sexta-feira, 30 de julho de 2010

ROMMEL WERNECK: SONETOS GÓTICOS IV


ANTES, AGORA E SEMPRE

Quaresmeira de meu triste jardim,
Fincaste em mim inúmeras raízes,
Mas deixaste também mil cicatrizes,
Rugas que jamais, nunca terão fim.

Tronco magro que muito me fascina,
Tornando a vida suja e macilenta,
Somente a tua seiva me sustenta!
Somente tu és pulcra e grã-divina...

Antes, agora e sempre, só chorando...
Antes num quarto pálido e sem luz...
Agora acorrentado numa cruz...

Sempre e sempre, estará a boca sedenta
Gemendo unicamente um grito brando:
Somente a tua seiva me sustenta!


MEU PASSADO

''Abro a janela, quanta luz...'' Rinaldo Gissoni

Algumas vezes, ponho-me à janela
Serenamente, toca-me uma luz...
Algo azul, bom ardor que me seduz!
Verdadeira lembrança meiga e bela.

Vários seres desfilam para mim.
Passam leves, sutis e evanescentes...
Cravos lívidos, mortos, displicentes
Que brotam neste meu triste jardim...

Em ti, janela, quanto medo e horror!
Quanta distância, quanta dor, maldade...
Tu te tornaste a imagem do pavor!

Por isto, quando eu vejo algum ser mágico
Que deveria ser felicidade,
Vejo o como este meu jardim é trágico!


SÓ.

Só! Sem bonança dança, luz, ó luz!
Na solidão perpétua do viver...
Só! Com medo segredo, cruz, ó cruz!
No luto eterno deste alvorecer...

Só! Sem amor calor, alguém, ó alguém!
Na necrópole lúgubre e perdida...
Só! Com sombra que assombra, alguém, ó alguém!
Na floresta sangüenta desta vida...

Só! Chorando exalando negro sangue,
Sangue horrendo, infeliz, morto e ruim,
Morto e ruim querendo amor e dó,

Dó e caritas, amor, tudo tão só.
Só! Sem cor, sem ninguém, sem luz, sem fim!
Afundando-se neste rubro mangue...

ROMMEL WERNECK: SONETOS GÓTICOS III


Ó BELA MORTE

Ó bela morte, minha namorada,
Pra uns tristeza, já pr'outros desejo...
Teu puríssimo, lindo e único beijo,
Retira a dor de um'alma atormentada.

Dispa meu luto, sinta a imaculada
Pele minha e pra mim faz um cortejo!
E então, mata-me como tanto almejo,
Converta meu terrível corpo em nada!

Leva-me para o obscuro, para o Além!
Leva-me para longe deste mundo!
Leva-me para perto de meu Deus!

Beija e morda as carnes e braços meus!
Leva-me deste mar de sangue fundo!
E livra-me de todo o Mal, Amém!


ANJO MORTO

Só e perdido na mais negra necrópole,
Encostado na cruz de um vil sepulcro,
Revelando um sorriso puro e pulcro
No mais distante ponto da metrópole.

Anjo defunto, corpo cadavérico...
Carnes magras, sublime e santo rosto,
Em que o célere tempo deixou posto
Um grito morto, um canto forte e histérico.

Apetecido, surge ele tão vivo,
Pra eu cometer meu próximo delito.
Dragão que se aproxima tão lascivo,

E me deixa perdido em mais conflito,
E crava em mim seus dentes diabólicos,
E vê graça em meus olhos melancólicos!

ROMMEL WERNECK: SONETOS GÓTICOS II




DEMÔNIO ANGELICAL

Ah! Demônio sangrento atormentado!
Por ti, minha vil mente só suspira!
Meu corpo intensamente cai e transpira
Ah! Demônio sangrento atormentado!

Nos negros olhos: cor viva do tédio
As vestes lutuosas, pretas, góticas...
Curvas no corpo tão belas e eróticas...
Nos negros olhos: cor viva do tédio

Mas na boca, há lascívia e até pureza:
Tu me beijas com tanta força e ardor,
E tu me falas coisas sobre o amor...

Com as coisas do amor casto e sublime
Não há nada no mundo que assim rime...
Ah! Lindo anjo repleto de nobreza!


LAVA LASCIVA

Lava lasciva, lúgubre que lava
O fluxo desta vida tão flexível...
Ela, lépida, lânguida e inflexível
Lúbrica, lacrimal, lasciva lava!...

