sábado, 12 de novembro de 2011

MURILO MENDES: POEMAS DE A POESIA EM PÂNICO

(Ismael Nery)





A DANAÇÃO

Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.

Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.

A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.


O IMPENINENTE

Quem me consolará no mundo vão?
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem solida, rosa virginal, água branca
E tu, antiga sinfonia aérea,
Pertenceis ao anjo, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.
A presença real do demônio
É meu pão de vida cotidiano:
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.

Hóstias puras,
Inutilmente vos ergueis sobre mim.


A DESTRUIÇÃO

Morrerei abominando o mal que cometi
E sem ânimo para fazer o bem.
Amo tanto o culpado como o inocente.
Ó Madalena, tu que dominaste a força da carne,
Estás mais perto de nós do que a Virgem Maria,
Isenta, desde a eternidade, da culpa original.
Meus irmãos, somos mais unidos pelo pecado do que pela Graça:
Pertencemos à numerosa comunidade do desespero
Que existirá até a consumação do mundo.


OS TRÊS CÍRCULOS

Não encontro minha paz na Igreja.
Tu, monge, não podes me dizer o que o Cristo me dirá:
Recolheste d’Ele a menor parte.
E o Seu corpo e o Seu sangue
Não fazem circular a vida no meu corpo e no meu sangue.
Tu, mulher, criatura limitada como eu,
Recebes a melhor parte do meu culto.
Eu te amo pela tua elegância, pela tua mentira, pela tua vida teatral.
E nem ao menos posso repousar a cabeça na pedra do teu corpo.
Só tu, demônio, nunca me faltas nem um instante.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

UM POEMA INÉDITO DE JORGE ELIAS NETO

(Nicoletta Tomas)





Máscara mortuária


Guardei meu último gesto.

Será um movimento

exato da mão

a cortar pelo talo

a palavra

definitiva.


Dirão as carpideiras:


"Reparem

o riso e todos

esses dentes;

a frouxidão da boca

cansada de gargalhadas

e asneiras."


O cúmplice,

me encontrará sem palavras

e gelado

como a verdade.



Vitória, 06 de novembro de 2011



sábado, 5 de novembro de 2011

OCTÁVIO DE FARIA: O ANJO DE PEDRA

(El Greco)







Ajoelhado no ladrilho da Capela, a cabeça entre as mãos, deixou que passassem um a um, com a rapidez com que passam as imagens evocadas à revelia da vontade, todos os tristes casos de criaturas que se tinham entregue à sua direção espiritual e viviam pelo mundo afora carregando seu fardo humano, sua parcela de sofrimento. Umas próximas, quase diárias no murmúrio das suas misérias, outras já distantes, muito e muito distantes como aquelas que se tinham afastado dos Sacramentos em meio à procela das primeiras grandes crises da adolescência. Imagens sombrias, tristes contemplações. Uma sucessão de vultos turvos de fantasmas: almas feridas em eternos gemidos pelo mundo ou almas sem vida real, almas que a vida fora aos poucos endurecendo, petrificando. Reviu muitas, reviu quase todas as conhecidas, focalizando-as nos seus instantes de maior sinceridade, nos momentos críticos em que tinham revelado a chaga profunda, deixando a nu diante dele o que nelas era mais íntimo, mais inseparável de si mesmo – esse núcleo irredutível onde, em cada ser, o demônio constrói aos poucos e, no mais das vezes, com o máximo de dissimulação possível, o seu ninho supremo.


**********


Parecia mesmo uma provação divina aquela constante insuficiência dos homens, diminuindo-O quando falavam Dele. Quem diria que eram as palavras de Deus? O mundo estava atolado naquela desgraça: as palavras de Jesus ditas e ouvidas como se fossem as de um outro ser qualquer, rei ou filósofo, grande ou pequeno, chefe ou escravo. No entanto, as palavras do Senhor do mundo, quem não as ouvia, quem não as sabia de cor, quem não as seguia meticulosa, religiosamente? ... A indistinção era aterradora, apocalíptica a inversão dos valores. E por toda parte os homens morriam porque não sabiam mais ouvir, compreender, distinguir o essencial do não-essencial, a eternidade a conquistar do momento que vem e vai passar...


