sábado, 11 de dezembro de 2010

FAGUNDES VARELA: POEMA

(Fra. Angélico)




INVOCAÇÃO

Eu te vejo sentada entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.
América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Pura em tua nudez, sempre singela,
Da Gália mentirosa o luxo deixas,
És da Escritura a tímida gazela!
Teus vestuários são tuas madeixas!
Do mundo conhecido és a donzela!
Sempre perdoas e jamais te queixas!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Hei de em minhas canções sempre invocar-te,
Pois creio que me atendes, que tens almas!
De teu cocar farei um estandarte
A cuja sombra tenha asilo e calma!
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Nada na terra meu talento espalma!...
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Simbolizas os filhos do futuro,
Os homens da esperança e da verdade,
Não tens de antigos o pensar escuro,
És só luz, pensamento e liberdade!
Não te manchou o rosto o bafo impuro
Das seitas infernais da média-idade!
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!

Quero-te sempre assim entre os palmares
Robusta e bela, pensativa e airosa,
Cheias de sangue as fortes jugulares,
Beijando a naiadéia e não a rosa.

América gentil! Filha dos mares!
Tu, que a manhã bafeja carinhosa,
Dá gênio a teu cantor, lhe estende a mão,
Infunde-lhe na fronte a inspiração!


I

Jesus! Filho de Deus! Quero adorar-te
No céu, na terra, no universo inteiro!
Vejo teu nome escrito em toda a parte
Onde vai meu olhar de forasteiro!
Milagres de saber, prodígios de arte,
Senhor e servo, artista e pegureiro,
Todos repetem neste mundo vário,
O poema sublime do Calvário!


II

Os astros de mais luz, orbes imensos,
Hipérboles lançadas sobre os ares,
Brilhantes a rolar em mares densos,
Escarpados de angélicos colares;
Gênios supernos, querubins infensos,
Tudo, tudo, Senhor, em teus altares
São míseras ofertas que a desgraça
Logo transforma em pó, cinza e fumaça!


III

A faixa branco-azul dos hemisférios,
Onde palpitam borboletas de ouro,
Estrada excelsa dos salões sidéreos,
Mostra a meus olhos imortal tesouro!
Ali vagueiam meus irmãos etéreos!
Ali repousa meu sonhar vindouro!
Ali da glória resplandece a origem!
Ali domina a sempiterna Virgem!


IV

O’ Cristo! Se de um sangue sacrossanto
Banhaste a gleba vil onde pisaste,
Se jogaram soldados em teu manto
Quando da cruz as dores suportaste,
Tudo mudou-se! Do divino pranto
Constelações sem número formaste!
Da túnica manchada por imundos
Fizeste o pavilhão que abriga os mundos.


V

Nos belos tempos da saudosa infância
Quadra de louros sonhos, de esperanças
Ouvia-te das balsas na fragrância:
- “Vinde, vinde até mim, pobres crianças!”
Tu me deste a miséria e a abundância,
Quando chorei, me consolaste, ó Deus!
Ao clarão imortal dos olhos teus!


VI

Rujam embora as vagas do oceano
Mandando aos alcantis navio incerto,
Corra o gládio de bárbaro tirano
Transformando as cidades num deserto!
Passe da peste e morte o sopro insano,
Medonho, horrendo em boqueirão aberto!
Flagele a humanidade a sede, a fome...
O’ Cristo! Creio em ti, creio em teu nome!


VII

Jesus! Hoje porém se os livros abro
E o fruto colho da fatal ciência,
Tudo vejo em terrível descalabro!
Nem crenças, nem razão, nem consciência
De velha planta tronco feio e glabro
Volve este pobre mundo em decadência!
Só tu podes verter aos homens luz,
Árvore santa onde sofreu Jesus!

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