segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O ROMANCE CATÓLICO: OCTÁVIO DE FARIA

(Bosch)
Padre Luís hesitava. Diria que sim? Diria tudo? Diria que era preciso velar eternamente, incessantemente, até a consumação dos séculos, com o Cristo em agonia, segundo a grande palavra cristã que repetia sempre? Daria àquela alma inquieta, já torturada, as chaves para a penetração no grande mistério da agonia perene do Cristo, que lhe parecia ser o Supremo mistério da vida de cada criatura? Daria o brado de alarme naquela natureza sensível, covarde diante do sofrimento?
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- Escute uma coisa, Ivo – preste bem atenção, porque é coisa que você precisa saber para a vida toda, coisa essencial para todos os homens e que só talvez quando vier a velhice ou o perfeito amadurecimento de seu espírito, você compreenderá direito: só há verdadeira serenidade em Deus. Só em Deus, compreende? Tudo o mais é agitação incessante, são tranqüilidades que, na verdade, não duram todas mais de um instante. São descansos, pequenas paradas – quando não são apenas o primeiro degrau de um novo inferno, ainda velado...
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Estava correndo um sério perigo e não havia como evitar o sofrimento iminente. Possuído de uma grande emoção, pensou quanto era profundamente triste aquela situação: a vida vinha a Ivo em toda a sua grandeza, e ele, pela natureza, pelas suas qualidades, podia e merecia aceitá-la nobremente. Todavia, eis que, nessa vida apenas ainda no horizonte, já o tentador se introduzira. E procuraria, agora, dominar tudo, perverter Ivo, deformando o simples oferecimento da vida, a tomada de contato no momento das grandes dádivas e dos compromissos decisivos.
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A compreensão da importância e das dificuldades da luta exaltam padre Luís. Está disposto a tudo para não falhar. E, de joelhos diante do Cristo crucificado – desse Cristo que para ele é, acima de tudo, o Cristo em agonia até o fim dos séculos – implora que não seja abandonado na sua tarefa e tenha a força e a confiança necessárias para a luta que pressente em toda a sua violência e nas suas imensas dificuldades. Não se ilude: terá que sustentar nos ombros todo um mundo e os ombros de um homem, mesmo os de um padre, são muito fracos. – Qualquer peso os faz vergar até o chão, se a mão de Deus não estiver servindo de contrapeso. – Os ombros de um padre, sobretudo os de um padre, talvez de todos os homens o mais fraco, o que mais sente o peso terrível da condição humana...

Nem por um momento se ilude sobre as dificuldades. Sente-se mesmo a presa de uma grande angústia. E desde então até a madrugada que lhe traz enfim o sono, é como se soubesse, se pudesse adivinhar, que numa casa, distante apenas alguns quarteirões, numa cama revolvida pelo desatino, imagens impuras triunfaram sobre todas as proibições e se impuseram a Ivo como o mais irreprimível e legítimo apelo da vida.
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Certas naturezas precisam de amizade para desabrochar inteiramente. São como flor ainda fechada que exige o ar da noite para mostrar como é, que mistérios abriga. Sem um clima especial de penumbra e de secretas confidências, de conspiração a dois contra o resto do mundo, essas criaturas, especialmente marcadas para a incompreensão, permanecem muradas por detrás de suas defesas e nada conseguem comunicar aos que vem a elas. Não existem para o simples uso diário, para conversas despreocupadas entre camaradas que se entendem, mas para os longos caminhos que a amizade faz nos momentos de crise e de alegria profunda.
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Será preciso o longo e doloroso aprendizado da vida para que nos eduquemos melhor para o acolhimento dos grandes sentimentos necessários.

Mundos Mortos. Ed. Record.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

É NATAL: POEMA DE EUNICE ARRUDA

(Bradí Barth)

MENSAGEM

É
Natal
novamente
onde estamos
e onde não estamos

Nas ruas
nas noites enfeitadas
o Natal chega
passo a passo
em cada dia de dezembro
E não há como fugir
já não há onde esconder
o encontro é inevitável
Há que se aproximar então
o coração aberto
o afeto dilatado
Deixar
se desprender de nós
fardos desnecessários
forjados impedimentos
e aceitar
Aceitar esta carga – condição de ser humano

É Natal
Há que se respirar
com novo fôlego
um outro ar
aqui
onde estamos
e onde jamais estaremos
o Natal nos transporta
como um barco incansável

É preciso deixar
esta água
fluir
é precisão aceitar
o mistério das fontes

Não podemos deixar morrer nenhum nascimento

Poema do Livro Risco. Ed. Nankin

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

UM POEMA DE JÚLIO RODRIGUES CORREIA


PAISAGEM DA MEMÓRIA

Os olhos da memória

de criança-menino

viam sempre

as mesmas coisas,

casas meia-águas

circundando a praça

a mata ciliar

sobreando o regato

os carros de boi

rangendo suas dores

na árida e absurda

inclinação da ladeira

as mulheres beatas

acendendo velas

no pátio da igreja

e um bando de meninos

inconsequentes

atirando pedras

nas mangueiras

no interior da casa

o sal do tempo

conservava a fotografia

dos mortos.

