quarta-feira, 23 de junho de 2010

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: O AMOR NATURAL


(Agostino Carracci)


A CASTIDADE COM QUE ABRIA AS COXAS

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de poço feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.


terça-feira, 22 de junho de 2010

POEMAS DE MINHA AUTORIA NA REVISTA GERMINA

A excelente revista Germina publicou uma seleção de meus poemas. Aos editores dessa maravilhosa revista minha gratidão!
http://www.germinaliteratura.com.br/hilton_valeriano.htm

sábado, 19 de junho de 2010

ENTREVISTA COM O POETA GUSTAVO FELICÍSSIMO


1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

GF – Comigo ocorreu algo singular, pois antes mesmo de travar contato com a obra de algum poeta eu já fazia as minhas anotações. Eu sentia algo poderoso pulsando fortemente dentro de mim. Aquilo me movia. Era a poesia e eu não sabia ao certo. Então, quando li Drummond e Neruda, que foram os meus primeiros poetas, houve um grande deslumbramento, fui arrebatado de vez. A Literatura de Cordel também exerceu grande fascínio sobre mim.

2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?

GF – Acho que não difere muito do procedimento de outros autores. A criação nunca acontece de modo aleatório, ela se dá através de muito empenho, trabalho mesmo, até a exaustão às vezes. Após escrito o poema vai pra gaveta, onde fica por um tempo até passar a euforia que me causa. Quando volto a ele é que acontece geralmente aquele trabalho de polimento. Para mim é aí que começa verdadeiramente o trabalho do poeta.

3) – O que é poesia para Gustavo Felicíssimo?

GF – O conceito de poesia é muito amplo. Há poesia desde o belíssimo pôr-do-sol em Ilhéus, até um assassinato. Transformar a poesia que está aí em um poema é outra coisa, requer muito apuro estético. Já o poema, para mim, é algo material e palpável, um objeto como qualquer outro, muito embora seja um objeto de arte, uma revelação.

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea?

GF – Em todos os tempos houve bons e maus poetas. Hoje em dia não é diferente. O que difere um de outro é que, como diz Ildásio Tavares, o grande criador esmera-se por sua obra, já o criador pequeno esmera-se pela sua pessoa. Vejo que um está preocupado em dar ao texto um valor de interesse fundamental; o outro proporciona obras de intelecção apenas abstrata.

5) – Mesmo tendo nascido em Marília, interior de São Paulo, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda em se tratando da Bahia?

GF - Moro na Bahia desde 1993, primeiramente em Salvador, agora entre Itabuna e Ilhéus, onde acaba de nascer minha filhota. Portanto, quase metade da minha vida. Aliás, após a infância, as melhores coisas da minha vida aconteceram aqui. Por isso a Bahia me é tão cara. Foi convivendo com escritores daqui que vivi todo meu processo de maturidade intelectual. Então é isso. Eu falo oxênte e como Caruru, sacou?
Quanto ao que me pergunta: A Bahia é vanguarda e tradição desde sempre. Nossos grandes vanguardistas, como todo grande vanguardista, desde Gregório de Mattos, são ousados ao mesmo tempo em que possuem um pé na tradição. Certa feita, ao entrevistar rapidamente o Tom Zé, perguntei-lhe sobre essa idéia fixa de desconstrução em sua obra, no que ele respondeu dizendo ser impossível desconstruir o que não se sabe como se constrói. Como diz a canção do Gilberto Gil: Deus entendeu de dar a primazia/ pro bem, pro mal/ primeira mão na Bahia.

6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

GF – Acho que em termos de literatura tudo já foi feito e dito. Mudam-se os suportes, as formas, mas o poema, temas e idéias continuam imutáveis. Sinto que o poeta mais que inovar precisa, em verdade, reinventar seu universo particular. Nisso, todos são iguais.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

GF – Que trabalhem por suas obras não por seus nomes. Alguma reputação e reconhecimento, se acontecer, acontecerá em decorrência da qualidade dos seus poemas. O resto é ufanismo e auto-promoção.

8) – Qual a importância de um poeta como Alberto da Cunha Melo para sua poesia e a poesia brasileira?

