domingo, 19 de fevereiro de 2012

POEMA


(Modest Cuixart)


ESSÊNCIA
Caminhas sob a noite como um sol póstumo.
Passos tardios de disseminadas lembranças.
Desfolha-se o sono dos esquecidos.
Há uma verdade para os olhos,
sua essência não se restringe aos fatos.
Há uma verdade para o coração,
sua essência não se restringe à solidão.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

VIRNA TEIXEIRA: POEMA


(Lothar Charoux)


como suturar lembranças

dias cor-de-rosa e azuis
vestidos frágeis sobre
cabides de ossos
omoplatas

equilibrar extremos

na costura do tecido

os carretéis
tecendo a
seda


CLAUDIO DANIEL: POEMA


(Gastone Biggi)


canção da árvore de mil folhas

o que exprime
essa esgrima silenciosa
esse pugilato de sombras?
simulacro de suave tigre de água e leo dragão de vento
flama de branca acácia e de salmão-pequeno
que combate no limiar entre a pele e a alma.
o que irradia
esse lento balé de plumas
esse desfile de facas e leques?
dança que traduz em passos de pantera
a canção da árvore de mil folhas
que não sabe da língua
mas do coração   


ALEXANDRE GUARNIERI: POEMA


(Luís Sacilotto)


CAIXA PRETA

no corpo, no rosto, sempre: uma caveira os freqüenta, interna, atrás da pele, sob a epiderme; o que a superfície serena aparenta mascara o cancro e, por hóspedes, os vermes; os tecidos exercendo seu arcano, são meandro camuflando o âmago; enquanto o tórax resguarda o motor do miocárdio; o encéfalo: no crânio; no osso: tutano; no esqueleto temporário, uma centopéia de vértebras o sustenta, as vísceras lacradas ao ventre, mero aparato maquiado sob camadas de células, em série, a lânguida flâmula no acúmulo dos músculos, eis toda a verdade: o que mostra esse monstro, ogro, invólucro, é um evento pregresso, esperado sem mistério, ter corpo é habitar o futuro cadáver de si próprio, ignóbil, sólida necrose avançando sobre o óbvio, aviso prévio, carne e ossada (nem sempre velhos) desse espécime de cemitério.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JORGE ELIAS NETO: POEMA


(Paul Klee)


Cronópio

Para os cronopianos e Cortázar

Sou o fiel

depositário

de um

torrão de açúcar.

 
Guardei

um tanto

de giz

entre as unhas

(pó de palavras)

 
e essa lasca

de marfim

do túmulo profanado

dos paquidermes.

 
Isso basta,

na trégua

precária

no gargalo

desse vulcão

que hiberna

em estado de

flor.


Polvilho

as relíquias

pois ignoro

a espessura

das trevas.

 
O inverno é longo

– o bastante –

para que a neve

reaga a esses

rudimentos de liberdade

extinta.

 
Haverá um tempo

de degelo,

águas e

correntezas;

de uma outra

dimensão

por detrás

dessa moldura

vazada.

 
Caronte

aguarda

o sal da

terra.


Os demônios

(e os cronópios)

sempre souberam

que para o sobrevivente

a primeira qualidade

do sonho

é ser corruptível.

AFORISMO


(Jackson Pollock)


238
"A arte é a forma visível da representação."


sábado, 11 de fevereiro de 2012

AFORISMO


(Barnett Newman)


237
"A arte é o invólucro da verdade."


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ENTREVISTA COM O DESENHISTA FELIPE STEFANI



1 – Quando ocorreu seu contato inicial com o universo do desenho artístico?


Desenho compulsivamente desde que me conheço por gente. Devo ao meu primo um contato maior e inicial com um desenho mais artístico. Eu tinha acabado de voltar de um ano morando na Califórnia, surfando e trabalhando, onde já tinha ido com a intenção de finalmente começar um trabalho mais profundo de desenho de escritos literários. Quando voltei, morando em Ubatuba, um dia meu primo apareceu para passar um tempo lá, com uma turma grande de artistas amigos dele, todos do Grupo Bijari de arte, que ainda existe. Ficamos dias desenhando em conjunto e pude reviver aquele sentimento que tinha ao desenhar quando criança. Eu tinha uns 21 anos. Meu primo nessa época era auxiliar do artista Dudi Maia Ros a e então fui fazer aulas com o artista, fiz muitas aulas, do desenho a pintura. Nunca mais parei. Acho que a vida vai acontecendo assim, meio misteriosamente, algumas coisas parecem ser predestinadas.