MUNCH


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

ENTREVISTA COM O POETA MAJELA COLARES




1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?


Meu contato inicial com a poesia ocorreu através dos Romances de Feira, hoje conhecidos por Cordéis, quando menino. Lia-os intensivamente. Era uma leitura sempre muito emocionante. Romance do Pavão Misterioso, Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, As Aventuras de João Grilo, A Morte dos Doze Pares de França, (uma versão da canção de Rolando em cordel), estes são os que mais marcaram minhas lembranças. Eram leituras que eu fazia às vezes solitariamente e em outros momentos lia, com muita empolgação, em voz alta, para os amigos. Outra forma de poesia que tive contato muito cedo, talvez antes mesmo dos cordéis, foi a Cantoria. O verso improvisado. Mestres do improviso como Antônio Nunes de França, Dimas Batista, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Diniz Vitorino, dentre outros, foram os primeiros que ouvi improvisando um Galope à beira-mar, um Martelo Alagoano, um Mourão voltado, um Quadrão Mineiro, um Desafio. Esse contato inicial foi com a poesia popular nordestina. Com o tempo, misturou-se a essa experiência popular, as leituras dos clássicos. Primeiramente Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Camões...


2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?

Não existe um procedimento padrão. O poema emerge espontaneamente. Não escrevo poemas quando me encontro em estado emotivo, quer proveniente de uma situação agradável ou desagradável, (estado de inspiração), nem tão pouco em momentos puramente racionais (estado cerebral). O poema dá sinais... pisca o olho... sorri... no mais das vezes, de início, apenas capto a idéia. O momento de elaboração de um poema, em mim, acontece quando me aproximo o máximo dele, é uma sensação muito boa. É um estado que vai além da razão e da emoção, um estado que não sei definir... apenas percebo quando atinjo. Aí o poema começa a ganhar forma. Somente o que escrevo nesse estado que a mente alcança, para mim indefinido e imprescindível, é que considero poesia.

3) – O que é poesia para Majela Colares?

Conheço duas definições de poesia que acho maravilhosas. Uma afirma: “a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer”. A outra definição diz: “poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”. São definições inteligentes que podem levar a outras. Eu nunca pensei em definir poesia. Poderia, no rastro das anteriores, afirmar: “poesia é algo que de forma alguma pode ser dito e, de repente, alguém diz”. Penso, no entanto, que poesia é muito mais do que isto. Enfim é algo indefinível.

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?

O atual momento da poesia brasileira é muito rico e marcante, no entanto pouco explorado. Existem grandes poetas escrevendo na atualidade. Nomes que merecem muito mais respeito, admiração e divulgação... que deveriam estar em seus verdadeiros e devidos lugares. Existe também muita gente sendo aclamada de poeta, nomes bastante famosos, e tudo o que escrevem ou escreveram de poesia não tem absolutamente nada. São meramente produtos da mídia. Não citarei nomes... com certeza cometeria injustiça. Esta diferenciação de quem é poeta e quem não é, de quem realmente é grande poeta, ou não, o tempo cuidará de fazê-la.

5) – Sendo um representante da poesia nordestina, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda?

Escrevo poesia por necessidade existencial. Para responder, às vezes, inconscientemente questionamentos que me surgem até em sonhos. Ou num sinal de transito. A estética do poema, penso ser fundamental e muito tenho trabalhado isso. A tradição poética é, a meu ver, elemento imprescindível para a construção de uma obra poética. Um movimento de vanguarda é importante na medida da qualidade poética, estética e de pensamento que venha apresentar como alternativa para um estilo já existente. Em meu primeiro livro Confissão de Dívida, encontra-se poemas concretos, poemas visuais, sonetos, oitavas camonianas, poemas em versos livres... no segundo livro Outono de Pedra, (que é um poema único, longo) encontra-se tudo isso e mais algumas passagens onde entra a estética do cantador-repentista nordestino. Tudo isso foi resultado de leituras e influencias. Mas com o passar do tempo tomei consciência do que realmente a poesia queria de mim. As influencias das vanguardas passaram e restaram apenas alguns bons experimentos. Hoje ainda adoto estéticas variadas, mas a minha grande preocupação e comprometimento esta com a inovação da linguagem poética, com a fundição do signo, a implosão da sintaxe. Quanto ao fato de ser um representante da poesia nordestina me orgulha muito, mas não enxergo a coisa bem assim. Penso que ao invés de representantes regionais: sulistas, nortistas, mineiros, paulistas, cariocas, nordestinos, existem representantes da poesia brasileira. Trabalho para ser um deles.

