domingo, 21 de março de 2010

ROBERTO GOTO: AFORISMOS

(Malevich)



É possível que a verdadeira função do escritor seja esta: cobrar sentido do vivido.

Começar um livro é temer o tempo.

A significância do escrito pressupõe que se esqueça e se desconsidere a insignificância do escritor.

Quando um livro cala fundo no leitor, este, depois de o ler, não é capaz de comentá-lo; cala-se sobre ele.

A literatura não é um jogo, mas o jogo por excelência: fazê-la é não só jogar por jogar, mas também – e ao mesmo tempo – jogar por viver.

Interiorizar e compreender. Ler é transformar um discurso externo em discurso interno.

O Escritor é um jogador. Seus dados são a Contingência e a Necessidade.

O escritor está ao mesmo tempo muito distante e muito próximo da vida.

A obra de arte só ecoa no homem na medida em que o homem ecoa a obra de arte.

Na arte, o gosto não é só critério; é fato.

O que sentimos sobre um fato – ou no seu próprio interior, ao vivê-lo – já é uma primeira interpretação, uma primeira versão que fazemos dele: o seu sentido é o nosso sentido, isto é, o que sentimos.

Cada um é o seu tempo; sua sensibilidade é sua época – seu coração é o que viveu.

Na arte, o niilismo é vivido como gozo.

Quando a sociedade reconhece a obra de um artista ou intelectual que morreu no anonimato, não faz mais que lisonjear a si mesma: ou purgando um sentimento de culpa, ou, o que é muito mais provável, mostrando a si mesma como é generosa em dar reconhecimento a quem ela ignorou a vida toda.


Sob o signo de Brás Cubas: aforismos e desaforismos. Ed. Unicamp

sexta-feira, 19 de março de 2010

UM POEMA DE MAJELA COLARES

(Paul Klee)



ARQUÉTIPO DE ANJO INVENTADO

a pele é de sol, a idéia granizo
o sexo de bronze, a íris de lentes

tórax de fel e lábios de riso

surpresa na face, um céu sob os dentes
passado sem voz, a boca sem viço

- agora incertezas e dias ausentes

hoje sua vida perplexa no espelho
guardando a fachada incerta do escuro

foge de regras, detesta conselho
seu tempo acabou, dormiu seu futuro


poema do livro As cores do tempo. Ed. Calibán

quarta-feira, 17 de março de 2010

JULIO RODRIGUES CORREIA: NOTURNO I

(Edward Hopper)


NOTURNO Nº 1

O vento se abate irascível
contra o velho alpendre
e macera as vértebras
da solidão.
Encolhido no lado direito
da casa o jardim
esconde flores suicidas
nas sombras dos canteiros
e a noite invade
( resoluta) os latifúndios
da madrugada,
lá fora uma chuva miúda
irrompe os degraus
do silêncio e irriga
a lavoura do tempo.

JULIO RODRIGUES CORREA: NOTURNO II

(Enrico Bianco)

NOTURNO Nº 2

A tua luzidia e distante efígie
habita a morna tessitura
dos meus olhos sonâmbulos
e povoa de cio meus instintos
eróticos.
Entre nós dois existe (fixo)
um alpendre de memória
( confissões de segredos e
pecados)
que nos conduz por marés
e auroras inconclusas.
A textura das palavras
descem os degraus do vento
e se transforma em espumas
cozidas pela forja do tempo,
enquanto a caligrafia do silêncio
esconde os remorsos da noite
e o sal das horas
flamba os grãos da espera.

UM POEMA DE BERNARDO LINHARES

(Renoir)


LUAU

Num mar tranqüilo de fim de tarde
o vento sopra a vela do dia,
a noite penetra pela fresta,
onírica, sim, ela suspira.
Adormecida sonha com anjos,
no silêncio do sem-fim desperta
nova e nua.Abraçando o oceano
no quarto crescente curva em arco
e toda inteira, recheada em chamas,
o vento lambe os seus fios dourados.

terça-feira, 16 de março de 2010

UM POEMA DE NYDIA BONETTI

(Enrico Bianco)


PREPARADOS CANTEIROS

flores do bem, flores do mal - brotarão - dos olhos (aquáticos)
e das mãos (de terra) dos meninos

preparados canteiros (à espera)

tempo de chuva agora (depois, tempo de sol) inevitavelmente
as flores virão

UM POEMA DE LARA BARROS

(Renoir)



INCÓLUMES PASSOS

Era uma manhã de domingo ensolarado, pela janela avistavam-se pombos e periquitos alçando vôos longínquos, com os pés ainda nus, correndo por entre passos alvoroçados, nada lineares, seus pés foram atingidos de forma súbita, por um furo de uma flerpa bendita que lhe trouxe a reflexão da necessidade de caminhar com mansidão.

domingo, 7 de março de 2010

MÁXIMAS OU AFORISMOS III

(Miró)



A vida pode tornar-se bela e grandiosa, desde que não acreditemos nela, pois a vida em si não possui sentido algum. Mas a partir do fato de existir, refiro-me ao fato concreto, o exemplar único e singular de cada ser humano, a vida pode tornar-se significativa.

Não compete aos deuses a dádiva do gozo.

No ofício do amor os corpos transgridem o espírito.

Na grandeza ou na miséria o homem é indigno.

Caminhamos para a escravidão tão logo nos sabemos livres.

Diante do paraíso o homem hesita.

O que deploramos nos outros não são seus defeitos e sim suas qualidades.

Exasperar-se de seus limites é sempre um sinal de vaidade.

No amor, raramente perdoamos o sentimento de vingança.

A esperança de todo homem não termina com a morte e sim com suas desilusões.

Também destruímos ao amar.

Não raro, no sacrifício encontramos a fúria das consolações.

Nem mesmo no amor prescindimos da solidão.

Nas grandes desgraças o homem reivindica a Deus o seu destino.

Há múltiplas formas de amor, mas só um desejo.

Amor: cobiça do corpo.

Amor: anelo do coito.

A alegria: em sua raridade, uma dádiva não compreendida.

Há traições que não carecem de perdão.

Amor: raro enleio em meio ao incerto jogo das representações.

Também na verdade encontra-se o vício.

Obs: aforismos de minha autoria protegidos por direitos autorais.

POEMA

(Bosch)


GOMORRA

Uma centelha de luz que se dissemina ao compasso das disparidades. Caminhamos sobre Gomorra e o desejo de todas as injúrias. Na gratuidade das omissões, de ofensas não ratificadas, proliferam-se ossos e cicatrizes da meretriz usurpada. Não se preside o inferno e o amor, não se preside a cobiça e a ternura. Somente o indulto de fatos estabelecidos ante a insídia das próprias ilusões. Os que esperam os lírios famintos apodrecem no inestimável furor da aurora.

quinta-feira, 4 de março de 2010

POEMA





SENDAS DO IMPONDERÁVEL

As sinuosidades do corpo, sendas do imponderável. Lícito é a conjunção dos desejos, a cumplicidade das expectativas. Lícito o dispêndio de sentimentos não compartilhados. Premissas do amor. Címbalo da sensibilidade, cilício da queda, com fúria e complacência estigmatizamos os ditames da aproximação. Haure o tempo seu ardor. Haure o sexo sua convalescença. Pode o espírito prescindir da carne? Abate-se um porco por não reproduzir. Ardem os homens o exílio do éden.