sexta-feira, 30 de março de 2012

EDIR PINA DE BARROS: POEMA


(Dante Gabriele Rossetti)



FOLHAS OUTONAIS


No solo em folhas secas, outonal,
Há rastros dos amores que hei vivido,
E d’outros que pensei houvera tido,
Num mundo que era etéreo e surreal.

E aqui cheguei ao ponto meu final,
Mas nada foi em vão ou foi perdido,
E não me importa quanto hei sofrido,
Pois tudo isso é vida e é normal!

Pisei as flores rubras da paixão,
Dos sonhos tons lilases das hortências,
Sonhei, amei, sofri, enfim, vivi.

Se hoje colho os frutos da estação,
As folhas mortas dessas mil querências,
Eu tudo tive e nada eu perdi.





EDIR PINA DE BARROS: POEMA


(Dante Gabriele Rossetti)


ENLACE FATAL


Chorava, a fonte, a tarde que caia,
Sanguinolenta e triste n’horizonte,
Sangrava a tarde e mais chorava a fonte,
Ao fim do langoroso e triste dia.


Chorava ao ver, da tarde, tal desmonte
A fonte que, de dor, ficou mais fria,
Demais chorou, até ficar vazia,
Sem água sobre a areia fina e insonte.
.
Ai! Como é triste ver morrer a tarde
Ensangüentada e sem fazer alarde,
Entregue, tão passiva, ao por do sol.

Choramos, eu e a fonte, de tristura!
sentindo dentro em nós terna amargura,
ao ver morrer a tarde no arrebol


EDIR PINA DE BARROS: POEMA


(Dante Gabriele Rossetti)


DÚVIDA


Perdida entre anjos sepulcrais,
Caminho sem sentir, da vida, o gosto,
A recordar o vosso jeito e rosto,
Que nunca olvidarei, bem sei, jamais...

Por entre as brumas deste morno agosto,
Andejo a lacrimar meus tristes ais...
Levando em mim as dúvidas mortais,
Se vós me amastes como hei suposto...

No sepulcral silêncio, feito louca,
Sentindo n’alma a dor da indecisão,
Gritei por vosso nome, meu querido...

Pudéreis vós ouvir minha voz rouca,
Que brota do meu imo, coração,
Vós saberíeis como hei sofrido...



EDIR PINA DE BARROS: POEMA


(Dante Gabrielle Rossetti)


CICLOS (VII) – FALENAS


O vento, que balança as belas flores,
Derruba as suas pétalas pequenas,
Beija também teus lábios e melenas,
roubando teus perfumes, teus olores.

E a flutuar nos ares, quais falenas,
As pétalas se vão, feito os amores,
Perdendo, pouco a pouco, as suas cores,
Nas tardes langorosas, mui serenas.

Valsando vão-se as pétalas da vida
Que o tempo aos poucos tira, feito o vento,
Que arranca as folhas mortas, outonais.

Falenas! Flores! Vento! Despedida!
Ciclos vitais! Mudá-los eu nem tento!
Pois nada sou! Sou uma folha a mais.



EDIR PINA DE BARROS: POEMA



(Dante Gabriele Rossetti)

SÚPLICA


Ó, Vênus, que me habita e reina em minhas águas,
diamantinas águas - sonhos meus fluídos –
Senhora dos amores dentro em mim contidos
fontes de meu penar, de mil prazeres, mágoas...

Ó, protetora luz do amor e dos amantes,
com tua força e lume da Crescente Lua,
vem, e ilumina a mim e a minha alma nua,
pois ora estou amando e muito mais que antes.

D’orvalho, as gotas, não rolem em minha face,
diamantinas gotas – filhas de meu pranto –
e não devore o amor, a vida, que é vorace.

Nem morra a força fluída desse meu encanto,
que eu transpire o amor por onde quer que eu passe,
e que m’ encubra sempre seu divino manto.

EDIR PINA DE BARROS: POEMA



(Dante Gabriele Rossetti)


LÁGRIMA


Há de secar a lágrima que rola
E escava a minha face, feito um rio
Na enchente da tristeza e do vazio
Que as margens do meu ser rompe e extrapola.

