domingo, 30 de outubro de 2011

CARLOS TRIGUEIRO (LEITURAS)








Devemos acreditar na ficção brasileira?

Ser evolvido por uma narrativa tanto em uma perspectiva temática como lingüística, requer de uma obra literária o auspício de seu autor como um autêntico mestre do gênero. É o que sentimos ao entrarmos em contato com a obra, seja os contos, ou o romance, do escritor Carlos Trigueiro. O leitor é tomado pela narrativa. Envolvido por uma linguagem clara, sensível porque poética, de grande poder de síntese em muitos momentos, mas, sobretudo repleta de profunda elegância. Ler Carlos Trigueiro é atravessar temáticas sérias, densas, recorrentes ao cotidiano, mas que se tornam leves devido ao domínio da ironia, do sarcasmo e do humor e da fantasia. Traços de sua escrita, e que revelam um escritor analítico, porque observador da realidade. A ficção brasileira mostra todo seu vigor no livro de contos Confissões de um Anjo de guarda, e no romance Libido aos pedaços. Assim, Carlos Trigueiro se revela como a resposta positiva a nossa indagação.



Hilton Valeriano

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

YVES BONNEFOY: POEMA

(Nicoletta Tomas)




A ESPUMA, O ARRECIFE



Solidão a não escalar, quantos caminhos!
Vestes vermelhas, horas tantas sob as árvores!
Adeus, nesta alva fria, minha água pura,
Adeus, mesmo apesar do grito, o ombro, o sono.
Escuta, nunca mais as mãos que se retomam
Como perpetuamente a espuma e o rochedo,
Nem mesmo aqueles olhos que buscam a sombra,
Amando antes o sono ainda partilhado.
Nunca mais se tentar unir voz e oração,
Noite e esperança, anseios do abismo e do porto.
Vê, não é Mozart que luta em tua alma,
Mas o gongo, contra a arma disforme da morte.
Adeus, semblante em maio.
O azul do céu é tíbio neste dia, aqui.
Do astro da indiferença o gládio fere ainda
Uma vez mais a terra do que está dormindo.

CÉSAR LEAL: POEMA

(Ruaz)





Carta aos rinocerontes


Não sei se estou mais presente na Terra
do que estariam uma rosa e uma dália.
Nem um milésimo das coisas que vejo diariamente
está contido em meus poemas...


Sei que o leitor poderá dizer isso agora:
"— Você não é um bom poeta! Castro Alves
é mais participante, mais exato,
transporta o mundo — ou pelo menos sua metade
no Navio Negreiro.


Mas você — que leio agora —
não me acende nenhuma luz,
agarra-se demasiadamente aos anjos,
a uma forma estéril
que não fala ao tempo,
aos pássaros,
e menos ainda ao meu coração".


Ouço-te e repito
que sou apenas pequena parte das coisas
que estão no mundo
com certeza não sou a menor parte
e, por isso, tens que me aceitar
se és um leitor e não apenas um crítico.


Se minha poesia te cansa,
peço-te: come as saladas de Souzândrade; bebe
lentamente as gotas de orvalho que fluem dos Caligramas
de Apollinaire...


Elas satisfarão tua fome e tua sede,
ou terás uma sede e uma fome tão estranhas
que suportarias ainda Maiakovski,


Evtuchenko, Voznessenki, Pound
e toda a galeria dos participantes
que ficam à tua direita e à tua esquerda?


Quanto a mim, pouco te posso oferecer:
não escrevo para los muchos
arranco de mi corazón el capitán del inferno,
establezco cláusulas indefinidamente tristes


Esgotados os estábulos aonde os teus donos
guardaram para ti alimentos tão nobres,
ainda restariam os membros do Clube dos Ultraistas,
Tzara e todos os que, à semelhança dos empregados domésticos
sopram trombetas das 6 às 6,
repetindo eternamente a contínua canção:
"somos os que andam na vanguarda do Tempo".


Quanto a mim continuarei sozinho,
solitário como um estranho rio
de um território ainda não visitado pelos geógrafos,
abrindo sem descanso a minha estrada
certo de que alguém um dia
— anjo ou demônio —
caminhará por ela até a porta do meu nome.

