quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

JORGE TUFIC: TRÊS SONETOS

(Bouguereau)



A NOITE

A noite além do véo da noite além

‘steve diante de mim. Seu corpo frio

era compacto e denso como um rio

que desce, eterno, donde a paz se vem.

Vi a noite fluídica. E ninguém

por testemunha: a noite, o desafio

das profundezas cósmicas, vazio,

sendo ela própria a nuvem que a sustém.

Qual, enfim, seu tamanho? A noite vista

da pequena janela da aeronave

sobre o mar antes verde ou de ametista.

Cobra Grande, mas logo evanescente,

enquanto se distrai muda-se em ave,

traz a manhã nos olhos de serpente.



SONETO AO DESERTO SELVAGEM

Árida a língua desse cão, deserto

do próprio osso, túnel que se deixa

passar à fúria da mais doce ameixa

rumo ao sono de pétalas coberto.

Assim a fera, lâmpago do incerto,

se lança à jugular; nenhuma queixa

da presa dócil que, sem ódio ou reixa,

nutre o verde do campo descoberto.

Não é só do deserto, mas de tudo

sobe um ar indescrito, este algo acima

do vôo do abutre, lá, silente e mudo.

Nos vegetais, nos ferros, no quintal,

onde cresta a papoula e nasce a rima,

tudo que é frágil sofre desse mal.



SONETO PARA E. M. CIORAN

É uma exceção a vida, é uma exceção

nossa dor de vazio e turbulência:

sair do nada quando tudo é ausência

da matéria que ilude o coração.

Vede o universo, o trágico arrastão

dos corpos duros, luminosa essência

que não tem húmus para a quintessência

de nossa humana decomposição.

Daí, talvez, a falta, essa rotina

de estarmos sós, tão sós que até nos cansa

a mofa, o planetário, a serpentina.

Nada além do que simples fantasia.

Qualquer estágio nutre uma esperança.

De qualquer solidão brota a poesia.







Um comentário:

  1. Os sonetos de Jorge Tufic são de primeira! Excelente seleção.
    Um abraço.
    Jefferson.

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