sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

STEFANNI MARION: POEMA


(Piero Dorazio)


.festim.

pesos, pedras, cascalho...
o mundo outrora nos saudava
como imigrantes na lavoura:
outubro, novembro, feliz aniversário.
e o que somos?
cine noir
noites, quartas
domingos
e nada mudou.
alma pragmática
sacra busca
festim.
sorria baby
o céu esta cinza
e o vento cortante
as flores no vaso estão murchas
só pra reverter
nossos dias brutalizados
aqui, ali, adiante...

STEFANNI MARION: POEMA


(Jb Lazzarini)


.e deixo malogradas.

a vidraça me transporta malogrado
contornado o horizonte cristalino.
e já não há lágrimas remanescentes
apenas a brisa e o apagar da lamparina.

e deixo o pai e o filho
tecidos num lenço de moralidades.
dor e escárnio navegantes
pulsando em meus pulmões que se despertam.

descendo as encostas da serra
vou buscando meu mar de vigo.
o coração desnudado na ribanceira
e o vento me desloca em poesia.

- diante de ti sou como um crucifixo!
abro minhas chagas para que me banhes,
como banharias um recém-nascido
caucasiano na noite profunda.

sinto a comoção e os segredos dos apitos.
é meia-noite e saudações reluzem,
sou esse estrondo em luzes diminutas.
meu corpo explode.

coloridas flores nascem no céu,
luzes se abrilhantam sob mim.
como um forasteiro saúdo o sonho
e deixo malogradas
as lágrimas para a eternidade.

STEFANNI MARION: POEMA


(Felipe Góes)


.mimeógrafo.

a zabê

ressurjo vivo neste surdo ladear
denso no arranha-céu da noite profunda.
- venha comigo, venha comigo.
sentir este senso, esta ternura
que atravessa e rasga profundo
nosso turvo melodrama juvenil.
não sentes a mesma dor em teu peito
vadiando pelos vasos de rubi?
cortinas sonoras encantam.
ouço que algo rumoreja
nas galáxias da mente onde guardo
teu corpo, tua alma e tudo de ti.
acetinado manto negro da noite
inventos de princípios cadavéricos.

água fria, água fria.
morrerias comigo, num verso e último apelo?
negra linha e agulhas pontiagudas,
costuraria suas desgraças em meu peito?
minha musa invernal
por tantos dias a sentirei
púbere mimeografada,
avistarei teus olhos nas alturas dos edifícios,
tua presença doce e lúcida teatral,
enquanto olharei a noite e lançarei
minhas palavras para que te encontrem,
sinto a transformação,
somos mulher, homem
entre gozos, flâmulas e tremores:
nossa inocência chega ao fim.

STEFANNI MARION: POEMA


(Mimmo Paladino)

.sóbrio.

arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
papai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.

STEFANNI MARION: POEMA


(Joan Ponç)

.o canto do demônio.

solto pelo vento, enquanto o tempo perene
versa terror contundente e inesquecível.
solte-me, solte-me no meio deste turbilhão,
enquanto tento amar lêvedo e prudente.
tudo que desejava era você contando-me
sobre as estrelas no coração do oceano,
suas noites e peixes trazidos
nas redes de pesca.

noções de uma vida suplicada em seus olhos
sempre tão mutáveis como as fases da lua.
somos cinco, um dia seis.
não tive pai, não senti amor,
apenas queria seus braços
e ouvir seu coração batendo bem perto
ao meu – ao meu – ao meu.

STEFANNI MARION: POEMA


(Joan Ponç)


.consolidação.

o balouçar dos tempos esta rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura brotando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.

se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.

