quarta-feira, 14 de abril de 2010

UM POEMA DE BERNARDO LINHARES

(Eduardo Fiel)


ALUMBRAMENTO

Todo bordado cor de rosa,
no fim da tarde de cetim
o sol se deita em seu jardim,
o mar que lambe cospe fogo.

E quando a lua acorda em sonho,
desmilinguindo-se de gozo,

volto os meus olhos para o céu.
De que importa a Ilha e o Porto?
Pra que olhar o mar vermelho?

Se no horizonte à minha frente
o que eu enxergo é a Mulher.

domingo, 11 de abril de 2010

HELENA FIGUEIREDO: A POESIA CONTEMPORÂNEA DE PORTUGAL



APELAÇÃO

Será ali, junto do rio,
que jorrará leite na quadratura de um tempo.

Os animais, enrodilhando a lisura da planície,
esperam afoitos atrás dos juncais.

É chegada a hora das danças,
dos rituais, entranhados nos genes,
desde a criação.

E a lei do mais forte, salta do sangue,
a pulsão animal agita fortemente
a clareza das águas.

Perpetuada a mensagem da velha arca,
"crescei e multiplicai-vos",
uma nuvem de pó, alaga o suor da retirada,
o trote dos vencidos, é já um eco,
batendo no vento,

até que de novo, soe o chamamento,
e os machos regressem, no rasto do cio.


CÓDIGO SECRETO

Terás que seguir os pássaros assustados,
o voo frio do sentido inverso.

O nome surgirá nos arabescos de um tronco,
no cerne de um poema,
no delírio que assola o branco das insónias.

Pronuncia-o devagar junto ao postigo,
e a porta abrir-se-á.

Renega o bastão,
a máscara,
todos os anéis.
.
Encontrarás a escuridão da mesa,
e nada mais.

Poisa aí o teu fardo,
e com o canivete, esventra o silêncio.

Ouvirás o crepitar da chama,
um aroma a vinho maduro,
indicando a direcção do corredor.
................

A PAREDE

A tarde escorria gélida,
aguardando o chamado das primeiras andorinhas.
Voltariam certamente,
para os velhos ninhos,
numa roda negra,
num derradeiro cântico, pregão de primavera.

Encostou-se à parede,
onde tantas vezes o sol batera, cru e férreo,
alongando de dor as sombras,
num movimento a tocar o céu.
.
(Um dia,
talvez assistisse ao desertar das aves,
à paragem súbita das fontes,
ao agonizar do grande carvalho,
à morte da luz.)

Sentiu um relâmpago atravessando os ossos,

e a parede atrás,
sumptuosamente altiva,
apoio das heras,
das roseiras,
das patas viscosas do lagarto,

foi o pano verde que lhe deu força,
a manteve de pé,

até o rebate dos sinos, ecoar na calçada.

sábado, 10 de abril de 2010

CRUZ E SOUSA: POEMA

(Caspar David Friedrich)


POST MORTEM

Quando do amor das Formas inefáveis
No teu sangue apagar-se a imensa chama,
Quando os brilhos estranhos e variáveis
Esmorecerem nos troféus da Fama.

Quando as níveas Estrelas invioláveis,
Doce velário que um luar derrama,
Nas clareias azuis ilimitáveis
Clamarem tudo o que teu Verso clama.

Já terás para os báratros descido,
Nos cilícios da Morte revestido,
Pés e faces e mãos e olhos gelados...

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!

AUGUSTO DOS ANJOS: POEMA





A ÁRVORE DA SERRA

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha’ alma!...

- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

EMÍLIO MOURA: POEMA

(El Greco)


RENÚNCIA

Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.

Meus olhos já não compreendem outra realidade.

A realidade que amei dorme na sombra.

MAURO MOTA: POEMA

(Munch)


Elegia Nº1

Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas
tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes

fria diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!

Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.

sábado, 3 de abril de 2010

ÁLVAREZ DE AZEVEDO: SONETO II

(Johann Heinrich Dannecker)


Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada...
- Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

PROVÉRBIOS




A arrogância precede a ruína, e o espírito altivo, a queda.

Pr 16, 18

Há caminhos que parecem retos, mas afinal são caminhos para a morte.

Pr 16, 25

Coração alegre, corpo contente; espírito abatido, ossos secos.

Pr 17, 22

Quando entra a impiedade, entra a afronta, com o menosprezo, a vergonha.

Pr 18, 3

Antes da ruína, o coração se exalta, e antes da honra, a humilhação.

Pr 18, 12

Morte e vida estão em poder da língua, aqueles que a escolhem comerão do seu fruto.

Pr 18, 21

O home prudente é lento para a ira; e se honra em ignorar uma ofensa.

Pr 19, 11

Água profunda é o conselho no coração do homem, o homem inteligente tem apenas de hauri-la.

Pr 20, 5

Quem pode dizer: “Purifiquei meu coração, do meu pecado estou puro”?

Pr 20, 9

Olhar altivo, coração orgulhoso, a lâmpada dos ímpios, são o pecado.

Pr 21, 4

Fazer tesouros com a língua falsa é vaidade fugitiva de quem procura a morte.

Pr 21, 6

A alma do ímpio deseja o mal; aos seus olhos o próximo não encontra graça.

Pr 21, 10

O homem que se desvia do caminho da prudência, na assembléia das sombras repousará.

Pr 21, 16

Quem guarda a boca e a língua guarda-se da angústia.

Pr 21, 23

Como a neve no verão e a chuva na colheita, também a honra não convém ao insensato.

Pr 26, 1

Relho para o cavalo, freio para o jumento, e a vara para as costas dos insensatos.

Pr 26, 3

Com o cão que torna ao seu vômito é o insensato que repete a sua idiotice.

Pr 26, 11

Prata não purificada aplicada sobre argila; são os lábios ardentes e o coração perverso.

Pr 26, 23

Como a água dá o reflexo do rosto, assim é o coração do homem para o homem.

Pr 27, 19

LA ROCHEFOUCAULD: MÁXIMAS

(Kandinsky)


29

O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.

33

O orgulho sempre se indeniza e nunca perde, mesmo quando renuncia à vaidade.

38

Propomos de acordo com nossas esperanças, mas cumprimos de acordo com nossos temores.

40

O interesse, que a uns cega, é a luz de outros.

42

Não temos força o bastante para seguir toda a nossa razão.

48

A felicidade está no gosto, não nas coisas; é por ter o que amamos que somos felizes, não por ter o que os outros acham amável.

49

Não somos nunca tão felizes nem tão infelizes quanto imaginamos.

51

Nada pode diminuir mais a satisfação de si que ver que reprovamos hoje o que ontem aprovávamos.

55

O ódio aos favorecidos não é mais que amor ao favorecimento. O despeito de não possuir se consola e abranda com o desprezo pelos que os possuem, e recusamos render-lhes nossas homenagens sem poder tirar-lhes as que o mundo lhes faz.

64

Não faz a verdade tanto bem ao mundo quanto lhe fazem mal suas aparências.

67

A graça está para o corpo assim como o bom-senso está para o espírito.


Máximas e reflexões. Ed. Imago

Tradução: Leda Tenório da Motta

quinta-feira, 1 de abril de 2010

ÁLVARES DE AZEVEDO: SONETO

(Turner)


Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade,

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!


Lira dos vinte anos. Ed. Paulus