Acredito que meus desenhos tem alguma influência e diáogo com os artista da Escola Brasil, da qual o Dudi participava nos anos 60/70.


2 – Quais são suas influências no campo da arte?


Muitas coisas mesmo pois tento absorver o máximo de informações, da arte dos povos mais primitivos aos contemporâneos. A visão clássica da arte, da qual, ao meu ver, a arte contemporânea é herdeira, mesmo que as avessas, com certeza é uma grande influencia para mim. O Barroco também, um tanto de pintura Bizantina. Posso citar artistas como Michelangelo, Rafael, Tintoretto, Caravaggio, El Greco, Willian Turner, Willian Blake, Mondigliani, e muitos outros.

Tudo isso tocando o infindo mistério que abrange o ser e busca um eco, a expressão.

Minhas vivencias, no mar, na noite e na vida, assim como a literatura, também influenciam os desenhos. Ou seja, tudo.


3 – Seus desenhos expressam a busca pelo que antecede no tempo toda a forma de acontecimentos humanos, como gestos, vivências, projetos, sentimentos. Comente esse aspecto de sua arte.


Sim, sinto isso também. O próprio desenhar é um gesto, o traço é um gesto e os desenhos enfim, em sua sintaxe, parecem representar gestos humanos. Gestos por vezes melancólicos, alegres, meditativos, angustiantes. Muitas vezes tento fixar a angustia, a treva, que escapa...


4 – Há uma dimensão instável em seus desenhos, como se a realidade antes do fato fosse permanente em seu anseio de concretização. Um projeto inacabado. Um desfecho nunca alcançado que revela de certa forma uma dimensão provisória em seus desenhos. Comente.


Sim, algo que aponta para esse mistério, o inacabado que é também um lugar, que aponta para algo de infindo, no gesto drástico que se abre por si mesmo. E na sintaxe dos gestos humanos representados, talvez um jogo com a arte grega, antropocêntrica. Mas sempre esse traço, esse gesto que aponta, como tudo que existe, para aquilo infinito, que não é tempo nem espaço, no entanto também não é porvir, nem passado. Mais extremo que o mais extremo dos gritos, que não é grito, as imagens se abrem para isso em seu pequeno grito. Mais leve do que o mais leve elemento que existe no universo, mais leve até que a poética. A arte e sua poesia devem apontar, em gesto oblíquo, para isso. Também gosto de estudar a simbologia tradicional, talvez um dia ela entre em minha arte.


5 – Em seu trabalho artístico você tem dialogado com a literatura, podemos citar como exemplo poetas e escritores como Jorge Elias Neto, Stefanni Marion, Andre Setti, Alexandre Bonafim, Lily Falcão, Beatriz Bajo e Ana Paula Maia. Comente a relação existente entre seus desenhos e a obra literária.


Isso vai de encontro com o que eu disse sobre como as coisas acontecem misteriosamente em um certo sentido. Logo na época em que estudava desenho com o Dudi fiz um curso de teatro onde conheci o poeta Andre Setti, e dai começamos uma imensa ( em muitos sentidos) interlocução artística. Ilustrei seu primeiro livro e então de vários outros escritores, na sequência.

A interlocução artística, principalmente quando entre diversas formas de expressão, é para mim algo fundamental e belo, me sinto um privilegiado por essas amizades e trabalhos. Como sou também poeta isso tem um significado ainda maior, como um ciclo, acabei ilustrando meus dois primeiro livros de poemas também.

Em outras entrevistas que dei sempre percebi e disse que dar uma entrevista é por si só uma arte. Essa é a primeira vez que respondo como artista plástico. O interessante e surpreendente é que respondo como se fosse uma outra pessoa, assim como, muitas pessoas já perceberam, meus desenhos e pinturas, parecem ser feitos por uma outra pessoa, que não a mesma que escreve os poemas. Talvez eu concorde, mas isso por que são mesmo formas muito diferente de expressão, que em algum ponto são a mesma coisa. Não cabe aqui falar sobre algumas diferenças que acredito existir, mas as semelhanças, e mesmo o por que de insondaveis diferenças, fazem parte desse mistério que não ouso desvelar. Somos muitos e um, assim como os desenhos.

Ainda quero migrar, como eles.



GALERIA FELIPE STEFANI