quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ANTÓNIO RAMOS ROSA: POEMA







Teu corpo principia

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

domingo, 18 de setembro de 2011

LEITURAS (SILVÉRIO DUQUE)








UM POETA DEFINITIVO




Pode a poesia expressar a busca permanente do homem pelo belo, pelo eterno, pelo sublime estigma do Ser entre a transitoriedade constitutiva de todas as coisas? Há poetas que cantam ruínas cotidianas. Há poetas que cantam o derradeiro sonho primevo, anterior a Queda, grande narrativa simbólica das ações humanas e seus anseios pela perfeição, pela unidade, arquetípico platônico, Éden Bíblico. Assim é Silvério Duque, um poeta definitivo. Seu livro, A pele de Esaú, manifesta em forma e conteúdo, uma lírica existencial, metafísica, como grandes são os poetas desse gênero, Jorge de Lima, Rilke, T.S. Eliot, para citar alguns. Verdadeira katharsis aristotélica, que busca no precário horizonte da vida, o desvelamento do eterno, a justificação de todo itinerário outorgado ao homem como seu destino:



Hoje, é chegado o tempo dos retornos/e toda forma espera o seu ofício/como o vaso existente em todo barro.



Purificação de uma busca que se inicia pelo Amor:



- Teu corpo me é louvor e desengano/e eu sou como que um sopro em teus anseios/,



e prossegue pela arte:



Toda palavra se renova em seu ofício,/todo verso vasculha venhas cinzas/,



porque a criação do poeta compartilha o gesto do Criador:



É preciso criar quando se crê,/é necessária a fé antes do fim,/rogar por quem (na fé) perdeu seu Deus.../Neste poema há mais que a minha vida.



Se pertence à essência humana buscar a eternidade, essa busca realiza-se na temporalidade de nosso exílio: Somos a nossa ação por sobre o tempo, diz o poeta em seu verso. E assim, Silvério Duque exerce seu ofício de porta-voz do Eterno pela arte que pratica como exímio escritor.




Hilton Valeriano

AFORISMO







230


Somos culpados pela negligência de nossos sentimentos: amamos e odiamos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

REFLEXÃO II








UM FATO SUPORTÁVEL?



A vida é uma constante e prepotente afirmação sobre o nada. Não penso que podemos ser identificados com esse “nada”. Apenas que, a consciência de nossa finitude pode revelar-nos toda precariedade característica de nossas vidas. Mas todo passo existencial constitui-se como significação. O amor, o ódio, a alegria, o sofrimento: marcas de uma existência flagelada pelo apego cego, mas significativo, à vida. A questão crucial talvez consista na possibilidade ou não de suportarmos esse fato. Penso nas palavras do filósofo Léon Bloy: “A dor é uma graça que não merecemos”.





Hilton Valeriano

REFLEXÃO

(Caravaggio)







O PROBLEMA DA MORTE


Talvez o problema da morte seja para o homem o fruto de uma falsa perspectiva, o que faz desse fenômeno um dos grandes sofismas de sua existência. O único e verdadeiro problema talvez consista na própria vida. O que devemos fazer da vida que temos por viver? Poucos possuem a percepção da diferença entre existir e viver. Uma mesa, um copo, uma arma existem. O homem existe, e a partir de sua existência manifesta-se a possibilidade de viver, ou seja, a vida não é uma conseqüência direta da existência. Há um interstício entre essas duas dimensões: existir e viver. Abismo intercalado entre uma ‘coisa’ e o que denominamos ‘ vida’.





Hilton Valeriano

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

AFORISMO

(Jean Delville)





229


O ridículo em ser um homem, é o fato de não se poder prescindir da sociedade sem os estigmas da complacência alheia.

SOARES FEITOSA: POEMA

(Jean Delville)






Dedicatória


O ar, amor –
este ar que eu te respiro.


Fortaleza, 30.10.2006, tarde em sol

SOARES FEITOSA: POEMA


(Jean Delville)




Architectura


Um dia, Ela
desenhará em chãos longínquos a casa só nossa,
que eu farei com estas mãos.


Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

Às telhas –
hei de aprontar o barro mais macio,
e as formas serão por mim,
uma a uma, completadas;


Ela as alisará longamente –
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.



Fortaleza, manhã de 19.11.1998

SOARES FEITOSA: POEMA






Strip tease



Jamais eu ficaria quieto
sob o teu olhar;
que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos.



Porque sobre mim
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.


Salvador, madrugada alta, 5.12.1996

GALERIA JAZZ

(Branford Marsalis)