E rola sobre a face, qual marola
Nas tempestades d’alma em desvario
Depois d’um frio inverno e longo estio
Que a dor, bem lá no imo, se acrisola.

Um rio, que as comportas rompe e vence
Co’a força que é só sua e lhe pertence,
E rola sobre o chão da minha fronte...

Há de secar a lágrima, por certo,
E transformar a alma em um deserto
Sem oásis, miragens, horizonte...

EDIR PINA DE BARROS: POEMA


(Dante Gabriele Rossetti)

SÚPLICA D’AMOR

Depois? Depois não sei! Hão de passar os dias
e o tempo me dirá e nos dirá a vida
se o sonho que sonhei - de amor, por ti, perdida –
transformará em dor as minhas alegrias.

Não sei! Depois não sei... E nem darei guarida
à dúvida cruel, fonte de covardias,
pois hoje quero a luz, desejo as calmarias
dos belos arrebóis e a paz neles contida.

Não me perguntes, não, o que virá depois.
Por que me perguntar? Isso não faz sentido!
Ai! Deixa-me te amar sem nada perguntar,

sem nada a me tolher. Quero sentir nós dois,
viver esta paixão que nunca hei vivido.
Depois?!Eu não sei, não, se vou sorrir, chorar.

sexta-feira, 23 de março de 2012

ROMMEL WERNECK: POEMA


(Arthur Hughes)

NIX

“A noite clareia os olhos do cego”
Hilton Valeriano


Ô, Noite, Noite, uma deusa na eterna primavera
Sorvendo em lágrimas sonhos passados sem destino
Veludo negro voando sem tempo, sem espera


Que cede a glória a período doce e matutino
Ah! Dia, Dia que a vida do Sol canta e venera
Teatro rubro de lúcido fogo cristalino


Porém ao filho soturno da Mãe Melancolia


É sempre Noite suprema, jamais chega a ser dia

quinta-feira, 22 de março de 2012

ROMMEL WERNECK: POEMA


(Dante Gabriele Rossetti)

STELLA MATUTINA


As estrelas são figuras do passado
Que adormecem pálidas pela manhã
E despertam lúgubres de cintilado
Predizendo em plenas trevas o amanhã.

E trajando um manto de nuvens eternas
Elas, santas, sacras, sábias da verdade,
Adornadas sempre por jóias supernas
Resplandecem mesmo na vil tempestade.

Mas ressurge estrela que as outras ofusca
Derrotando a chuva, derrotando a vida...
Nela cada estrela a luz suprema busca

Cada ser procura consolo, esperança...
E a beleza dela é tão grande e perdida
Que a mim seu sublime raio nunca alcança.

ROMMEL WERNECK: POEMA


(John Everett Millais)

TERZA RIMA I


Em teu corpo, enfim, falecer, terminar,
Perder minhas forças, entregar a vida,
Deixar de ser, decair, me matar...


Escravo fiel, uma sombra vencida
Na guerra por teus braços gladiadores
E em teu abandono como suicida


Apanhar de ti, gritar, gozar nas dores
Em êxtases rubros, sádico prazer
Isso é mais sublime que o amor dos amores
Não é amor, é docemente morrer!


ROMMEL WERNECK: POEMA


(Holman Hunt)


A UM EFEBO


Já não és mais imberbe, velho efebo!
Cresceram enfim teus pêlos, teus músculos
E, afogado nos teus alvos crepúsculos,
Contemplo tuas novas formas, Febo!


Muda teu rosto, olhar em que percebo
Que me rejeitas; ó teus vis escrúpulos,
Adolescente, afundam-me em minúsculos
Locais, pois eu virei pobre mancebo.


Fez-te mais belo ainda a Mãe Beleza
E a mim a infância deu com forte horror!
Não te iludas jamais co’a tal nobreza


Pois a beleza não mostrará cor,
Na marcha do mau tempo só vileza:
Sombras e luzes sobre ruga e dor.



