sábado, 5 de novembro de 2011

OCTÁVIO DE FARIA: O ANJO DE PEDRA

(El Greco)







Ajoelhado no ladrilho da Capela, a cabeça entre as mãos, deixou que passassem um a um, com a rapidez com que passam as imagens evocadas à revelia da vontade, todos os tristes casos de criaturas que se tinham entregue à sua direção espiritual e viviam pelo mundo afora carregando seu fardo humano, sua parcela de sofrimento. Umas próximas, quase diárias no murmúrio das suas misérias, outras já distantes, muito e muito distantes como aquelas que se tinham afastado dos Sacramentos em meio à procela das primeiras grandes crises da adolescência. Imagens sombrias, tristes contemplações. Uma sucessão de vultos turvos de fantasmas: almas feridas em eternos gemidos pelo mundo ou almas sem vida real, almas que a vida fora aos poucos endurecendo, petrificando. Reviu muitas, reviu quase todas as conhecidas, focalizando-as nos seus instantes de maior sinceridade, nos momentos críticos em que tinham revelado a chaga profunda, deixando a nu diante dele o que nelas era mais íntimo, mais inseparável de si mesmo – esse núcleo irredutível onde, em cada ser, o demônio constrói aos poucos e, no mais das vezes, com o máximo de dissimulação possível, o seu ninho supremo.


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Parecia mesmo uma provação divina aquela constante insuficiência dos homens, diminuindo-O quando falavam Dele. Quem diria que eram as palavras de Deus? O mundo estava atolado naquela desgraça: as palavras de Jesus ditas e ouvidas como se fossem as de um outro ser qualquer, rei ou filósofo, grande ou pequeno, chefe ou escravo. No entanto, as palavras do Senhor do mundo, quem não as ouvia, quem não as sabia de cor, quem não as seguia meticulosa, religiosamente? ... A indistinção era aterradora, apocalíptica a inversão dos valores. E por toda parte os homens morriam porque não sabiam mais ouvir, compreender, distinguir o essencial do não-essencial, a eternidade a conquistar do momento que vem e vai passar...


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Sinto que ainda é muito cedo para tentar responder, para precisar. (De que armas, de que forças não dispõe o terrível Senhor do mundo?!...) A névoa que envolve todos esses terrenos estranhos onde confinam o humano e o divino, apresenta-se ainda por demais espessa ante meus olhos debilitados pela inútil e custosa contemplação diária de tantos brilhos efêmeros, de tanta beleza vazia e morta à verdadeira vida, para que possa recolher e fixar o que se passa ao certo nesse minuto de silêncio que sinto, no entanto, mergulhando bem fundo no seio da eternidade.


Um comentário:

  1. Uma das obras mais pungentes da grandiosa e injustiçada Tragédia Burguesa.

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