**********


Sinto que ainda é muito cedo para tentar responder, para precisar. (De que armas, de que forças não dispõe o terrível Senhor do mundo?!...) A névoa que envolve todos esses terrenos estranhos onde confinam o humano e o divino, apresenta-se ainda por demais espessa ante meus olhos debilitados pela inútil e custosa contemplação diária de tantos brilhos efêmeros, de tanta beleza vazia e morta à verdadeira vida, para que possa recolher e fixar o que se passa ao certo nesse minuto de silêncio que sinto, no entanto, mergulhando bem fundo no seio da eternidade.


MURILO MENDES: POEMAS DE OS QUATRO ELEMENTOS

(Ismael Nery)






ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer
E pelas ondas do ar
A vida e a morte são ligadas pelas flores
E pelos túneis futuros
Deus e o demônio são ligados pelo homem.


SOLICITUDE

É preciso orientar as notas musicais
E cuidar do asilo das flores.
A criatura menos órfã do universo é a estrela
E a mais indiscreta, o homem.

O poeta guia a música.
A morte atrai o tempo,
O demônio atrai a guerra.

Tenho pena dos que vão nascer.


PIRÂMIDE

Sozinho no monumento dos séculos
Consulto meu cérebro
Eu sou tudo que foi, que é e que será.
Da minha cabeça a vida sai armada
Todas as coisas pensam em mim por mim contra mim
Meu olhos convergem para todas as coisas
Que de todos os lados convergem para mim.
Personagem de enigma
Assisto às idades desfilarem
Bebo a vida e a morte ao mesmo tempo
Personagem de enigma
Sou eu quem segura a água a terra o fogo e o ar
Julgando tudo e todos eu me julgarei.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

MURILO MENDES: POEMAS DE TEMPO E ETERNIDADE

(Ismael Nery)






A GRAÇA

Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estátuas de ídolos
caindo, manequins descoloridos, figuras vermelhas se desencarnando
dos livros que encerram as ações dos humanos.
E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, mas a minha
alma se debate porque o tempo rola, rola.
Até que tu, impaciente, rebentas a grade do sacrário; e me estendes
os braços: e posso atravessar contigo o mundo em pânico.
E o arco-de-Deus se levanta sobre mim, criação transformada.


O JUSTIFICADOR

Teu espírito se dilata para abraçar a criação.
Chegam famílias das pirâmides para te verem,
Outras chegam dos confins dos mares.
A noite te anuncia pelos seus astrônomos e suas estrelas,
O dia te proclama pelos seus sinos e pelos seus jornais.
Gerações inumeráveis crescem à sombra da tua Igreja.
Atravessas campo e deserto, sobes em arranha-céus,
Voas no aeroplano, desces no submarino,
Abalas a alma do cego, do criminoso e da perdida.
Presides ao casamento, ao nascimento, à morte e à ressurreição.
Os homens te dividem em mil imagens falsas:
Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,
Dás a todos o único, o insubstituível consolo.
Tuas parábolas publicadas em edições de engraxate
Comovem ao mesmo tempo o ignorante e o poeta.
Os maus sacerdotes em vão procuram te ocultar:
Tu os convertes na última hora, como ao bom ladrão.
Espalhas pela terra teu corpo e tua alma em pedaços,
E cada alma, mesmo ruim, é uma relíquia tua.
Diariamente o mundo te persegue e te mata,
Diariamente ressuscitas a atrais o mundo a ti.


ETERNIDADE DO HOMEM

Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua Parusia.

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.

Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.

MURILO MENDES: POEMAS DE O VISIONÁRIO

(Ismael Nery)






MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE

Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás engrenada nas formas
Que se engrenam em outras desde a corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras em ti teus ascendentes até o primeiro par,
Encerras teu filho, tua neta e a neta de tua neta.
Mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.


APRESENTAÇÃO DO RECÉM-NASCIDO

A pedra abre os olhos mansos de novilha
Quando a criança nasce no mundo da foice e do martelo.
Deus não sorri nas dobras azuis do quarto
Porque o vento que vem das usinas
Impede que a eternidade passe.
Criança, que vens fazer no mundo soluçante,
Se a luz não é mais luz, a alma não é mais alma,
Se a cor branca sumiu nos hinos de protesto?
Some, criança, desfaze-te em mar, em tango, em ventania;
Faze a pedra calar; as pedras que te trazem
São palmas de aço, o homem chorou para fazê-las;
Um corpo elétrico te espera numa curva do mundo
Para te derrubar quando tiveres dezoito anos,
Como já derrubou teu pai e tua mãe
Que são a fotografia inanimada do que foram.