STEFANNI MARION: POEMA


(Alberto Burri)

.esquadrinhar.

vivendo no covil de minha memória
inquilino dessa sarna eruptiva
como um escafandrista no oceano
canto a canção do princípio.

viver como um cancro,
andar pelos buracos
aspirando a metrópole poluída
e não há blocos de sol pelos desvios,
apenas um quarto e o espólio literário
avançando as portas do inferno.

meus pés, minhas mãos, meu corpo todo.
tudo em desalinho
sem coro, nem anjos ou velas.
minha dor criminal afogando-me
como afogaria um ramalhete inteiro,
sem néctar ou pétalas remanescentes.
minha ausência e minhas perdas,
minhas letras nessas folhas sonoras.
um dia tudo isso causará desilusão,
então desmonto meu esquife e tento
ficar nem que seja apenas uma noite.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PEDRO DU BOIS: POEMA


(Antonio Corpora)



CONHEÇO

Conheço da casa o centro
onde elementos se refazem
em versos. O som da verdade
e o conversar dos deuses aproximados.

Pertenço a ela e sou a constância
do pensamento linear das famílias
construídas no abafar das mágoas
em entrechoques diários: margens
do cerco ao futuro descompasso
de quem vai embora.

Sei da casa a hora derradeira dos encontros
e da chegada do estranho que me transforma:

a unidade rompida pelo estrangeiro
e a visão adiantada do progresso.

Tenho na casa a incerteza de um dia
ter estado junto e feliz.

LAU SIQUEIRA: POEMA


(Ismael Nery)

mulher

a silhueta em tom
um tanto cinza vai tomando
cor e aproximando o riso
dos passos na calçada
sólida e íngreme

colheu do tempo um certo
abandono depois de fundar
a diversidade e o canto dos
passaredos

na vida e no tempo
estio e miragem
encanto e imagem

coxas abertas
para que os dias e as noites
não se resumam nos poemas
escritos a giz ou carvão

num espelho d’águia
que no silêncio
do canto

escolheu voar

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ADRIANA ZAPPAROLI: POEMA


(Alberto Burri)

entre o lírio.

corola-libido : sua fachada íntegra em colapso.
um sentimento aglutinante, um precipitado.
falo em uma solução insolúvel, resíduo de um mecanismo lírico-
dramático, de déspota matéria carne e creme,
bípede e bulente em refluxo de chumbo fosforescente...

auréola letal, falo, fragmentário hipócrita e degenerado
cansado de cada dia. o horror, o delírio, de seus gestos.
o mistério do ouvido não estava seguro, zumbido de anestesia citadina
em um "falo" de cavalo mandarino.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

FABRÍCIA MIRANDA: POEMA


(Antonio Corpora)



INSÔNIA

Seria feliz se pudesse dormir.
Esta opinião é d’este momento, porque não durmo.
Tenho uma indigestão na alma.
(Fernando pessoa)


A paixão, essa cidade forjada de alfinetes.
...
Há uma porta, e eu me nego.
...
Há tanto me custou costurar minhas córneas,
Carregar meus pés quase em necrose
E caminhar sobre os ossos de minhas canelas.
...
Fecho as portas por trás de mim, por onde passo
E vou ouvindo pancadas
De um íntimo que me perturba:

– Sou estranha! Me abandonem todos!


(Meu grito é uma súplica que mente.)
...
Não tenho nenhum deus para onde levar minha alma.
Apenas sorrio aos meus avós, de mãos erguidas:

– Sim, (Deus), acredito!

E eles seguem tranqüilos para a morte.
...
Continuo.
Corredores, salões de bailes, catacumbas.
Fecho as portas.
...
E todos os íntimos me pedem notícias.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

AFORISMO


(Nicoletta Tomas)



"Amor: quantas palavras necessárias para que um gesto torne-se inscrito no tempo?"


POEMA


(Modest Cuixart)


ESSÊNCIA
Caminhas sob a noite como um sol póstumo.
Passos tardios de disseminadas lembranças.
Desfolha-se o sono dos esquecidos.
Há uma verdade para os olhos,
sua essência não se restringe aos fatos.
Há uma verdade para o coração,
sua essência não se restringe à solidão.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

