quarta-feira, 30 de maio de 2012

GABRIEL RÜBINGER: POEMA


(Tintoretto)

EU SÓ TENHO UM ROSAL

inspirado pelo magno Febus


No passado chorei por amores
que deixaram só dor em meu seio.
Hoje em lágrima e dor ando cheio.


 No passado reguei belas flores
 que murcharam, sem pena nenhuma.
 Hoje eu ando à procura de alguma.


 Eu só tenho um amor: Cristo santo,

 eu só tenho um rosal: o de pranto.
 
 

GABRIEL RÜBINGER: POEMA


(Lawrence Alma Tadema)


Inquietação

Onde deixei meu coração baldio?
Na tarde de um outono envelhecido,
de folhas a carpir os desenganos
de quem viveu e não amou a vida?


Queixei-me, ao alaúde, das venturas
que agora o vento trouxe. Consolou-me
o vulto violeta de uma breve
verbena que soltou-se de seu galho...


Vesti as ilusões e os velhos sonhos
da imensidão dos campos do cerrado
e cavalguei em nuvens e estrelas.


Banhei meus pés nas lágrimas de um rio
que eu mesmo derramei. Se eu amava,
eu já não sei. Lavei minha alma escrava.


GABRIEL RÜBINGER: POEMA


(Pietro Perugino)

ROMARIA

ao magno Rommel Werneck

Que cântico é esse que me invade,
doloso, o quarto? Vejo da sacada
a procissão trilhando a velha estrada,
e implorando aos céus a piedade.

Das velas há a branda claridade,
que tremeluz no vento... rutilada,
a voz do coro rasga a madrugada,
e eu choro pela minha mocidade...

Quanto pesar nas vozes inocentes,
como se Deus a todos condenasse
e acorrentasse sem usar correntes!

Eu rezarei por mim... Se não amasse,
não doeria o teu olhar ausente...
Oh...Quem me vela é só de Cristo a face.

IVAN EUGÊNIO DA CUNHA: POEMA


(Pieter Brueghel)

Rubra Sinfonia

Instrumentos se erguiam pelo Céu;
E soava, o Vento, a sinfonia alada;
Co'harmonia medonha, tão pesada;
Que caía na Terra em negro véu.

O rubro Céu dançava na babel;
Desta orquestra sinistra e agitada,
Que, ao som de cada sopro, cada arcada,
Se contorcia em fúria dada ao léu.

A música avançava sem compassos;
Co'acordes dissonantes e mui crassos;
De sons enfurecidos já em guerra.

E, em macabra tormenta carmesim,
Desceu o Céu, ao toque do clarim,
E fartou-se de Sangue o breu da Terra!



IVAN EUGÊNIO DA CUNHA: POEMA


(Edward Burne-Jones)


Derradeiro Leito

Oh! céu da eterna noite escura!
Oh! mares fartos de pesares!
Tão triste vara pelos ares;
Meu canto cheio de amargura.

Se mais não tenho uma ventura,
Se mais não calmo são os mares,
Boa sorte é se mil azares;
Me atarem firme à morte dura.

Ah! que estes mares agitados;
Aceitem ser meu triste leito,
Guardando sonhos maculados,

E, num tormento mais violento,
Enfim arranquem de meu peito;
Amor, saudade e sofrimento.


IVAN EUGÊNIO DA CUNHA: POEMA


(John Waterhouse)



Fala-me destes lírios que tu vês


Fala-me destes lírios que tu vês,
Suas cores, olor, toque de seda.
Fala-me p’ra que tua voz me ceda;
Os lírios que tu vês com nitidez.

Fala-me deste céu com vividez,
Seu azul, esplendor, luz alva e leda.
Fala-me p’ra que tua voz me ceda;
O céu, com sua vasta placidez.

Fala-me desta pulcra natureza;
Que dizes nos cercar com tal vasteza;
De portentos de toda bela sorte.

Fala-me como eu vejo o que tu contas,
Pois, p’ra todo lugar que tu apontas,
Tudo é vil, tudo é cinza, tudo é morte!

IVAN EUGÊNIO DA CUNHA: POEMA


(Evelyn de Morgan)


Oh! Vento, vivo Vento...


Oh! Vento, vivo Vento, que tens visto;
Naqueles horizontes agourentos?
Dize-me, dize-me se tu tens visto;
O rastro das venturas, dos contentos.

Ah! Lua, lume lúrido e benquisto;
Qu'ilumina meus ais e meus lamentos,
Dize-me, dize-me se tu tens visto;
O Sol que mais não vi nos firmamentos.

Onde haverá de ter um lugar calmo?
Onde haverá lugar com ar tão almo;
Que tire de minh'alma todo o fel?

Oh! Tempo, te rogar humilde venho,
Dize-me, dize-me, por qual engenho;
Eu volto a ser apenas um donzel?


