sábado, 22 de maio de 2010

JEFFERSON BESSA: POEMA


Pernas Cruzadas


logo que chegou ao bar

seu corpo pediu todos os olhares

mas num instante o vi falecer

embaçar.

o corpo que não transpira

derrete

para se molhar em poses.

e assim foi.


sentou-se à cadeira

de pernas cruzadas

e de tão embaraçadas

as pernas se fizeram

grandes bengalas

que assim carregam

a beleza que pesa

e que arrasta no rosto.


ah... mas se este corpo

chegasse

sem dar ares ao cheiro...

se este corpo

escorresse

a água da pele

pelo salão

e borrifasse às minhas narinas...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

HELENA FIGUEIREDO: POEMA




Tem nome de águas soltas, o prisioneiro.

Saúdo-lhe o pêlo, roda infinita,
exímio horizonte,
que chega a parar o próprio sangue.

Vida de animal,
penso alto, na ida e no regresso,
nos dias riscados num calendário ilusório.

E oiço um alambique de cobre,refinando o espaço,
filtrando o tempo das magnólias por abrir,

e arranho os pensamentos, numa coleira invisível,
no alívio revoltante de não ser cão,

mas de parecê-lo.

sábado, 15 de maio de 2010

INAÊ SODRÉ: POEMA

(Bruno Steinbach)

CORPO CHUVOSO

Se Tu me tocas.
Eu Chovo.

Liquidifico-me
Para me esconder
Em teus poros.

Tez em vez de Colo.
Me molho em beijos furiosos.

Gotejando Me Desfolho.

PEDRO MEXIA: POEMA





Nas estantes os livros ficam (até se dispersarem ou desfazerem) enquanto tudo passa. O pó acumula-se e depois de limpo torna a acumular-se no cimo das lombadas. Quando a cidade está suja (obras, carros, poeiras) o pó é mais negro e por vezes espesso. Os livros ficam, valem mais que tudo, mas apesar do amor (amor das coisas mudas que sussurram) e do cuidado doméstico fica sempre, em baixo, do lado oposto à lombada, uma pequena marca negra do pó nas páginas. A marca faz parte dos livros. Estão marcados. Nós também.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

UM POEMA DE INAÊ SODRÉ

(Ismael Nery)


RITO DE PEDRAS

Sodalita soube que Citrino,
o seu prometido, estava por chegar.
Ela foi ao seu baú vermelho, contornado de fita dourada,
e tirou seu melhor Sari.

Em ritmo de rito,
se toda depila para que lisa, na tela em óleo canforado,
ele,
com o seu pincel,
pinte seu corpo de henna.
 
No rito do mito do espelho,
ela,
de olhos contornados de preto,
se olha e desprende os negros cabelos...
 

domingo, 9 de maio de 2010

JORGE MEDAUAR: POEMA

(Caspar David Friedrich)


As ÁGUAS

Veja-se: são águas verdades e profundas
de um mar imenso e indevassável. Vejo-as
depois escurecendo sob a noite
e ouço-lhes o gemido nos rochedos.
Sobre o impassível líquido soturno
dorso do mar que ao longe se retorce
outras águas em vão, de chuva doce
como inútil consolo se despejam.
Dentro da noite inteiramente escura
as, águas se misturam, confabulam
para a revolta em líquida linguagem.
Ai de vós, ai de vós margens e diques,
arrecifes, limites e rochedos,
se as águas de manhã vos atacarem.

sábado, 8 de maio de 2010

GREGÓRIO DE MATOS: SONETO

(El Greco)
A Conceição Imaculada de Maria Santíssima

Como na cova tenebrosa, e escura,
A quem abriu o Original pecado,
Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;
Podeis vós cair, ó virgem pura?

Nem Deus, que o bem das almas só procura,
De todo vendo o mundo arruinado,
Permitiria a desgraça haver entrado,
Donde havia sair nossa ventura.

Nasce a rosa de espinhos coroada
Mas se é pelos espinhos assistida,
Não é pelos espinhos magoada.

Bela Rosa, ó virgem esclarecida!
Se entre a culpa se vê, fostes criada,
Pela culpa não fostes ofendida.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

RILTON PRIMO: POEMA

(Enrico Bianco)
PULSAR

A supernova é u’a paixão, estrela
a explodir lançando, ao cosmo, extremo
fulgor contendo tod’os elementos.

Que as das constelações mais claras luzes,
a supernova é, ao menos por uns dias,
tão resplendente quanto uma galáxia.

Depois declina a tua luz até
tornar-se, empós semanas, invisível,
lhe sobrevindo, elétrico, um colapso.