6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

Se a inovação for pra melhor é necessária. Sempre será. Se analisarmos Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, (nordestinos), Mario Quintana, (gaucho) e Carlos Drummond Andrade, (mineiro), verificaremos que existem diferenças estéticas e temáticas, mas nenhuma se identifica mais com esta ou com aquela região. (Com exceção à temática de João Cabral). Penso não existir uma tradição perene em regiões específicas do nosso país.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Que leiam muito, principalmente poesia... que o ato de leitura seja dez, vinte, cem vezes mais frequente do que o ato de escrever.


POEMAS DE MAJELA CORALES

O PASTOR E SUA ALDEIA

A Altino Caixeta de Castro

Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga

o ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido

muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão

trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas

no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia

pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos

trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela

despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria

canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)

o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão – eterna aldeia


UM POEMA DE PASSAGEM

tinha a voz da palavra em seu silêncio
e a presença... tinha imagem
eram sombras – um poema de passagem

tinha formas rondando o pensamento
no semblante uma miragem
eram rastros – um poema de passagem

tinha um gesto pousado sobre a fronte
neste gesto uma linguagem
eram versos – um poema de passagem

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Alumbrado na tarde derradeira
que se fez infinita por um gesto
na lapela guardou a tarde inteira

e se foi pelas sombras, rumo incerto
só ficou no momento a voz poente
um sublime momento que foi resto

de vozes inconclusas quando ausente
o sensato limite do restrito
e no extremo da linha congruente

as mãos postas continham o infinito


MOTIVOS PARA UM POEMA

na frieza do papel nasce o poema
que há muito contornava minha mão

na incerteza dos dedos, o dilema

em fazer um poema sem razão
mas o verso não surge por acaso

sempre tem um segredo, um senão

desenhado na face, no sorriso
que sorri outra face com ternura

- o rosto imaginado – só por isso
a razão do poema é razão pura


SALMO PARA ENCANTAR A VIDA

Para Elisa, minha mãe

um mistério, o terço, um escapulário
nos olhos murmúrios, reza e segredos

cantos e salmos – um Santo Sudário

tecido de fé, tingido entre os dedos
palavras e ritos, gestos e encantos

a vida e a morte: os mesmos enredos

o instante sagrado, inerte e sereno
repousa entre as mãos, o instante mais calmo

o Céu vem dos céus – o mundo é pequeno
sublime é o canto, os gestos e o salmo


A COR DO SONHO POR DENTRO

nada mais ao tormento me antecipa
- o silêncio, a palavra, a dor, o riso

o medo a cada instante se dissipa

rompendo a insensatez do tempo omisso
vai além dos tormentos sem princípios

o silêncio inundando o som conciso

preso ao rosto – meu rosto entediado
de palavras, de dor, de riso e tudo

mas das sombras emerge do meu lado
a beleza invadindo o corpo mudo


O HOMEM PELO HOMEM

naquela noite eu não podia, pense
deixar meu gesto preso no sapato

fingir que flores surgem do cimento

depois voltar imune pro meu quarto
pensar talvez, um tanto inconseqüente

que no futuro só serei retrato

naquela noite eu não podia apenas
deixar que um susto fosse meu receio

tinha que ter em meu semblante, pense
meio sorriso laminado ao meio


MINHA ALDEIA E MEUS CHINELOS

em meus chinelos trago a minha aldeia
sob meu rastro tatuada e eterna

meu trisavô pulsando em minhas veias

minha palavra é sua voz interna
o seu olhar em meu sorriso sonha

em meu sorriso, seu olhar hiberna

a minha aldeia segue o meu destino
meu trisavô em mim refaz seus elos

se no universo penso e me confino
é que meu mundo trago em meus chinelos

Poemas do livro As cores do tempo. Ed. Calibán

O SEGUNDO BEIJO: POEMA DE BERNARDO LINHARES


O SEGUNDO BEIJO

Para a Perine

Língua na língua,
língua nos dentes
língua nos lábios
beijo meu,
estou com ela na boca...
Boca que beija
boca que morde
boca que age.
Beijo meu,
estou com ela na boca
e mais ainda
quero que sinta a língua
língua que lambe
língua que trança
língua que arde.
Beijo meu,
estou com água na boca
estou com ela na boca
e nada, nada é igual,
a sentir nos seus lábios carnudos
depois que desnudo
na minha boca beijo meu,
o doce do seu sal.