IVAN EUGÊNIO DA CUNHA: POEMA


(John Waterhouse)


Vento Plangente

Escuta o melindroso e atroz lamento;
Deste vento que passa tão dolente.
Já viu ele, no mundo, dor demente;
E derrama aqui pranto sonolento.

Escuta o canto lúgubre do vento,
O réquiem tão constante, atro, plangente,
Lamentando p'ra todo ser vivente;
A morte deste mundo tão languento.

Com tristíssima e suave melodia,
Chora ele, com pesar assaz profundo,
Toda tristeza vil de cada dia.

Chora também o vento, como chora,
Junto às dores e mágoas deste mundo,
A morte que, em meu peito triste, mora.


WILLIAM BLAKE: PROVÉRBIOS DO INFERNO



Na semeadura aprende, na colheita ensina, no inverno desfruta.

Conduz tua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela incapacidade.

Quem deseja e não age, procria a pestilência.

O verme perdoa o arado que o cortou.

Enterre-se no rio aquele que ama as águas.

Um tolo não vê a mesma árvore que um sábio vê.

O homem cuja face não brilha jamais se tornará um astro.

A Eternidade está de amores com as produções do tempo.

A abelha diligente não tem tempo para lástimas.

As horas da insensatez são medidas pelo relógio, mas as da sabedoria relógio algum pode marcar.

Todo alimento sadio se consegue sem armadilha ou rede.

Pássaro algum voa alto demais se o faz com as próprias asas,

Um corpo morto não refuta injúrias.




O ato mais sublime consiste em colocar alguém antes de si.

A Loucura é o manto da velhacaria.

A Vergonha é o manto do Orgulho.

As prisões são erguidas com as pedras da Lei e os Bordéis com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a generosidade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza, ri; o excesso de alegria, chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o estrondo do mar tempestuoso, e o gládio destruidor são porções de eternidade grandes demais para o olhar humano.

A raposa condena a armadilha, e não a si mesma.

Alegrias fecundam, tristezas procriam.

Que o homem use os despojos do leão e a mulher o tosão das ovelhas.

Ao pássaro o ninho, à aranha a teia, ao homem a amizade.

O tolo egoísta e sorridente & o tolo carrancudo e triste serão ambos considerados sábios se servirem de exemplo.

O que hoje está provado não passava ontem de imaginação.

O rato, o camundongo, a raposa, o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante espreitam os frutos.

A cisterna contém: a fonte transborda.

Um pensamento enche a imensidade.

Fala sempre o que pensas e os vis te evitarão.

Tudo o que é crível é uma imagem da verdade.

A águia perdeu todo o seu tempo se deixando ensinar pela gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; de dia, age; de tarde, come; de noite, dorme.

Quem permite que o imponhas é porque te conhece.




Assim como o arado obedece a palavras, assim Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Espera veneno das águas paradas.

Só se sabe o que é bastante depois de se saber o que é demais.

Escuta a censura dos tolos! É um privilégio de reis!

Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira nunca pergunta à faia como crescer, nem o leão ao cavalo como abater sua presa.

Quem recebe agradecido produz colheita abundante.

Se outros não tivessem sido tolos, nós é que o seríamos.

A alma do doce deleite jamais será maculada,

Quando vês uma Águia, vês uma porção do Gênio. Ergue tua cabeça!

Como a lagarta escolhe as folhas mais belas para lançar seus ovos, assim o padre lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma pequena flor exige o trabalho de séculos.

A blasfêmia, distende; a bênção, afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.

As preces não aram! Os louvores não colhem.

As alegrias não riem! As tristezas não choram!

A cabeça Sublime, o coração Pathos, o sexo a Beleza, as mãos e os pés Proporção.

Assim como o ar ao pássaro e o mar ao peixe, seja o desprezo ao desprezível.

O corvo gostaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco.

Exuberância é Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, acabaria astuto.

O Progresso constrói estradas retas, mas as estradas tortuosas sem Progresso são os caminhos do Gênio.

Antes matar um infante no berço do que acalentar desejos reprimidos.

Onde o homem falta, a natureza é estéril.

A verdade não deve ser dita para ser apenas compreendida, e não acreditada.

Bastante! Ou demais


Tradução de Ivo Barroso

segunda-feira, 28 de maio de 2012

W.J.SOLHA: ENSAIO




IVO BARROSO E A PROEZA DE TRADUZIR  PEREC



W. J. Solha





            Eis que há cerca de um mês me chegou pelo Sedex um pacote enviado por Ivo Barroso. Dentro da caixa, um exemplar de A Vida modo de usar - de Georges Perec. Ivo traduzira o famoso romance editado pela Companhia das Letras em 1991, e o livro saía novamente, agora, pela série Companhia de Bolso.