Cada partícula polar se choca,
gerando nêutrons que se adensam núcleo
de um astro outro e mesmo, estabilíssimo.

Dá-se-lhe o nome de Pulsar: estrela
já desbastada da matéria nove
décimos, mas seu décimo recresce.

Ultrapassando, todavia, três
vezes de um Sol a massa, fica instável
e, novamente, se vai colapsar.

Nasce daí u’a singularidade
no espaço-tempo em forma de Buraco
Negro, do qual não ’scapa a própria luz.

A luz, porém, daquelas explosões
originais da supernova deixa
seus rastros-ondas através dos séc’los...

Três supernovas por milênio nascem.
Treze bilhões tem, d’anos, a Via Láctea,
são trinta e nove milhões de Pulsares.

Assim te amo, é nosso amor, tão raro
e tão freqüente desde que inventado
o próprio cosmo que se chama amar.

Assim te quero, supernova nova,
em explosões de luzes, de desejos
mais fortes do que os dos demais unidos.

Assim, completo em elementos, amo,
amando o amor a amar a amada amando
até exaurir-me lasso de paixão.

Depois, sim: degenero, apago, morro.
E eis que, invisível, no meu eu-profundo,
opostas forças se me neutralizam.

Sou-te Pulsar e nova estrela-amor
que cresce sempre, até que, inexorável,
cai dentro em si, definitivamente.

E então sou teu de todo, mas escuro,
nada escapando-me de luz, espaço
ou tempo, e amar é oculto, é então mistério.

E então, de supernova em supernova,
o amor renasce e dorme em mim por ti,
porquanto é estrela, eterna finitude.

Assim te amo, estrela supernova,
se me apagando tão depressa quanto
faz teu clarão lançar-se além aos séc’los.


Rilton Primo
Salvador, 12 de março de 2010.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

QUATRO POEMAS DE HENRIQUE WAGNER

(Paul Klee)

VOZ COMPRIDA

Muito antes de ouvir,
o mar freqüenta o rochedo,
e a noite pinta, na sombra,
o rosto branco e macio da namorada.
Antes mesmo desta cidade,
quando os cavalos corriam negros,
batia aqui, perto de mim,
a espuma nova de um mar aberto.
Antes, muito antes de toda e qualquer palavra,
o mar pedia, bem baixinho,
em voz cantante e comprida:
- Silêncio!...


OS POMBOS

O vate paraibano teve o busto
ausente em toda a sua curta vida,
e ausente de si mesmo viu crescida
a angústia de não ser, vivendo Augusto.

Fantasma de si mesmo ergueu-se o susto
de versos em eterna despedida,
e o pouco que viveu, viveu a custo
de toda a poesia preterida.

Viveu a alma, apenas, desnutrida,
a carne pusilânime, maldita,
agora endurecida pelo busto.

Viveu a sombra, ainda empedernida,
e o corvo, que era a ave preferida,
não reconhece mais o pobre Augusto.


MEU FANTASMA

Eu fui uma criança sem porão,
criei fantasmas burros em meu quarto,
e o quarto eu dividia com um irmão
- de toda essa mobília estava farto.

Em cada canto havia um alçapão
e eu já não morreria mais de infarto
pois tudo eu já sabia de antemão
e andava mais cismado que lagarto.

Mamãe passava o dia dando ordem
(os cães que ladram um dia ainda mordem)
e havia certa ausência que não sai

ainda hoje de meu quarto: clara,
solar, tão verdadeira que não pára
de ser o meu fantasma, aquele pai.

A CASA DA INFÂNCIA

A casa onde morei
na infância
era imensa e cheia
de mistérios.
Os tios visitavam
minha sala
com freqüência
e com alarde.
Morava conosco
um tio-avô por parte
de pai, que fumava muito,
tossia muito e lia
todos os meus gibis de heróis.
As primas eram bonitas
e muito grandes, e só olhavam
para meu irmão mais velho,
que era baixinho e esturricado.
Meu quarto era nos fundos
e tinha uma janela
que dava para o quintal
da casa.
Um dia
todos foram à praia
e eu fiquei sozinho:
imenso e cheio de mistérios.

sábado, 1 de maio de 2010

UM POEMA DE BERNARDO LINHARES



Pérolas

O céu também é madrepérola.
No seio cálido da aurora,
as minhas mãos são duas conchas,
onde deslizam tuas pérolas.

São duas pérolas douradas,
brilhando assim, tranqüilas, claras.

Em meio às luzes desse bálsamo,
e o céu da boca à flor da pele,
levo nas mãos teu coração.

Ao florir das primeiras horas,
teu seio é cálido na aurora.