FIM E PRINCÍPIO

Espírito pavoroso do século,
Não te dedicaria pianos
Nem harmonias de sirenes
Se os demônios não quisessem.
Entretanto chora o mar,
Choram noivas, peixes, mães,
Desde o princípio do mundo;
Apitos de máquinas levarão
Desde o pólo ao equador
Até o final dos tempos
Lamentações de novilhas,
De cegos, órfãos e plantas.

JORGE DE LIMA: SONETOS II

(Mosteiro dos Jerônimos)




Em que distância de ontem te modulo,
mundo de relativos compromissos?
Novas larvas e germes em casulo,
novos santos e monges e noviços.

Não máscaras nos olhos. Nem simulo.
Eu era pião, já vão evos mortiços
naquele calendário agora nulo,
com seus cerimoniais de escuros viços.

Recordas-te do afim, teu rei colaço?
Lembras-te dele em queda? Céus dos dias
com luzeiros – incêndios, lumes de aço.

E tu, grande Lusbel, guia dos guias
para reinar perdeste-me também
a mim que fui o espelho em que te vias.


***

Sinto-me salivado pelo Verbo,
rodeado de presenças e mensagens,
de santuários falhados e de quedas,
de obstáculos, de limbos e de muros.

Furo as noites e vejo-te, Solstício,
ou recolho-me ao âmago das coisas,
renovo um sacrifício expiatório,
lavo as palavras como lavo as mãos.

Esta é a zona sem mar e sem distância,
Solidão, sumidouro, barro-vivo,
barro em que reconstruo sangues e vozes.

Não quero interromper-me nem findar-me.
Desejo respirar-me no Teu sopro,
aparecer-me em Ti, continuado.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

JORGE DE LIMA: SONETOS

(Bosch)






Sei teu grito profundo, e não me animo
a cortar a raiz que aTi me embasa.
Em mão mais primitiva não me arrimo
devo-Te tudo, origem, patas e asas.

Permite que eu revele história e limo
sem desobedecer a Tua casa.
Nazareno dos lagos, lume primo,
atende à pobre enguia de águas rasas.

Se desses versos outro lume alar-se
misturado com os Teus em joio e trigo,
sete vezes por sete me perdoa.

Ó Desnudado, é meu todo o disfarce
em revelar os tempos que persigo
– na vazante maré com inversa proa.


***


Eu te sinto pecado original
não só corroendo ainda os meus tecidos
porém intumescendo-me com a lava
do orgulho em que um arcanjo se abrasou.

Para me dominares a alma escrava
entorpeces-me todos os sentidos,
crânio, tórax, abdômen, membros, sexo,
tudo é uma gorda empola alta e convexa.

Mudas depois meu crânio, tronco e membros:
a boca em tromba, espádua em asas negras
sorriso, em gargalhada má. Lusbel,

vês que a minha figura se assemelha
à tua, tu que foste o meu modelo
orgulhoso da luz que me cegou.


UM ANO SEM ILDÁSIO TAVARES POR DOUGLAS DE ALMEIDA





RESTOS

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.


Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.



Este poema de Ildásio Tavares, escrito quando o poeta tinha 22 anos de idade e publicado pela primeira vez em 1967 na antológica antologia Moderna Poesia Bahiana (Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro). cai bem para dar início ao meu texto acerca deste poeta, completando hoje exatamente um ano da sua morte ocorrida, dia 31 de outubro de 2010 depois de ser acometido de um AVC e permanecer durante 17 dias no Hospital Jorge Valente.

Falar de ildásio, não é tarefa fácil pois trafegou por diversas áreas da arte e do conhecimento, e inúmeras são as suas facetas, ou melhor (para o espírito do poeta não rimar), inúmeras são as suas fases e faces. Ildásio não foi apenas um escritor, um poeta, professor ou um agitador cultural, Ildásio foi jornalista, ensaísta, tradutor, compositor, foi tudo isto e muito mais. Ildásio se constitui em um documento da cultura baiana,

Ildásio nasceu a 25 de janeiro de 1940 na atual cidade de Gongogi, região do cacau da Bahia, e já morando em Salvador, formou-se em Direito (1962) e em Letras (1968) pela Universidade Federal da Bahia. Fez o Mestrado na Southern Illinois University, o Doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e um Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa.

