domingo, 31 de janeiro de 2010

UM POEMA DE RAIMUNDO CORREIA

(Marc Chagall)
NUVEM BRANCA

Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, neste instante,
Turbilhões de translúcida brancura;

Colar, broches de perolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...

Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?

É ela a noiva? É mesmo, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no altíssimo nevoeiro?

É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...

Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...

DOIS POEMAS DE JULIO RODRIGUES CORREIA

(Ismael Nery)




A profundeza abissal da palavra

declamada

ecoa nítida na linguagem abstrata

das mãos

(gestos prontos),

e o atrito dos dias

confunde as cicatrizes

do tempo,

derramado sobre a mesa

o poema ignora nas pálpebras

o pesadelo do sonho.



A noite
de ruídos

e latidos

soçobrou

ao peso

e domínio

da chuva

torrencial.

E na plangência

do velório

havia no olhar

do morto

uma manifesta

reprovação

contra a vida.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O ROMANCE CATÓLICO: CORNÉLIO PENNA: A MENINA MORTA IV

(Munch)

- Nós formamos ainda o pequeno laço, o nó a prender ainda, dando-lhes realidade, as nossas recordações de família. Mas talvez dentro de pouco tempo ele se romperá, e tudo será dispersado pelo mundo, sem significação, sem o amor e o respeito que lhes dá vida, alma e finalidade. Elas nos prendem, nos fazem companhia, e representam o nosso lar, mesmo de empréstimo, mesmo precário e devido unicamente à caridade dos que nos acolhem, e são o nosso apoio, o nosso arrimo... mas, tudo isso porque sabemos, porque elas viveram conosco, e ainda guardam as marcas de mãos amadas, já desaparecidas da memória dos outros.
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- Eu estou só – tentou ela explicar, e sentia ao mesmo tempo toda a humilhação de quem se confessa a alguém inferior ao seu próprio mal – já não posso mais saber o significado de certas palavras, para os outros tão claras e luminosas... Estou fora de tudo que tornaria possível minha vida e faria minha conduta ser aceita por todos, para me deixarem tranqüila.
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Os dias, os meses e os anos se escoaram em seu ritmo sempre igual, na ampulheta do silêncio, da renúncia e da serena tristeza sem remédio... As armadilhas sutis do nada, do ausente e do real perdiam-se na corrida implacável do tempo, e a casa, na desordem estática de seus quartos numerosos, das salas em grandes espaços, os terreiros calcinados pelo sol, as senzalas silenciosas e indecifráveis, a floresta invasora e tenaz, com seu horror sombrio, onde as serpentes adormeciam agora em paz, livre das línguas abrasadoras e dos turbilhões acres das queimadas, dos machados desumanos que despedaçavam suas árvores seculares ainda intumescidas de seiva poderosa, tudo caminhava em atropelo, na cegueira de sua marcha.
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Entretanto para Carlota, tornada outra mesmo em seu vulto, a vida se tornara um rio de sombra, rápido e profundo, a deslizar invencivelmente por entre margens crepusculares, e ela conseguira fazer de tudo um movimento, um instante eterno. Refugiada no silêncio como a única solidão possível, ela compreendia agora a linguagem de sua casa e dos objetos que a compunham, na impossível reconciliação consigo mesma, na transposição de seu eu diante da eternidade de Deus, protegida por sua vontade que aceitara as suas próprias dimensões.

A menina morta. Ed. José Olympio.

UM POEMA DE RUY ESPINHEIRA FILHO

(Edward Hopper)
CANÇÃO DAS CINZAS DA TARDE

As cinzas da tarde descem
sobre o horizonte que arde
em agonia, e o que tecem
vem das cinzas de outra tarde.

