sexta-feira, 30 de setembro de 2011

FELIPE STEFANI (LEITURAS)

























Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências, quando um ser se define em sua essência? Antes do fato, o sonho, antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade. Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Traços assimétricos, onde início e fim confluem para o desfecho (inconcluso?) de uma obra expressa em formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio; subjetividade que busca o instante nascedouro. A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes:


O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”



Hilton Valeriano

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

DOIS POEMAS DE DAVI ARAÚJO



(Livro Ruído)




ontologia fonética

encontrei uma língua de quimera a soar insabida ao ser que se era
para que todos os sentidos se iluminassem em todos os sentidos
a acordar para o grande sonho de inaudito inominável que espera
quando e onde o próprio ser é poesia a reler versos jamais lidos


alter et idem

eis que a ave volátil declama o peixe solúvel
e de repente a geografia de uma rasura
conta a história d’alguma literatura
e são os ininteligentes elegíveis
na universalidade intraduzível
ismismos mesmo preferíveis
à grande banalidade indigerível
que a biblioteca me preserva a ignorância
porque o pior labirinto é uma linha reta
se nas leituras solitárias desde a infância
tornar-me um outro e o mesmo é a meta
contemplo o duplo na reflexão volúvel
altero-me só um pouco e no reflexo
outro é um eu de mim desconexo

domingo, 25 de setembro de 2011

LEITURAS (RUAZ)



















Em toda arte autêntica, a realidade não deve ser mostrada, e sim transfigurada em sua representação. Poderíamos dizer que o mundo do artista deve ser manifesto, e a possibilidade de desvelamento desse mundo encontra-se na representação de sua subjetividade, fonte inesgotável de criação. Mas não podemos esquecer o centro de referência dessa subjetividade, que paradoxalmente deve ser a realidade, mas transfigurada, e por isso, compreendida como arte. No livro O discípulo de Emaús, o poeta Murilo Mendes diz:



A realidade deve ser pouco a pouco domada, até ser captada pelo lirismo – para que se opere sua transformação, e elevação ao plano do espírito. Assim se forma a criação artística.”



Podemos encontrar a ressonância das palavras do grande poeta mineiro nos desenhos de Rui Cavaleiro Azevedo, o Ruaz. Sua obra compõe o exemplo de uma arte autêntica em seus princípios. Traços de uma figuração expressionista, cuja representação artística revela uma imagética dos sentimentos. Somos convidados, como expectadores, a integrar suas cenas, pelo núcleo humano que as alimenta, ou seja, a subjetividade de seu criador; transfiguração de uma vivência poética do mundo circundante e suas significações. Cito novamente Murilo Mendes:



O homem terá que fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento.”



E concluo:



Ruaz: apreensão do mundo em sentimentos vividos.



Hilton Valeriano

GALERIA RUAZ II



























sábado, 24 de setembro de 2011

SÔNIA BRANDÃO: POEMAS

(Ismael Nery)





LABIRINTO

A noite é um labirinto de pedras.
As palavras se quebram em minha boca.
Um grito, dentro do peito.

Recolho-me no umbigo da dor
mastigando o pão da morte.



SONHO

Sonharemos no sono da morte?


ENIGMA

Difícil é aprender o silêncio da pedra.


CASA VELHA


Quantas coisas viram tuas janelas
e os olhos que nelas se debruçavam.
Olhos que viam o dia nascendo e a névoa
como uma coberta sobre a serra,
viam as flores dançando lá fora,
viam a noite, a lua convidando a amar.

Esses olhos e tuas janelas
se fecharam para sempre.

Hoje, apenas os fantasmas te habitam.


APRENDIZADO


Não te espante o meu silêncio:
estou aprendendo a morrer.


PRECE

Devolva-me, Senhor, as palavras.
Talvez eu as compreenda e me salve.

LEITURAS (W.J.SOLHA)








O Regional e o Universal: como transpor suas fronteiras no plano da escrita literária? Expressar a confluência de estéticas diversas que afloram de forma singular, mas que simultaneamente refletem a universalidade da cultura em sua dimensão simbólica, ou seja, a excelência do humano em sua busca de sentido? W. J. Solha, artista múltiplo, ensaísta, poeta, pintor, romancista, traz em seu Relato de Prócula o peso dessas indagações. Narrativa intertextual, que na figura de seu personagem central, o padre Martinho Lutero Libório, expõe de forma instigante as grandes questões concernentes à história do Cristo, sua significação religiosa supostamente oculta por tramas políticas decorrentes do jogo pelo poder, e ao mesmo tempo, revela a cultura rica do sertão da Paraíba, sua relação com as artes, cinema, poesia, filosofia, pintura, romance... Um dos momentos mais expressivos do livro, que revela a importância da cultura como estigma do humano, é a descrição da personagem Corrinha, uma poeta, da biblioteca do padre Martinho. Verdadeira simbiose do gênero humano, universo irradiador de significação, talvez, um dos principais traços do grande Nordeste, o que faz de Relato de Prócula um livro regional e universal por sua temática, e também erudito pela confluência de nomes expressivos da literatura e arte que sustentam os diálogos e questionamentos dos personagens, reflexo de um grande escritor.


Hilton Valeriano

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ANTÓNIO RAMOS ROSA: POEMA







Teu corpo principia

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

domingo, 18 de setembro de 2011

LEITURAS (SILVÉRIO DUQUE)








UM POETA DEFINITIVO




Pode a poesia expressar a busca permanente do homem pelo belo, pelo eterno, pelo sublime estigma do Ser entre a transitoriedade constitutiva de todas as coisas? Há poetas que cantam ruínas cotidianas. Há poetas que cantam o derradeiro sonho primevo, anterior a Queda, grande narrativa simbólica das ações humanas e seus anseios pela perfeição, pela unidade, arquetípico platônico, Éden Bíblico. Assim é Silvério Duque, um poeta definitivo. Seu livro, A pele de Esaú, manifesta em forma e conteúdo, uma lírica existencial, metafísica, como grandes são os poetas desse gênero, Jorge de Lima, Rilke, T.S. Eliot, para citar alguns. Verdadeira katharsis aristotélica, que busca no precário horizonte da vida, o desvelamento do eterno, a justificação de todo itinerário outorgado ao homem como seu destino:



Hoje, é chegado o tempo dos retornos/e toda forma espera o seu ofício/como o vaso existente em todo barro.



Purificação de uma busca que se inicia pelo Amor:



- Teu corpo me é louvor e desengano/e eu sou como que um sopro em teus anseios/,



e prossegue pela arte:



Toda palavra se renova em seu ofício,/todo verso vasculha venhas cinzas/,



porque a criação do poeta compartilha o gesto do Criador:



É preciso criar quando se crê,/é necessária a fé antes do fim,/rogar por quem (na fé) perdeu seu Deus.../Neste poema há mais que a minha vida.



Se pertence à essência humana buscar a eternidade, essa busca realiza-se na temporalidade de nosso exílio: Somos a nossa ação por sobre o tempo, diz o poeta em seu verso. E assim, Silvério Duque exerce seu ofício de porta-voz do Eterno pela arte que pratica como exímio escritor.




Hilton Valeriano

AFORISMO







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Somos culpados pela negligência de nossos sentimentos: amamos e odiamos.