Lecionou por muitos anos literatura portuguesa no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahiam pela qual se aposentou, e manteve uma coluna de cronicas durante anos no jornal Tribuna da Bahia, porém nos deteremos aqui apenas em sua trajetória de poeta.

E por favor, neste escrito, não me cobrem rigor. Não o leiam como um ensaio, uma reportagem, e sim, apenas como uma lembrança – que estou a compartilhar – escrita às pressas, de um aprendiz de poesia frente a um mestre da palavra.

Ildásio publicou seu primeiro livro de poesia, Somente um Canto, em 1968, e continuou publicando livros de poesia, contos, romance, teatro, ensaios, crítica, alguns destes, com direito a prêmios e traduções.

Neste livro – Somente um canto – e no livro O canto do homem cotidiano, publicado em 1977 (porém com poemas escritos entre 1964 e 1969) seus poemas caminhavam entre o social e o existencial. Não esqueçamos que nesta epoca o Brasil vivia uma Ditadura Militar iniciada em 1964. É deste último o poema Canto do homem cotidiano, do qual veremos um fragmento.

Eu canto o homem vulgar, desconhecido

Da imprensa, do sucesso, da evidência

O herói da rotina,

O rei de pijama,

O magnata

Do décimo terceiro mês,

O play-boy das mariposas

O imperador da contabilidade.

Esse que passa por mim

Que nunca vi outro assim.

Esse que toma cerveja

E cheira mal quando beija

Esse que nunca é elegante

E fede a desodorante

Esse que compra fiado

E paga sempre atrasado

Esse que joga no bicho

E joga a pule no lixo

Esse que sai no jornal

Por atropelo fatal…

Ildásio após estes livros iniciais, foi cada vez mais se distanciando das questões sociais pontuais, aproximando-se dos temas universais, e aprimorando sua poesia, seja ela em versos livres ou formas fixas, a exemplo dos sonetos, dos quais foi exímio artesão. Entre seus outros livros publicados: Tapete do Tempo (poesia, 1980), Poemas Seletos (1986), Nove sonetos da Inconfidência (1999), O Domador de Mulheres (romance, 2003), O amor é um pássaro selvagem (contos, 2004). Em Portugal foi editado Flores do Caos (sonetos, 2008).

Segundo Simone Lopes, no livro Paixão Premeditada (Imago, Rio de Janeiro 2000): a poesia de IT é dramática e grita – desabrida ou veladamente – os infortúnios da existência contemporânea aliando erudição e ousadia. Mais adiante continua: poesia dinâmica que surpreende pela síntese, indo do prosaico ao sofisticado sem perder a pulsação rítmica .

O escritor João Ubaldo Ribeiro disse: seus versos que eu sei e percebo trabalhados minuciosamente, são, não obstante o seu apuro técnico, tão maravilhosamente simples, que parecem, em muitos casos, recolhidos de um cancioneiro popular.

A erudição o refinamento, o rigor em Ildásio não era exibicionismo e sim um preciosismo natural como o brilho esplendoroso de uma pérola na escuridão profunda de um lodaçal. Escreveu baladas, odes, os famosos e temidos epigramas, letras de canções, literatura de cordel, porém sua predileção era pelos sonetos perfeitamente metrificados, que todavia não impediam a troça, o humor, a iconoclastia, Creio que um bom exemplo seja…

SONETOS DA POSSE – I

Jamais amei uma mulher. todas amei

Em uma só; em um só corpo; um só poema.

Paracatá, paracatá, cansou-se o tema,

E este verso francês que já mudei.



E mudo mais. Desde que armar eu sei

Que a poesia pra mim não cria problema

Na verdade, prefiro um bom cinema –

Só um louco armará como eu armei.



Saio admirando o verso do italiano

Para o estilo ficar menos azedo,

Pois toda arma u dia vira o cano.



E o verso entorta. O tema pouco importa –

Mais vale um pássaro a voar que o dedo.

