terça-feira, 12 de junho de 2012

VINICIUS DE MORAES: POEMA


(Edgar Degas)

SONETO DE DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


sábado, 9 de junho de 2012

JORGE TUFIC: POEMA


(Cézanne)


POETA NÃO SE DEFINE

Poeta não se define: é um ser à parte.
De homem se veste, de animal caminha,
mas algo nele de anjo se avizinha
quando em fatias brancas se reparte.
Cheira o pão de seus versos; faz-se arte
pela dor que humaniza e que espezinha;
não a dor do egoísmo, a dor mesquinha,
mas a dor que se empluma no estandarte.
Pode ser o domingo que se anula,
um galgo que tropeça, o lenço esgarço
que, sendo de Marília, ainda tremula.
Para si mesmo estranho ele se enigma,
avesso ao paletó, caderno esparso,
nada o liberta, nunca, desse estigma.

JORGE TUFIC: POEMA


(Cézanne)

A INSENSATEZ

Súplicas não há
que impeçam as viagens de um dia
para outro dia.
Todas as guerras começam
ou terminam
nessa trava que soa,
abrindo e fechando portas,
cárceres, grutas, bibliotecas,
domingos assustados.
Uma planta que cegue os vaga-lumes,
uma voz que se rache da pedra,
um rio subitamente vermelho,
podem ter sido a causa
de uma tarde ou de uma noite
estacarem
para  rever uma frase.
Uma única frase.

  

quinta-feira, 7 de junho de 2012

JORGE TUFIC: POEMA


(Monet)


ODE À TARDE

A tarde é isso.
Um estado-maior de silêncios,
coisas sustadas,
luares diluídos e soltos,
franjas tecidas de chuva.

Tardes antigas
compartilham também destes ermos
feitos de ouro e melancolia.
A espada de Alexandre,
o orgulho de Cleópatra
e as estrofes de Omar Kayyan,
quantas vezes não se tocaram
por esse breve intervalo da luz
que distrai os topázios?

Silentes abrigos e sustos,
migrações repetidas,
relinchos paralelos ao vento
machucado e doce,
parecem somar com a desventura
e o trabalho anônimo das sombras.
Sutilezas do nada que se confia
a outro nada menor,
eclosão angular de sol rente,
seiva rubra,
labaredas do anoitecer.

Mas quase ninguém se encara
ou se reflete
nestes milhares de espelhos
que se entramam
na dor da paisagem.
Em nenhum deles, porém,
não é a mesma figura
que se vê repetida.
Perfis exumados da terra,
gorjeios feridos
e pássaros riscados do mapa,
voltam, por um momento,
e nos olham com piedade.

Todas as feras temidas pelo homem,
voltam também, de repente,
e rugem dentro de nós.
A noite, então, nos penetra
osso após osso.

Imponderável, enigmática tarde.
Tua flama compacta nos hospeda
e dá-nos o sossego desejado.
És também o arquipélago
de muitos confinamentos
e sulcados remorsos.
Tuas patas são leves,
teu ar é solene,
teus números são claros,
teu rosto é velado,
tua voz é distante.

Pausas e quedas súbitas
guardam tuas lendas
em cada pedaço de chão.
Entre a manhã das fanfarras
e a penumbra dos arcos,
alteia-se, enfim, o abutre espacial
deste azul tão azul,
que pronto nos inscreve e nos devora.
Afinal, somos tinta, tempo, imagem.
E ele – abutre –
o pergaminho insaciável.


Do livro A insônia dos grilos.   

   

terça-feira, 5 de junho de 2012

MAJELA COLARES: POEMA


(Guignard)

RASTRO E SEGREDO


Deixo na argila meu segredo
                        e rastro
sob um céu cor azul-pupila
nesse caminho fingirei
                        meu norte...
e sei que a leste o futuro é certo

mas vou para oeste em desafio a mim
busco a memória que me vem de longe
talvez em vão
          muito tentarei
ainda que fique nada mais além
do que, sem mágoas,  meu olhar na areia

não quero apenas viver em descanso
se à minha frente
          há sorriso e dor
quero a lâmina fustigando o peito
e que meu corpo num ranger de vértebras
dance canções em louvor à vida
sob um céu cor azul-pupila
minha memória a segredar meu rastro




MAJELA COLARES: POEMA


(Enrico Bianco)


SILÊNCIO INFINITO
                      a Fábio Lucas

A nuvem alumbrou-se; de repente
caiu chuva... coriscos e trovões
a manhã inundou o chão ardente
– triste cinza de fogo dos verões

o universo engravida uma semente
mistério que vem feito um sol nascente

água fértil e terra em pleno cio
num beijo prolongado e convergente...
– a babugem... do chão foi-se o estio
verde gozo, fez-se vida confluente

o universo engravida uma semente
mistério confinado em nossa mente

é que Deus tá no som do assobio
que ainda se expande no infinito
fecundando o espaço inda vazio...
e hiberna este orgasmo, em luz, contrito

o universo engravida uma semente
mistério de um além que a luz pressente



MAJELA COLARES: POEMA


(Edward Burne-Jones)


MINHA LENDA


Tisnam o ar    a poeira e o enxofre –
invadem os poros, a carne, o sangue

inundam a água ébria que escorre
na boca amarga, enorme do homem

turvas palavras assombram os céus
saltando do homem, da boca enorme

é dia, é noite... em olhos de breu
incerto amanhã na mente que sofre

desce o futuro veloz, busca o ventre...
último sopro de vida que resta

ressurge a morte nas dobras do vento
passado e presente... tempo deserto

dormi e sonhei, vi isto, sim, vi!
A minha retina agora e pra sempre

não vai esquecer a imagem de mim
perdido entre cinzas – sol já poente...

um gesto surgiu em meio à poeira
em forma de mão, o gesto me acena

segui o sinal – quem sabe  – pensei
a ultima flor, talvez, dessa lenda



MAJELA COLARES: POEMA


(Pieter Brueghel)


HOMEM OCO

       a Janilto Andrade 


Sob a vigília de um olhar de sono
dias escorrem entre sombra e luz
poucos percebem que na vista pouca
nem luz, nem sombra, deixam marcas sempre

as horas voam feito borboletas
pelas manhãs de um amanhã sem busca
vão entre flores e espinhos densos...

um olhar murcho pensa outros futuros
que se molduram entre as mãos e os dentes
de um homem surdo, oco, cego e rude
que na memória já não guarda um tempo



segunda-feira, 4 de junho de 2012

PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS: POEMA


(Lasar Segall)

Prenúncio

1

Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.

2

Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.

O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.


PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS: POEMA


(Lasar Segall)



Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.