domingo, 28 de agosto de 2011

TRÊS EPIGRAMAS

(Antonio Canova)






Para minha amada Marta


EPIGRAMA

Para todas as horas possíveis o amor.
Assim o ciclo remissivo das estações
traz à primavera a esperança em flor.



EPIGRAMA (2)

Preciso é o tempo a recobrar sua lição.
Assim a complacência dos gestos e sua missiva.
Circunscrito no horizonte da palavra
o amor é mais que uma definição.


EPIGRAMA (3)

Assim principia o amor:
Inelutável como a aurora,
a luz do Criador.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ROMMEL WERNECK: POEMA

(Munch)






FRACOS E FINOS


Estes teus braços tão fracos e finos,
Tão leves, tão sublimes, tão perfeitos!
Seres mortos, terríveis, cristalinos,
Tão calmos, tão serenos e desfeitos...

Estes teus braços tão finos e fracos,
Tão tristes, tão funéreos, tão cansados!
Corpos cândidos, mil vezes opacos,
Tão rudes, tão simplórios, tão malvados...

Tão temerosos são esses destinos,
Tão belos, tão mortais, fracos e finos,
Tão tão pálidos, tão livres, tão frios...

Tão magros, tão vazios, tão sombrios,
Tão feios, tão fatais, tão macilentos,
Que me excitam em todos os momentos!

domingo, 21 de agosto de 2011

GUILHERME DE ALMEIDA: POEMA






Esta vida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.


Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida


Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.


Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!


Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

AUGUSTO FREDERICO SCHIMIDT: POEMA







Retrato do Desconhecido



Ele tinha uns ombros estreitos, e a sua voz era tímida,
Voz de um homem perdido no mundo,
Voz de quem foi abandonado pelas esperanças,
Voz que não manda nunca,
Voz que não pergunta,
Voz que não chama,
Voz de obediência e de resposta,
Voz de queixa, nascida das amarguras íntimas,
Dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas.

Há vozes que aclaram o ser,
Macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio,
Vozes de sonho, de maldição e de doçura.
Os ombros eram estreitos,
Ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do
amor inconfundível,

Ombros de quem não sabe caminhar,
Ombros de quem não desdenha nem luta,
Ombros de pobre, de quem se esconde,
Ombros tristes como os cabelos de uma criança morta,
Ombros sem sol, sem força, ombros tímidos,
De quem teme a estrada e o destino
De quem não triunfará na luta inútil do mundo:
Ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão,
Ombros de quem é sempre um Desconhecido,
De quem não tem casa, nem Natal, nem festas;
Ombros de reza de condenado,
E de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas;
Ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas.

Os seus pés e as suas mãos acompanhavam os ombros
num mesmo ritmo.
Mãos sem luz, mãos que levam à boca o alimento
sem substância,
Mãos acostumadas aos trabalhos indolentes,
Mãos sem alegria e sem o martírio do trabalho.
Mãos que nunca afagaram uma criança,
Mãos que nunca semearam,
Mãos que não colheram uma flor.
Os pés, iguais às mãos
— Pés sem energia e sem direção,
Pés de indeciso, pés que procuram as sombras e o esquecimento,
Pés que não brincaram, pés que não correram.

No entanto os olhos eram olhos diferentes.
Não direi, não terei a delicadeza precisa na expressão
para traduzir o seu olhar.
Não saberei dizer da doçura e da infância daqueles olhos,
Em que havia hinos matinais e uma inocência, uma tranqüilidade,
um repouso de mãos maternas.

Não poderei descrever aquele olhar,
Em que a Poesia estava dormindo,
Em que a inocência se confundia com a santidade.
Não poderei dizer a música daquele olhar que me surpreendeu um dia,

Que se abriram diante de mim como um abrigo,
E que me trouxe de repente os dias mortos,
Em que me descobri como outrora,
Livre e limpo, como no princípio do mundo,
Envolvido na suavidade dos primeiros balanços,
Sentindo o perfume e o canto das horas primeiras!
Não direi do seu olhar!

Não direi do seu olhar!
Não direi da sua expressão de repouso!
Ainda não sei se era dele esse olhar,
Ou se nasceu de mim mesmo, num rápido instante de paz
e de libertação!

sábado, 30 de julho de 2011

DANTE MILANO: POEMAS






ESCULTURA

A forma da fêmea integrou-se no corpo do macho,
Ambos uma só pedra
Onde ressaltam, invisíveis, separando-os
As duas almas supérfluas.