Viva Quevedo: Andrada, abre essa porta!



Como compositor, teve 46 músicas gravadas por Vinícius de Moraes, Maria Bethânia, Alcione, Toquinho, Nelson Gonçalves e Maria Creuza. Entre os seus parceiros estão Baden Powell, Vevé Calasans, Gerônimo e Carlinhos Cor das Águas.



A cultura de matriz africana foi objeto de estudo e fez parte da vida de Ildásio que escreveu os livros Nossos colonizadores africanos, (1995), Candomblés na Bahia (2000). Foi Ogá de Oxum e Obá Aré da Casa de Xangô, do Axé Opó Afonjá, e autor da ópera afro-brasileira “Lídia de Oxum”, com música de Lindembergue Cardoso, regida por Júlio Medaglia, e encenada no Teatro Castro Alves e depois com modificações, levada às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, para um público de cerca de 30 mil espectadores. Tive o prazer de assistir a ambas.



Porém como ele mesmo em vários momentos declarou: em tudo que fazia o que prevalecia era a poesia. O poeta era maior que o ensaíasta, o romancista, o dramaturgo, o encenador.

Escrevi no início que Ildásio Tavares era um documento da cultura baiana e sua obra, um monumento. Alguns podem perguntar: um monumento? Sim, um monumento. Tanto quando Jorge Amado, Dorival Caymmi, eu vejo Ildásio à mesma altura só que de forma subterrânea, difundindo a cultura baiana através dos seus livros – romance, contos, poesia, ensaio – mas também através dos seus ensinamentos e da obra dos seus alunos, dos seus colegas compositores como os já citados Vevé Calasans e Gerônimo.

A obra de Ildásio é vasta e reflete a diversidade étnico-cultural da nossa Bahia – vai do popular ao erudito, do chulo ao refinado, transita pela África e Europa, é tradição e transgressão. É um vasto mundo que precisará de tempo para desbravar.

O leitor já teve ter percebido o caráter apologético do meu escrito e pode questionar. Só tem coisas boas neste tal de Ildásio? Outros dirão; Ah! Mas ele era inconveniente, agressivo, mal educado com as pessoas… desrespeitava os colegas de profisão com seus epigramas.

Entrevistado pela revista Metropóle, acerca da repercussão dos seus epigramas, respondeu que preferia perder um amigo do que deixar de produzir um artefato literário. Não esqueçamos que o epigrama faz parte da literatura, também é tradição.

Sim, Ildásio também era odiado, tanto que ao seu enterro não compareceram a grande maioria dos seus colegas de profissão e geração, salvo raríssimas exceções como o escritor Joaci Góes e a poeta Myriam Fraga, todavia o Cemitério do Campo Santo ficou lotado com músicos, compositores, cineastas, o povo do candomblé, além dos amigos e dos parentes – e rolou música e poesia.

Conversando ao telefone com o poeta Adelmo Oliveira, este declarou: Ildásio era uma grande figura humana, certo que era difícil a convivência, pelo seu temperamento bipolar, porém temos em algum momento de respeitar a loucura das pessoas, ter a humildade de reconhecer o grande poeta e crítico literário que era. Por estarmos próximos só reconhecemos os defeitos.

Sim, Ildásio era mau, agressivo, desrespeitoso, inconveniente, agressivo, mal educado, porém acredito esta faceta ser uma máscara. Creio ter ele confeccionado uma capa para camuflar seu outro lado: o dócil, o amável, o generoso. Sim… Ildásio era dócil, amável, generoso… afinal mais do que um professor, Ildásio foi um educador, e um educador...

Quantos jovens passaram “uma tarde em Itapoan” na casa de Ildásio aprendendo a escandir um verso. Com a palavra, os poetas Gustavo Felicíssimo e José Inácio Vieira de Melo, este último, autor de um dos livros – Roseiral – que mais me tocaram recentemente e que Ildásio, com certeza, aplaudiria.

Ildásio com sua generosidade, abrigou Antonio Carlos e Maria Creuza em seu apartamento e os apresentou a outro músico, estimulando a criação de uma das duplas mais importantes da MPB; Antonio Carlos e Jocafi.

