sexta-feira, 18 de maio de 2012

CLÁUDIO NEVES: POEMA


(Modigliani)


DUPLO

Eu finjo ser quem fui,
porquanto assim me seja
real ser o que frui
e não quem o deseja.

Eu tento ser quem era
somente porque é belo
e inútil, e desespera
tentar ser mais do que sê-lo.

Finjo sempre nesta hora
de crepúsculo incompleto
em que duvido se é minha
a sombra azul que projeto.

     


CLÁUDIO NEVES: POEMA


(Modigliani)


VOLTAS

Os teus olhos são tão negros
quanto uma lua que, ausente,
nega um segredo
ou o presente.

Os teus olhos são tão negros
que são profundos, não densos,
e têm muito de cigarras,
de água, de esquecimento.

Os teus olhos são tão negros
quanto um quarto adormecido
onde despreza ou espreita
um gato, um morto, um crime.

Os teus olhos são tão negros
que neles nem há pupilas.
Só, no silêncio perfeito,
a obrigação de um centro.

  


JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS: POEMA

(Albrecht Dürer)


OFICINA DO PENSAMENTO

O Burgo Ao Longe Dorme Ainda E Sonha, Estranho
Ao Árido, Ciente Labor Dos Que Lamentam
Não Dar À Pedra A Forma-Ápice Que Intentam,
Na Luz Nascente, Baixar Dos Céus Tal A Cor, O Tamanho.


Silentes E Insones, Ambos Entregues À Obra-Incrível,
Os Anjos Grande & Pequeno Dos Instrumentos Não Desertam:
- A Escada, A Balança E A Ampulheta Quiçá Despertam
Ao Sinete, Menos Embora O Cão-Dormente, Solidário, Impassível.


– Se No Exílio Dos Homens E Do Reino, Pequeno & Grande
Por Que Persistem Junto Aos Signos E Ao Material Disperso,
Ousando Imantá-los Face À Indiferença, À Vileza, Ao Tempo-Avante?
– O Que Guardam, Austeros, De Primeiro Ou Último Do Universo?


Confiados Por Dürer Ao Eterno, Lidam Embalde Com Fórmulas-Secretas.
Não Importa. Em Algum Sítio Do Orbe, Vigoram Dignos, Alquímicos, Poetas.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

MARIEL REIS: POEMA


(John Waterhouse)


Adaga
Por que me tomar por árbitro
Se à volta possui a natureza
Para auxiliá-la no julgamento
De tão formoso encanto?

Por que me tomar por juiz
Vê quão longas minhas cãs,
Allah deu-mas como galardão
Coroam de brilho as manhãs.

Por que me tomar por mediador
A vida é um tropel fugaz
Por que não gozar de paz
Nas asas mansas do amor?

Voa à volta de minha tenda
O anjo Azazel em sua fúria,
Por que à toa agastar-se
Em disputa tão inútil?

Não, não posso ser o juiz
De tão infinita graça,
Nunca fui tão feliz...

Quando me decidi:
Excedia à natureza
Toda sua beleza
Desde a primeira
Vez que
a vi.

MARIEL REIS: POEMA


(W.J.Solha)



Palavras

Para W.J.Solha

Não, não gaste apenas com palavras
A sua adorável língua,
Não a utilize para o escarnecimento alheio
Não se sirva dela para ofensa
É para o beijo o seu melhor proveito.
Não, não arruíne seus ouvidos
Com as maledicências,
Nem os esgotem as discussões enfaradas
Orna-os com pérolas
É para a confissão de amor seu melhor proveito.
Não, não se sirva dos seus olhos
Para mirar apenas os desertos,
Embora seja incerto o destino
Que os homens têm a cumprir
Avista a paisagem amorosa
Contemplar o ser amado seu melhor proveito.
Não, não gaste apenas com palavras
A sua adorável língua,
Ó Allah, abençoa-me com a sorte
Conduz-me para a solução do enigma
Antes que o amor me encaminhe para a morte.

MARIEL REIS: POEMA


(Edward Burne-Jones)

Os anjos são espiões
I

Os anjos são espiões
Habitando entre as estrelas...
Ó criatura tão perfeita
Que provoca o ciúme celestial,
Por que não lhes pede um par de asas
E vai morar com eles no céu?

II
Embaixo do pessegueiro em flor
Sob a noite que ascende no horizonte,
O aroma mistura-se ao calor
que sobe da terra.
Consulto as estrelas
para saber quem sou,
E a lua brilha no Oriente.