            La Vie mode d´emploi,  publicado pela editora parisiense Hachette em 78, demonstrara – depois do Cien Años de Soledad de Gabriel García Márquez, de 65 – que o romance estava muito e muito vivo, ao contrário do que muitos propalavam depois dos aparentes extremos atingidos pelo Ulysses e pelo Finnegans Wake, de Joyce. Ele conta tudo a respeito dos apartamentos e moradores do prédio número 11 da rua Simon-Crubellier, décimo sétimo arrondissement de Paris, e é de um tal exagero de técnica e imaginação, que me pareceu ser a tentativa premeditada, bem sucedida, da construção de um marco literário, tal como fizeram João Martins de Athayde e Leandro Gomes de Barros – guardadas as devidas proporções - com seus cordéis Marco Meio Mundo e Como Derribei o Marco do Meio do Mundo, de 1915 e 1917, onde um se empenhou em criar uma Babel mais delirante do que a do outro.

            É incrível o que Perec faz em quase dez anos de trabalho maluco, na criação desse romance. Nem falo da matemática que aplicou na sua concepção, coisa que Osman Lins fez por aqui em Avalovara, e que arquitetos e pintores têm utilizado em todo o mundo, desde que Virgílio e Fidias, Leonardo e Piero della Francesa, Le Corbusier e o grupo Section d´Or descobriram o calculado macete de que a natureza se serve, através da série Fibonacci, para a reprodução animal ou para a proporção ideal  de uma concha ou a disposição mais coerente das sementes de um girassol. Foram dez anos de trabalho obsessivamente concentrado no registro de pormenores que nos cercam a todos, com paralelo apenas, talvez, nos iguais quase dez anos que o pintor inglês Richard Dadd  levou, preso no Departamento de Lunáticos do Bethlem Royal Hospital de Londres, para pintar todos os detalhes da tela de 54 X 40 centímetros intitulada Golpe de Mestre do Lenhador Mágico. Mas não exatamente. Embora exímio contador de uma centena de pequenas estórias que há no romance (que ele chama de romances), Perec faz com que seus milhares ou milhões de objetos de cena tenham tanto realce no texto, quanto os desenhos dos papéis de parede, das tapeçarias, das toalhas de mesa e dos vestidos que envolvem as figuras retratadas pelo pós-impressionista Edouard Vuillard, ou mais: tudo isso acrescentado de muitas jóias, flores, deteriorações e amarfanhamentos das roupas, como os retratados do americano Ivan Allbright.

            O resultado é exaustivo, mas impressionante. Barroso sabia que eu iria gostar de Perec e,  ao ver meu entusiasmo, lá pela página duzentos, disse-me que aguardasse o capítulo 74. Esse trecho, de fato, é um dos mais fascinantes que li em toda a minha vida. Em Maquinaria do Elevador – Machinerie de l´ascenseur – Perec, depois de descrever todo o edifício, desce conosco a seus segredos inferiores, vasculhando tudo, acabando por nos levar, com  seu exacerbado realismo, para a mais pura e - no caso – inesperada literatura à la Brueghel e Bosch..

Foi nesse ponto da leitura que tive consciência completa do trabalho igualmente minucioso, detalhista, perfeccionista de Ivo Barroso. Apenas com um Virgílio desse poderíamos – em português -  ir tão fundo em La Vie mode d´emploi. Somente com o poeta que escreveu  O Peixe de Neruda e enfrentou a tradução de Baudelaire, Breton, Gide, Malraux, Romain Rolland, Rimbaud e Yourcenar, além de Svevo, Shakespeare e Hesse, entre outros, poderíamos sentir-nos tão à vontade entre tanta extravagância literária.

            Ivo jamais é traditore, apesar de me lembrar o talentoso Ripley, que assume a personalidade de Dickie Greenleaf  - imitando-lhe voz, assinatura e modo de se vestir – até tomar seu lugar, como Matt Demon, nesse filme de Anthony Minghella, toma o de Alain Delon de O Sol por Testemunha, de René Clément. A leitura de Ivo Barroso para La Vie mode d´emploi nos proporciona o mesmo prazer pesado e poderoso que nos dá Miguelângelo na sua versão Rodin.


domingo, 27 de maio de 2012

JORGE TUFIC: ENSAIO


(Ruaz)


Jorge Tufic


II – POESIA

                        Ela vem do grego, poiesís, ‘poesia’,poíema. - atos, ´poema, poesia = poema’ (sendo o épico épos, o lírico mélos); poíetes ‘poeta’; poiétria, ‘poetisa’;poíetikós, ‘poético’; poietikeúomai, poetar, poetizar, são co-radicais derivados do verbo gr. poiéõ, fazer; fabricar, executar, criar, produzir; agir, ser eficaz; compor um poema; conseguir, núcleos semânticos que, de um modo geral, coexistem nas palavras de início referidas (Enciclopédia Mirador Internacional, vol. 16, pag. 9017). Em latim varias palavras dessa origem ocorrem tomadas por empréstimo. Amplia-se, com isso, o território semântico do ‘fazer’, desdobrando-se para artífice, opífice; aplica-se o termo poético como relativo à poesia; poeto, poêtor passa a ter o significado de depoente. Com vários sentidos no grego, poiesís, poesia, é empregada, em Aristóteles, como ‘criação’, em oposição a pràksis, o agir, a ação; em Platão, como gênero poético, em que he poietike ekatéra significa ‘os dois gêneros poéticos’, isto é, a tragédia e a comédia.