ROMMEL WERNECK: POEMA


(Holman Hunt)


PLENO DE ESPLENDOR


"O grito que ora prendo é só por ti..."
Ronaldo Rhusso


Grita a Cruz as virtudes esquecidas
Gotejando fulgores, uns matizes
Que invadem minhas lúgubres feridas...


Há sacrossantas flamas que, em deslizes,
Encantam-me num êxtase de vidas
Dando alvuras aos sonhos infelizes


E penso que és tão pleno de esplendor


Porque o cedes a todos com amor!



ROMMEL WERNECK: POEMA


(Holman Hunt)

CAI O PANO


Desçam as cortinas vis do meu teatro!
Os tecidos pobres que infestam meu ser!
Abandonem suas frisas e lugares!


Acabou mais uma cena minha, partam!
Tudo terminou, melhor, foi quase tudo!
Eu quero beber feliz, mas solitário...


Sozinho chorando as horas finais


Enquanto se rasga o velho véu do templo...

ROMMEL WERNECK: POEMA


(Holman Hunt)


BELEZA



Pétalas belas, pluma bem brilhante,
Brisa tu és, sublime bruma amante,
Que me bebe no abraço brutamente...

Braços abertos, brunos paraísos,
Pelas vagas dos beijos imprecisos,
Pelo bravo brasão palidamente...

Pétalas murcham, plumas caem tortas...


Braços flácidos ficam, brumas mortas...

quarta-feira, 14 de março de 2012

ENSAIO





ABSTRAÇÃO, FIGURAÇÃO E INTEGRAÇÃO: A PINTURA DE FELIPE GÓES





Hilton Valeriano





A arte é o invólucro da verdade.”




Se a arte é a forma visível da representação, o universo temático de Felipe Góes mostra-nos a simbiose entre a abstração e a figuração. Paisagens marcadas por uma luminosidade integradora de cores que proporcionam a impressão de anulação do expectador ante as cenas, ou seja, o sentimento pleno de estar inserido em um espaço de vivência não apreendido reflexivamente. Se no âmbito da fenomenologia a consciência encontra-se sempre em um estado intencional, a pintura de Felipe Góes nos leva ao questionamento da possibilidade de apreensão do real como vivência intencional da subjetividade. O “eu” como oposição ao meio – representado pelas cenas e paisagens – dissolve-se por não se delimitar como consciência reflexiva e sim como sentimento integrado. Uma característica peculiar de sua pintura gerada pelo jogo de cores ou ofuscação parcial de suas diferenças em um processo de luminosidade e leveza. Se for comum a alguns artistas revelarem seu intento, a obra de Felipe Góes traz em si a ocultação pelo jogo expressivo das cores e suas possibilidades de apreensão. Apreensão como vivência não reflexiva. Poderíamos dizer que sua arte não se encerra em um plano conceitual. Outra característica importante de sua pintura é a relação que se estabelece entre a parte abstrata e figurativa de suas telas. A figuração estabelece-se em uma planificação abstrata. Esse plano abstrato é responsável por engendrar a carga significativa da obra. Em suas cenas ou paisagens não há ruptura entre abstração e figuração e sim complementação semântica. Destaquemos alguns paradigmas estéticos de reflexão proporcionados por essa obra autêntica.




1 – As cores não devem apenas prover os sentidos, mas engendrar o sentimento de toda criação.



 A apreensão da obra em seu âmbito figurativo evidencia o plano criativo do artista, mas não como compreensão conceitual ou referência de estéticas que tenham influenciado o pintor em seu gesto criador. A apreensão se dá como participação intersubjetiva, como fruição estética decorrente da conjunção de cores e sua planificação.





2 – O plano figurativo de uma obra pode estruturar-se a partir de uma dimensão abstrata provedora de significação.


As paisagens ou figuras estruturam-se a partir da relação conjuntiva das cores e sua planificação abstrata. A dimensão abstrata apresenta-se como provedora da figuração e significação da obra.





3 – A apreensão de um universo temático como vivência não reflexiva.


O expectador é tomado pelo conjunto figurativo. O contato com a obra dá-se pela imersão vivencial. Vive-se a obra como figuração de uma realidade onde a consciência está imersa como parte integrada e não reflexiva.