III

Para consorte o bom amante
Deve seguir duas regras:
Tornar o amor sempre presente
E rodar por toda a terra
Murmurando apenas o nome
Que é a chave de sua alma...
Para quando a morte o chame
Mostrar que é um caminho sem volta
O coração do amante.



terça-feira, 15 de maio de 2012

NILTO MACIEL: ENSAIO


(William Blake)


O que significa talento?



Em literatura (e nas demais artes) há os imitadores. Não sabem (não conseguem) ir além dos modelos. Há também os que nem isso conseguem, mas insistem nessa labuta de sísifo. Alguns deles estão em jornais e revistas, academias, catálogos de editoras, nos festins, nas congratulações. Arremedam os descobridores, os inventores e os próprios copiadores. Não vão além dos modelos, dos moldes. São conformados. Aceitam tudo como destino. Reverenciam, sorridentes, a seleção natural, a evolução das espécies, a reprodução. Se são cachorros, nunca se veem gatos. Ou não se sentem aves. Apenas latem.


Capazes de tudo, aprendem, com louvor, as normas gramaticais; leem todos os clássicos; conhecem idiomas (pelo menos dois: o de sua pátria e o das multidões); sabem tudo de cinema, teatro, arqueologia, mitologia, filosofia. Dão lições de quase tudo: o uso da vírgula, o desuso de palavras, a morte de Sócrates, a vida de Platão. Não admitem, nem em sonho, a pecha de medíocres, copistas, conformados. Irritam-se, com facilidade, se criticados. Odeiam os críticos. Sentem-se pares dos descobridores e dos inventores. Nunca dizem “eles”, mas “nós”. Formam grupinhos, reúnem-se todas as noites. São gregários. Elogiam-se, riem muito, contam piadas, armam estratégias. Frequentam, juntos, bares e restaurantes, assim como salões de academias de letras, de retórica, de língua. São amigos uns de outros. Visitam-se amiudamente. Levam mimos para as esposas dos amigos, bonequinhas e bolinhas para os filhinhos dos compadres. Os de fora são os “bestas”, os “metidos”, os “doidos”. Os de fora são os talentosos, descobridores e inventores da nova literatura.


Irmão gêmeo do típico escritor comum é o “gênio incompreendido”, que escreve como se desenhasse labirintos. Para ele, é mais do que preciso enredar o leitor, confundi-lo, atá-lo com nós, sufocá-lo e matá-lo. O leitor é seu principal inimigo. E bate no peito: duvido da existência de alguém capaz de entender o que escrevo. Para ele, Fernando Pessoa é muito simples e, portanto, imitável: “Meu coração é um almirante louco / que abandonou a profissão do mar”. Bom, é verdade, mas deveria ter sido mais complexo. Mais plexo, mais exo, mais lexo, mais oxel, mais xelo, mais loxe. Para deixar o leitor, o crítico, o estudioso completamente enredados nas teias da grande aranha do verbo.


À mesa desses privilegiados seres, sempre farta e barulhenta, sentam-se os seus seguidores, os seus bajuladores. São os incapazes de ler cem páginas de um clássico. Muito cansativo! Os que não conseguem aprender nada e gritam: Abaixo a ditadura da gramática! Os que envelhecem e não passam do versinho adocicado. Os que veem em letras de samba ou de rock a poesia mais soberba. Os que acham que romance é uma história comprida. São os pobrezinhos da literatura, os miseráveis, os indigentes, os mendigos das letras. Destes, no entanto, nem é preciso dizer muito.


Os escritores comuns somos quase todos nós que convivemos com os pobres sonhadores e também com os talentosos. Com muita dedicação (e porque conduzem no cérebro algum gene diferenciado), alguns conseguem até engendrar uma ou outra obra valiosa. Assim como os talentosos geram muita mediocridade. Quase todos nós, porém, não passamos do soneto bem medido e rimado, do conto arrumadinho que constará de antologia estadual ou nacional, do romance estudado (por algum tempo) na Universidade.