                        Tentativas de definição de poesia se acumulam posteriormente, e ao nível da descrição da linguagem valorizam e dão autonomia à palavra poética. No Renascimento, a arte poética, influenciada por Aristóteles, situa-se mais próxima da filosofia que da história. A teoria dos poetas românticos, baseada na existência de um conteúdo psicológico, coloca sua matéria prima na vida dos sentimentos e das emoções. Com Mallarmé, “a poesia é a expressão pela linguagem humana, elevada ao seu ritmo essencial, do sentimento misterioso dos aspectos da existência: ela dota assim de autenticidade nossa vida e constitui a única tarefa espiritual”. Para Novalis, “a poesia é a religião original da humanidade”. “De modo geral, as concepções românticas de poesia não separavam o universo vivido do universo poético. A poesia era dada como imaginação projetiva, captação imediata das emoções e apreensão vivida dos objetos particulares. Os poetas, vinculados à ideologia individualista do liberalismo burguês, davam à poesia a alta função de revelar a verdade humana em sua originalidade” (idem, pág. 9018).

                        A Concepção retórica. “Na Idade Média a arte de fazer versos era denominada segunda retórica, e os poetas, retóricos. Dante resumiu toda a tradição medieval na sua lapidar definição de poesia:“fictio rethorica in musica posita” (ficção retórica musicalmente composta). Essa concepção, em formas mais refinadas, sobreviveu até nossos dias, presente quer na resposta de Mallarmé a Degas (“a poesia se faz com palavras e não com idéias”),quer nas teorias linguísticas ou semiológicas mais recentes. Por essa via, chega-se ao formalismo linguístico, para o qual a poesia é uma máquina de combinações experimentais de palavras, de que resultam significados novos. Dentro dessa perspectiva, não há nenhuma experiência pré-poética capaz de mobilizar a atividade produtora de poesia. Uma série de signos, caprichosamente combinados pelo poeta, é bastante para criar o objeto-poema (Ib., pág. 9018).

                        A Concepção lúdica. “A palavra ritmada e cantada, ligada ao ritual mágico, tinha o sentido de um jogo sagrado. Com o passar do tempo, perdeu seus compromissos com o sagrado, e o ludismo que nela ainda se pode encontrar fica ao nível da palavra, no jogo de suas virtualidades semânticas e sonoras. As unidades materiais desse jogo – as palavras – já não vêm carregadas de seu poder mágico-encantatório. Aspiram a ser tão somente peças de um jogo combinatório que se arma e desarma segundo leis descobertas no próprio ato de fazer.” (Ib., pág. 9018).

                        Registram ainda as Enciclopédias e os tratadistas que nossas teorias são limitadas. Tampouco as metodologias utilizadas, a exemplo da fenomenológica, que busca localizar a poesia em quaisquer dos “estratos ou camadas estruturais, verticalmente articuladas”, conseguem atingir seu pleno objetivo. A experiência que resulta de tais pesquisas remete, pelo contrário, à obtenção de um número cada vez maior de camadas para que se tome consciência da totalidade poética.





JORGE TUFIC: ENSAIO


(Ruaz)

Jorge Tufic

III- ARTE POÉTICA





                        O porquê da arte e do fazer artístico são perguntas que, formuladas de várias maneiras, cada qual dando, a seu modo, a resposta que lhe convém, resultam sempre em justificativas e explicações contraditórias. A necessidade de comunicar-se, o desejo íntimo de confidenciar aos outros um segredo ou uma descoberta, induz o artista, ou praticante acidental de uma arte, quer seja ela de natureza plástica ou verbal, a construir uma ponte destinada ao tráfego de pessoas sensíveis à apreensão de um texto, de um quadro, de uma forma, de um som, de uma palavra. Segundo Celso Kelly, referindo-se exclusivamente ao trabalho do artista plástico, é disto que “saem coisas, compreensíveis ou não, sem qualquer sentido utilitário”. Assim, também, com a poesia.

                        Em seu estudo intitulado “Où en est lá poétique?”, esclarece Michel Gautier que até o século anterior o adjetivo “poético” era utilizado de maneira corrente para qualificar um espetáculo, um objeto, uma paisagem e mesmo um sentimento, assim designando seu conteúdo estético ou simplesmente emotivo. Não foi senão por intermédio de um círculo restrito de poetas que ele tomaria o sentido exato de “proceder, de maneira de fazer belos versos”, tratando-se ainda de ativar os modelos fixos de uma ARTE, mais do que de um verdadeiro conhecimento. As Artes Poéticas mais ou menos disponíveis, de Aristóteles e de Horácio a André Breton,en passant por Lope de Vega, Boileau, Theophile Gautier e Verlaine, em geral são resumos de concepções estéticas e literárias de diferentes épocas onde os poetas, na hipótese de haverem descoberto quaisquer segredos de versificação, faziam disto um segredo ainda maior. A propósito, era bastante conhecida a reserva de Mallarmé sobre os breves rabiscos de suas reflexões; e Valery escreveria seus poemas seguindo uma técnica absolutamente pessoal, que ele resguardava bem de revelar, mesmo a seus amigos.