O PRIMEIRO BEIJO: POEMA DE BERNARDO LINHARES




O PRIMEIRO BEIJO

Consagrado
onde o cupido
fez sua morada,
solto na língua,
preso nos lábios,
o amor é o gosto
que tempera a fome
da boca que prova
a felicidade.

MONET IV


A COMPREENSÃO POÉTICA



Há diversas maneiras de compreender a cultura desenvolvida por um povo ou civilização e sua tradição específica, mas nenhuma se compara a compreensão adquirida através do estudo da poesia produzida pelos seus poetas, independentemente do grau de complexidade, estilo e gênero poético (maior ou menor, erudito ou popular) que possam receber ou ter recebido da crítica especializada. Também se enquadram nessa concepção as denominadas culturas locais, ou seja, as que se desenvolvem em determinadas regiões representativas do mesmo país e etnia, mas que se diferenciam do todo pelas suas peculiaridades. O que apenas evidencia a dimensão heterogênea e dinâmica constitutiva de toda cultura.

Compreender o universo poético de um povo pode ser a chave para um entendimento mais aprofundado das razões que justificaram a unidade de sentido que marcou e configurou a época desse mesmo povo como obra de cultura. Visto que a linguagem é a revelação do humano por excelência e também o limite de suas possibilidades expressivas, segundo o filósofo Ludwig Wittgenstein, esse processo de compreensão pode ocorrer devido ao fato de que, ao contrário de obras escritas em prosa, a criação poética faz uso da especificidade lingüística inerente em cada povo e sua estrutura gramatical correspondente, o que, por sinal, delimita sua mensagem ao mecanismo da linguagem em questão. Esse fato foi também o motivo principal e mesmo determinante das inúmeras discussões e debates de ordem teórica que surgiram em torno da possibilidade ou não da tradução poética e de sua validade epistemológica. Penso que, apesar da relevância dessa problemática, o simples fato de se poder compreender as “leis” de uma língua possibilita o acesso a sua estrutura semântica e torna possível a compreensão das intenções do autor.

Sendo um artefato do espírito, a poesia promove a interação do indivíduo com o universal e sua efetiva integração na medida em que o poeta, em sua singularidade e subjetividade, pode representar todas as características formativas do gênero ao qual pertence: a humanidade. Em outras palavras, o poeta pode vivenciar o “sentimento do mundo”, como se expressou de forma memorável o grande poeta Carlos Drummond de Andrade.

Ao encarnar a compreensão poética de seu tempo, o poeta torna-se porta-voz do universal. No âmbito das apreensões imediatas, sua visão é sempre transfiguradora da realidade circundante ao qual se encontra inserido. O óbvio é apenas o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo devido ao predomínio de uma perspectiva utilitarista de vida. A tentativa de compreensão desse universo poético, exercida por uma cultura posterior, permite o acesso ao anseio universal presente no ideal humano característico de todo povo e eternizado em suas obras poéticas.

Podemos fazer a seguinte interrogação: o que existe de mais humano em um povo ou civilização? Eu afirmaria, sem dúvida alguma, que é sua poesia e suas múltiplas expressões. Não me refiro apenas ao conceito tradicional de poesia escrita, mas também a dimensão poética presente em seus templos, arquiteturas, músicas, danças, pinturas e ritos religiosos. Assim, a morte eminente de uma cultura poderia ser constatada a partir do momento em que essa mesma cultura se torna incapaz de produzir poesia. A ausência de poetas seria a certeza da desumanização de um povo ou mesmo de uma civilização.


Hilton Valeriano

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SENSIBILIDADE FEMININA : A PROSA POÉTICA DE LARA BARROS


DISPERSA

Costumo acender as luzes, mas às vezes, admiro o escuro, quieto, oculto, aguçando os meus tímpanos a ouvir os ruídos mais sutis. Apago as luzes, e logo sinto falta do brilho, do óbvio, das cores que despertam os meus olhos. E meia luz? Eu imagino a dois, e logo a um só, juntos, envolvidos, e à uma luz branda, expostos. Na penumbra, os olhos se fecham, as mãos se encontram, e a luz mecânica, torna-se figurante deste cenário coberto por lençóis de volúpia.


NADA SOLENE ...

No bolero branco franzido, cordões prateados penduravam-se por entre feixes. A cada cumprimento alargavam-se as relações e os embrulhos descobertos por suas mãos céleres, davam lugar a essência deles, de forma que os engodos eram frequentes e não raramente tamanha surpresa.


Nos olhos a alegria constante, nos lábios a certeza do sucesso e no coração, as batidas firmes e conexas.


A recepção era calorosa, embutida em abraços e beijos, no ritmo do partido alto que se alcançava logo na chegada, onde os pés riscavam o chão, e as mãos batiam nas bordas das mesinhas de madeira rústica.