VIRNA TEIXEIRA: POEMA


(Lothar Charoux)


como suturar lembranças

dias cor-de-rosa e azuis
vestidos frágeis sobre
cabides de ossos
omoplatas

equilibrar extremos

na costura do tecido

os carretéis
tecendo a
seda


CLAUDIO DANIEL: POEMA


(Gastone Biggi)


canção da árvore de mil folhas

o que exprime
essa esgrima silenciosa
esse pugilato de sombras?
simulacro de suave tigre de água e leo dragão de vento
flama de branca acácia e de salmão-pequeno
que combate no limiar entre a pele e a alma.
o que irradia
esse lento balé de plumas
esse desfile de facas e leques?
dança que traduz em passos de pantera
a canção da árvore de mil folhas
que não sabe da língua
mas do coração   


ALEXANDRE GUARNIERI: POEMA


(Luís Sacilotto)


CAIXA PRETA

no corpo, no rosto, sempre: uma caveira os freqüenta, interna, atrás da pele, sob a epiderme; o que a superfície serena aparenta mascara o cancro e, por hóspedes, os vermes; os tecidos exercendo seu arcano, são meandro camuflando o âmago; enquanto o tórax resguarda o motor do miocárdio; o encéfalo: no crânio; no osso: tutano; no esqueleto temporário, uma centopéia de vértebras o sustenta, as vísceras lacradas ao ventre, mero aparato maquiado sob camadas de células, em série, a lânguida flâmula no acúmulo dos músculos, eis toda a verdade: o que mostra esse monstro, ogro, invólucro, é um evento pregresso, esperado sem mistério, ter corpo é habitar o futuro cadáver de si próprio, ignóbil, sólida necrose avançando sobre o óbvio, aviso prévio, carne e ossada (nem sempre velhos) desse espécime de cemitério.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(Paul Klee)


Cronópio

Para os cronopianos e Cortázar

Sou o fiel

depositário

de um

torrão de açúcar.

 
Guardei

um tanto

de giz

entre as unhas

(pó de palavras)

 
e essa lasca

de marfim

do túmulo profanado

dos paquidermes.

 
Isso basta,

na trégua

precária

no gargalo

desse vulcão

que hiberna

em estado de

flor.


Polvilho

as relíquias

pois ignoro

a espessura

das trevas.

 
O inverno é longo

– o bastante –

para que a neve

reaga a esses

rudimentos de liberdade

extinta.

 
Haverá um tempo

de degelo,

águas e

correntezas;

de uma outra

dimensão

por detrás

dessa moldura

vazada.

 
Caronte

aguarda

o sal da

terra.


Os demônios

(e os cronópios)

sempre souberam

que para o sobrevivente

a primeira qualidade

do sonho

é ser corruptível.

AFORISMO


(Jackson Pollock)


238
"A arte é a forma visível da representação."


sábado, 11 de fevereiro de 2012

AFORISMO


(Barnett Newman)


237
"A arte é o invólucro da verdade."


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ENTREVISTA COM O DESENHISTA FELIPE STEFANI



1 – Quando ocorreu seu contato inicial com o universo do desenho artístico?


Desenho compulsivamente desde que me conheço por gente. Devo ao meu primo um contato maior e inicial com um desenho mais artístico. Eu tinha acabado de voltar de um ano morando na Califórnia, surfando e trabalhando, onde já tinha ido com a intenção de finalmente começar um trabalho mais profundo de desenho de escritos literários. Quando voltei, morando em Ubatuba, um dia meu primo apareceu para passar um tempo lá, com uma turma grande de artistas amigos dele, todos do Grupo Bijari de arte, que ainda existe. Ficamos dias desenhando em conjunto e pude reviver aquele sentimento que tinha ao desenhar quando criança. Eu tinha uns 21 anos. Meu primo nessa época era auxiliar do artista Dudi Maia Ros a e então fui fazer aulas com o artista, fiz muitas aulas, do desenho a pintura. Nunca mais parei. Acho que a vida vai acontecendo assim, meio misteriosamente, algumas coisas parecem ser predestinadas.

Acredito que meus desenhos tem alguma influência e diáogo com os artista da Escola Brasil, da qual o Dudi participava nos anos 60/70.


2 – Quais são suas influências no campo da arte?