GF – Ele foi um autor formidável, refinado e diferenciado, dialoga com as tradições e com a modernidade, é inventivo, lírico e irônico. Qualquer escritor que tenha essas qualidades poderá por certo ser considerado um grande escritor. Creio que sua importância ainda está para ser avaliada, precisa de mais tempo, embora muitos jovens escritores estejam cultuando a Retranca (forma fixa que ele criou) Brasil a fora. Para mim o Alberto, assim como outros grandes poetas, serve como espelho, modelo para uma poesia transcendente. Escrevo Retrancas porque é uma forma que internalizei muito bem, assim como foi também com o Haikai e o chamado Verso Livre, que de livre não tem nada, pois um poema jamais se verá livre da forma, daqueles elementos que nos falam Aristóteles e Ezra Pound. Quais sejam: ritmo, imagens, harmonia e idéia. Geniais são os poetas que trabalham com esses elementos em harmonia. O Alberto da Cunha Melo é um deles.

GUSTAVO FELICÍSSIMO: POEMA

(Agostino Carracci)

O CREDO DE DON JUAN

(Poema vencedor do Prêmio Bahia de Todas as Letras, Edição 2009)

Creio num Deus vil e atormentado
tal qual o mar quando a lua surge esquiva
com seu canto afastado, porém audaz,
arrogante em meio às visões de bem e mal,
cego ante a face exaurida do amor.
Creio nesse Deus, cujo reino não tem fim,
e ao mundo lanço o meu laço sabendo que após o gozo
viverei contraditória agonia.
Assim, como um ciclo que nunca se cumpre,
volto aos braços da sedução,
náufrago e só, tecendo a minha teia.
O fogo aquece meu corpo e não arrefece,
mas a alma, dos seus tormentos não se esquece,
escarnece o céu não por prazer, mas por convicção.
Ah, ter escrúpulos é não ter mesmo nada!

domingo, 13 de junho de 2010

MÁXIMAS OU AFORISMOS V


178

O que nos revela a mentira senão a nossa incapacidade pela verdade?

179

Para todas as verdades há sempre a mentira do século.

180

Acreditamos ser razoáveis quando desprezamos as injúrias sofridas, mas no fundo isso apenas revela a impotência de nossos atos no âmbito da vingança.

182

No amor pagamos tributo de nossos defeitos assim como de nossos melhores intentos.

181

Como bons expectadores da vida, raramente consentimos no esquecimento dos vícios alheios.

182

Mulher: insídia das virtudes.

183

A face obscura de Deus: a crueldade que se revela humana.

184

Se ao ponderarmos sobre o valor de uma pequena alegria percebemos toda a fragilidade que lhe é peculiar, aprenderemos, enfim, a ter reverência pela vida.

185

Sem Deus não há humanidade possível.

187

Não há calamidade maior do que o homem na sua recusa em ser humano.


188

Não é por sermos livres que podemos ser cruéis, mas sim por sermos humanos.


189

Tão própria à natureza humana, a beleza também poder ser a traição de seu gênero.

191

Não há melhor forma de punir os homens do que retirar de suas mãos a possibilidade de sua redenção.

192

Não raro, nos abismos do coração ressoa a culpa de toda a humanidade.

193

Há no amor algo de divino e demoníaco. Nunca apreendemos o outro, somente nossas considerações afetivas.

194

No sexo, o silêncio do espírito ressoa as contrações da carne.

195

Somente a verdade pode conduzir o homem à descoberta de que a mentira pertence à sua natureza.

196

Se fosse possível ao homem encontrar a verdade de sua condição ele a destruiria na ânsia de possuí-la.

197

Somos cúmplices de todas as traições possíveis ao acreditarmos na verdade de nossa condição.

198

Para algumas horas o temor é possível, para a eternidade é apenas desespero.

Obs: aforismos de minha autoria protegidos por direitos autorais.

sábado, 5 de junho de 2010

A ARTE DA XILOGRAVURA: ENTREVISTA COM SEVERINO BORGES







1 – Quando ocorreu seu contato inicial com a arte da xilogravura?

Desde pequeno que vejo esse trabalho, em casa e na casa de meu tio J. Borges, mais foi em Olinda que comecei fazer minha xilo, estava desempregado e Pai (AMARO FRANCISCO) me chamou para ajudar ele e aí eu comecei 94 se não me engano.

2 – Fale um pouco sobre as origens da xilogravura.

Na minha família começou com J. Borges depois pai, Amaro Francisco e aí pelos primos e outro da família, tudo pela necessidade de sobreviver.

3 – Quais são suas influências nessa arte?