                        Será, contudo, o adjetivo “poético” anterior ao conceito de poesia? A sobrevivência residual do significado – poético –, com a função apenas de qualificar objetos, eventos e paisagens, não denota realmente sua instigante anterioridade à poesia como arte de escrever em verso, a partir de quando se passa, também, a defini-la e a buscá-la nos diferentes aspectos ligados aos meios de comunicação, da ética, da metafísica e da linguística? Quanto ao poema em si, a definição é de Geir Campos: “Poema – tem esse título qualquer composição literária com valor poético, em VERSO ou não (poema em prosa), e, quando versificado, podendo constar de uma série de VERSOS (ESTÍQUICO) ou de estrofes (ESTRÓFICO), esquematizados ou não em FORMAS FIXAS. Entre as formas fixas cabe mencionar a balada, o canto real, o soneto, o triolé, a espinela, a copla espanhola, a fatrasia francesa, a tanca e o haicai japoneses, o rubai persa, a sextina e a espinela. Entre os poemas estróficos, realçam a Vilanela, o Pantum, a Terça Rima, e o Leixa Prem. Dos ESTÍQUICOS, citem-se os Romances, os Lais, a Balada narrativa, como exemplos. Em muitos casos, a denominação de um POEMA refere-se mais ao assunto do que à forma, como no EPIGRAMA, no UBI SUNT, na PALINÓDIA ou no MADRIGAL, entre outros” (“Pequeno Dicionário de Arte Poética”,Ed. Conquista, 60). Além destes, porém, podemos citar uma longa série de outros, como o poema moderno ou modernista (versos livres), o poema piada (satírico, demolidor), o poema-coisa (descritivo, objetal), o poema-concreto (poesia sem verso), o poema neoconcreto (a experiência poética intuitiva em oposição à estrutura matemática do poema-concreto), o poema-praxis (poesia com verso, novas estruturas, novas relações fônicas), o poema-processo (colagens visuais, poemas-comestíveis-biscoitos, pão: este poema se realiza no ato mesmo do consumo), o poema-de-muro (lançado em Manaus pelo Clube da Madrugada, 1965, ao criar e pesquisar uma linguagem específica de muro, sem a tematização do suporte, não limitada aos fatos que lhe deram origem). Sem dúvida há outros ainda, entre “surgentes” e “insurgentes”.


JORGE TUFIC: ENSAIO

(Ruaz)

Jorge Tufic

Com a transdicção virtual e a técnica singular do fazer, cujo objetivo é o poema, a poesia passou a distinguir-se da literatura como arte de bem escrever, mas, na afirmativa de Cassiano Ricardo, “toda poesia é literatura, sem ser prosa”. Ezra Pound contorna o penhasco e dispara: depois de Stendhal tê-la visto e denunciado, a farolagem poética dos séculos precedentes foi substituída pela nova prosa, que era criação do próprio Stendhal e de Flaubert. A poesia permaneceu então como arte inferior até emparelhar-se com a prosa desses dois autores, o que alcançou fazer, em grande parte, com base no DICHTEN = condensare. “(...) Não quer isso dizer que ela fosse algo mais etéreo e mais imbecil que a prosa, e sim algo que estava carregado de potencial mais elevado”. Tente-se acrescentar ao raciocínio do grande crítico o fato de que esse potencial se enraíza nas formas de arte mais primitivas, com a predominância do mito, que se engendra e se desenvolve na origem da religião, da filosofia e da própria criação estética, sempre carregada de sentimentos e impulsos que medeiam a linguagem dos sonhos. Pouco enfaticamente, no entanto, Pound o reconhece. Homo sapiens, homo faber, homo ludens (Huizinga). O jogo de toda a vida permeado pelos ganchos do sonho, afluentes do mito. Potencial elevado = forma superior de resposta aos atalhos da luz e da treva numa única síntese estabilizadora. Dichten = condensare. As antenas da raça podem estar, de repente, numa espécie de “Canto ao sol da maloca”, na quarta escala vocal de um pajé, ou, simplesmente, num erro de revisão que muda o título de uma crônica de jornal. É o próprio mestre do ABC que ensina: “O som fica melhor lá onde o idioma claudica.”