Lava lasciva límpida que leva
Tudo e todos, flui livre e libertina,
Desliza, escorre, desce e se releva!
Fluxuosa letal bela neblina...

Lava lasciva lívida e veloz,
Que transforma, converte este reduto
No céu mais flamejante e mais feroz!

Aos homens e mulheres impõe luto,
A tudo e todos, lança ardor interno...
Lava lasciva, fogo negro e eterno!

ROMMEL WERNECK: SONETOS GÓTICOS


ANJO PÁLIDO

Oh! Lindo anjo deitado sobre a neve,
Como teu corpo fraco e macilento,
E tua boca pura, santa e leve,
Excitam-me causando bom tormento!

Os tons frios da pele pura e pálida...
Os olhos: dois sublimes cemitérios...
A boca, a boca: Arcádia rubra e cálida!
Quero-vos, lábios ígneos, maus e etéreos!

Ó nimbus, ó dragão, ó Nosferatu,
Ó mago, ó lacrimal anjo caído,
Ó humano, ó cavaleiro, ó cândida arte,

Ó Zeus, ó mártir, ó nimbus perdido,
Ó gárgula, ó meu nimbus inexato,
Quero amar- te, beijar-te e exorcismar-te!


LOST PAST

Amo-vos minhas pálidas lembranças,
Banhadas nas cascatas mais oníricas...
Amo-vos pelas vozes belas, líricas...
E por jamais trazerdes esperanças!

Amo-vos meus pecados infinitos,
Máculas de redutos infernais
Que trilham por locais celestiais,
Onde se escutam meus lívidos gritos...

Não há como matar este passado!
Não há como viver este presente!
E o amor? Deixa de lado o que se sente?

Mancha lembrança mácula pecado...
Um futuro que nunca morrerá...
Um passado que nunca chegará...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

ÁLVARES DE AZEVEDO: POEMA

(Caspar David Friedrich)

CREPÚSCULO NAS MONTANHAS

I

Além serpeia o dorso pardacento
Da longa serrania,
Rubro flameia o véu sanguinolento
Da tarde na agonia.

No cinéreo vapor o céu desbota
Num azulado incerto,
No ar se afoga desmaiando a nota
Do sino do deserto...

Vim alentar meu coração saudoso
No vento das campinas,
Enquanto nesse manto lutuoso
Pálida te reclinas

E morre em teu silêncio, ó tarde bela,
Das folhas o rumor...
E late o pardo cão que os passos vela
Do tardio pastor!

II

Pálida estrela! o canto do crepúsculo
Acorda-te no céu:
Ergue-te nua na floresta morta
Do teu doirado véu!

Ergue-te!...eu vim por ti e pela tarde
Pelos campos errar,
Sentir o vento, respirando a vida
E livre suspirar.

É mais puro o perfume das montanhas
Da tarde no cair...
Quando o vento da noite agita as folhas
É doce o teu luzir!

Estrela do pastor, no véu doirado
Acorda-te na serra,
Inda mais bela no azulado fogo
Do céu da minha terra!

III

Estrela d’oiro, no purpúreo leito
Da irmã da noite, branca e peregrina
No firmamento azul derramas dia
Que as almas ilumina!

Abre o seio de pérola, transpira
Esse raio de luz que a mente inflama!
Esse raio de amor que ungiu meus lábios
No meu peito derrama!

IV

Estrelinhas azuis do céu vermelho,
Lágrimas d’oiro sobre o véu da tarde,
Que olhar celeste em pálpebra divina
Vos derramou tremendo?

Quem, à tarde, crisólitas ardentes,
Estrelas brancas, vos sagrou saudosas
Da fronte dela na azulada c’roa
Como auréola viva?

Foram anjos de amor, que vagabundos
Com saudades do céu vagam gemendo
E as lágrimas de fogo dos amores
Sobre as nuvens pranteiam?

Criaturas da sombra e do mistério,
Ou no purpúreo céu doureis a tarde,
Ou pela noite cintileis medrosas,
Estrelas, eu vos amo!

E quando, exausto o coração no peito
Do amor nas ilusões espera e dorme,
Diáfanas vinde-lhes doirar na mente
A sombra da esperança!