Uma estrela, que brilha onde quer que chegue, não deixa rastros e sim lembranças inesquecíveis...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

UM POEMA DE NYDIA BONETTI


IMPROVÁVEL SOL

o pássaro que mora em mim insiste e canta
pressentindo sóis

nascentes

tolo, não se deu conta ainda, de que a noite
abissal em que vive

nunca amanhece

domingo, 13 de dezembro de 2009

UM POEMA DE BERNARDO LINHARES



ROSA

Linda de todos os lados ainda,
colorindo com encanto
as flores da campina,
a rosa menina
para nosso deleite
e graça do bem-me-quer,
pétala por pétala,
eis a rosa mulher.
Na fina flor da idade
descrevê-la no verso
e reverso que aflora,
lírio colírio,
tantas flores de retórica.
Amarela, vermelha, violeta, branca,
ela é a fragrância da flor
que reflete o sol.
Quando floresce,
cresce tua graça meiga e singela,
a graça do amor que seduz o beija-flor
que beija essa rosa
mimosa, mulher e menina,
linda de todos os lados ainda.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


CONSEQUÊNCIAS

Lágrimas, apenas,

e a certeza

de que tudo

passou.

Às conseqüências,

somente o indulto

do esquecimento.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009


SÃO JERÔNIMO (Caravaggio)

Na complacência de tua ira,

olhastes a miséria de vossa criação:

orgulho, pó e cinzas.


Na aridez de teus mandamentos,

a Verdade sobre a vida.

ENTREVISTA COM A POETA EUNICE ARRUDA


1) Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?


Meu contato inicial com a poesia ocorreu quando eu tinha aproximadamente uns treze anos, na minha cidade natal, ou seja, Santa Rita do Passa Quatro (SP). Um jovem amigo me mostrou um poema, rimado e metrificado. Fiquei impressionada com a linguagem: artificial, com um ar estrangeiro. A partir de então passei a escrever compulsivamente. Compreendi, já naquele momento, que esta seria a forma de me comunicar. Se não a única, mas, a mais eficaz. E acho que não estava equivocada. Após anos de exercício abandonei a métrica, a rima, os pontos, as vírgulas, mas não o rigor.

2) Como é seu procedimento ao escrever um poema?

Há dois procedimentos básicos que se alternam: ou o texto chega repentinamente como eu coloco no poema “Um visitante”:


Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Ou chega aos poucos, pedaço por pedaço, como coloco no poema “Ampliação”:

Construo o poema

peda-
ço por
pedaço

Construo um
pedaço de
mim
em cada poema

3) O que é poesia para Eunice de Arruda?


Escrevo e reescrevo sempre. Sem nenhum descanso no algodão das nuvens. É um caminho, quase invisível. Uma necessidade de captar as emoções, os pensamento e devolvê-los depois ao mundo transformados em outra linguagem: a da poesia. Mas, muitas vezes, durante a minha vida, por questões alheias, abandonei este caminho para visitar a cor de outras ramagens. Poesia para mim é uma das formas de viver. Está incorporada em meus dias.

4) Comente sobre seu novo livro.

Meu novo livro “Dias contados” é, na realidade, uma reunião de contos que já vinham sendo escritos e reescritos há muito tempo. Uma linguagem que eu não ousava ainda revelar. Mas, o ótimo contista Caio Porfírio Carneiro considerou que eles tinham o valor necessário para serem publicados. Acabou fazendo a apresentação e eu aceitei a publicação do livro.

5) Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?


Considero que estamos presenciando um momento privilegiado na poesia contemporânea. Parece que os poetas atuais incorporaram a tradição à própria linguagem. A Internet, as oficinas literárias e leituras poéticas são instrumentos de comunicação e aprendizagem. Cada vez mais os poetas têm condições de conhecer os textos alheios, ampliar as experiências e os conhecimentos. Destacaria, entre outros: Álvaro Alves de Faria, Cláudio Willer, Celso de Alencar, Frederico Barbosa, Orides Fontela e Adélia Prado.

6) Por que a crítica literária tem se mostrado tão alheia ao que se tem feito em termos de poesia contemporânea? Como formar novos leitores de poesia ante a persistência da academia em ignorar a poesia brasileira que é escrita em nosso tempo?

A poesia é uma linguagem sutil, muitas vezes difícil de ser compreendida. Então necessita de muito tempo para está incorporada no cotidiano das pessoas. Mas ela sempre esteve em todos os lugares. Como se estivesse aguardando o momento propício para revelar o rosto. É necessário que as pessoas estejam abertas para este chamado.