                        Ora bem, mas não vamos repetir, aqui, uma certa arenga sobre o que seja e o que não seja poesia. A nosso ver, Cassiano Ricardo e os teóricos da poesia concreta já quiseram ou pretenderam esgotar este assunto. Por essa importante contribuição de um passado recente, quem não sabe estabelecer, hoje, a diferença entre prosa e poesia? Prosadores inventivos como Guimarães Rosa e “transformadores” como João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar, revalorizam a linguagem poética no exercício da prosa ou esticam a massa do poema até disfarçá-lo numa outra coisa, aparentemente estranha e sem nome. Isto é poesia. De qualquer modo, porém, um poema é um poema, e uma prosa é uma prosa. Pode também acontecer de um poema não conter nenhuma poesia, seja em versos livres ou não, sendo“escusado dizer (e agora a palavra é de Cassiano Ricardo) que estas distinções de ordem técnica e forma não significam – sob um critério de valor –desconhecer certas obras-primas que são os “poemas em prosa” de Baudelaire (“Petits Poèmes em Prose”), de Rimbaud (“Iluminations”) ou os poemas também em prosa de Saint-John-Perse (“Anabase” ou “Vents”) e, pra não irmos tão longe, os que se praticam entre nós: os de Raul Pompéia, os de Aníbal Machado, os de Manuel Bandeira, os de Mário Quintana etc...”

                        À parte, no entanto, os ismos do ofício, podemos afirmar que a poesia é indefinível, o verso um artifício e o poema um desafio, uma armadilha, algo parecido com a figura emblemática de um touro que se tomasse de asas, para voar. É desse ponto de vista que a criação poética, ao ver de L. Ruas, torna-se um problema complexo, um problema vital do poeta-homem, cuja “situação humana, ou, se quisermos, existencial do poeta não é um simples fato de significação anedótica mas, ao contrário, é algo essencial e inerente à obra de arte” (“Os Graus do Poético”, L. Ruas, Ed. Rio Mar, Manaus-Am, 1979). Encarado, assim, por uma ótica transcendental, o fenômeno da criação poética ou da obra de arte encontra, em Tasso da Silveira, uma síntese perfeita, quando diz: “Na obra de arte se fundem três mistérios diferentes. O mistério do indivíduo, o mistério do ser e o resultante destes dois, a catálise do impulso criador, o mistério da expressão” (idem). Além da forma e da evolução semântica das palavras, além do sentimento do tempo ao longo de anos aprofundado através dos grandes inventores, mudara, porventura, a essência da poesia? Achamos que não. Outras conquistas, é certo, dotaram o faber de novas técnicas e novos processos. Na ponta do exagero, contudo, degringola a cavalice do “pintor” que tenta esboçar uma tela com um rabo de cavalo melado na tinta, e sucumbe o eventual consumidor de LSD quando pensa que, “numa boa”, será capaz de produzir alguma coisa semelhante aos poemas de Vicente Huidobro.


IVO BARROSO: POEMA


(Evelyn de Morgan)


A DANÇA DAS HORAS


Fugìt irreparabile tempus
VIRGÍLIO, Geórgicas
 
 
Dançando as horas se vão
Pelos caminhos do Tempo
Numa leveza de pluma…
Quem vedes na marcação
Do compasso e contratempo ?
- Uma.
 
 
Dançando se vão as horas
Sob os véus de fina gaze
Dançarinas semi-nuas…
Quem dança, das mais sonoras,
Esta belíssima frase?
- Duas.


Rapidamente bailando,
Cada qual mais erradia,
Desfila por sua vez.
E aquela, aos poucos finando
Nos horizontes do dia ?
- Três.
 
 
Vão dançando a tarantela…
- Mas, da última, o perfil
Me parece horrível e atro.
Ah! não falemos daquela;
Esta aqui é mais gentil.
- Quatro.
 
 
Sabeis acaso do nome
Da de vestido de faile
Que lhe queda como um brinco ?
Que pena! Logo se some …
A mais ligeira do baile!
- Cinco.
 
 
E aquela, de azul vestida,
Tão triste no seu bailar,
Seu nome acaso sabeis?
Parece o adeus da partida
Para nunca mais voltar…
- Seis.
 
 
E esta, bailando qual fronde
Ao vento que vem do mar
Em que a lua se reflete ?
Trajada como o “gran’ monde”;
Esbelta no seu bailar ?!
- Sete.
 
 
Vós me enganais no bailar:
Sei que passais sem demora
(Quisera ser tão afoito
Que vos pudesse parar).
Mas, e esta que dança agora ?
- Oito.
 
 
Sob os vestidos de gazes
Trazeis convosco a ruína;
Vosso olhar não me comove,
Falazes horas, falazes…
Mas, e aquela bailarina ?
- Nove.
 
 
Dançou o rápido “allegro”;
Nem sequer o rosto olhou-me
E eu mal notei os seus pés.
E esta, vestida de negro,
Sabeis acaso o seu nome ?
- Dez.
 
 
Agora passam mais lentas:
Vede aquela que aí vem
Dando passadas de bronze
Pelas horas sonolentas…
Que nome será que tem ?
- Onze.
 
 
Aquela outra que se arrasta
Custando tanto a passar,
Que eternamente repouse
Já de tão velha e tão gasta.
Como se deve chamar?
- Doze.
 