Lembras-te, amor? Não te lembras.
És esquecimento e calma.
E entre as coisas que deslembras
está o que eu chamava alma

em mim, e que hoje também
se esquece de si, cansada
de se sonhar e ninguém
sonhar do seu sonho. Nada

foi colhido dessa hora
senão o vê-la passar.
Olho estas cinzas de agora
apagando as luzes do ar

– eu, aqui, sem quem me guarde
de ressentir sempre, assim,
quando agoniza uma tarde,
esta história que, enfim,

jaz nas cinzas de outra tarde
(de outra tarde – e de mim).

Poesia Reunida. Ed. Record

UMA PAUSA: POEMA DE LARA BARROS

(Eduardo Fiel)


Um intervalo para almoço, uma hora digerindo peças orgânicas; um intervalo para o banho, despindo-se, removendo o superflúo; um intervalo para o sono, trinta minutos descansando as magras pálpebras, um intervalo para as palavras, a troca de olhares silencia a disseminação de verbos; um intervalo para a saudade, porém, o coração não costuma seguir regras, em meio a tantos intervalos, tantas idas e vindas, findo o corredor temporal, da janela ouvi-se a voz da bela:

-Um intervalo para o amor, eu vos suplico!

sábado, 16 de janeiro de 2010

ENTREVISTA COM O ARTISTA PLÁSTICO EDUARDO FIEL



1- Como ocorreu seu contato inicial com as artes plásticas?

Bem, desenho desde sempre. Meu primeiro contato com óleo sobre tela foi em 1996 mas profissionalmente em 1999.

2- Fale sobre a estética realista que você apregoa em sua obra.

Penso que a estética no realismo é orientada pelo bom senso. Para mim, a estética, a técnica e o contexto são imprescindíveis tanto no processo criativo quanto na produção artística.

3- O que é arte para Eduardo Fiel?

Arte é uma oportunidade. Oportunidades são presentes, são dádivas em qualquer lugar, em qualquer tempo. A oportunidade é um poder transformador, ascendendo uma luz de significado no mero existir. Não é algo que se possa desperdiçar.

4- Fale sobre a temática do nu em suas telas.

Nu feminino com sobreposições de releituras de grandes artistas em diferentes áreas do corpo. Uma série de quadros que teve início em 2004.

5- Em um país como o Brasil, onde a questão da sensualidade é explorada muitas vezes de forma banal, o que faz com que a dimensão do nu explorada por você em suas telas torne-se uma manifestação artística?

A nudez que eu abordo é a condição humana. A temporalidade do existir sentida na pele, da ponta dos pés aos fios de cabelo. É, com efeito, uma nudez que convida o observador a se “despir de preconceitos” e ao despertar da consciência sobre a verdade nua do que somos feitos.

6- Quais são suas influências nas artes plásticas?

Tento estar acordado para tudo. Isso é um exercício realista. Mas ouço algo como New Order, U2, The Smiths enquanto reflito sobre Bouguereau em dias nostálgicos, Blues enquanto me aconselho com Caravaggio em noites circunspectas, jazz com Ingres para uma happy hour, um Pablo pop para abstrair. Todos têm sua hora e lugar. Influência é uma combinação de fatores em um horizonte de eventos.

7- Como você vê o atual panorama das artes plásticas no Brasil? Quais nomes você destacaria?

O Brasil é um labirinto cultural. A arte desenvolve-se dentro do possível segmentada e em diferentes direções. Gerar mais oportunidades seria um bom começo para artistas se destacarem segundo seus méritos e suas propostas.

O REALISMO DE EDUARDO FIEL


O REALISMO DE EDUARDO FIEL II


O REALISMO DE EDUARDO FIEL III


Nu, como preparado para a entrada de uma só pessoa. E quem entrasse se transformaria num “ela” ou num “ele”. Eu era aquela a quem o quarto chamava de “ela”. Ali entrara um eu a que o quarto dera uma dimensão de ela. Como se eu fosse também o outro lado do cubo, o lado que não se vê porque se está vendo de frente.

Clarice Lispector

O REALISMO DE EDUARDO FIEL IV



Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade, se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.

Machado de Assis