POEMAS DE EUNICE ARRUDA


ENGANO

afinal
construímos prédios
casas jardins rosas
desabrocharam
trêmulas, afinal fomos
submissos às ocupações do dia
às estações do ano
à rotação da terra

Pensávamos ser esta a nossa pátria


TÃO TRANQUILA

Tão tranqüila a sala
A tarde caminha lenta impune
Portas fechadas
ressoam vozes
lá fora
um telefone jamais chama

Talvez chova ainda hoje
mas agora
nenhum risco ou relâmpago
Posso dormir neste barco
há arvores à margem sombreando o rio

É tão tranqüila a sala
na tarde seguindo lenta
E vibra
ardente
como uma palma de mão
Aqui descanso do sim e do não


SIM

Não ser o coração
uma ferida

Não ouvir
no ruído da chuva
presságios de um retorno
Não confundir ramagens com raiz

E saber
Tudo já foi encontrado
apenas é o que já existe
São nossas verdades as estações do ano


LENDAS

Naquele verão
o amor brilhou
como um sol
coloriu minha pele
e meu corpo
ágil pássaro
redimido
averiguou o que foi plantado
o que foi colhido

O amor mostrou a face
em sua face
naquele verão
fortes chuvas molharam a terra
e a colheita se fez farta exata
harmonia
entre o que é fome e o que sacia

Naquele verão
o amor apertou minhas mãos
suavemente
o amor apertou minhas mãos
com as suas mãos
fortemente
me revelou a vida. Profundo
foi o encontro. Na despedida

Poemas do livro Risco. Ed. Nankin




terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Amor

Raro enleio

em meio

ao incerto

jogo

das representações

sábado, 5 de dezembro de 2009

JORGE DE LIMA: A ESSÊNCIA CRISTÃ DA POESIA III


33

Vim para dar-te notícias deste mundo, sombra amiga, e eis que meus companheiros se deitam e se levantam ensangüentados como o sol. Já não acertam chamar-te com teu nome terrestre, pois seus lábios estão mais lívidos que o sangue dos mortos.
Corre entre o ar e o homem uma cantiga urdida de sortilégios: em cada coisa vivente a destruição começou.
Vim pára dar-te notícias, e eis que minha voz reboa com tais dimensões desconhecidas que me parece um pássaro de espanto.
Murmuro tua alegria, nesta aba de deserto: mas o eco total do mundo me estremece.
Pende teu ouvido para que eu nele me infunda e te diga: “Intercede para que renasçam as memórias abolidas dos itinerários de ascensão.”
Não há maior castigo do que a dúvida de possuir-se um coração mortal em holocausto à sanha dos irmãos.
Nem pena mais funda que esta de nos sentirmos mais travosos que as raízes.
Pende mais o ouvido: “Estamos confundindo o medo com a humildade ou mesmo com o frio deste inverno perene.”
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.
As poderosas nações trituram o hálito entre os dentes.
Vozes vindas de rasgados confins começaram a imprecar desde ontem.
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.

35

Estes cinco pães e estes cinco peixes
são semelhantes a todos os pães e a todos os peixes deste mundo.
Distribuo-os a cinco fomes semelhantes;
a todas as fomes absolutamente semelhantes no mundo.
Às fomes dos cinco continentes, às fomes dos cinco mundos espoliados
pelos cinco demônios ladrões de peixes e de pães.
Em minhas mãos estes cinco peixes representam
um oceano salgado de lágrimas.
E estes cinco pães são como cinco trigais devastados pelo fogo das guerras.
Há um momento em que das hastes do trigo
brotam pães semelhantes a peixes;
e os trigais oscilam,
como vagas de mãos acenando para os céus.
Desce dos céus trigo para as almas famintas de peixes
que voam como peixes-voadores sobre os mares encapelados
– mares encapelados, semelhantes
a trigais ondulantes em que voam pombas,
– pombas semelhantes ao Paráclito,
ao Peixe Voador,
ao Cristo,
ao Cristo multiplicado e distribuído em mim.

Jorge de Lima, Anunciação e Encontro de Mira-Celi. Ed. Nova Aguilar

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009


Amantes

Intransigentes no amor,

(anelam)

palavras

e sentimentos.

Insigne ardor da cumplicidade.

JORGE DE LIMA: A ESSÊNCIA CRISTÃ DA POESIA II


O HOMEM – SER PROCESSIONAL

Junto de ti, homem, ser processional que só vês tua sombra,
pousa a mão no teu ombro o Anjo que te protege.
Mas, ora esvoaça à direita, ora esvoaça à esquerda
o grande e belo Anjo exilado da Luz.
Adiante de ti – perfurada e sangrando,
a mão do Redentor te aponta o caminho certo;
dentro de ti – seres anteriores a ti, – luminosos ou negros
vão contigo e tua sombra.
Quando adormeces e ficas durante o sono – invisível e inocente,
e o livre arbítrio voa de teu cadáver,
a estranha procissão espera que tu te acordes
para prosseguir a marcha.
Por isso é que te cansas sem motivo nenhum.
Por isso é que andas de costas para o caminho certo.
Por isso é que tropeças e tateias como um ser sem leme.
Por isso quando pensas estar sobre o abismo do Inferno,
a mão perfurada e sangrenta te conduz para cima.