 
Fechando o ciclo fugace
A de perfil atro vem
E nos leva em seu transporte.
Pois dessa, de horrenda face,
Dizei-me o nome, se tem?!
- MORTE.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

IVO BARROSO: POEMA


(Bouguereau)


Três sonetes


I

Teu nome nasce em grito no meu peito

Sobe em soluço da garganta à boca
e sai do lábio já num ai desfeito

No espaço, a voz se faz lamentação;
em teu ouvido é uma palavra rouca
e esvai-se em pranto no teu coração

Num sopro débil lentamente desce,
quase em surdina no teu sangue escorre,
ganha teu seio transformado em prece,
chega em tua alma num suspiro e morre.


II

Glória de ser aquele que te afaga!

Há carícias de mar em teu desejo
e há no teu beijo um soluçar de vaga.

Glória de ser alguém que te repele:
há suplícios de sangue no teu beijo
e há volúpias de mágoa em tua pele.

E glória de ser mesmo o que não toca,
o que em sonhar-te apenas se resume,
que a vida nasce dessa tua boca
e a morte chega nesse teu perfume.


III

Nas sombras o teu corpo palpitava...

Havia nessa espera a inquietação
do pássaro ferido que esperava.

Sem ver-te, a minha mão avança e desce;
a carne adivinhando o gesto, e a mão
bem antes de tocá-la se estremece.

Pousa na morna ondulação do busto,
corre e vacila, espera e freme, e roda
pelo teu dorso, já desliza, e em susto
te encontra toda e te ilumina toda.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

IVO BARROSO: POEMA




DESPOJAMENTO 

 
Eliminei o excesso de paisagem

simplifiquei toda a decoração

retirei quadros flores ornamentos

apaguei velas copos guardanapos

e a música



Bani a inutilidade do discurso



Na mesa de madeira

nua

apenas dois pratos

brancos

sem talheres



O banquete será tua presença

terça-feira, 22 de maio de 2012

UM POEMA DE JORGE LUÍS BORGES EM TRADUÇÃO DE W.J.SOLHA


(W.J.Solha)



Outro poema dos dons

Graças quero dar ao divino
Labirinto dos efeitos e causas,
Pela diversidade das criaturas
Que formam este singular universo,
Pela razão, que não cessará de sonhar
Com um plano do labirinto,
Pelo rosto de Helena e perseverança de Ulisses,
Pelo amor que nos deixa ver os outros
Como os vê a divindade,
Pelo firme diamante e a água solta,
Pela Álgebra, palácio de precisos cristais,
Pelas místicas moedas de Ângelo Silêsio,
Por Schopenhauer,
Que talvez decifrou o universo,
Pelo fulgor do fogo,
Que nenhum ser humano pode olhar sem assombro antigo,
Pela acaju, cedro e sândalo
Pelo pão e sal,
Pelo mistério da rosa
Que prodigaliza cor e não a vê,
Por certas vésperas e dias de 1995,
Pelos rijos tropeiros que na planície
arreiam os animais e a alvorada,
Pela manhã em Montevidéu,
Pela arte da amizade,
Pelo último dia de Sócrates,
Pelas palavras que num crepúsculo se disseram
De uma cruz a outra,
Por aquele sonho do Islã que abarcou
Mil noites e uma noite,
Por aquele outro sonho do inferno,
Da torre do fogo que purifica
E das esferas gloriosas,
Por Schwedenborg,
que conversava com os anjos nas ruas de Londres,
Pelos rios secretos e imemoriais
que convergem em mim,
Pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,
Pela espada e pela harpa dos saxões,
Pelo mar, que é um deserto resplendecente
E uma cifra de coisas que não sabemos,
E um epitáfio dos vikings,
Pela música verbal da Inglaterra,
Pela música verbal da Alemanha,
Pelo ouro, que relumbra nos versos,
Pelo épico inverno,
Pelo nome de um livro que não li:
Gesta Dei per Francos,
Por Verlaine, inocente como os pássaros,
Pelo prisma de cristal e o peso do bronze,
Pelas listras do tigre,
Pelas altas torres de San Francisco e da ilha de Manhattan,
Pela manhã no Texas,
Por aquele sevilhano que redigiu a Epístola Moral
e cujo nome, como ele teria preferido, ignoramos,
Por Sêneca e Lucano, de Córdoba,
Que antes do espanhol escreveram
Toda a literatura espanhola.
Pelo geométrico e bizarro xadrez,
Pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,
Pelo olor medicinal dos eucaliptos,
Pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
Pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
Pelo costume,
Que nos repete e nos confirma como um espelho,
Pela manhã que nos dá ilusão de um princípio,
Pela noite, sua treva e astronomia,
Pelo valor e felicidade dos outros,
Pela pátria, sentida nos jasmins
Ou numa velha espada,
Por Whitman e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
Pelo fato de que o poema é inesgotável
E se confunde com a soma das criaturas
E não chegará jamais ao último verso
E varia segundo os homens,
Por Frances Haslam, que pediu perdão aos filhos
Por morrrer tão devagar,
Pelos minutos que precedem o sonho,
Pelo sonho e pela morte,
Esses dois tesouros ocultos,
Pelos íntimos dons que não enumero,
Pela, misteriosa forma do tempo.
(Tradução de W.J.Solha)