Muitas coisas mesmo pois tento absorver o máximo de informações, da arte dos povos mais primitivos aos contemporâneos. A visão clássica da arte, da qual, ao meu ver, a arte contemporânea é herdeira, mesmo que as avessas, com certeza é uma grande influencia para mim. O Barroco também, um tanto de pintura Bizantina. Posso citar artistas como Michelangelo, Rafael, Tintoretto, Caravaggio, El Greco, Willian Turner, Willian Blake, Mondigliani, e muitos outros.

Tudo isso tocando o infindo mistério que abrange o ser e busca um eco, a expressão.

Minhas vivencias, no mar, na noite e na vida, assim como a literatura, também influenciam os desenhos. Ou seja, tudo.


3 – Seus desenhos expressam a busca pelo que antecede no tempo toda a forma de acontecimentos humanos, como gestos, vivências, projetos, sentimentos. Comente esse aspecto de sua arte.


Sim, sinto isso também. O próprio desenhar é um gesto, o traço é um gesto e os desenhos enfim, em sua sintaxe, parecem representar gestos humanos. Gestos por vezes melancólicos, alegres, meditativos, angustiantes. Muitas vezes tento fixar a angustia, a treva, que escapa...


4 – Há uma dimensão instável em seus desenhos, como se a realidade antes do fato fosse permanente em seu anseio de concretização. Um projeto inacabado. Um desfecho nunca alcançado que revela de certa forma uma dimensão provisória em seus desenhos. Comente.


Sim, algo que aponta para esse mistério, o inacabado que é também um lugar, que aponta para algo de infindo, no gesto drástico que se abre por si mesmo. E na sintaxe dos gestos humanos representados, talvez um jogo com a arte grega, antropocêntrica. Mas sempre esse traço, esse gesto que aponta, como tudo que existe, para aquilo infinito, que não é tempo nem espaço, no entanto também não é porvir, nem passado. Mais extremo que o mais extremo dos gritos, que não é grito, as imagens se abrem para isso em seu pequeno grito. Mais leve do que o mais leve elemento que existe no universo, mais leve até que a poética. A arte e sua poesia devem apontar, em gesto oblíquo, para isso. Também gosto de estudar a simbologia tradicional, talvez um dia ela entre em minha arte.


5 – Em seu trabalho artístico você tem dialogado com a literatura, podemos citar como exemplo poetas e escritores como Jorge Elias Neto, Stefanni Marion, Andre Setti, Alexandre Bonafim, Lily Falcão, Beatriz Bajo e Ana Paula Maia. Comente a relação existente entre seus desenhos e a obra literária.


Isso vai de encontro com o que eu disse sobre como as coisas acontecem misteriosamente em um certo sentido. Logo na época em que estudava desenho com o Dudi fiz um curso de teatro onde conheci o poeta Andre Setti, e dai começamos uma imensa ( em muitos sentidos) interlocução artística. Ilustrei seu primeiro livro e então de vários outros escritores, na sequência.

A interlocução artística, principalmente quando entre diversas formas de expressão, é para mim algo fundamental e belo, me sinto um privilegiado por essas amizades e trabalhos. Como sou também poeta isso tem um significado ainda maior, como um ciclo, acabei ilustrando meus dois primeiro livros de poemas também.

Em outras entrevistas que dei sempre percebi e disse que dar uma entrevista é por si só uma arte. Essa é a primeira vez que respondo como artista plástico. O interessante e surpreendente é que respondo como se fosse uma outra pessoa, assim como, muitas pessoas já perceberam, meus desenhos e pinturas, parecem ser feitos por uma outra pessoa, que não a mesma que escreve os poemas. Talvez eu concorde, mas isso por que são mesmo formas muito diferente de expressão, que em algum ponto são a mesma coisa. Não cabe aqui falar sobre algumas diferenças que acredito existir, mas as semelhanças, e mesmo o por que de insondaveis diferenças, fazem parte desse mistério que não ouso desvelar. Somos muitos e um, assim como os desenhos.

Ainda quero migrar, como eles.



GALERIA FELIPE STEFANI