ILDÁSIO TAVARES: POEMA

(Gabriel Ferreira)




Balada da Babilônia



Eu não quero esta mulher

que me fascina na tela,

cheia de luzes e cores,

encaixotada no vídeo

como ração refulgente

pra se comer com os olhos

que faz de mim mariposa

querendo que eu queime as asas

na luz da televisão.



Eu não quero essa mulher

que se entrega nua em pêlo

nas páginas das revistas

na distância do papel

e quer o meu onanismo;

e quer dinheiro por nada

com seu corpo de escultura

de mármore feito carne,

seu sexo milionário.



Eu quero aquela menina

lá no alto do sobrado

com as pernas grossas ocultas

pela grade da sacada

que me sorri quando eu passo,

sorrindo as vagas promessas

dos sorrisos das mulheres,

todo encanto que entreteço

na minha imaginação.



Eu quero aquela menina

que trabalha no escritório

e que, quando cruza as pernas,

todo mundo fica louco –

com o decote generoso,

mostrando as marcas das alças

do biquíni no seu colo,

apontando para os seios

palpitantes, quase à mostra.



Eu quero aquela menina,

caixa do supermercado

que troca olhares furtivos

enquanto registra as compras,

com sua farda que cuida,

lava e passa todo dia

para estar no seu trabalho

com a elegância do pobre.



Eu quero aquela

menina

que é balconista no shopping

e que apesar das varizes

fica em pé o dia

todo,

atendendo com um sorriso

os clientes oportunos:

que sai só, tarde da noite,

sem perder a sua pose

no sacolejo do ônibus.



Eu quero aquela menina

colega de faculdade

que me dá cola no exame

e nem sequer é bonita

(mas empresta o apontamento),

com quem estudo pra prova,

colando coxa com coxa

imaginando loucuras,

sem coragem para falar.



Não. Não quero essa mulher

que está em oferta na praça.

Eu quero mulher de graça.

Eu quero poder sonhar.

Tanta beleza me oprime,

tanta sensualidade

tanta perícia na cama.

Sou amador. Quero amor.

E não profissionalismo.



Os meus olhos são meus olhos.

Minha cama é minha cama.

Não sou rei pra ter rainha –

a mulher que fosse minha

nem minha tinha de ser.

Tinha que ser dela mesma

e ser o seu sentimento;

e ter em seu pensamento

querer ser minha mulher.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

EPIGRAMA

(Gabriel Ferreira)






EPIGRAMA (8)



Sob sol ou chuva,


vive seu caminho


todo aquele que se sabe sozinho.

FLORISVALDO MATTOS: POEMA

(Jean François Millet)



Campesino


Como folhas caindo num deserto,
humanas resistências vão caindo
sobre campo sem sol. Peito coberto
de um só grito esperança vai cobrindo.

Rude labor de enxadas consumindo
sangue que dá de sangue um sonho certo,
esperanças do amanho já sumindo
na sede de esperança que está perto.

Amargas deslembranças param, vendo
no íntimo do espetáculo chuvoso
a aparecido desaparecendo.

Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus,
já baixam sobre o campo generoso,
as águas da manhã movendo rumos.

AFORISMO




232


As primeiras palavras de um homem deveriam levá-lo a um ato de confissão.

domingo, 23 de outubro de 2011

AFORISMO

(Felipe Stefani)







233


Se tivesse que definir o homem, o definiria como um animal dúbio, cuja principal característica consiste na oscilação permanente entre a mentira manifesta de seus atos, e a verdade latente de seus desejos.

sábado, 22 de outubro de 2011

FLORISVALDO MATTOS: POEMA

(Bouguereau)





Passos e acenos


Nada tens de ave. Fera lúcida, olho
felino (pantera de Rilke entre grades)
nunca indefesa, à espreita. Além dos olhos,
bebo teu corpo, teu cabelo (franja
dos dias) — o mais dardeja. Também és
elástica e macia: braços, pernas
de roliça cogitação. Vais, vens.
De pé, agitas os vaporosos membros,
ao calor da voz que atordoa o vento.
Sentada, as formas se acomodam, urdem
rútilo desenho. É quando, pasmo, ouço
o marulho do sexo, ávido. Bem
que mereço essa onda, ronda de garras
que me acenam, me buscam pela tarde.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO: POEMA

(Ismael Nery)





SENTIDO


Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar — sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.