Otro poema de los dones

Gracias quiero dar al divino
Laberinto de los efectos y de las causas.
Por la diversidad de las criaturas
Que forman este singular universo,
Por la razón, que no cesará de soñar
Con un plano del laberinto,
Por el rostro de Elena y la perseverancia de Ulises,
Por el amor que nos deja ver a los otros
Como los ve la divinidad,
Por el firme diamante y el agua suelta,
Por el álgebra, palacio de precisos cristales,
Por las místicas monedas de Ángel Silesio,
Por Schopenhauer,
Que acaso descifró el universo,
Por el fulgor del fuego
Que ningún ser humano puede mirar sin un asombro antiguo,
Por la caoba, el cedro y el sándalo,
Por el pan y la sal,
Por el misterio de la rosa
Que prodiga color y que no lo ve,
Por ciertas vísperas y días de 1955,
Por los duros troperos que en la llanura
Arrean los animales y el alba,
Por la mañana en Montevideo,
Por el arte de la amistad,
Por el último día de Sócrates,
Por las palabras que en un crepúsculo se dijeron
De una cruz a otra cruz,
Por aquel sueño del Islam que abarcó
Mil noches y una noche,
Por aquel otro sueño del infierno,
De la torre del fuego que purifica
Y de las esferas gloriosas,
Por Schwedenborg,
Que conversaba con los ángeles en las calles de Londres,
Por los ríos secretos e inmemoriales
Que convergen en mí,
Por el idioma que, hace siglos, hablé en Nortumbría,
Por la espada y el arpa de los sajones,
Por el mar, que es un desierto resplandeciente
Y una cifra de cosas que no sabemos
Y un epitafio de los vikingos,
Por la música verbal de Inglaterra,
Por la música verbal de Alemania,
Por el oro, que relumbra en los versos,
Por el épico invierno,
por el nombre de un libro que no he leído:
Gesta Dei per Francos,
por Verlaine, inocente como los pájaros,
Por el prisma de cristal y la pesa de bronce,
por las rayas del
tigre,
por las altas torres de San Francisco y de la isla de Manhattan,
por la mañana en Texas,
Por aquel sevillano que redactó la Epístola Moral
y cuyo nombre, como él hubiera preferido, ignoramos,
Por Séneca y Lucano, de Córdoba,
Que antes del español escribieron
Toda la literatura española,
Por el geométrico y bizarro ajedrez,
Por la tortuga de Zenón y el mapa de Royce,
por el olor medicinal de los eucaliptos,
Por el lenguaje, que puede simular la sabiduría,
Por el olvido, que anula o modifica el pasado,
Por la costumbre,
Que nos repite y nos confirma como un espejo,
Por la mañana, que nos depara la ilusión de un principio,
Por la noche, su tiniebla y su astronomía,
Por el valor y la felicidad de los otros,
Por la patria, sentida en los jazmines
O en una vieja espada,
Por Whitman y Francisco de Asís, que ya escribieron el poema,
Por el hecho de que el poema es inagotable
Y se confunde con la suma de las criaturas
Y no llegará jamás al último verso
Y varía según los hombres,
Por Frances Haslam, que pidió perdón a sus hijos
Por morir tan despacio,
Por los minutos que preceden al sueño,
Por el sueño y la muerte,
Esos dos tesoros ocultos,
Por los íntimos dones que no enumero,
Por la música, misteriosa forma del tiempo.

JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS: POEMA


(Bosch)

ONTOGÊNESE

Fui há um tempo (marino-seio)
Réptil e peixe – completo –.
(Antes, talvez, seiva
Que herdo em úngula
E cabelo.)



Sou há um tempo (terreno-meio)
Dúctil e feixe – falto –.
(Antes, talvez, veia
Que lego em pústula
E macero.)



Serei há um tempo (aéreo-teio)
Fértil e dêixis – pássaro –,
Ou, enfim, senha
Que levo n’alma
E libero?

JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS: POEMA


(Caravaggio)


MITO

Posto-me, ante isto, num arcado de monge erudito (como se, insonte, fosse/não fosse o lígio).


No fascínio, cumpro os ritos: – Dôo-lhe, servo, pneuma e sangue, exigidos.


Percorro, símile, o plectro vazio, e, nele, o limite, encontro, extravio.


Assimilo instintos, domínios: – Epicentros provo, intuídos; ditames finco, solidos.


Compreendo vezos, carinhos: – Curam, no lanho, pruridos; vazam, no seio, cupidos.


Pelejo lagares defendidos: – Desejo cetros d’ouro, azulegos chucros, interditos.


E, no conflito, ganho, perco: – Amantes, somos, inimigos.