Eu consegui criar outros artigos que antes as pessoas não tinham, como bolsas, azulejos que já tinha no Ceará e em Pernambuco não, e em Recife fiz uma loja com o nome XILOGRAVURA isso deu uma divulgação de boca a boca muito legal. Na casa da cultura em recife tem 105 lojas e só tinha xilo na minha loja aí os clientes procuravam pela casa, com isso as outras lojas começaram a comprar aos outros artistas também, com isso a xilo foi lá pro auto virou moda em recife e no Brasil.

4 – Como você vê a relação entre a arte da xilogravura e a poesia?

Tem tudo haver, nossa arte começou por conta da poesia, J. Borges fez sua primeira xilo para um de seus cordéis, uma anda de lado da outra. A xilo pernambucana começou por conta da poesia popular os cordéis.

5 – Quais artistas você destacaria na arte da xilogravura?

Têm muitos. Admiro muito J. Borges por ser o pioneiro na minha família e meu Pai AMARO FRANCISCO, analfabeto, pedreiro sem nenhuma formação só a da vida, fez xilos maravilhosas.

Xilogravura.zip.net

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FERREIRA GULLAR: A LUCIDEZ DE UM GRANDE POETA



Por Armando Antenore


Poeticamente, você jamais permaneceu num único lugar e sempre procurou a renovação. Em contrapartida, como crítico, acabou recebendo a pecha de conservador, por rejeitar diversas manifestações da arte contemporânea. O rótulo o incomoda?


Não, não me incomoda. Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de "conservador" perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. O filósofo francês Jacques Maritain, católico, afirmava que a arte é "o Céu da razão operativa". Ou melhor: é o ápice do trabalho humano. Arte, portanto, pressupõe o "saber fazer". Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o "saber fazer". Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em consequência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do "novo". Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.


Nos tempos de militância comunista, você usou a poesia com fins políticos. O engajamento dos poetas ainda se justifica?


Não, de jeito nenhum. Os poetas, agora, irão se engajar em quê? No socialismo ridículo do Hugo Chávez? Foi um engano imaginar que versos contribuiriam para a revolução social. Admito que um poema consiga iluminar o leitor, consiga lhe abrir a cabeça. Mas daí a mudar a sociedade... Muito complicado! Abandonei todos os mitos daquela época. Não creio mais em luta de classes. Já aprendi que o capitalismo é como a natureza: invencível.

A DISTÂNCIA E AS IMAGENS

(Kandinsky)


A distância e as imagens. Será que o gosto pelo mundo de imagens não se alimenta de uma sombria resistência contra o saber? Corro os olhos pela paisagem: o mar está em sua baía, liso como um espelho; bosques sobem até o cume da montanha como massas imóveis e mudas; em cima, ruínas abandonadas de castelo, como se encontram há séculos. É assim que deseja o sonhador. Que esse mar se ergue e se afunda em bilhões, mas bilhões, de ondas; que os bosques estremecem a cada novo instante desde as raízes até a última folha; que, nas pedras das ruínas dos castelos, reinam um desmoronar e um esfarelar contínuos; que, no céu, antes que se formem nuvens, gases fervem em lutas invisíveis – de tudo isso tem de se esquecer para se entregar às imagens. Nelas tem repouso, eternidade. Cada bater de asas de pássaro que o roça, cada rajada de vento que o faz estremecer, cada proximidade que o toca, lhe pune as mentiras. Porém, cada distância reconstrói seu sonho, que fica apoiado em paredes de nuvens, que torna a se inflamar em cada janela iluminada. E o sonho aparece como o mais perfeito, se consegue tomar do movimento o seu ferrão e transformar a rajada de vento num sussurro e a passagem casual dos pássaros na migração dos pássaros. Assim, pôr termo à natureza na moldura de imagens esvanecidas é o prazer do sonhador. Conjurá-lo sob uma nova chamada, o dom do poeta.

Walter Benjamin, Rua de mão única. Ed. Brasiliense

quinta-feira, 3 de junho de 2010

JEFFERSON BESSA: POEMA

(Caspar David Friedrich)
MURO

só compreendo um muro
vendo o homem primeiro
sentado em meio aos montes-
em abrigo receoso
só compreendo um muro
se vejo esse mesmo homem
pisando a marcação
na vertigem das posses
só compreendo um muro
pelo medo nostálgico
do homem que via o sol
se pôr antes da noite
só compreendo um muro
se a guarda do que é cerco
fecha-se atrás das costas
e arrasta um deus pesado

quarta-feira, 2 de junho de 2010

FERREIRA GULLAR: POEMA

(Marcelo Grassmann)
APRENDIZADO

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.