4 – A obra como ocultação do intento do artista.


A conjunção entre dimensão abstrata e figurativa gera a multiplicidade de significação. Conseqüentemente o intento criativo do artista torna-se oculto ou obliterado pela vivência subjetiva do expectador.




5 – A obra como jogo de apreensão de vivências mediante a anulação do “eu” expectador.


Na pintura de Felipe Góes traça-se a anulação da consciência reflexiva em prol de uma vivência apreensiva da obra. A pintura de Felipe Góes não pode ser pensada antes de ser vivida em sua significação.





sábado, 10 de março de 2012

POEMA


(Turner)


NO ÚLTIMO JULGAMENTO

Somente o amor e suas consolações. A minúcia das horas e o amparo dos dias. Em cada gesto um tributo ao tempo. Mãos que se unem em presença vivida. Lívido e incólume, o olhar sobre o definitivo. As insinuações de outrora rememoradas em resignação, os equívocos destituídos de significação. No último julgamento não se prescinde da culpa.  Uma rosa fenece sobre o estio. Para a consumação de todas as esperanças.


sexta-feira, 9 de março de 2012

POEMA


(Turner)

O IRREMEDIÁVEL

Porque agora atravessamos o horizonte fixo do silêncio. Como outrora, a luz ilumina a esperança de certezas rudimentares. Cálido é o amor e simples como a água dos cântaros. Saciamos a sede do afeto remido. Do amparo exímio. Isentos da solidão sedimentada e da graça exclusa, de alguma forma antecipamos a recompensa de ser. A lucidez de persistir ante o irremediável e de acreditar ante a perda do que nunca possuímos derradeiramente. Caminhamos sobre o infinito de nossos passos.



quinta-feira, 8 de março de 2012

AFORISMO


(Miró)


"A poesia é o lamento dos homens por não compreenderem o canto dos pássaros."

Felipe Stefani

quarta-feira, 7 de março de 2012

VIRNA TEIXEIRA: POEMA


(Ruaz)


PORTRAIT

os olhos dele
uma gaiola

onde um
pássaro

às vezes,
canta



terça-feira, 6 de março de 2012

ENTREVISTA COM O ROMANCISTA CARLOS TRIGUEIRO



1 – Quando ocorreu seu contato inicial com a literatura? Quais são suas influências literárias e quais escritores contemporâneos você destacaria na cena atual da literatura brasileira?

CT: Meu pai era Mestre de Banda Militar e, quando em casa, costumava cantarolar marchas, canções e dobrados. Versos musicados de Catulo da Paixão Cearense, Olavo Bilac, Evaristo da Veiga, dentre outros, embalaram meu sono e meus sonhos nas redes daquela Manaus do segundo pós-guerra. Por outro lado, minha mãe, nascida e criada à beira de rios e igarapés no interior do Amazonas, costumava recitar, durante as suas fainas domésticas, poemas que exaltavam a vida dos caboclos ribeirinhos e os mistérios e encantos da floresta. Versos do poeta regional, Hemetério Cabrinha, ficaram para sempre na minha memória.  Mas a centelha que deflagrou o meu entusiasmo pela literatura foi o prêmio escolar que ganhei aos 10 anos de idade, já vivendo em Fortaleza, Ceará: “As aventuras de Tom Sawyer – de Mark Twain – o primeiro livro de ficção que eu li –– e também a minha primeira paixão literária.

A leitura apurada de muitos autores, ao longo de pelo menos 50 anos, muito contribuiu na construção do meu fazer literário. Se influência não for a palavra certa, digo que li e reli sem obedecer a nenhum critério, principalmente: Mark Twain, Poe, Hemingway,  Borges, Osman Lins, Kafka, Gabriel Garcia Marquez, José Bergamin, Octavio Paz, Natalia Ginzburg, Balzac, Saramago, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Joyce, Camus, José de Alencar, Proust, Arthur Azevedo. E Maupassant, José Gomes Ferreira, Camões, Goethe, Flaubert, Shakespeare, Moliére, Herman Melville, Euclydes da Cunha, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Lawrence Sterne, Ítalo Svevo, Juan Carlos Onetti, Ernesto Sábato, Salinger, Rui Barbosa, Abade Prévost. E Lope de Vega, Dostoievsky, Pedro Nava, Freud, Camilo José Cela, Juan José Millás, Dickens, Nelson Rodrigues, Eça, Tolstoi, Tchekhov, Gorki, Confúcio, Sartre, Vargas Llosa, Santo Agostinho, Bioy Casares, Moravia. E os escribas que compuseram a Bíblia e “As Mil e Uma Noites”. Quanto à cena atual da literatura brasileira, bons autores há, mas com uma longa escalada para atingir o patamar dos escritores apaixonantes e inesquecíveis.