Oh! quando o pobre sonhador medita
Do vale fresco no orvalhado leito
Inveja às águias o perdido vôo
Para banhar-se no perfume etéreo...

E, nessa argêntea luz, no mar de amores
Onde entre sonhos e luar divino
A mão do Eterno vos lançou no espaço,
Respirar e viver!

terça-feira, 27 de julho de 2010

JUNQUEIRA FREIRE: SONETO

(Caspar David Friedrich)


Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaciável;
Destile seu veneno detestável
A vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome não preciso;
Sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
De uns lábios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens são, desprezo e piso.

FAGUNDES VARELA: POEMA


(Caspar David Friedrich)



NÉVOAS


Nas horas tardias que a noite desmaia

Que rolam na praia mil vagas azuis,

E a lua cercada de pálida chama

Nos mares derrama seu pranto de luz,


Eu vi entre os flocos de névoas imensas,

Que em grutas extensas se elevam no ar,

Um corpo de fada — sereno, dormindo,

Tranqüila sorrindo num brando sonhar.


Na forma de neve — puríssima e nua —

Um raio da lua de manso batia,

E assim reclinada no túrbido leito

Seu pálido peito de amores tremia.


Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,

Das verdes, cheirosas roseiras do céu,

Acaso rolaste tão bela dormindo,

E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?


O orvalho das noites congela-te a fronte,

As orlas do monte se escondem nas brumas,

E queda repousas num mar de neblina,

Qual pérola fina no leito de espumas!


Nas nuas espáduas, dos astros dormentes

— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?

E as asas, de prata do gênio das noites

Em tíbios açoites a trança agitar?


Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo

De um férvido beijo gozares em vão!...

Os astros sem alma se cansam de olhar-te,

Nem podem amar-te, nem dizem paixão!


E as auras passavam — e as névoas tremiam

— E os gênios corriam — no espaço a cantar,

Mas ela dormia tão pura e divina

Qual pálida ondina nas águas do mar!


Imagem formosa das nuvens da Ilíria,

— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,

Não ouves ao menos do bardo os clamores,

Envolto em vapores — mais fria que a morte!


Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,

Teu seio molhado de orvalho brilhante,

Eu quero aquecê-los no peito incendido,

— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...


Assim eu clamava tristonho e pendido,

Ouvindo o gemido da onda na praia,

Na hora em que fogem as névoas sombrias

– Nas horas tardias que a noite desmaia.


E as brisas da aurora ligeiras corriam.

No leito batiam da fada divina...

Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,

E a pálida imagem desfez-se em — neblina!

domingo, 25 de julho de 2010

POEMA

(Van Gogh)
PARA A AURORA DAS CALAMIDADES

Sob o desamparo da infâmia corpos destituídos de significação. Jazigo de invioláveis estigmas, deserto de Ezequiel. Em nossas mãos o fel de traições remissíveis. Grande é o amor e sua renúncia. Cáustico estandarte de inermes recusas. Grande é o amor e sua redenção. Híbrido fulgor de sonhos idílicos. Como um olhar que cicatriza recordações. Entoa a lira um cântico contrito. Para a aurora das calamidades.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

GUSTAVO FELICÍSSIMO: POEMA

(Ruaz)



CANTO DE ORFEU

Teu corpo delgado

possui formas feitas

para as minhas mãos.

E por ser assim

o vento traz de longe o teu cheiro,

nas nuvens o teu rosto esculpido.

É sempre assim,

desde que não estamos juntos

meus sentidos saltam

pelas janelas,

antecipam-se à minha chegada.

É sempre assim

e isso não há de mudar,

pois entre um verso e outro,

afazeres e bancos de praça,

brilha no meu horizonte

a estrela da tua imagem.

Há esse brilho

e um campo de orquídeas

que te exaltam

e te observam quando passas,

porque passas tão linda,

tão bela quanto a lua.

Ai, minha amada,

olha bem nos olhos meus,

olha e verás rastros

e riscos de fogo.

Contra a fúria das águas me lancei,

ao inferno mil vezes voltei

sem luz, sem remo ou âncora

por ouvir a voz da fantasia

e a lira que se encantou por tua face.

Toma meu braço

e a majestade do verso,

eis tudo que te ofereço;

restituiremos à serpente o seu veneno

e a magia da poesia aos que não amam.

PEDRO MEXIA: POEMA

(Ruaz)
OS SIGNIFICADOS

Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.