Ainda ao telefone com Adelmo, este declarou Ildásio ter contribuído para a publicação de livros de diversos poetas, a exemplo dele próprio com seu livro Canto Mínimo que Ildásio publicou pela Editora Imago juntamente com diversos outros autores baianos – poetas e prosadores. O seu CD, Canto de Magia, Ildásio incorporou o projeto e arregimentou intérpretes como Margareth Castanheiro. O poeta arremata: ainda há de ser reconhecido o trabalho de Ildásio, a sua importância como intelectual, Só o tempo vai dizer.

E o bardo era um paizão – tinha três filhos e três filhas – preocupado em fazer o melhor. Que o diga seu filho Ildázio Jr. que em seu blog agradeceu o pai ter estimulado a leitura e o aprendizado da língua inglesa, tão importante em sua vida profissional de produtor cultural.

Que o diga seu filho Gil Vicente Tavares, hoje ocupando alguns espaços como dramaturgo e diretor graças aos ensinamentos do pai que o estimulou até pelo nome que o deu.

Que o diga a sua filha Jéssica, que mesmo só a conhecendo quando já adolescente, a assumiu, deu-lhe teto e abriu-lhe todas as portas possíveis …

Ildásio, já com cabelos ralos e barriga destruidora de cintos, contnuou jovem e rebelde qual um Rimbaud capoeirista sempre à procura de alguém para dar uma rasteira ou uma cusparada... porém já não tenho mais tempo nem inspiração para continuar.

Ildásio nos deixou no dia 31 de Outubro de 2010, aos 70 anos, por conta de um quadro grave de Acidente Vascular Cerebral, que resultou em uma falência múltiplas de órgãos. Seu médico e amigo Dr. Heraldo Moura Costa, declarou ele ter dado entrada no Hospital Jorge Valente na terça-feira dia 26 de outubro, já com um quadro grave.

Ildásio nos deixou… mas ficou… com seus livros de poemas, suas canções, seus ensinamentos… e filosoficamente em um perfeito soneto que dizia…


Quando eu morrer e reverter ao chão,
não profiram discursos nem louvores
se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.

Não quero missa, prece ou oração;
nem sufoquem meu corpo sobre flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.

Recitem versos, cantem melodia
não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro em mim qual caracol

Terei mais luz no derradeiro dia,
um cruel esplendor na despedida
poesia enchendo o túmulo de sol.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

POEMA DE LORAND GASPAR EM TRADUÇÃO DE PABLO SIMPSON

(Arpád Szénes)






LORAND GASPAR nasceu em Târgu Mureş, na Transilvânia, em 1925. Deportado após a Segunda Guerra e refugiado na França, fez estudos de Medicina, vivendo posteriormente em Jerusalem e na Tunísia. Tradutor para o francês de Rainer Maria Rilke, Giórgos Seferis, D. H. Lawrence, dentre outros, publicou livros de poemas como Sol absolu (Gallimard, 1972), Corps corrosifs (Fata Morgana, 1978) e Patmos (Gallimard, 2001), que reúne outras publicações, dentre elas do livro Sefar, de 1983, cuja edição se acompanhou de águas-fortes de Arpád Szénes, pintor húngaro que, com a esposa portuguesa, a também pintora, Maria Helena Vieira da Silva, viveram no Brasil nos anos 1940. Da série Sefar, composta de sete poemas sem título, que Gaspard nos contextualiza, “um dos planaltos, no Saara Central, da civilização dita bovídea”, em breve introdução, dois foram traduzidos aqui.



SEFAR

O maciço do Sefar é um dos planaltos, no Saara Central, da civilização dita bovídea. Os caçadores-criadores-pastores que viviam nesses lugares – hoje desertos – cercados de paisagens verdejantes e de riachos são os autores das admiráveis pinturas rupestres do Tassili.


ocres suspensos na bruma
da manhã e o sol brilha
já sobre a lira dos chifres
faz veludosa a pele escura
das mulheres de seios pontudos —


um homem sorri às figuras
desabrochadas na ponta dos dedos —
de todo o mover de seu corpo
é ele a dança dos arqueiros
e seus olhos acariciam precisos
a linha estendida dos membros
ele sente a doçura de um focinho
seu hálito úmido no ombro
um pé revela no côncavo
as pétalas de um dia precoce —