2 – Em seu livro de contos Confissões de um Anjo da Guarda, você usa a ironia, o humor e o sarcasmo como instrumental lingüístico. Um recurso literário que proporciona no livro como um todo desfechos reflexivos, ou seja, no final de cada conto o leitor é tomado por uma espécie de estranhamento que o leva a inúmeros questionamentos. Comente essa dimensão de sua escrita.

CT: A ironia e o sarcasmo se bem utilizados podem sacudir os credos do leitor. Na nossa cultura religiosa, bíblica e dogmática, onde aparições, milagres e fatos inexplicáveis são amparados por sofismas como “Mistérios da Fé”, julguei o onividente Anjo da Guarda um narrador ideal para avaliar os percalços da condição humana. Assim, os contos narrados pelo Anjo Mahlaliel, contêm uma dialética licenciosa que pode levar um atento leitor à reflexão. Hoje, vivemos sob o domínio das tecnologias, dos automatismos e respostas prontas “on line”, do marketing consumista massificado pela TV, de modo que quase nunca nos observamos interiormente ou olhamos entorno para meditar e refletir sobre esses abismos da alienação contemporânea –– esses vazios de reflexões sobre os desconcertos do mundo.

3 – Como se deu a composição do livro Confissões de um Anjo da Guarda?

CT: Foi lenta, e durou anos. E como a maioria dos meus livros, teve várias formas até chegar à versão que julguei consentânea com a proposta confessional de um Anjo da Guarda. Curiosamente, a única idéia imutável durante a composição do livro, foi a sua capa: um anjo meio ajoelhado e de olhar espantado, escrevendo com uma pena clássica num livrão bem aberto. A figura foi extraída de um detalhe do óleo de 1521, “Madonna com Il Bambino”, do notável pintor veneziano, Lorenzo Lotto, obra da Alta Renascença e que está na Igreja de San Bernardino (Bergamo, Itália). Quando vi a pintura pela primeira vez, há muitos e muitos anos, imediatamente me veio a ideia da capa para o livro. Voltando ao livro em si, convém registrar que “Confissões de um anjo da guarda”, mesmo na versão final, foi recusado formalmente por mais de uma dezena de editoras, até chegar à Bertrand Brasil que o publicou.

4 – No romance Libido aos pedaços temos a temática da sexualidade, das complexas relações familiares em torno do sexo e seus estigmas morais. Como você vê a temática em questão na literatura contemporânea e seu tabu em nossa sociedade? Seria o maior desafio para um escritor que aborda essa temática a banalização que o mesmo tema passa em nossa época?

CT: Os temas da violência, do sexo e das drogas em conjunto estigmatizaram grande parte da literatura contemporânea, e isso se vê nos “best-sellers” nacionais e internacionais. Em geral, são abordagens não distantes daquelas exploradas por meios midiáticos sensacionalistas impressos ou eletrônicos. Claro que vivemos numa época em que a velocidade das inovações tecnológicas impacta os comportamentos sociais, os costumes e a cultura dos povos. Entretanto, no Oriente, parece que filtros culturais milenares ainda preservam a literatura de tais banalizações, mormente em termos de parâmetros da sexualidade. Tenho dito que o próprio sentimento do amor também já se submete, por exemplo, à revolução digital. Sim, antropólogos também dizem que estamos amando pelos dedos. Tanto faz digitar que estamos apaixonados ou que “o nosso amor era pouco e se acabou. Basta clicar “enviar” numa geringonça eletrônica e... pronto. Estamos redimensionando sentimento, distância e tempo simultaneamente para caber tudo nos impulsos e, quem sabe, nos orgasmos informáticos.