A MULTIPLICAÇÃO DA CRIATURA

Parece, Senhor, que me desdobrei,
que me multipliquei,
que a chuva dos céus cai dentro de minhas mãos,
que os ruídos do mundo gemem nos meus ouvidos,
que batem trigo, chorando, sobre o meu tronco nu,
que cidades se incendeiam dentro de minhas órbitas.
Parece, Senhor, que as noites escurecem dentro de meu ser múltiplo,
que eu falo sem querer por todos os meus irmãos,
que eu ando cada vez mais em procura de Ti.
Parece, Senhor, que tu me alongaste os braços
à procura de abóbadas raras e iluminadas,
que me estiraste os pés repousantes no Limbo,
que os pássaros cansados em meus ombros repousam
sem saber que o espantalho é a semelhança Tua.
Parece que em minhas veias
correm rios noturnos
em que barqueiros remam contra marés montantes.
Parece que em minha sombra
o sol desponta e se deita,
e minha sombra e meu ser
valem um minuto em Ti.


CONTEMPLAÇÃO

Se és cego de nascença ou cegaste lutando, crê!
E então a visão voltará; e tu hás de sofrer vendo sofrer o mundo;
porém, pede mais, pede contemplação:
E a grande Face descerá quando dormires, e ficarás um ser estranho,
com cem órbitas cobrindo tua pele bruta;
e não poderás caminhar mais entre os homens para não
os atropelares com tuas visões terríveis,
com as rodas aladas que te transportarão aos montes
onde as sarças sagradas ardem sob o divino Rosto.
Mas o fogo do Inferno há de vir te caldear
ou te extinguir ou te experimentar também.
E serás entregue aos areais desertos
que arderão a teus pés com uma fogueira imensa.
E se não te desviares da divina Presença
serás o aço de Deus,
serás o espelho divino
que refletirá a luz sobre o mundo apagado.


A MORTE DOS ELEMENTOS

E há de vir um dia em que a Terra que acolheu teu cadáver
será vazia como um cemitério.
E da água que te batizou e te matou a sede não restará uma gota.
E o ar não envolverá a terra nem as águas;
e junto aos três elementos que tantas vezes na Vida
nem te deram prazer, nem te deram pesar,
indiferentes a ti como se não existissem;
só o fogo, o forte fogo invencível
pode acompanhar teu espírito e envolvê-lo.
E chorarás em vão e rangerás teus dentes.


DAS PROFUNDEZAS DO PECADO ORIGINAL

Ó pais primitivos que das profundezas do pecado original
me transmitistes o vosso sangue revoltado
que corre nas minhas vísceras,
que corrompe as minhas mãos,
que cega os meus olhos e o meu entendimento,
quanto vos sou semelhante, como sou uma perfeita imitação de vós,
como morro de vossa morte, como sofro de vossa ambição,
como me pertence o vosso erro!
Na noite tenebrosa em que me pusestes, ó pais errantes e pródigos,
me transmitistes a dúvida no Senhor,
me ocultastes a Face do Senhor, e perdestes a casa
para onde eu devia voltar!
Ó pais primitivos,
que me enviastes para uma existência que eu não solicitei,
e para a qual cheguei nu, humilhado e chorando,
eu vos perdôo pelo sangue de Cristo que me obrigastes a derramar,
pela traição de Judas meu irmão e teu filho,
pela negra expiação que me esmaga na Terra!


RESTITUO-ME

Estende a Tua mão, agora, que ninguém notará:
sem desespero e sem mágoa me restituirei a Ti.
Não te devolverei minha Figura sangrando,
nem também paralisada sob o sopro da morte:
Mas os pés fatigados de tanto caminho errado,
mas as mãos abatidas de tanta procura vã,
mas os olhos sem brilho que adiante das mãos viram a decepção.
Estende a Tua imensa Mão e ninguém notará
que entre milhões de homens,
um Elias anônimo, sem função no teu reino
desapareceu para sempre
sufocado de pó, sobre um tufão de cinzas.


