quarta-feira, 11 de abril de 2012

W.J.SOLHA: MARCO DO MUNDO EXCERTO III


(Miró)

Embora espere tanto de si quanto de um pianista de bar
ou de escultor de vitrina,                                                            
o Poeta tem,
à custa de disciplina,
a mente tomada de dados,
vindos de todos os lados,
e,
em atividade,
febril, feito complexo fabril que inclui minas, bancos, shoppings, restaurantes, hospitais, laboratórios,
exige que as rimas sejam reais obras-primas e em chapas de aço – como de esculturas monumentais – e, de quebra, também de pedra,
como o vigoroso Muro da Reforma,
em Genebra.

Sem sigilo:
rimas como pirâmides:
ex nihilo.
Rimas ricas
como de haicai com heaven,
     not sky.

Quer versos... em pentagramas,
e eletroencefalogramas.

Não quer um sequer como São José na Sagrada Família:
triste,
last
and least.   

Porque sabe que quando se empavona, 
é mais pavão  o pavão,
e que,
quando ruge,
é mais leão o leão.
E que também
na arte,
o todo é sempre menor
do que sua melhor parte.

Mas,
se tango é exagero argentino,
o do Poeta é este,
traquino:
sabe que em todo poema – isso já vem do sistema - há estrofes marias-vão-com-as-outras, cruzetas, que são como rodas traseiras das carretas,
que apenas levam peso, seguindo a dupla dianteira.
Mas sua exigência
primeira
é a de que todo verso tenha igual importância e, por igual, se eternize:
nada de corte de quilha n´água,
que na hora se cicatrize.

Quer rimas de trens com metrôs, Gestas e Dimas.
Quer que nuvem rime com fumaça, Graciliano com Graça, assim como Manet com Monet, o que é com não é.

- A água
de pedra,
jorra do jarro
de pedra,
sobre a pedra
de pedra.                                              


-   Se Hunger rima com anger,
carcará rima com fome,
por isso é que pega,
mata
e come.


O Poeta sabe que esta é nossa sorte:
Independência...
ou Morte!


Sabe que os  santos,
jurássicos,
sempre buscam,
nos quadros sacros,
a  perfeição over the rainbow,
mas ela também pode estar em Colts,
pois a verdade,
barroca,
é que defeitos são efeitos perfeitos da realidade,
que é louca.

- O sopro que dá vida a clarins
é o mesmo da flatulência,
daí o verso de Dante,
cheio de irreverência,
em que ele diz,
sobre um capeta:
Ed elli avea del cul fatto trombetta.


- Veja a ponte pênsil como golpe de mestre:
artifício fácil
que listra,
grácil,
o precipício,
como a faixa de pedestres,

- Veja o carisma da fé como a cisma que o  cemitério cria – com seu  mistério -  na sua área.

Segundo o sertanejo escolado,
porém,
Deus já fez o céu bem alto,
foi pra viver sossegado.
E a verdade,
nua
e crua,
é que
a Terra,
vista da Lua,
não tem trovões, furacões,
raios, vulcões,
nem canhões.

Nada.






2 comentários:

  1. cara, que poesia bem feita. é sua Hilton?

    ResponderExcluir
  2. É um dos grandes livros de poesia do ano: O Marco do Mundo, de W.J.Solha! São fragmentos...

    ResponderExcluir