Ao nosso lado, vivem os descobridores da boa literatura. “Viver ao lado” é modo de dizer. Sim, vivem na mesma cidade, são nossos vizinhos, mas não se misturam muito conosco. Em vez da vida social, preferem os livros. Nada inventam, porém sabem descobrir modelos (que a maioria nem percebe), artifícios de linguagem, entradas e saídas (de labirintos), técnicas de narrar e compor poemas, etc. São os chamados “escritores talentosos”, os capazes de fugir da pura imitação, do plágio e das lições da escola a que pertencem. São românticos que encontram o realismo (Machado de Assis), parnasianos que conseguem alcançar o simbolismo ou o modernismo (Augusto dos Anjos, Jorge de Lima), regionalistas que chegam ao universalismo (Graciliano Ramos, Guimarães Rosa). Não são muitos, razão pela qual são pouco vistos. E, quando percebidos, ninguém sabe sequer seus nomes.


Mais raros ainda são os inventores ou reinventores de literaturas. Também são chamados de gênios. Escrevem nova poesia, como Fernando Pessoa. Novo romance (ou nova prosa de ficção), como Kafka. Estes não vemos por aí, a não ser como estátuas ou em livros. Seria o caso também de James Joyce? Muito escritor torce o nariz: “Eu faço melhor do que ele. Invento coisas tão indecifráveis que até os hieróglifos do Egito se farão (faraós) fáceis (fósseis) diante delas. Nem Jean-François Champollion seria capaz de decifrar os meus finnegans wakes”. E completa: “Na verdade, somos muito parecidos, eu e Joyce. Ele, por seus estudos; eu, por meus...”


Deixemos, porém, esses devaneios para trás. E concluamos este verborrágico passeio com algumas perguntas: Inventar e reinventar são verbos da mesma classe? Joyce reinventou Homero? Quem inventou a Grécia? É possível imitar o gênio? O que significa talento?


Fortaleza, 1º de maio de 2012.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

ENSAIO SOBRE O ARTISTA PLÁSTICO FELIPE STEFANI



ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI

Hilton Valeriano



Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade.  Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.






Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória.  Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção. 





 Assimetria

Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.





Esboço como forma inconclusa

A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.





Espaço de projeção

Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que apresenta-se como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem. 







A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”

LEITURAS ( A PEDRA DE BABEL)




LEITURAS (A PEDRA DE BABEL)





Se um dos postulados teóricos da fenomenologia é de que a consciência encontra-se sempre em um processo de intencionalidade, ou seja, o “eu” sempre em referência a “algo”, o livro A pedra de Babel, do romancista e filósofo Edilson Pantoja, nos mostra a problemática presente em um dos pilares do pensamento contemporâneo: destituído de seus alicerces metafísicos, como pode a consciência não perder-se em seu próprio labirinto de significação? Uma busca fadada ao malogro devido à ausência de uma referência transcendente, de um sentido Absoluto que justifique os atos humanos em seu permanente anseio de completude semântica. A pedra de Babel, epopéia da solidão pós-metafísica, mostra-se como uma narrativa do niilismo; uma perspectiva filosófica próxima ao pensador alemão Nietzsche. O homem deve buscar a única “oferta possível de sentido”, a arte em sua transfiguração existencial. Um livro denso, por tratar de forma literária uma das maiores questões do século: o que fazer do homem sem a principal característica que paradoxalmente o definiria em sua essência: a transcendência?

terça-feira, 8 de maio de 2012

JORGE ELIAS NETO: UM POEMA INÉDITO


(Caravaggio)

Discurso para o cadáver

Teus olhos
não mentem,
essa simplicidade
em dizer:
tão breve, a vida –
enquanto saturamos
o ar
com subterfúgios
e preces.

Do exato
ponto
que se parte
– se esquece–
o espectro
da carne
                   – do irremediável.

Da carne
à cinza,
do torrão de
terra
ao desprezível
mármore
– questão alheia –
(prevalecerá a vontade
               do Universo.)

Que os vivos
tratem da espessura
das trevas.
A você, o privilégio
da dimensão
onde se plantam flores.

Agradeço
a sinceridade
azul
em teus dedos
ao lançar os dados
que julgarão
os versos
impossíveis.

E o que disse
da memória ...
A memória sem lar,
desnecessária,
posto a ausência
cúmplice.

Se pudesse
te acenderia um cigarro...
Deixaria a guimba
                        pendurada
em teus lábios.

(Como é bela e
                              inútil
a última
                   centelha...)

Logo
chegarão.
(A boca aberta da cidade
                         despeja
suas crias.)

Vestirei a máscara
e restarei
um momento – breve –
(o tempo de observar a indecisão
das chamas perante o choro
                        humano.)


Vitoria, 05 de maio de 2012