A PROMESSA

O Sumo Sacerdote, o Principal, o Majestoso Oficiante,
o Bispo, o Presbítero estavam no Padre Único que subiu para o Altar.
Era belo, era meigo, era homem e era Deus,
era um ângulo da Trindade enfincado na Pedra
como um cometa imenso iluminado a Terra.
E detrás do imenso altar,
vozes o acusaram, mãos surgiram e lhe transpassaram o peito.
E o Majestoso Oficiante se transformara em vítima;
e nas mãos que o sacrificavam
estavam as suas próprias mãos que eram as mãos do Pai,
com a promessa milenar que se cumpria então.


O VENTRÍLOQUO

Debruça-te sobre tua voz para escutá-la:
tua voz existiu antes de tua forma.
Se o alarido do mundo não te permite entendê-la,
vai para o deserto,
e então a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo
e com a fecundidade do Gênese ante o Fiat do Pai.
Ouve a tua voz sobre a montanha para que o divino eco
atravesse os milênios
e reboe dentro de ti que és o templo de Deus!
Na tua voz adulta ainda existe o acalanto de tua ama
e o balanço de teu berço.
Ainda há apelos que vêm da alcova de teus pais,
ainda há os convites do instinto de tua juventude.
Debruça-te sobre tua voz e escuta as vozes que vêm nela,
as ressonâncias de ti próprio que nasceram contigo,
os bramidos dos ventos nas tuas velas rotas,
a risada do diabo diante de teus desastres.
Ouve a tua voz entre as massas humanas
que como o mar se tornarão fecundas
e espalharão a palavra do Livro
pelas águas e pelos continentes.


MARTA E MARIA

Tu tens nas tuas mãos as duas irmãs de Cristo:
a que escreve, a que trabalha, a que propaga a palavra
divina, a que louva e proclama a sua glória e a sua
poesia; e a que silenciosamente ampara a tua fronte pendida
onde irão cravar uma coroa de espinhos.


ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS

À senhora Heitor Usai

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão – que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
sai entre os seus dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do Inferno!

Poemas de A túnica inconsútil. Ed. Nova Aguilar

A LINGUAGEM IMAGÍSTICA: CINCO POEMAS DE JÚLIO RODRIGUES CORREIA


POEMA

O olhar agudo fixado

no tecido da manhã

um sol tépido

amornando a estrada

recruta pássaros

para concerto matinal

enquanto num céu

pintado de azul

o balé das gaivotas

impressiona o outono.


JANGADAS

Essas leves jangadas

sulcando imponentes

o mar do Mucuripe

são cisnes castos

cortejando ondas

bicando marés,

velas soltas

no ar de maresia

esperança de peixe

no olhar queimado

de sol do jangadeiro.

Jangadas do Mucuripe

saturadas de sol e sal

levem para alto-mar

as brisas do meu pranto.


VERÃO

Na sala pintada de cal

uma flauta de tempo

(tocada por um pássaro)

despertava o sono

de minha vó,

no quintal o ardor

do sol de agosto

crestava as folhas

das couves-flor

da horta do meu avô

na varanda sorrisos

de crianças alegravam

o verão.



NOTURNO PARA OBOÉ

Os embriões da noite

ressuscitam o pêndulo

do relógio,

as horas tépidas

se arrastam

como répteis

pela circunferência

do tempo

ao longe um toque

de um oboé

põe em fuga

árias e sonatas,

lá fora as ruas

colecionam caos

enquanto nas periférias

a miséria paraninfa

suicídios.


ODE MINÍMA

As palavras

revelam segredos

da tarde

que não resiste

ao assédio

do crepúsculo

( o tédio das ruas

assume seus ludíbrios)

e em pouco espaço

( réstia de tempo)

as cinzas das horas

cristalizam as sombras

da noite.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DANTE ALIGHIERI: A TRAVESSIA DO INFERNO


Descemos, no final da longa via,
a última riba, sempre pra sinistra;
mais viva assim minha visão podia

chegar à profundeza onde ministra
do alto Senhor, infalível Justiça,
pune os falsários que ela aqui registra.
__________

Sem conversar seguíamos, passo a passo,
vendo e ouvindo as enfermas almas postas,
incapazes de erguer o corpo lasso.

Duas vi sentadas, costas contra costas,
como assadeiras postas pra esquentar,
cobertas, da cabeça aos pés, de crostas.
__________

Noi discendemmo in su l’ ultima riva
del lungo scoglio, pur da man sinistra;
e allor fu la mia vista piú viva

giú ver’ lo fondo, là `ve la ministra
de l’ alto Sire infallibil giustizia
punisce i falsador che qui registra.
__________

Passo passo andavam sanza sermone,
guardando e ascoltando li ammalati,
che non potean levar le lor persone.

Lo vidi due sedere a sé poggiati,
com’ a scaldar si poggia tegghia a tegghia,
dal capo al piè di schianze macolati;

A Divina Comédia, Inferno, Canto XXIX. Ed. 34.

Tradução: Italo Eugenio Mauro