CENÁRIO

Tudo é só, a montanha é só, o mar é só,
A lua ainda é mais só.
Se encontrares alguém
Ele está só também.

Que fazes a estas horas nesta rua?
Que solidão é a tua
Que te faz procurar
O cenário maior,
O de uma solidão maior que a tua?


MÁSCARA

Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.

Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.

Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.


MÚSICA SURDA

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

JORGE ELIAS NETO: POEMAS

(Arthur Fischer)





Sobre anjos e blasfêmias


Existe uma parte que se quebra.
E sem ela,
receia-se
pelo fim do todo.
(Dizem-no: extinto.)
Reluzem desejos na convexidade
da grande esfera.
Por isso videntes
não a deixam tocar.
E a iluminam com a castidade
de seus olhos puros e atentos.
Deixam cair sobre ela
o que há de imaterial
nos anjos e estrelas.
(A ausência de peso não trinca
— não lasca — não faz perecer
a perfeição do que se enseja)
Só que um toque atrevido,
o quão delicado seja,
faz desabar o enigma
(Chamam a isso: pecado)



Portal dos anjos


Anjos...
Dou-lhes de presente
minha sanidade.
Sei o que me custará
rolar a cabeça no acaso ...

Anjos de poeta não implodem,
esvaem-se da cabeceira
da cama do menino.
Retornam para a dimensão do sonho
que se teve
e se dispersou com a razão.

Anjos ...
Retribuo com o poema a vigília
e peço que devolvam a Paulo
o Patibulum e a culpa.



Da construção de cidades e sentenças


Gélidos desfiladeiros
ladeando avenidas...
Estruturas metálicas — andaimes —
espinha dorsal de enormes geleiras
que sentenciam à morte
os que ignoram a cronologia
do desespero.

domingo, 24 de julho de 2011

AUGUSTO FREDERICO SCHIMIDT: POEMAS






COMPREENSÃO

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que se conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das águas lúcidas.
Eu te direi a minha compreensão do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada,
E sentirei que te libertei da solidão
Porque desci ao teu ser múltiplo e sensível.
Quero descer até as tuas regiões mais desconhecidas
Porque és minha Pátria,
As tuas paisagens são as da minha saudade.
Quero descer ao teu coração como se descesse ao mar,
Quero chegar à tua verdade que está sobre as águas.
Quero olhar o teu pensamento que está sobre as águas
E é azul
Como este céu cortado pelas aves,
Como este céu limpo e mais fundo que o mar.
As tuas manhãs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de róseo como nuvens frágeis
[ tangidas pelos ventos.
Quero assistir à tua noite e ao sacrifício dos teus martírios
Oh!, estrela, oh! música,
Oh! tempo, espaço meu!



OUÇO UMA FONTE

Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!

sábado, 23 de julho de 2011

POEMA






SOBRE OS ESTIGMAS DE JÓ


A dor é uma graça que não merecemos
Léon Bloy


Reles tua verdade, o sentimento da dor.
Olvidado teu destino, teu ser,
malogro e esperança e dissabor.
Sob dilacerações e equívocos
constituístes a flora de tuas quimeras,

– Pútrido jardim de sementes malsãs.

No clamor de tuas mãos,
a glória, sórdido pesar
ante a insubmissão.
Reles é teu pranto,
reles tuas chagas,

– Universo silente de desolação.

Caminhas, e entre teus passos edificas
o luto recalcitrante dos exilados.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

GUILHERME DE ALMEIDA: POEMAS







Nós


Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.


Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa,


Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!


- É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.




Nós


Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,


e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"


E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...


E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MARQUÊS DE MARICÁ: MÁXIMAS VI






987- Os povos, como as pessoas, não padecem por inocentes.


991- A ignorância tem seus bens privativos, como a sabedoria seus males peculiares.


994- A inveja de muitos anuncia o merecimento de alguns.


1250- Tempos há em que é menos perigoso mentir que dizer verdades.


1337- Não há beleza material que não expresse uma idéia, pensamento ou sentimento moral.


1343- Nenhum senhorio é tão absoluto como o que conferem os povos aos tiranos de sua escolha.


1368- O futuro é um teatro em que a imaginação humana faz executar os dramas de sua invenção.


1486- Calamitosos são os tempos em que a insignificância alcança preponderância!


1816- O problema da vida, a morte resolve em pó.


1840- A mentira infelizmente é mais social do que a verdade: a civilidade a enobrece e recomenda.


1844- Os homens suprem com fábulas as verdades que não podem alcançar.


1875- Ousar — em inumeráveis casos é alcançar.