele,
        tigre selvagem,
nessa distante gleba
à qual chegaste
por caminhos incertos.
 
Lembranças grisalhas,
        velho tigre ...
Compartilho teus dentes
        nada castos...
 
Restou-nos o passado...
E suas páginas
de bordas marcadas.
Sempre reviradas,
        velho tigre,
para não esquecer os outros dias.
 
(O que nos resta quando o orvalho
            se perde no esquecimento?)
 
Nas catedrais, teu ouro roubado.
Depois raspado dos pilares
para cobrir os dentes.
Como se sorrir dourado
os fizesse arremedo de gente...
 
(Quanto de tua mordedura
            permeia nossos sonhos?)
 
Não se traduz o mistério
de tuas escápulas,
nem a névoa em teus olhos...
Quem sabe a milonga nos taquarais
ou tuas listras obliquas
resistam ao imprevisível fim.
 
           Tardam as horas ...
Cada expectativa tem teu cheiro
e se esforça para caber no poema.
 

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(William Blake)
 
 
 
Borgiana I
 
 
Atiro os cacos
do espelho partido.
Busco-os no chão,
onde as imagens se dispersaram.
 
Com o que resta na moldura,
brinco de cortar os dedos
encaixando respostas
no rosto trincado.
 
E, se, no entanto, a figura
se assemelha ao medo,
remisturo todo
o ser desfigurado.
 
Pois a faina louca
de remexer segredos
fez-me encontrar as sombras
dos dias passados.
 
 


domingo, 23 de setembro de 2012

HILMA RANAURO: POEMA


 
DESCOMPASSO
 
Me querem mãe
e me querem fêmea,
me querem líder
e me fazem submissa,
me fazem omissa
e me cobram participação,
me impedem de ir
e me cobram a busca,
me prendem nas prendas do lar
e me cobram conscientização,
me tolhem os movimentos
e me querem ágil,
me castram os desejos
e me querem em cio,
me inibem o canto
e me querem música,
me apertam o cinto
e me cobram liberalidade.

Me impõem modelos
gestos
atitudes
e comportamentos.

E me querem única.

Me castram
podam
falam
e decidem
por mim.

E me querem plena....
 


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

DIEGO TARDIVO: POEMA


(Félicien Rops)
 
 
NÉON
 
 A noite se enluta, pequena hóstia vacilante
Que  penetra o aroma e cuida dos arbustos heréticos;
Agora sois vós, devolvidos à pátria e aos prazeres
Que arderão nas entranhas de vossos pensamentos.
Quanta ternura desperdiçada, quantas noites tristes!
Acalentando suplício para os cantores da fé...
Quisera suplantar meu precioso vício e a ponte
Não mais seria tão comprida quanto meus insuportáveis anos.
 
Luzeiro imortal, toca minha sombra e prospera!
 
E eu veria as belas meninas trançadas em dor
Não fossem os infortúnios das sagradas obrigações –
E todos os condados pelos quais meus dedos sangraram
Seriam divinos para meu paladar quando a febre
Começasse a pulular nos vales da memória – o baile
Começará e as tenras raízes inconscientes vacilarão
Quando ouvirem de um murmúrio as primeiras melodias
De luto e comiseração pela vida passada que não vi.
Sob a marquise da loja surrada voltei-me e relanceei
A amurada lúdica que transpôs a madeira de minha alma.
 
Luzeiro imortal, toca minha sombra e prospera!
 
Doçuras encantadas nas cidades perdidas,
Esmurradas crianças esfaimadas, gélidas de fúria,
Minhas inaptidões, como sou fraco! Desistirei! –
Sim, quando a última brisa me assoprar tristemente
Que já não poderei suportar o fardo das experiências,
Pois as mesmas há muito transformaram-se em feridas
Que o tempo não beija porque quer se preservar.
Confiarei em minhas mãos trançadas e em minha prece;
Terei porventura mais radiâncias do que os velhos amores
Que minha amada conheceu sem sequer me consultar?
 
Luzeiro imortal, toca minha sombra e prospera!
 
Todos seremos premiados com a promessa cálida
Estendida dos cálices e das taças transbordantes,
E a aventura dos apaixonados há de gorjear para o sol
Como pássaros magoados junto ao sombral das flores.
Ah, jóias obscuras, quantas vezes pereci por vós!
Quantos beijos deixei de dar por lealdade à vossa voz!
 
Luzeiro imortal, toca minha sombra e prospera!
 
10/09/12