Em “Libido aos pedaços” o tema da sexualidade, e, até certo ponto, das drogas, é abordado, digamos, de forma dramática e psicológica, num contexto de romantismo, mas sem falso moralismo, sem apelos a pieguices e sem cair na banalização do “vapt-vupt” sexual. É uma tentativa talvez pretensiosa, de trazer a complexidade das atrações amorosas espúrias, ou seja, no âmbito familiar, para um debate entre especialistas, estudiosos do comportamento humano, ainda que no âmbito ficcional, pois os recursos da ficção literária reluzem matizes pouco ou, talvez, nunca explorados.
Penso que o grande desafio do escritor que aborda essa temática é preservar o papel sagrado do livro. E numa analogia com o que pregava Roland Barthes, o leitor não quer a paixão textualizada em linguagem chula, em palavrório e cicios onomatopaicos a traduzir contrações e ejaculações, mas, sim, a imagem literária da paixão. E isso só é possível construir com recursos e figuras dignos da Literatura maiúscula. Caso contrário, descrições sexíferas, palavrões excessivos, repetitivos ou descabidos (como acontece hoje no nosso Teatro) borram o papel sagrado do livro que, desse modo, vira panfleto de bordel, papel de embrulho, papel ordinário, ou reles papel sanitário.

5 – Qual seria a função da ficção literária em nosso tempo?

CT: Aqui, não sou nada original, e perfilho as idéias de Ernesto Sábato ao dizer que os verdadeiros escritores são aqueles que sentem a necessidade obsessiva de dar testemunho de seu tempo, de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão, de suas fraquezas.  Além disso, considero a ficção literária também uma obra de arte como o teatro, o cinema, a pintura, ou a música. Mas vejo-a ainda como um espasmo doloroso ou prazeroso da alma sob a tônica da efemeridade. E se a literatura de ficção tiver alguma função em nosso tempo ou algum objetivo digno, esse será sempre a constatação da trágica dualidade do homem. Sim, esse ser de carne e osso, magnífico nas suas emoções e paixões, porém corruptível, vil nas suas imundícies e tentações infernais, nos seus pesadelos, assaltado pela consciência da sua precariedade temporal, pela avidez de uma imortalidade inalcançável, e pela constatação do seu destino desesperado, infalível e mortal.
Aliás, no romance “Libido aos pedaços” há muitos e variados diálogos, aforismos e reflexões dos personagens sobre essa precariedade temporal da condição humana. E isso é coerente com os pensamentos acima alinhados, pois vários personagens do romance também são escritores, ou seja, mártires da história, ou como diria Sábato, testemunhas de uma época, mártires de seu tempo.

Carlos Trigueiro, Rio, 06.03.2012.

domingo, 4 de março de 2012

SUSANNA BUSATO: POEMA


(Tàpies)


Pele nua  

Porque a tua
mão segura
ruptura de pele
e agulha
patrulha e segue
a minha insondável
nervura.

E porque nunca
antes tocada
a pele segura
se rasga
no paraíso e grava
língua sede e saga

SUSANNA BUSATO: POEMA


(Franz Kline)


Postes

Na resistência da tarde
espreito esquinas:
solitários, os postes se
entreolham se
desejam nas
vielas e
virilhas


SUSANNA BUSATO: POEMA


(Gabriel Ferreira)


Exercício 2

Com os pingos nos is
com os últimos óooossss, assim,
acentuados
pra estancar de vez o fato
e dissipar
todas as vírgulas.
Detesto as vírgulas
que se desejam anzóis na garganta;
prefiro as reticências
brotando
um beijo...
na boca...na boca...
ainda na...minha boca.


SUSANNA BUSATO: POEMA


(Ismael Nery)

Exercício 1

Exercício das facas:
com as faces voltadas
para dentro da carne
doar-se
até que a dor conduza o ato,
até que o fato se consuma,
até que a aguda flor se foda
em talo e folha e ruínas.